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BARATOS & AFINS EM COPACABANA.

Quando perguntei ao boa-praça Maurício Gouveia qual era a lotação de sua livraria – ou seja, quantas pessoas cabiam lá dentro, quando o recinto se transformava momentaneamente em casa de shows – ele, sem pestanejar, impávido respondeu: “Cem pessoas”. Por que eu perguntava aquilo? Era minha atribuição. Como repórter de música da revista Programa (do Jornal do Brasil), eu tinha de informar, no serviço dos shows, a capacidade de cada casa. E o Maurício, de uns tempos pra cá, dera para promover shows de rock em sua livraria, a simpaticíssima Baratos da Ribeiro. Já rolou briga com vizinhos, interdição, reuniões com a subprefeitura e até uma temporária suspensão das atividades. Mas o som, apesar dos percalços, também continua rolando.

Pois quando cheguei à Baratos, no último sábado, para assistir ao meu primeiro Vespeiro (é o nome do microfestival promovido pela livraria), duvidei da seriedade de meu anfitrião. E de sua sanidade também. Ali não caberiam cem pessoas nem sobrepostas umas nas outras. É claro que eu já havia estado na livraria antes, e sabia que o espaço era exíguo. Estantes e mais estantes, um balcão, uma mesa, pilhas de LPs em bancadas. Mas supunha que, para dia de show, a arrumação fosse diferente. Que tirassem algumas estantes, talvez. Na verdade, Maurício e sua gangue só dão uma afastada básica nos móveis, para dar um espacinho mínimo aos equipamentos dos roqueiros e a os roqueiros em si (porque, se não deu para adivinhar pelo nome, o Vespeiro se compõe basicamente de shows de rock). Não importa, o povo se espalha entre as frestas, nos cantos das estantes, no quartinho dos fundos. E principalmente na calçada (da Rua Barata Ribeiro) em frente, diante da vitrine da livraria. Por conveniente coincidência, o boteco do lado está sempre a postos. “Já teve um Vespeiro em que um cara foi atropelado, aqui em frente”, conta Maurício. “Ele estava no bar do outro lado da rua, correu pra atravessar e tomou uma trombada”. Morreu? “Sei lá”, relata o livreiro, sempre impávido.

A atitude “sei-lá”, inclusive, talvez seja o charme maior do Vespeiro. E sua improbabilidade. Num pequeno sebo no coração de Copacabana, espremido entre botecos caídos, galerias comerciais e hotéis duas-estrelas, o couro come. Tudo bem que é mais do lado de fora do que dentro do pequeno sebo, mas continua a comer. Não sem atritos, resolvidos também na base do “sei-lá”. “Tem uma senhora que mora aqui, ela se acha meio dona do quarteirão”, narra Maurício, evitando conspicuamente o termo “mendiga”. “Às vezes ela encrenca, se mete no meio do público…” E numa loja com livros pelo ladrão, como evitar os ladrões de livros? Já houve caso de pegar algum roqueiro com a mão na massa, levando algum volume debaixo da jaqueta de couro? “Sabe que eu nunca notei?” A população de rua e o potencial shoplifting não são os únicos dissabores. Ano passado, moradores da área pediram à Prefeitura o fim do evento, reclamando do barulho. Aos poucos, depois de muita deliberação, o Vespeiro foi ressurgindo, com a condição de que fosse feito mais cedo, e com o volume mais moderado. E o negócio, recriado para ser vespertino, adentra a noite de sábado. Ainda mais em dias com três, quatro bandas a tocar. “Volta e meia algum vizinho aparece berrando: ‘Das dez da noite isso não passa!’”, conta Maurício.

O convescote estava marcado para as 16h (conforme eu mesmo noticiara em minha coluna no JB). Na minha santa inocência, cheguei um pouco antes da hora marcada. Nem sinal de bandas, instrumentos, amplis, nada. Boa-praça como todo boa-praça, Maurício faz as vezes de DJ e MC. Convoca a pequena, mas crescente galerinha que já chegou a chegar ainda mais, curtir os sons que ele mete em MP3 num DVD-player, só bandas boas que eu nunca ouvi falar (incluindo uma versão meio shoegaze pra “The sun always shine on TV”, eu perdi o nome da banda, falaê Maurícioooo!). Lá atrás, na salinha onde ficam os quadrinhos, os livros de teatro, cinema e música e uma bizarra pilha de discos videolaser – muitos dos quais 0km, selados, vejam só – tem um carinha atrás de um balcão improvisado. No “cardápio” pendurado diz que ele faz drinques, mas não esta tarde. Houve um problema com o gelo, então só tem cerveja (feliz e paradoxalmente, gelada). E a moçada continua a chegar.Foram quatro bandas naquela tarde de sábado, mas eu estava lá apenas por duas. O Laura Palmer, o projeto comandado pelo chapa Mansur, faria seu dèbut nos palcos. (Só não tinha palco, apenas um tapete.) E os The Feitos, que apesar de niteroienses podem tirar onda de ser uma das melhores bandas do novo rock carioca. Como seriam as últimas a tocar, fiquei a dar uns rolês pela região, aquela meíuca de Copa na qual se abrigam também o metrô Siqueira Campos, a aditivada Ladeira dos Tabajaras, a Fosfobox e a eterna Adega Pérola.

No retorno, o Laura Palmer tentava reunir sua babélica formação, ali na calçada mesmo. Figuraças como Pedro Selector, Loïs Lancaster e Silvio Essinger, que colaboram com o grupo, pintaram para prestigiar (e tocar, no caso de Pedro e Lancaster). O show, honestamente, não fez jus ao potencial do projeto. Nota 7.85, como eu mesmo disse para o Mansur. Era muita gente para pouco espaço – duas guitarras, baixo, bateria, um laptop, mais três convidados especiais. O som não também não deu conta das nuances dos arranjos. Os barulhinhos & bases & efeitos do laptop se perderam, as guitarras estavam meio baixas, faltou o silêncio necessário na platéia para as passagens mais calmas. Então você se lembra que a banda tem uma formação mutante e quase não ensaia, que aquele era o primeiro show deles. Aí a avaliação melhora. E não é que teve gente balançando a caveira ao som de “Death metal is playing at my house (and Def Leppard is playing at your house)”? Funcionou, galera, podem ficar tranqüilos. Só falta a prática.

Prática que não falta ao The Feitos, que estava lá para lançar seu primeiro álbum. O curioso é que eles atuam no extremo oposto do som climático-sombrio-coldwave-eletrônico do Laura Palmer. É bem menos indefinível/complexo/experimental que a banda do Mansur. O que não atrapalha sua eficácia. Alguém sussurrou pra mim, durante o show: “Não agüento mais essas bandas influenciadas pelo The Who!” Bom, pelo jeito, eu ainda agüento. E olha que eu nem tinha notado tanta semelhança entre os niteroienses e os pais do mod rock… The Feitos é rock curto, grosso, descabelado, com letras bizarramente divertidas e um punhado de hits em potencial: “Disco do Roberto”, “Gente feiosa”, “Por isso eu não dou satisfação”… Pense no Jon Spencer liderando uma banda da Jovem Guarda, e terá uma idéia vaga do resultado final. Não toca no rádio, não faz sucesso de massa. E poderia muito bem tocar. Mas quem toca no rádio hoje em dia? Pergunte a qualquer um dos suados jovens que se acotovelavam diante do trio, naquela noite fria de sábado. Eles não se importam.

Aliás, por falar em coldwave, a noite era fria e chuvosa, o que certamente impediu que a mítica lotação de cem pessoas (dentro e fora) se concretizasse. Na calçada, a chuva castigava; nada torrencial, mas o ventinho frio vindo da orla, batendo nas roupas úmidas, dava um desânimo danado. Nada que a cerveja não se encarregasse de contrabalançar. Lá dentro, o ar condicionado não dava vazão à sudorese da rapaziada. Sem brincadeira, devia haver uma diferença duns 15 graus centígrados entre a temperatura dentro e fora da livraria. Lá fora, um dos “senhores-que-moram-por-ali” se misturava, amarradão, aos roqueiros, quase todos muito jovens, reforçando o clima de matinê adrenalinada do Vespeiro.

Porra, ainda preciso dizer que me diverti pra cacete?