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JOY DIVISION / NEW ORDER.

Publicado em duas partes na Rock Press, 1999.

 


JOY DIVISION – A CERIMÔNIA SEM FIM

O JD foi não só o grupo britânico mais importante a fazer a ponte entre o punk e o pós-punk; também influenciou uma cacetada de bandas, mesmo só tendo gravado dois álbuns, pelo mundo afora (incluindo diversos grupos brasileiros) e virou lenda, em 1980, graças ao suicídio de seu vocalista Ian Curtis – uma tragédia que marcou toda uma geração. Ambas as bandas ajudaram a colocar a cidade de Manchester no mapa do rock. Sem o Joy Division, o rock de hoje teria outra cara; e sem o New Order, a música pop de hoje seria diferente.

Há história, com H maiúsculo, para contar sobre as duas bandas. Vamos a ela.

I – Anarquia nas ruas de Manchester

O marco zero na história do JD/NO é o dia 20 de julho de 1976. Nesta data, a turnê Anarchy in the UK, capitaneada pelos Sex Pistols, chegava a Manchester, depois de ter tido várias datas canceladas Reino Unido afora. O show dos Pistols, aberto por duas bandas locais (Slaughter & The Dogs e os Buzzcocks, estes últimos em sua primeira apresentação), reuniu em sua platéia os quatro membros do Joy Division, embora eles não soubessem que fariam história juntos.

Bernard (ou Barney) Sumner (ou Albrecht, ou Dicken) foi ao show com seu amigo de escola Peter Hook, e a energia dos Pistols no palco foi determinante para que eles, junto com seu colega Terry Mason, resolvessem formar uma banda. Bernard, que já andava dando uns trancos em uma guitarra, convenceu que Terry assumisse a bateria, enquanto Peter comprava um baixo (mesmo sem saber nada de música). A trinca começou a ensaiar, e logo puseram um anúncio convocando um vocalista. O primeiro e único sujeito a atender a convocação foi um certo Ian Curtis.

Curtis, que contava com vinte anos na época, era uma personalidade no mínimo complexa. Ele conjugava uma vida cotidiana um tanto prosaica (já era casado e trabalhava como operário em uma fábrica de tecidos) com uma insuspeita profundidade psicológica – que se refletia em seus escritos. Ian possuía um gosto musical bem mais apurado que seus futuros companheiros de banda: era tarado por Velvet Underground, Doors, Iggy Pop, Kraftwerk e David Bowie. Quando se reuniu com Bernard, Peter e Terry (já conhecia os três de vista, de tanto ir a shows), ele já estava tentando formar uma banda, sem muito sucesso.

Apesar da falta de perícia de Terry nas baquetas, a química entre ele e a dupla guitarra/baixo ficou evidente de cara. De cara também eles não se restringiram a covers: já foram logo fazendo as primeiras músicas, as quais ficaram todas sem registro. A amizade que Ian travou com os Buzzcocks foi fundamental para dar um maior gás na nascente banda, que ainda não tinha nome. Uma primeira sugestão (vinda de Richard Boon, empresário dos Buzzcocks) foi Stiff Kittens (“gatinhos duros”) e não chegou a ser aceita pelos quartetos. Pouco depois do primeiro show – no dia 29 de maio de 1977, no Electric Circus de Manchester, junto com os Buzzcocks – o grupo se decidiu pelo nome de Warsaw, extraído da canção “Warsawa”, de David Bowie.

Após a saída de Terry, outros dois fulanos ocuparam a bateria antes da chegada de Stephen Morris, que atendeu a um anúncio visto na vitrine de uma loja de instrumentos musicais. Stephen vinha da mesma cidade que Curtis, a pequena Macclesfield, satélite de Manchester. Com sua entrada, ficou claro que esta seria a formação definitiva para o Warsaw. E foi já com essa formação que o grupo registrou sua estréia em vinil, participando da coletânea Short Circuit,gravada ao vivo no Electric Circus em outubro de 77, e só lançada em 78. A música escolhida foi “At a Later Date”.

II – A divisão da alegria ingressa na fábrica

Em dezembro de 77, o Warsaw gravou quatro canções para serem lançadas num EP, manufaturado e distribuído (precariamente em ambas atividades) pela própria banda. No entanto, antes do disquinho finalmente sair – e se chamariaAn Ideal For Living - a banda mudaria seu nome para Joy Division, procurando evitar confusões com o grupo londrino Warsaw Pakt. O nome escolhido veio das infames “divisões da alegria” mantidas pelos nazistas nos campos de concentração, que eram casas onde as moças judias eram obrigadas a prostituir-se para os oficiais da SS. Seria a primeira de várias acusações levantadas contra a banda, que estaria supostamente fazendo elegias ao nazismo. Os membros do grupo nem se deram ao trabalho de responder…

Depois de fazerem seu primeiro show como JD (janeiro de 78), os quatro rapazes entraram em estúdio em maio, com a intenção de gravarem uma demo para seu primeiro álbum, uma vez que já existiam alguns selos (até mesmo a major RCA) interessados. O resultado das sessões foi um tanto decepcionante para o grupo, e a gravação acabou sendo arquivada. Mas não por muito tempo: as fitas gravadas emergiram depois como o legendário pirata Warsaw. No disco (hoje, disponível em CD), pode se ouvir a clara evolução do grupo, desde sua formação: do punk rock cru e acelerado de 77, o quarteto já havia avançado para um som mais climático e menos óbvio, ainda que necessitando de polimento. As letras de Curtis discorriam sobre solidão e abismos existenciais, enquanto o trio instrumental descia o couro nos arranjos. Músicas como “Leaders of Men”, “No Love Lost”, “Warsaw” e “Transmission” (esta última, regravada) surgiriam anos mais tarde em discos oficiais do grupo.

Dessa época data o início da associação do grupo com Tony Wilson, que então era um produtor de TV e empresário de shows em Manchester, mas que acalentava planos de manter sua própria gravadora. O sonho de Wilson se concretizou com a fundação da Factory, junto a Peter Saville (autor das capas dos discos do Joy Division e New Order), Martin Hannett (produtor de todos os discos do JD) e Rob Gretton (road manager do New Order até hoje). O primeiro disco da Factory, o EP A Factory Sample, contém duas faixas do JD: “Digital” e “Glass”, já produzidas por Hannett. Depois que contatos com a RCA e com a Warner não deram em nada, o quarteto resolveu ficar em Manchester mesmo e lançar seus discos pela Factory.

Em janeiro de 79, as coisas finalmente pareciam começar a andar para a banda – eles já estavam conseguindo se apresentar em Londres, Ian Curtis ocupou a capa do jornal londrino NME e em março os quatro abriram um show do The Cure. Não que tudo fossem rosas: também nessa época, Curtis foi diagnosticado como epiléptico, o que o obrigou a depender de fortes medicamentos. Suas experiências com os ataques da moléstia o inspiraram a escrever a letra de “She’s Lost Control”, uma das mais memoráveis músicas do JD.

Maio de 79 viu o lançamento de Unknown Pleasures, o primeiro álbum do Joy Division. Junto a Martin Hannett, a banda fez com que seu som simplesmente não se parecesse com nada já escutado. Hannett jogou o baixo (agudo e melódico) e a bateria (cheia de viradas e eco) à frente da mixagem, deixando as guitarras no fundo, como uma massa de distorção e reverberação. No meio de tudo, vinha a voz impressionante de Curtis, descortinando um panorama de desolação e desordem mental. As músicas que vinha sendo buriladas nos shows (“Disorder”, “Shadowplay”, “Interzone”, “Wilderness”) ficaram irreconhecíveis – e magníficas. O quarteto dava vários passos adiante das limitações do punk rock, refogando influências tanto dos mais importantes artistas “proto-punks” (Lou Reed, Stooges, MC5) quanto dos sons experimentais que Curtis ouvia (Kraftwerk, Can, Bowie fase Low e Heroes). O disco foi instantaneamente glorificado pela crítica, e logo o JD era a sensação da cena independente inglesa. Seus shows, agora com a banda mais afiada, se tornavam cada vez mais concorridos. Apesar de tudo, o grupo corria da superexposição como o diabo da cruz; dessa época vêm os informes sobre a “intratabilidade” dos quatro em relação à imprensa.

III – Mais perto, mais perto

Em setembro de 79 o grupo apareceria na TV para toda a Grã-Bretanha pela primeira e única vez (tocando “Transmission” e “She’s Lost Control” no canal 2 da BBC), e em outubro partiriam para uma bem-sucedida turnê pelas ilhas britânicas com os Buzzcocks. Isso aumentaria ainda mais o bochicho em torno da banda, que partiria para sua primeira turnê pelo continente europeu em janeiro de 80. Na volta para casa, o culto ao grupo já tinha crescido ao ponto do aparecimento de dezenas de piratas, gravados de seus shows. Em março, os quatro entrariam em estúdio para registrar as canções do seu segundo álbum. As coisas corriam bem para a banda, mas não para Ian. O cantor teve sua epilepsia agravada, ao ponto de sofrer um ataque em pleno palco, durante um show em Londres, em abril de 80. Dias mais tarde, foi internado após uma overdose de medicamentos. O ritmo intenso de trabalho do grupo, diversos problemas pessoais e a obrigação de depender de remédios deixaram Ian muito estressado, de forma que tiveram que adiar vários compromissos ao vivo. Só que o bonde não podia parar: o JD já estava com sua primeira excursão à América agendada, para o dia 20 de maio de 1980.

Além disso, voltaram ao horizonte do quarteto as conversações com a Warner Bros. No dia 2 de maio, o grupo faria sua última apresentação ao vivo (ainda que não soubessem disso), em Birmingham. No dia 18 de maio, Curtis fez com que sua esposa Deborah fosse dormir na casa dos pais, e partiu ele mesmo para a casa de seus pais. Ele passou a tarde ouvindo Iggy Pop e à noite assistiu ao filme Strosek, de Werner Herzog. Depois recolheu-se. Foi encontrado enforcado com um lençol, em seu quarto. Ian faria 24 anos em dois meses; e deixou além da esposa uma filhinha. Numa nota sobre a cama, uma frase: “Não posso suportar mais”.

Diversas razões podem ser apresentadas para um ato tão extremo. Ian vivia nos últimos meses de sua vida uma profunda depressão, agravada pelo estafante trabalho com o JD (ele chegou a cogitar de desistir do grupo, o que talvez salvasse sua vida). No entanto, determinante para o suicídio de Ian foi a crise conjugal que ele e Deborah enfrentavam. O vocalista mantinha um relacionamento com uma jovem belga chamada Annik Honoré, a quem conheceu durante a turnê européia do JD e que passou a acompanhá-lo todo o tempo. Ian torturava-se de culpa por estar traindo Deborah, mas ao mesmo tempo não conseguia abandoná-la. A dilacerante letra de “Love Will Tear Us Apart” reflete bem o estado de espírito do cantor.

Em junho de 80, finalmente sairia Closer, o sucessor de Unknown Pleasures -e, que devido à tragédia que se abateu sobre a banda, tornou-se um dos álbuns mais ansiosamente aguardados de todos os tempos. Mais uma vez produzido por Martin Hannett, o grupo deixou seu som ficar ainda mais desolado e esparso. Sintetizadores e ritmos eletrônicos (“The Eternal”, “Decades”, “Isolation”) deram as caras, em meio à peculiar barragem sonora produzida pelo trio de instrumentistas (como em “Atrocity Exibition” ou “Colony”). O suicídio de Ian contribuiu para deixar o tom geral do disco ainda mais “down” e depressivo. O que não impediu que o grupo atingisse pela primeira vez o Top Ten inglês com Closer, e que o single de “Love Will Tear Us Apart” batesse na 13ª posição.

Já em 1981, a Factory lançaria o LP duplo Still, que compilava sobras de estúdio do quarteto num disco e no outro editava o agora mitológico concerto de 2/5/1980, o último do grupo. A intenção da gravadora foi barrar a fome dos piratas, que tinha atingido níveis estratosféricos após a morte de Curtis. Em 1988, a coletânea Substance 1977-1980 também reunia alguns lados-B e faixas raras, um repertório revisado em 95 com outra coletânea (Permanent, que incluía uma versão remix para “Love Will Tear Us Apart”). Mas todo o legado do Joy Division só teria seu “sarcófago” definitivo com o lançamento do box quádruplo Heart and Soul – oitenta faixas, juntando praticamente tudo o que o grupo registrou.

A história do JD acaba aqui. Mas há outra história que se inicia pouco depois da morte de Ian, mais exatamente no dia 29 de julho de 1980. Foi quando um trio de instrumentistas, remanescentes de um grupo que havia há pouco ficado sem vocalista, subiu ao palco pela primeira vez. O nome do novo grupo era New Order…


NEW ORDER
A história do New Order começou no dia 18 de maio de 1980 – a data do suicídio de Ian Curtis, vocalista do Joy Division. Curtis se matou quando o grupo se preparava para sua primeira turnê norte-americana, e parecia ter um futuro brilhante à frente. Depois do choque com a tragédia, Bernard Albrecht, Peter Hook e Stephen Morris resolveram seguir adiante, mas já como uma nova banda, que continuaria afiliada à Factory Records.Foi em julho de 1980 que o trio estreou nos palcos, fazendo alguns shows sem muita divulgação no Norte da Inglaterra e cumprindo (já como New Order) algumas datas da turnê cancelada do Joy Division. Bernard – que resolveu trocar seu nome de Albrecht para Sumner, o sobrenome de solteira de sua mãe – assumiu, relutantemente, os vocais, depois de alguns ensaios com Morris e Hook cantando. Ele também seguiria como letrista principal.O nome do novo grupo foi sugerido por Rob Gretton (empresário do JD e que continuaria com o New Order até sua morte, em 1999). Gretton se inspirou num artigo de jornal que falava da “Nova ordem do povo de Kampuchea”, um país do Sudeste Asiático. O nome parecia adequado para um grupo que estava buscando uma nova direção depois de um tremendo baque.Curiosamente, New Order foi o nome escolhido pelos membros remanescentes dos Stooges, quando tentaram decolar sozinhos, sem Iggy Pop, nos anos 70. É bem provável que Albrecht, Hook e Morris, grandes fãs de Iggy, tivessem conhecimento do grupo. Outros nomes sugeridos foram Sunshine Valley Dance Band, The Eternal (nome de uma música do JD) e, como piada, Stevie and The JDs (na época em que Morris assumiu os vocais do grupo). Como já havia acontecido com o Joy Division, o nome New Order rendeu ao trio suspeitas de simpatias com o neonazismo – terminantemente negadas, sempre.

Na volta para a Inglaterra, ainda em 1980, a formação do New Order foi completada com a adesão de Gillian Gilbert, a jovem namorada de Stephen Morris. Rob Gretton foi quem sugeriu que a moça entrasse no grupo, pois – nas palavras de Stephen – “procurávamos alguém que soubesse tocar ainda menos que nós”. Gilliam entrou para tocar teclados e eventualmente guitarra. Isso foi providencial, pois Bernard ainda achava muito difícil tocar e cantar ao mesmo tempo.

Em março de 1981, a Factory soltou o primeiro single do New Order, composto por duas músicas remanescentes do Joy Division: “Ceremony” e “In a Lonely Place”. O single tinha sido gravado apenas por Sumner, Hook e Morris, durante a turnê nos EUA, e meses mais tarde seria relançado (com uma nova versão de “Ceremony”, já com Gillian na segunda guitarra). Enquanto o quarteto seguia fazendo shows pelo Reino Unido, tratava de trabalhar no primeiro álbum, Movement, produzido pelo mesmo Martin Hannett que gravou os discos do Joy Division. O disco foi lançado em setembro de 1981.

Tanto “Ceremony”/ “In a Lonely Place” quanto o álbum Movement mostravam um New Order ainda subjugado pela sombra do Joy Division. Canções como “Truth”, “Senses” e “Doubts Even Here” tinham vocais soturnos, melodias sincopadas e sombrias, e uma sonoridade ainda muito ligada ao som do Joy. A surpresa maior foi “Dreams Never End” – com Peter Hook nos vocais – que trazia uma pique mais pop. Apesar de conseguir relativo sucesso de vendas, o disco foi mal recebido pela crítica. O álbum marcou o fim do relacionamento do grupo com Martin Hannett; descontente com o resultado das gravações, o quarteto chegou até a pensar em refazer todo o disco, mas o custo seria proibitivo.

Entretanto, o mesmo Hannett também produziu o single “Everything’s Gone Green”, gravado ao mesmo tempo que Movement, mas que trazia um som bem diferente – já com o uso de sintetizadores e batidas programadas. O single, lançado ainda em 1981, dava pistas do interesse crescente do grupo pela cena eletrônica nova-iorquina (com o então nascente electro-funk de Africa Bambaataa, e o também engatinhante hip hop) e pelo technopop do Kraftwerk (que já influenciara o Joy Division também). Inesperadamente, “Everything’s Gone Green” tornou-se um hit nas pistas de dança americanas, mesmo sem conseguir grande sucesso nas paradas.

O New Order seguiu em 1982 fazendo sua primeira turnê européia, na qual cristalizaram sua imagem de “grupo difícil”. Nunca tocavam mais do que quarenta e cinco minutos, não davam bis (que consideravam “insultos à paciência do público”) e nem aceitavam pedidos de músicas – muito menos se fossem canções do Joy Division. Naquele ano, o grupo só lançaria um único single, o suficiente para redefinir sua carreira: de depressivos herdeiros do sombrio legado de Ian Curtis para um grupo pop e luminoso.

“Temptation” tinha uma melodia perfeita (incluindo, para horror dos fãs puristas do JD, um refrão!), uma batida dançante e misturava guitarras com linhas de sintetizadores. Aclamado pela crítica, o compacto também fez sucesso nas casas noturnas, deixando claro o potencial do NO para o pop dançante. Interessados no cenário pós-disco da noite nova-iorquina, o quarteto amigou-se com produtores e artistas da cena eletrônica americana, e voltou para Manchester cheio de idéias – a ponto de topar abrir, junto a Tony Wilson (da Factory) sua própria boate, o Hacienda. O clube existe até hoje, tendo tido seu auge de popularidade na época da acid house, em 1988-89 – e até hoje o NO é sócio da casa.

O ano de 1983 foi crucial para que o New Order se transformasse, ao mesmo tempo, na mais influente banda a unir rock e música eletrônica e também o mais importante grupo independente dos anos 80. O quarto single da banda, “Blue Monday”, acabou se tornando o elo perdido entre os primórdios do pop sintetizado (Kraftwerk) e o rock da década de 80, e é possivelmente a canção que mais influenciou o cenário eletrônico da época – dos criadores do techno e da house em Detroit, aos DJs ingleses que inventaram a acid house no fim dos anos 80.

O gozado é que a música nasceu de uma experiência/brincadeira que Stephen Morris estava fazendo com uma nova bateria eletrônica… O vocal “deadpan” de Bernard e o baixão agressivo de Hook, marca registrada do grupo, se mesclavam de forma surpreendente aos beats e aos timbres sintéticos fornecidos por Gillian. A “brincadeira” chacoalhou pistas de dança nos dois lados do Atlântico e até hoje permancece como o single de 12 polegadas (do tamanho de um LP normal, próprio para o mercado de DJs) mais vendido da história, com mais de três milhões de cópias passadas adiante.

As reações a “Blue Monday” foram ambíguas. Ao mesmo tempo em que a moçada clubber caiu de boca no disco e elegeu o New Order como a sensação da hora, a comunidade indie inglesa torceu o nariz. Dance music era palavrão para os filhotes do pós-punk, e alguns antigos fãs do JD se rasgaram de raiva ao ver o grupo se dando bem com um som “alegre” e “eletrônico”. Para complicar tudo, o New Order não tinha mudado sua postura pública em relação aos tempos do JD.

Continuavam avessos à superexposição, dando poucas entrevistas e mantendo uma imagem sóbria, misteriosa (“Blue Monday”, por exemplo, tinha uma capa toda preta, imitando uma embalagem de disquete de computador, sem qualquer crédito à banda). A fidelidade à gravadora Factory também tornou-se uma marca do grupo, que insistia em permanecer independente apesar do sucesso que batia à sua porta.

Ainda em 1983, o grupo lançou Power Corruption and Lies, seu segundo álbum, e o primeiro (quase) completamente livre da influência do Joy Division. Os temas soturnos das letras cederam lugar a observações mais informais e irônicas; as melodias estavam cada vez mais redondas; a voz de Barney, afinal mais confiante, tinha sido puxada para o primeiro plano na mixagem; e o uso de sintetizadores dominava os arranjos.

Músicas como “Age of Consent” e “586″ eram feitas de encomenda para a dança, mas a banda também arriscava uma belíssima balada eletrônica (“Your Silent Face”, inspirada abertamente na melodia de “Europe Endless”, do Kraftwerk) e passagens mais soturnas e “dark” (a sofrida “We All Stand”).

A incursão do New Order ao território inexplorado da dance music não se esgotaria apenas em “Blue Monday”. Ainda em 1983 o grupo se juntaria ao produtor nova-iorquino Arthur Baker para compor e produzir “Confusion”, outro hit mundial, fundindo o estilo melódico do grupo com uma intoxicante base electro-funk. Junto a Baker, o quarteto ainda faria outra canção, completamente diferente – “Thieves Like Us”, canção romântica movida a doces sintetizadores. Na turnê feita para promover Power Corruption and Lies, o New Order finalmente começou a tocar uma ou outra música do Joy Division (como “Love Will Tear Us Apart” e “Atmosphere”). A longa excursão manteria os rapazes longe da grande mídia, preparando-se para gravar seu terceiro álbum – o grupo já era notoriamente lento no estúdio, fazendo questão de deter-se nos mínimos detalhes.

O álbum que surgiria em 1985, Low-Life, era um grande passo adiante em relação a Power Corruption and Lies, e colocaria o grupo ainda mais perto do sucesso de massa. O New Order encontrava-se mais refinado do que nunca em seu terceiro álbum. Canções roqueiras de melodias trabalhadas e cativantes (“Sooner Than You Think”, “Love Vigilantes”) se alternavam a faixas experimentais, misturando eletrônica e rock (“The Perfect Kiss”, “Subculture”). O mesmo álbum incluiria a magnífica “Elegia”, climático instrumental de rara beleza. A capa do disco seria motivo de mais surpresa, pois trazia – pela primeira vez – fotos dos membros do grupo, em super close-up. Low-Lifeseria o primeiro disco do New Order a sair no Brasil, com dois anos de atraso.

O grupo lançaria também versões diferentes em single de “The Perfect Kiss” (esta com o dobro da duração da gravação original) e “Subculture” (incluindo vários remixes diferentes, em uma época na qual esse expediente ainda não era comum). Outros dois singles mirando as pistas de dança, “Shellshock” – que estourou nos EUA ao ser incluída na trilha do filme A Garota de Rosa-Shocking – e “State of The Nation” completariam a prolífica fase do grupo nos estúdios. No fim de 1986, eles soltariam o quarto álbum, Brotherhood.

Explicitamente dividido em uma metade roqueira e outra eletrônica, o disco trazia canções excelentes como “Paradise”, “As It Is When It Was” e “Way of Life”, a dançante “Angel Dust” e as climáticas “Every Little Counts” e “All Day Long”. Também inclusa no disco estava “Bizarre Love Triangle”, outro sucesso mundial. Na época do lançamento de Brotherhood, a crítica inglesa o comparou desfavoravelmente a Low-Life, e surgiram rumores que o álbum teria sido completado e lançado às pressas para cobrir a periclitante situação financeira da Factory.

Verdade ou não, o NO seguiu firme e forte, enigmático como sempre e mais dançante do que nunca. Conseguiram um novo hit com o single “True Faith” (produzido e composto em colaboração com Stephen Hague, parceiro dos Pet Shop Boys) e em 1987 finalmente atingiram seu primeiro disco de platina nos EUA (um milhão de cópias vendidas), com as vendas da compilação Substance. Originalmente um vinil duplo, o disco coleta em suas 12 faixas os lados-A dos singles da banda – ou seja, canções que nunca haviam aparecido em seus álbuns oficiais. O CD também é duplo e traz de bônus os respectivos lados-B dos compactos, num total de 24 faixas. A evolução do som do grupo fica clara ao ouvirmos a coletânea – do rock cru e dissonante de “Ceremony” ao límpido pop eletrônico de “True Faith”, seis anos de frutífera produção rolaram. A versão CD é indispensável, visto que os lados-B do grupo passam longe de serem apenas sobras de estúdio: canções excepcionais como “Procession” (1982), “The Beach” (1983) e “1963″ (1987, relançada como single em uma nova versão em 1994) provam isso.

Uma longa turnê pelos EUA, com o Echo & The Bunnymen, foi o meio encontrado pelo New Order para ajudar na divulgação de Substance. Àquela altura, o grupo já era o patrono indiscutível do rock indie inglês, abraçando alegremente o superestrelato que tinha sido recusado pelos Smiths. Ao vivo, o New Order se encontrava mais entrosado e à vontade que nunca, como pôde ser comprovado pelos brasileiros (o grupo esteve por aqui no final de 1988). O quinto álbum já estava todo gravado quando o NO tocou no Brasil, e foi precedido pelo lançamento de “Blue Monday’88″, versão renovada da música de 1983, remixada por Quincy Jones.

Technique saiu no começo de 1989 e logo foi aclamado pelos ingleses como o melhor trabalho do grupo. Muito influenciados pelo estouro da acid house e por suas passagens pela cena clubber de Ibiza (Espanha), Bernard, Hooky, Morris e Gillian dispararam petardos direto para as pistas (“Fine Time”, “Mr.Disco”, “Round and Round”) e reuniram uma bela coleção de canções acústicas (“All The Way”, “Love Less”, “Run”). O padrão de divulgação para o disco seguiu como sempre: uma longa turnê, mais singles (“Round and Round” e “Run” foram lançados) e passagens ocasionais pelo Hacienda, que fervia no auge da acid.

Apesar do grupo estar fazendo mais sucesso do que nunca, eles estavam precisando de novos horizontes. Isso gerou rumores sobre a iminente dissolução do grupo, que já haviam surgido antes do lançamento deTechnique. Bernard Sumner já estava dando corda total a sua nova parceria com Johnny Marr (ex-Smiths): o duo Electronic. Enquanto Sumner e Marr compunham, discretamente, as músicas que estariam em seu primeiro álbum, o New Order reuniu forças com a seleção inglesa de futebol para gravar o single “World in Motion”, que serviu de tema oficial para o time britânico na Copa de 1990. O compacto foi o maior sucesso da carreira da banda (e a única vez em que chegaram ao número 1 da parada mainstream).

Logo após “World in Motion”, o New Order resolveu se separar, sem dissolver oficialmente o grupo. Foi cada um para um canto. Bernard e Marr lançaram o disco epônimo do Electronic, em 1991, com participação dos Pet Shop Boys e fazendo um som bem próximo do New Order de Technique.

Peter Hook formou o grupo Revenge, cantando e tocando baixo. A banda lançou também em 1991 o disco One True Passion (eles chegaram a tocar no Brasil, em 1993) – e que igualmente não se distanciava muito da sonoridade do NO, com um drive mais roqueiro. Gilian e Stephen assumiram o irônico pseudônimo The Other Two, soltando em 91 o álbum Tasty Fish e, em 93,Selfish. A dupla voltou-se para um lado eletrônico mais radical, mirando as pistas.

Afinal, em meados de 1992, o New Order se reuniu para registrar seu sexto LP. Por ironia do destino, enquanto o grupo gravava, junto a Stephen Hague, o que viria a ser o álbum Republic, a gravadora Factory quebrou – vitimada por um estilo “generoso” de administração, múltiplos prejuízos e, em grande parte, pelo hiato nos lançamentos do New Order, eternos campeões de vendas do selo. Não chegou a ser problema para o grupo arranjar uma nova gravadora; o selo London venceu a disputa pelo passe da banda e em abril de 1993 saía “Regret”, o primeiro single do New Order fora da Factory.

Republic logo se seguiu e o mundo provou que estava com saudade do grupo: o disco consagrou-se como o maior hit internacional da banda. A boa conjunção eletrônica + guitarras de Technique se repetiu, com uma maior ênfase nas programações (em faixas como “World”, “Everyone Everywhere” e “Spooky”). Logo após uma turnê pela Europa e EUA, mais uma vez cada qual voltou para seu canto. Novos rumores de conflitos internos deixaram os fãs aflitos, enquanto o grupo entrava em um longo período de férias.

Bernard seguiu com o Electronic, que se provou com o passar do anos ser tão “low profile” quanto o New Order. Depois do primeiro álbum, em 1991, o grupo só viria a lançar o segundo em 1996: Raise the Pressure, com participação do ex-Kraftwerk Karl Bartos. Um terceiro disco, Twisted Tenderness, chegaria às lojas em 99. O Revenge foi capengando – detonado pela crítica – até 1996, quando Peter Hook formou o Monaco. De modo nada surpreendente, o discoMusic For Pleasure também se inspirava muito no New Order. Gilian e Morris casaram-se oficialmente em 1994 (consta que nem Bernard nem Hook foram convidados à cerimônia) e seguiram, como The Other Two, produzindo música para programas da TV inglesa.

Enquanto isso, o front do New Order viu o lançamento de duas coletâneas:The Best of…, em 1994 – com um repertório bem parecido com o deSubstance – e The Rest of…, contendo remixes e versões alternativas. Em 1998 o grupo afinal se reuniu para as primeiras apresentações ao vivo, incluindo o famoso show no reveillon de 1999 em Londres. Em 2000, saiu a primeira gravação inédita do New Order desde 93: “Brutal”, incluída na trilha sonora do filme A Praia, de Danny Boyle (Trainspotting). E em 2001, a banda apresentou-se no Festival de Reading, com o ex-Smashing Pumpkins Billy Corgan (que nunca escondeu sua admiração pelo New Order) na guitarra.

 

[UPDATE: Claro que o New Order lançou mais dois discos depois que escrevi essa bio. Get Ready saiu em 2001 e Waiting for The Siren's Call, em 2005. Em 2006, voltaram ao Brasil e fizeram um show nota 6.5 no Rio - problemas com o som quase arruinaram a noite. Pouco depois, Hook anunciava que estava fora da banda, e chegou a tomar providências legais para que Sumner e Morris não usassem mais o nome do NO. Em 2009, o guitarrista-vocalista confirmou que a banda tinha encerrado de vez as atividades. No mesmo ano, Sumner anunciou a formação do grupo Bad Lieutenantcontando com os ex-companheiros Cunningham e Morris e mais Alex James, do Blur. Hook agora excursiona com seu grupo The Light. E, quem  diria, o NO acabou voltando mesmo, incluindo Gillian Gilbert no line-up, Phil Cunningham e um baixista chamado Tom Chapman - a nova encarnação da banda chegou mesmo a tocar no Brasil, no fim de 2011.]

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Billy Corgan está na estrada novamente. Pareceu-me um momento auspicioso para reeditar aqui a famigerada (infame?) entrevista que fiz com Corgan em 1998, quando a banda empreendia sua segunda passagem pelo Brasil. Publicada na edição 16 da Rock Press, a matéria resultante logo se tornou um clássico nos anais (ops) da revista. Na época eu não era exatamente um repórter iniciante, mas não tinha muita experiência em entrevistas com superastros do rock internacional. Junte isso a um entrevistado impaciente e reticente e temos… um magnífico fiasco! Hoje, é uma das minhas matérias favoritas. Os comentários em itálico entre as declarações já faziam parte do texto que foi publicado originalmente.

Entrevistar o líder dos Smashing Pumpkins: tarefa árdua especialmente para mim, que nunca fui exatamente um cara extrovertido. Entrevista cara a cara, então… as histórias de terror sobre o mau humor e o estrelismo de Billy Corgan são lendárias. O que dizer então, quando, por conta de uma confusão de horários, acabei fazendo a entrevista mais de uma hora depois do horário marcado inicialmente? Bem, o fato é que me sentei diante de Corgan (estranhamente grandalhão, com mãos enormes) um pouco trêmulo, munido de um punhado de questões um tanto superficiais, mas que poderia dar margem a revelações interessantes.

Isso, claro, se eu pudesse contar com a boa vontade de meu entrevistado. Que não se manifestou. Saca aquelas entrevistas em que as perguntas acabam sendo mais longas que as respostas?

Enfim, segue a íntegra dos quinze minutos de conversa mais duros deste ano para mim.

De que maneira você vê Adore: como uma ruptura ou uma progressão natural na carreira dos Pumpkins?
(Pausa. Ri.) Ruptura… bem, talvez como um pouco de cada. Ruptura não é a palavra certa para definir o álbum.

Por que?
Porque (gravar) o disco foi uma decisão consciente. Não foi um rompimento com coisa alguma.

E por que arriscar tanto, mudando tão drasticamente o som da banda?
Ah… (pausa) Não sei. Porque sempre estivemos dispostos a correr riscos. Quero dizer, o que há de arriscado quando você lança três discos de rock em seqüência, e então lança um quarto disco de rock logo em seguida?

Sim, quero dizer “risco” considerando o público que vocês conquistaram.
Mas algumas de nossas maiores canções não são rocks. “1979″, “Tonight, tonight”, “Disarm”… Então, não chega a ser importante. É só música. Não estamos concorrendo à presidência (risos).

E quanto a suas letras, que soam extremamente pessoais? Você considera uma espécie de exorcismo quando coloca assuntos tão pessoais em suas canções?
Não.

Então você pode dizer por que escreve desta forma?
Porque é desta maneira que eu quer colocar as coisas. Não é catarse, não é exorcismo. Eu escrevo sobre aquilo que compreendo. Quer dizer, se você quiser que eu escreva sobre a sua mãe, eu escreverei. Mas eu não conheço a sua mãe. Então…

(A essa altura, eu já suava frio e lutava para dominar meu inglês, cada vez mais capenga.)

Como você concebeu o som de Adore? Os arranjos, os timbres…
Bem lentamente, pedacinho por pedacinho. Como se fosse… um sonho estranho.

E quanto tempo levou o processo?
Seis meses.

Os arranjos foram surgindo junto com o processo de composição, ou…
Sim. Tudo foi composto e gravado muito rapidamente. Então, levei um bom tempo depois só mexendo botões no estúdio.

Sobre a música eletrônica… você abandonou os experimentos eletrônicos que vinha fazendo entre Mellon collie and the infinite sadness e Adore, que renderam canções como “Eye”…
(Interrompendo) Não considero essas músicas experimentos.

Então como você as define?
Eram o que eu queria fazer. A palavra “experimento” pode sugerir que eu estava jogando com as músicas, ou algo parecido. Mas eu sei o que estou fazendo.

No que, exatamente, a saída do baterista Jimmy Chamberlin afetou o som dos Pumpkins?
Bem, não há baterista no disco. Essa foi a maior mudança.

Mas… (neste ponto, confesso, engasguei. Senti-me um total imbecil). OK.
(Rindo, talvez com pena do repórter) Quer dizer, você entende, não? Não há baterista.

A saída de Jimmy ainda é um assunto delicado para a banda?
Não, não se trata disso. É apenas o que eu disse: quando ele saiu, perdemos nosso baterista.

(Achei melhor não insistir mais nesse ponto.)

Muita gente vem apontando a influência de bandas britânicas dos anos 80 – especialmente New Order e The Cure – na sonoridade de Adore. Você poderia comentar sobre isso?
Eu acho que muitas pessoas mencionam isso, mas não creio que seja tão importante assim.

Mas você sempre foi fã dessas bandas, certo?
Sim; eu sempre disse que éramos fãs desses grupos desde o começo dos Pumpkins, em 1988. Se você pegar todas as nossas entrevistas, vai ver que mencionamos Led Zeppelin, New Order, Bauhaus, The Cure, Black Sabbath, Cheap Trick, tudo isso junto. Então a imprensa pega isso e exagera… não tem tanta importância. As pessoas ouvem uma guitarra com efeito de delay e logo dizem: “Ah, isso soa como The Cure”. É mais um clichê, na verdade. Não estão sacando nada. Se tocamos guitarras barulhentas, então somos o Black Sabbath. Estamos apenas tocando alto. só isso. (Pausa.) Eu acho que as pessoas não entendem Adore. Entáo estão procurando por coisas que possam compreender no disco. A influência dos anos 80 é apenas uma pequena parte de Adore. O disco é mais influenciado pelos anos 40 e 50 do que pelos 80.

Como assim?!
Pelas composições, pelo o que há de folk music nelas.

Algumas canções do disco têm sido radicalmente rearranjadas ao vivo. Como foram concebidas essas mudanças no instrumentação?
A partir do mesmo espírito que guiou o álbum, que é o de estar musicalmente aberto, não se deixar prender em armadilhas na hora de recriar as canções. Apenas tentamos não soar chatos.

Como é ter músicos convidados tocando com você, D’Arcy e James no palco?
Tem sido muito divertido, muito interessante. Muito ritmo, muito som, muitas idéias. Toda a turnê tem se baseado nessa idéia de reinterpretação das canções. Não estamos tentando tocar Adore de uma maneira certinha, nota por nota. Nós nem nos importamos com isso.

Você poderia comentar um pouco sobre seu trabalho como produtor, em discos de artistas como Marilyn Manson ou Hole?
Oh, sei lá. Não me considero um produtor. Não é minha carreira. Acho que provavelmente sou melhor compositor do que produtor.

Qual é a atual situação do grupo em relação à gravadora Virgin?
Não posso comentar sobre isso.

E as vendas de Adore? Tinham atingido cerca de meio milhão de cópias nos EUA, pouco antes de vocês virem para cá…
(Interrompendo) Já vendeu bem mais que isso, até agora.

Mas aqui chegaram notícias sobre um certo desapontamento em relação às vendas do disco…
Nos Estados Unidos. Em todo o resto do mundo está indo tão bem quanto nossos outros discos.

E o desapontamento é da parte de quem? Da banda, da gravadora…?
Oh, tudo mundo está desapontado. Eu mesmo inclusive, é claro. (Pausa. Corgan sorri.) Mas você quer saber por que, ou apenas se estou desapontado ou não?

(Riso nervoso e irônico de minha parte.É, eu gostaria de saber por quê. Se você puder me contar, é claro.
Porque eu acho que nossos fãs não nos apoiaram. Sabe como é, as pessoas jogam muita conversa fora. Querem que as bandas continuem a fazer a melhor música do mundo, cobram mudanças constantes no som das bandas. E na hora do vamos ver, ninguém aceita isso. No fundo, ninguém quer que você mude. Querem que tudo fique como está, sem mudanças.

Foi por isso que mencionei o risco que os Pumpkins correram ao lançar um disco tão diferente quantoAdore
É claro. E eu fico especialmente desapontado com a mídia, porque os jornais e revistas deveriam nos dar o crédito por termos arriscado, ao menos. Corremos um risco muito grande por querer fazer a coisa certa, musicalmente falando – mesmo que tenha sido a decisão errada em termos de carreira. A mídia deveria ao menos reconhecer – mesmo achando que fomos estúpidos em mudar – que estávamos realmente dispostos a correr riscos, que apostamos nossa carreira nessa virada, e que fizemos a coisa certa em termos musicais,. Fizemos a coisa certa para o bem da banda, e que foi o oposto do que todo mundo faz: lançar a mesma merda de disco de novo e de novo.

Então, para você, esta reação do público se deve ao que tem se lido ou visto na TV sobre o disco?
Sim, absolutamente. Porque quando as pessoas escutam Adore, ninguém acha que é um disco ruim.

Mas se as pessoas nem têm a chance de escutá-lo…
Bem, se ninguém compra o disco, então ninguém pode escutar. Aí você pode ver porque estou decepcionado. Se alguém se diz fã dos Pumpkins mas prefere acreditar no que lê em uma revista, em vez de confiar na palavra da banda – depois de dez anos de carreira – bem, então essa pessoa não é realmente fã.

No entanto, você parece realmente satisfeito com a posição dos Smashing Pumpkins no atual cenário mundial do rock.
Oh, sem dúvida. Eu ainda acredito que somos uma das melhores bandas do mundo, não importa o que qualquer pessoa diga a respeito disso. Não restam muitas bandas de rock de verdade no mundo, hoje em dia. Há um monte de gente imitando as bandas de verdade (risos).

Então você se acha capaz de “segurar a tocha” do rock’n’roll.
Oh, sim. Até que eu decida atear fogo em mim mesmo com ela (risos).

Quando vocês lançaram Mellon collie… você tinha dito que o disco representava o fim da banda…
(Interrompendo) Bem, eu não menti. Metaforicamente falando, claro. E daí?

Então Adore seria um “renascimento”…
Eu acredito que sim.

Mas exatamente de que forma? Estruturalmente, ou no modo de pensar a trajetória do grupo?
Ambos. Acho que gostamos de mudanças, e estamos ficando cada vez mais velhos. Não se pode fingir que se tem 24 anos para sempre. E acho que é muito triste quando as pessoas ficam presas ao passado, de uma forma que não é adequada a ninguém, nem a elas mesmas.

(Outra pausa. Mais longa, dessa vez.)

Vocês estão tocando muito pouca coisa dos outros álbuns nessa turnê…
Só material do Mellon collie.

E por que?
Porque sim… porque sim… porque sim. (Pausa. Corgan ri. Não entendo nada. Me sinto um idiota outra vez.) Acho que já respondi a essa pergunta, quando disse que que estava tentando me mover em direção ao futuro. Não se pode continuar vivendo no passado, se você está se mexendo para o futuro.

E quanto às pessoas que ficam pedindo coisas como “Cherub rock”?
Bem, se os fãs não compram o disco novo, é porque eles não são fãs, certo? Então, quem é que vem nos ver tocar, afinal? Como vai saber se as pessoas que virão ao show não vêm por causa das músicas de Adore? Não se pode continuar fazendo sempre as mesmas coisas só por causa dos fãs.

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Indignado com a recepção que o carecão me deu, escrevi (na mesma edição da RP) uma coluna cheia de expletivas e interjeições. Teve gente que não gostou…

Algumas considerações sobre estrelismo & estrelato. Nesse mês de agosto, tive a oportunidade de conversar com duas figuras que admiro, em níveis diferentes: Billy Corgan (Smashing Pumpkins) e Mac McCaughan (Superchunk) – o primeiro em exclusiva cara-a-cara, o segundo por telefone. E pude comprovar que, quanto mais alto, maior o tombo ou… quanto mais o camarada se acha fodão (por conta de ter um bando de gente repetindo isso para ele todo o tempo), mais ele acha que pode dispensar fãs, jornalistas e todo mundo mais.

Me fiz entender? Bom, Billy Corgan foi certamente o entrevistado mais nojento e duro de encarar em minha curta carreira. Mac, por outro lado, é um camarada super gente fina e atencioso. Por acaso, Corgan é um astro mundial do rock e Mac é um “pobre” independente americano. Agora, o que será que a diferença de status entre os dois tem a ver com a diferença de comportamento? Pode até ser chato ficar sentado recebendo jornalistas um atrás do outro, respondendo basicamente às mesmas perguntas de novo e de novo. Mas não vejo justificativa para a maneira fria, lacônica e irônica com que Corgan se comportou na entrevista. Afinal, se o cara ganha uma fortuna fazendo o que gosta, estava hospedado num hotel 5 estrelas (com praia particular!), é admirado pela crítica e adorado por milhões de pessoas… então, por que o mau humor e a frescura? Não por acaso, ele só se soltou na conversa na hora de reclamar da imprensa e dos fãs (sem os quais ele não seria nada). Dois dias depois, no show no Metropolitan, Corgan repetiu a dose e não deu bis. Depois, deu uma entrevista em SP dizendo que “não gostou do público…”

Que diferença para a entrevista com Mac! O líder do Superchunk não se incomodou em falar por telefone (geralmente é um saco), respondeu a todas as perguntas com a maior disposição e estava superanimado para vir ao Brasil. O Superchunk não vende milhões de discos, não toca na MTV e nem se hospeda em hotéis cinco estrelas. E não se incomoda nem um pouco com isso – daí a postura relax e simoática. Mac sabe muito bem que ter respeito (aos fãs e à imprensa) também ajuda a fazer uma grande banda. O comportamento dele deveria servir de exemplo para certos popstar zilionários que ganham dinheiro se fazendo de coitados, mas que na verdade se acham os reis do mundo. Coube a carapuça?

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Corgan X Bart X Fãs

Conforme disse lá em cima, algumas cartas e emails (todas de garotas) foram publicadas na edição seguinte da RP, me detonando pela sinceridade que apliquei ao retrato que tracei de Corgan. Aqui, trechos de duas das cartas mais explícitas.

“Alô, Rock Press!
Antes de tudo, quero parabenizar a revista pela melhor publicação de rock do Brasil.

Agora vou direto ao assunto: sou fã louca, desesperada, descabelada e desequilibrada do Smashing Pumpkins (…) Será que o Marco Antonio poderia ser um pouco mais delicado ao se tratar de nossos ídolos? Tá certo, o Billy sempre foi e será super perfeccionista, arrogante, metido… mas pô, ele não tem seus motivos? (…) Não é fácil (…) ler uma crítica tão dura e infantil na seção Telhado de Vidro. Se o cara é fã do Superchunk e odeia o Corgan, ele que se cadastre num fã-clube e deixe as fãs do Pumpkins em paz, sem suas críticas absurdas!

(…) Marco Antonio, não tenho nada contra a sua pessoa, mas (…) você pisou na bola puxando tanto o saco de uma banda como o Superchunk, que eu nunca ouvi falar (sic) e que não tenho nada contra (sic) e chutando tanto um cara que merece o seu respeito.(…)”

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“Caro amigo Marco Antonio…(…)

É claro que a minha opinião não significa nada para você, assim como a sua também significa um nada para Billy Corgan (…) Acho que só porque o Billy não falou o que você queria ouvir, não precisaria se referir a ele dessa maneira tão grossa, dizer que o cara é um nojento, uma abóbora de mau humor… Você deveria ter mudado o título da matéria para ‘Um repórter de mau humor’… Ou você queria ser o único repórter do mundo a descobrir confissões sobre os Smashing Pumpkins? (…)
Também achei uma tremenda babaquice (…) compará-lo ao Mac. (…) É claro que sou fã, mas se achasse que estaria sem razão não me manifestaria. E como sou fã, também não me coloco no seu lugar, pois teria coisas mais interessantes a fazer com Billy Corgan do que interrogá-lo…(…)