
(Publicado originalmente em 29/01/2012.)
Quanto à parte da beleza, pode haver controvérsia. Mas que o Rio de Janeiro é o purgatório do caos, disso não há como duvidar. Nos últimos dias, a vocação da cidade para a falta de controle tem sido testada e aprovada com louvor. O desastre ocorrido com os prédios na 13 de Maio nem precisa de maiores comentários, certo? Mas também rolou a árvore que demoliu o bar Planalto do Chopp, ali no Flamengo, pertinho de onde, há algumas semanas, a tradicional churrascaria Majórica virou… carvão. E isso é só o que tem rolado recentemente, sem contar a expectativa da tragédia-anunciada-anual das chuvas de verão, o bonde sem freio de Santa Teresa, os bueiros explosivos. Isso tudo é normal?
Isso tudo é normal. O Rio sempre foi assim, desde 1565. A propensão típica do carioca/fluminense para a bagunça, somada ao desinteresse do poder público, gera esse estado de caos permanente, ao qual os habitantes vão se acostumando e com o qual vão convivendo. Faz parte do espírito da cidade – essa guerra cordial de todos contra todos, esse embaralhamento de ricos & pobres, de montanha & praia, de precariedade humana & natureza superlativa. Se, no Rio, o Brasil é mais brasileiro, aqui também se exacerbam as mazelas e as belezas do nosso contraditório povo.
Só que de um tempo para cá, tem gente querendo mudar essa história secular. O assunto já foi comentado aqui mesmo. Há uma nova estirpe de carioca à solta, e a nova guarda não quer saber de bagunça. Por isso mesmo, tratou de escolher como seus representantes no Poder Executivo essa GENTE QUE FAZ (mas faz mesmo?), que se preocupa com o verniz da eficiência e da gestão eficaz. Afinal, estamos a dois anos de receber uma Copa do Mundo, e a quatro de recebermos uma Olimpíada. A cidade precisa estar impecável, funcional, bonita e acima de tudo ORDENADA, para podermos fazer bonito diante dos olhos do mundo. Por isso é que o Rio está TODO em obras – quer dizer, não todo, só do Centro à Barra, é o trecho que interessa, né? Há tapumes, andaimes e placas “Homens trabalhando” em todos os cantos, num afã de ajeitar, em alguns anos, todas as gambiarras e defeitos estruturais que se acumularam ao longo de quatro séculos e meio.
Mas a vocação do Rio para a bagunça é maior que isso tudo. Somos, na feliz definição do colega Márvio dos Anjos, a capital mundial do terrorismo acidental: não precisamos de aviões batendo em torres gêmeas, aqui as torres caem por conta própria, por descaso, por jeitinho, por falta de fiscalização. E a cidade reage contra essa tentativa frenética de “arrumar a casa” acelerando a frequência de suas catástrofes. As árvores, os bueiros, os prédios desabando, tudo isso são as entranhas do Rio de Janeiro reagindo contra essa megaoperação de maquiagem que quer forçar a cidade a ser o que não é: uma metrópole arrumadinha e funcional. Não adianta: o “não funcionar” é intrínseco ao Rio. Não é agradável, cansa, irrita às vezes, mas lembrem-se que existem alternativas bem piores. A cidade está dizendo a seus governantes: “Querem trazer Copa, Olimpíada, o escambau, tragam. Mas não queiram mudar o mudar o meu jeito de ser. Não vai dar certo.”
Parafraseando o tal do Peter Kellemen, que teria dito que “O Brasil não é para amadores”, eu riposto: o Rio de Janeiro não é para coxinhas.
(ÂPIDAITES RELEVANTES:
http://oglobo.globo.com/rio/presidente-do-crea-diz-que-ao-menos-cem-predios-no-rio-correm-risco-de-desabar-4900313
http://oglobo.globo.com/rio/explosao-no-cais-do-porto-deixa-um-morto-dois-feridos-3792854)
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