O brasileiro é um povo cordial. Sim, um chavão, facilmente desmentido pelas estatísticas sobre crimes violentos. E, como todo chavão, também é rigorosamente verdadeiro. Essa cordialidade, nem sempre genuína, nem sempre produtiva, deveria ser um traço positivo de nossa personalidade coletiva. Mas às vezes atrapalha. Criatividade artística, por exemplo, não tem nada a ver com cordialidade. Na verdade, em muitos casos é necessário romper, agredir, bater de frente, para que uma expressão cultural possa florescer da maneira adequada. A iconoclastia e o confronto sempre acompanharam a evolução da música popular. Quem procura a adequação, a conciliação, a reverência se coloca, voluntariamente, à sombra daqueles que já passaram. E, com isso, atrasa a evolução do cenário. Imagine se Elvis ingressasse no exército antes de lançar o primeiro single, alinhando-se com o establishment antes de causar qualquer impacto sobre a juventude. Ou se Dylan acatasse a vontade dos puristas folkeiros e nunca tivesse empunhado uma guitarra elétrica. Ou se os jovens Caetano & Gil apenas abraçassem, sem questionamentos, as tradições musicais que os antecederam – as quais, devidamente digeridas (“antropofagizadas”?), ajudaram a formatar o tropicalismo?
Fiquei matutando sobre essas e outras ao ver essa matéria da revista Serafina, da Folha de São Paulo, retratando os caminhos da geração de artistas que vêm construindo a (pela falta de rótulo melhor) nova MPB. Na verdade, o que pegou nem foi o texto, e sim o ensaio de fotos, que pode ser visto no link citado. Pegaram a jovem guarda – Criolo, Mallu Magalhães, Rômulo Fróes, Emicida, Marcelo Jeneci – e puseram-na para recriar fotos icônicas da velha guarda. Criolo posando de Cartola, Mallu de Rita Lee, etc., tudo culminando na recriação da capa do disco Tropicália (uma ideia pra lá de manjada, já cantava a bola – em 2009 – o Matias). Ora bolas. Ficou legal, interessante, por que não fazer? Destaque na edição de domingo, uma levantada boa na moral da rapaziada, etc. E, pombas, não há nada de errado em querer se espelhar, mesmo que para um fugaz ensaio fotográfico, em gigantes do passado. Certo?
Não sei. Não consigo deixar de comparar a atitude da rapaziada que chega agora com a atitude de quem os precedeu – e que conquistou seu espaço justamente por oferecer alternativas ao que estava estabelecido. Não consigo imaginar Caetano em 1968, imitando uma pose de Francisco Alves. Ou os Mutantes fantasiados de Bando da Lua (a menos que fosse para sacanear). Ou Ney Matogrosso comportadinho, reprimido, tal e qual Cauby Peixoto trancado no armário com suas macacas de auditório. Eles, no passado, romperam com os padrões. E nossos novos emepebeiros vão na contramão: buscam a aprovação do (e a comparação com o) cânone sagrado. Não quero dizer com isso que os artistas novos devem cair na tentação barata da polêmica vazia, do xingamento-pelo-xingamento. Nem que a grandessíssima obra das gerações passadas – e digo isso sem ironia alguma – não possa servir de referência básica e fundamental para quem está chegando. Negar o passado apenas por negar, por ideologia ou por pura oligofrenia, é estupidez. O negócio é que a forçada política de boa vizinhança que pauta nossas relações cotidianas ajuda a pasteurizar a evolução de nossa música, e atrasa o estabelecimento de novos ícones – que, antes de provar que têm valor próprio, precisam submeter-se ao ritual de aprovação.
Na verdade, isso vem de longe, e remete ao caráter cordial de que falei lá em cima. Estamos na terra da conciliação (mesmo que transitória), do tapinha nas costas (mesmo que hipócrita), do adesismo (mesmo que por interesse). É um dado que marca nossa identidade nacional. O dissenso é malvisto e o consenso deve ser procurado a qualquer custo, mesmo que implique em atraso e conservadorismo. Essa atitude tem ônus e bônus, e repercussões que permeiam toda a sociedade, do trocado dado ao flanelinha “pra ajudar” às mamatas tramadas entre os líderes da oposição e da situação no Congresso (aliás, que “oposição”?) Enfim, a vida é dura no Brasil para quem pensa diferente da maioria, ou para aqueles que questionam a ordem estabelecida. Beijar a mão, procurar um lugarzinho no coro dos contentes, cercar-se dos amigos dos amigos dos amigos, abrir a tampa da panelinha: eis a receita do sucesso.
E isso vale também, mais do que nunca, para a música popular. Um ramo no qual, todo mundo sabe, proselitismo e camaradagem podem te levar muito, muito longe. A geração do tropicalismo veio, quebrou tudo, subverteu expectativas, afrontou o establishment. E pagou caro por isso: o exílio londrino de Gil & Caê foi a ponta mais visível. Num país essencialmente anti-pop como o Brasil da virada dos anos 1960 para os 70, com um governo militar de olho em qualquer manifestação dissidente e um povão feliz com o mito do “Brasil Grande” e Odair José tocando na AM, era foda tentar reinterpretar os valores da contracultura sob uma ótica nacional. Caetano & cia foram em frente, ralaram e venceram. A próxima onda jovem que chegou ao mainstream – o BRock dos anos 80 – nasceu amigada da geração anterior, já então entronizada como a realeza da MPB. Não houve ruptura: Cazuza era o afilhado (aham) de Ney Matogrosso, Paulo Ricardo cantava ombro a ombro (aham-aham) com Caetano, Paralamas ajoelhavam-se diante de Gil. O mito da destruição dos totens, que sempre pautou a evolução da música pop, aqui não frutificou. Refastelavam-se todos, veteranos e calouros, numa festa sem fim ditada por outro mito, o da inata cordialidade brazuca, traduzido em intermináveis panelas e beija-mãos.
E a toada seguiu pelas próximas décadas, com a geração de cantoras ecléticas (quase todas lésbicas, né? Estranho), Chico Science pedindo a benção a Gil, os mineiros Skank & Jota Quest reverenciando/referenciando o Clube da Esquina. Nos anos 2000, Caetano seguiu soberano como eminência parda, especialmente após a reinvenção roqueira de Cê e seu apadrinhamento a mais uma geração de jovens artistas pop. A cobra mordeu o próprio rabo com a adesão de Criolo – marrento, durão – ao cortejo, circulando, cantando, fotografando com Caetano e Chico. O ensaio da Serafina então nem chega a ser uma sacada inteligente. É apenas a constatação do óbvio: não há troca de guarda na MPB, há apenas o referendo da geração passada aos novos postulantes, que não postulam nada, apenas o direito de postarem-se ao lado do trono, esperando por um olhar benevolente da realeza.
“Artigo” que escrevi para o finado website Jornal Musical, analisando a obra da Legião Urbana. Vem a calhar hoje, dia 11 de outubro, quando completam-se 15 anos de morte do líder Renato Russo (o texto foi publicado originalmente em 2006, quando o funéreo completou 10 anos). A Legião foi um dos grupos mais importantes na minha formação musical. Mas hoje (e na verdade, já na época em que escrevi as linhas abaixo), minha opinião sobre Russo & a banda mudou muito. Considero o culto à figura de RR um equívoco, algo de que ele mesmo (provavelmente) discordaria. Russo era um cara contraditório. Obcecado com a mitologia hedonista do sexo-drogas-rock’n’roll, tornou-se famoso pelo terceiro, pegou pesado no segundo e acabou morrendo por conta do primeiro. Ainda assim, é tido na conta de santo e guru por geração após geração de adolescentes. Tenho os discos da Legião em casa, não os escuto mais, mas quando, por acaso, ouço a introdução de “Tempo Perdido”, sinto uma emoçãozinha.
Renato Russo morreu há dez 15 anos, no dia 11 de outubro de 1996. Pouco depois de seu falecimento – por mazelas devidas à Aids – no dia 22 daquele mesmo mês de outubro, a Legião Urbana anunciava oficialmente seu fim. Mas nem a morte, nem a dissolução se fazem notar. No imaginário de mais de uma geração de roqueiros nativos, a Legião e Renato ainda seguem como as figuras mais importantes dos últimos 20 anos. Direta ou indiretamente. Basta lembrar que a Legião é um dos poucos, talvez o único, grupo surgido nos anos 80 que continua com todos os seus discos em catálogo (e ainda vendendo). E mesmo em bandas que (à primeira vista) não teriam muito em comum com a LU, como Charlie Brown Jr. e CPM 22, o legado de Russo e seu grupo persiste – se não diretamente no som, ao menos na postura e atitude (messiânicas?) traduzidas em letras “sérias” e cheias de “mensagens”.
Observada à distância dos anos, a discografia da Legião consegue parecer absolutamente singular – e, ao mesmo tempo, representar com bastante exatidão os altos e baixos de nosso rock, dos festivos anos 80 à ressaca do começo dos 90. A trajetória de Russo e sua turma rumo a uma identidade sonora própria coincide com o paulatino processo de amadurecimento de nossa cultura roqueira. As circunstâncias que propiciaram a ascensão da Legião precisam ser levadas em conta, quando se pensa no prestígio que o grupo ainda tem até hoje. O ano de 1986 marcou a chegada do “triunvirato” representado pela LU, os Paralamas do Sucesso e os Titãs ao topo das paradas – contando com uma ajuda nada casual da conjuntura econômica. A breve estabilidade proporcionada pelo Plano Cruzado do governo Sarney permitiu que o rock brazuca deslanchasse de vez como produto de massa. Para além da coincidência macroeconômica, o culto à Legião (indiscutivelmente mais forte e influente que a popularidade dos Paralamas e dos Titãs) se deve à inegável capacidade do grupo de capturar a imaginação do público jovem – graças à poética de Russo, criticada por alguns e enaltecida por multidões de outros. O lançamento de Dois,segundo disco da Legião, surgido no emblemático ano de 1986, marca a consolidação da imagem da banda no imaginário coletivo. E também o início da busca do grupo por um som individual, misturando as influências (às vezes, à beira do plágio) do rock britânico com a musicalidade própria, ainda que vacilante, de seus membros.
Coisa que ainda não havia no primeiro álbum do grupo, intitulado apenasLegião Urbana,lançado em 1985. A estréia da LU representou, na época, uma novidade. Havia uma densidade nas letras de Russo inexistente na média do rock brasileiro da época. E o grupo apoiava-se em referências sonoras que ainda não eram comuns por aqui. Era impossível não se impressionar com os climas de faixas como “Soldados”, “Ainda é cedo” e “Por enquanto”, ou o punch de “Será”, “Geração Coca-cola” e “A dança”. Mas os “truques sujos” de RR e sua gangue (na época ainda completa, com Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá) resistiram mal à passagem do tempo. A malandragem do grupo era copiar, por vezes descaradamente, no som de grupos britânicos como Gang of Four, U2 e Joy Division – os quais, não por coincidência, não eram muito conhecidos no Brasil na época. Legião Urbana,o disco, sustenta-se com a qualidade de suas canções, especialmente a das já citadas. Sua sonoridade, entretanto, hoje tem valor de souvenir de uma época mais ingênua de nosso rock.
Dois representou um passo mais largo rumo a uma Legião mais individual, com uma cara própria. Russo estava em 1986 no auge de sua fase morrisseyniana –e o amor pelo grupo The Smiths dominava, é certo, faixas como “Tempo perdido”, “Andrea Doria” e “Acrylic on canvas”, de resto três das melhores do disco. Havia, contudo, mais personalidade em momentos como o blues “Música urbana 2”, o manifesto “Índios” (de sonoridade eletrônica), a discursividade folk de “Eduardo & Mônica”, na brejeirice acústica do instrumental “Central do Brasil” e na agressividade remanescente do punk de “Fábrica” e “Plantas embaixo do aquário”. A poesia de Russo começava, de leve, a incursionar por temas mais pessoais, mais introspectivos que as palavras de ordem do disco de estréia. Os mais atentos puderam pescar as primeiras alusões ao (ainda não declarado) homossexualismo do cantor em “Daniel na cova dos leões” (“Teu corpo é meu espelho e em ti navego”). Nem tudo funcionava, mas o segundo álbum, primeiro produzido por Mayrton Bahia, apostava em uma maior diversidade sonora e poética. E procurava soluções simples mas criativas para vencer as limitações instrumentais do trio de apoio, que por anos teve de agüentar comparações desfavoráveis com a voz e as letras de Russo. Ainda que não seja o disco mais vendido da Legião, é sem dúvida o que ocupa o lugar de destaque na opinião da crítica.
As supostas “limitações” não chegaram a ser problema no terceiro disco da banda, Que país é este, lançado em 1987. Em vez de apostar em um repertório novo, a Legião escarafunchou seus baús da época punk brasiliense. Musicalmente, é um disco que, à primeira vista, representava um retrocesso para o então quarteto. Todo o lado A do antigo vinil vinha com uma sonoridade crua, tosca, emoldurando canções igualmente básicas. Por trás dadiscurseirapanfletária e assumidamente adolescente (afinal, Russo & Cia eramadolescentes, ou quase, quando escreveram as canções), o repertório acrescentava novas nuances à banda. Por exemplo, havia o humor de “Química” (já gravada anteriormente pelos Paralamas) e “Tédio”, característica insuspeita nos seriíssimos dois primeiros álbuns. O segundo lado trazia a surpreendente “Faroeste caboclo”, que com quase 10 minutos de duração se tornou um hit radiofônico, sem cortes, e mostrava o grupo vasculhando variações rítmicas que iam do sertanejo ao baião, desembocando num rock pesado. Fechando com duas canções inéditas (“Angra dos Reis” e “Mais do mesmo”), Que país é esteacertava as contas da Legião com seu próprio passado e preparava o grupo para a segunda fase de sua carreira, aberta auspiciosamente com seu disco de maior sucesso.
As quatro estações (1989) é, em muitos sentidos, o trabalho mais importante da Legião. Foi o mais vendido dos discos do grupo (1,7 milhão de cópias, com direito a nove sucessos radiofônicos). E também é o disco no qual Russo assumiu de vez sua homossexualidade (na letra de “Meninos e meninas”), numa atitude comportamental que marcou época. A citada canção era apenas uma entre várias outras (“Pais e filhos”, “Feedback song for a dying friend”, “Maurício”, “Há tempos”) que rompiam com o padrão discursivo-messiânico dos discos anteriores e apostavam numa poesia mais pessoal, intimista. Outra mudança marcante foi a saída do baixista Renato Rocha, firmando a formação da LU como o trio Russo-Dado-Bonfá. Mudanças e ousadias várias no som, como em “Monte Castelo” (na qual Renato declamava versos adaptados de Camões, sobre uma base folk), “Feedback song” (um rockão pesado fechado por uma coda instrumental de sonoridade oriental) e a longa e climática “Eu era um lobisomem juvenil”. Essas músicas conviviam com outras “com a cara da Legião”, como “Há tempos”, “Quando o sol bater na janela do seu quarto” e “Pais e filhos”. Pode se dizer que, no quarto trabalho, a banda enfim depurou o passado remoto (punk) e o mais imediato (as influências do pós-punk inglês) e construiu um som pessoal. O estrondoso sucesso foi uma bela recompensa.
A inquietação artística e as várias complicações pessoais de Russo sem dúvida marcaram a composição e a gravação de V,o disco mais idiossincrático – para não usar o gasto termo “experimental” – da Legião. O vocalista já tinha sido diagnosticado como soropositivo e se via às voltas com excessos alcoólicos e drogas pesadas. No campo musical, abandonava as raízes punk e mergulhava em influências do rock progressivo, da psicodelia e até da música européia medieval. A soma desses fatores gerou um trabalho sombrio, ainda mais tristonho do que de costume, mas artisticamente mais instigante. A guinada orientava as músicas mais longas e aventureiras do disco, como “Metal contra as nuvens” e “A montanha mágica”, que investiam em alternâncias de climas e variações rítmicas. No lado das canções mais “normais”, como “Vento no litoral”, “Teatro dos vampiros” e “O mundo anda tão complicado”, a banda buscou uma sonoridade mais leve, semi-acústica, que fazia o contraponto às mais roqueiras “Sereníssima” e “L’age d’or” e às viagens das músicas mais lentas. Quando o disco saiu, em 1991, o rock brasileiro estava numa maré baixa mercadológica. Paralamas e Titãs, os outros componentes do “triunvirato” que dava as cartas em nosso pop, estavam em entressafra criativa e não contavam mais com o prestígio da crítica. E ainda não havia surgido uma nova geração de bandas que pudesse substituí-los. Enquanto isso, a queda nas vendas havia empurrado outros gêneros (sertanejo-romântico, lambada) para o topo das paradas. Em meio a esse turbilhão, a Legião lançou seu disco mais complexo e francamente anti-comercial, que não foi bem de vendagem, mas confirmou a independência e imprevisibilidade do grupo.
Quando o sexto disco da banda, O descobrimento do Brasil,chegou às lojas em 1993, a Legião já estava em franco processo de se tornar uma lenda. A ausência do grupo dos palcos, devido aos problemas de saúde de Russo, e a própria reclusão do vocalista emprestava uma aura misteriosa sobre os bastidores do grupo. A resposta em forma de disco veio em uma obra surpreendentemente otimista e “pra cima”, contrastando com os inúmeros conflitos pessoais do líder da Legião. As letras eram abertamente românticas e pessoais, adornando um disco de melodias leves, sem arroubos de agressividade. Russo falava de perda e saudade, mas não deixava de incluir toques de esperança mesmo nas letras mais tristonhas. Mais uma vez, a sonoridade acústica e baseada em violões e teclados dominava o álbum, dessa vez a serviço de canções curtas, menos ambiciosas que em V.Belas e simples melodias, como as de “Giz” (que Russo afirmou ser sua canção favorita no repertório da LU), “Vamos fazer um filme”, “O descobrimento do Brasil” e “29”, davam a tônica do disco. O contraponto mais crispado vinha apenas ocasionalmente, como em “Só por hoje” e “A fonte”, num disco que trazia a face mais plácida e, por que não, zen da Legião até o momento.
A tempestade ou o livro dos dias, lançado apenas 21 dias antes da morte de Russo em 1996, encerra a trajetória da Legião no estúdio. (Enquanto a banda existia, foi lançada a coletânea de faixas ao vivo Música para acampamentos;depois da morte de RR, ainda chegaram o disco de sobras Uma outra estaçãoe Acústico MTV, Como é que se diz eu te amoe As quatro estações ao vivo, todos ao vivo.) Quem se perturbou com o tom melancólico e depressivo de Vdeve ficar longe do disco final do grupo. Visivelmente influenciado pela deterioração da saúde do vocalista, o álbum é impregnado de ponta a ponta pela sensação que Russo estava se despedindo da vida. A fraqueza do cantor é palpável em boa parte das gravações, que ficaram apenas com a voz-guia (Russo não quis registrar as vozes definitivas). Musicalmente, é um disco mais pobre que todos os anteriores. As melodias, pouco inspiradas, se desdobram para encaixar-se na métrica das letras desesperançadas de Renato. A predominância dos teclados fornecidos pelo músico convidado Carlos Trilha acabou deixando as músicas todas muito parecidas umas com as outras. O disco foi planejado originalmente como um álbum duplo, mas acabou chegando ás lojas como simples. Quando, cerca de um ano depois, o disco Uma outra estaçãofoi afinal lançado (contendo o resto das canções do projeto original), foi impossível evitar um suspiro: a Legião deixou de fora algumas músicas, como “Marcianos invadem a Terra” e “Antes das seis”, que deixariam A tempestade um disco mais equilibrado e menos deprimente.
O balanço artístico da discografia da Legião Urbana é, apesar de todos os pesares, positivo. O grupo representa uma época mais romântica, “séria” de nosso rock pós-Blitz, e nesse sentido disseminou uma influência incomparável entre fãs e músicos que vieram depois. E a figura de Russo bem pode ter sido nosso primeiro rockstar trágico, um mito – infelizmente – indispensável a qualquer cultura pop que se preze, vide o culto infindável a figuras como Jim Morrison, Jimi Hendrix ou Kurt Cobain. Muita gente hoje em dia vê “ingenuidade” nas pregações de Russo, ou “fragilidade” no acompanhamento instrumental que emoldurava suas letras. Não importa: a Legião ajudou o rock brasileiro a evoluir, e o fez de maneira completamente pessoal, alheia a modas ou tendências mercadológicas. E isso é o que se pode chamar de influência.
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(Publicado originalmente em 23/11/2011.)
“No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Parece que Tom Jobim disse isso mesmo, ou ao menos algo parecido. A tirada resume um pouco da notória desconfiança com que nós olhamos para os bem-sucedidos; resume um pouco do sentimento de culpa – herança católica portuguesa? – que propulsiona nossa falsa modéstia; resume nossa afeição compulsiva pelos “perdedores” da história, os fracassados e injustiçados, os anti-heróis. A popularidade alheia instiga nos brasileiros uma mistureba de sentimentos e atitudes contraditórios: inveja (“Ah, se eu estivesse no lugar dele!”), deslumbramento servil (“Ah, ele é tudo de bom!”), despeito (“Ah, ele aposto que deve ser bicha!”), menosprezo (“Ah, fala sério, né? Tá no Faustão!”).
A frase de Tom também resume a dificuldade de se definir os limites para o pop made in Brazil. “Pop” aqui entra como sinônimo de música popular de massa, alegre, sentimental, democrática, feita primordialmente para o entretenimento – em contraposição ao “rock”, que é sério, profundo, cheio de dogmas, agressivo e contestador. Diferentemente do rock, que emana(ria) duma vontade de expressão artística genuína, de uma “verdade” que o músico tem a dizer para o mundo, o pop busca apenas agradar ao maior número de pessoas, despreocupado com questões como perenidade, autenticidade, “atitude” (ahn?). Pop é o que sua irmã mais nova ouve. Rock é o que o seu primo mais velho, aquele que já tem barba e se veste de preto, ouve. Isso não significa que o pop, puro, populista e descompromissado, não seja capaz de momentos de beleza sublime, ou de ousadias desconcertantes. Pet Sounds é pop. Thrilleré pop. Frank Sinatra, Burt Bacharach, Elvis Costello, o wall of sound de Phil Spector, Elton John – tudo pop.
No Brasil a discussão tem diversos complicadores. A nossa música popular (veja bem, não “pop”, e sim descendente de raízes tradicionais, como o samba ou o sertanejo) é fortíssima, a ponto de eclipsar a produção pop-roqueira em quantidade e qualidade. Quando se pensa na contribuição do Brasil para a música popular mundial, vem à cabeça a MPB, a bossa nova e o samba, e não os Paralamas do Sucesso ou o Marcelo D2. O “Bob Dylan brasileiro” é o Chico Buarque, não o Marcelo Nova. O “David Bowie brasileiro” é o Caetano, não o Lobão. Isso faz com que o pop-rock (e vamos generalizar aqui, colocando toda a música-jovem-feita-com-guitarra no mesmo balaio) brasileiro seja sempre coisa de gueto, de minoria, que se apequena – em termos de vendas e popularidade – diante do tecnobrega, do axé ou do pagode dor-de-corno. Os fenômenos pontuais de popularidade, cada vez mais espaçados, só confirmam a regra.
E dentro do já segregado pop-rock, ainda há um racha significativo entre pop e rock. É o que separou o RPM de seus contemporâneos de underground paulistano, por volta de 1985 – Paulo Ricardo & Cia queriam estourar, o Akira S e o Fellini, nem tanto. É o que fazia Renato Russo sacanear publicamente o Dinho Ouro-Preto. É o que fez de Toni Garrido um dos mais detestados personagens da música brasileira. É o que fez Marcelo Nova sacanear o Skank. É a “atitude” que fez o “ogro” Chorão dar uma porrada no “sensível” Marcelo Camelo. É o que faz Lobão bater nos cachorros-mortos Fiuk e Restart. Numa cena que se leva tão a sério quanto a do rock brasileiro, almejar o sucesso, a simpatia e a popularidade é pecado gravíssimo, merecedor de vaias e agressões por parte da intelligentzia. Para o pop “puro” brazuca, parece só existir duas escolhas: a breguice ou a galhofa. Ou, na pior das hipóteses, ambas de uma só vez. A linha foi traçada nos anos 80, quando assumiu-se que a solenidade messiânico-politizada de Renato Russo era o modelo ideal para o roqueiro nacional. Imagine se, em vez da Legião Urbana, o “pacote” eleito fosse o Ultraje a Rigor? Voltando ainda mais, encontramos essa raiva/despeito/desprezo pelo pop em momentos tão diversos como o ostracismo imposto a Wilson Simonal (abandonado por se recusar a seguir a cartilha da MPB engajada). Ou no racha entre oFino da Bossa e o Jovem Guarda(e, bem ali no meio, o patriarca espiritual do pop brazuca: Ben). Ou na galera que, procurando chifre em cabeça de cavalo, chamava a bossa nova de “música americana”. Etc.
Talvez por isso, como reação a essa má vontade histórica, a esse racha entre “sérios” e “descompromissados”, é que a galera do pop se atira na farofa com vontade. O raciocínio deve ser: “Porra, ninguém me leva a sério, todo mundo me esculacha. Então vou radicalizar na direção contrária”. Aí fica difícil defender o mérito artístico de uma banda que topa, por exemplo, tocar no casamento do Luciano Huck com a Angélica. Ou na final do Big Brother Brasil. Ou, vergonha alheia das vergonhas alheias, vende a alma ao diabo – AKA Roberto Medina – para aparecer num patético videozinho antidrogas. Então existe uma retroalimentação da má vontade: o rock implica com o pop por ser pop, o pop revida tornando-se ainda mais pop, e o rock reage novamente.
Breguice e galhofa, entretanto, nunca foram impedimentos para fazer boa música. Ideologias e discursos à parte, grandes canções e bons discos já foram cometidos por artistas pop brasileiros, que nunca tiveram qualquer outra intenção além de agradar o público. E não há nada errado em admitir isso. O bom é que o tempo, senhor da razão, borra as fronteiras traçadas pela “atitude” roqueira. Lembro do dia em que cheguei à escola, fins da década de 1980, portando orgulhosamente minha cópia recém-adquirida de Educação Sentimental,segundo disco do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens. Comprei no sebo e fui direto pra escola. Fui alvo de olhares zombeteiros. Um gaiato, mal-contendo o riso, apontou e perguntou, incrédulo: “Kid Abelha?Kid Abelha?!” É, Kid Abelha. Qual foi? Era eu, adolescente, suburbano e brasileiro, obrigado a ouvir só Joy Division? Hoje, com o distanciamento que só os anos podem dar, vemos que o Kid Abelha e a Legião Urbana nem eram tão diferentes assim. E que sim, dá para gostar de ambos. Aliás, já dava na época – as rádios FM tocavam ambos sem distinção. Só os roqueiros mais pentelhos implicavam com a “descartabilidade” de um e livravam a cara das “mensagens” do outro.
Minha proposta é apenas essa: ouçam as músicas. Esqueçam o que o artista “representa” ou “representou” no cenário pop, livre-se das ideologias, abdique da busca por mensagens. Concentrem-se na melodia, no refrão, no arranjo, até nas letras – que, em sua santa simplicidade, muitas vezes têm mais conteúdo que as arengas “poéticas” das bandas de rock. E tentem relevar os maus passos que os artistas deram, as recaídas bregas, as idas ao programa da Xuxa, as pérolas proferidas em entrevistas. Estamos todos, pops e rocks, do mesmo lado.
Este blog é um repositório atualizável dos textos que eu, MARCO ANTONIO BARBOSA, ou Marco Antonio Bart, ou Bart, escrevi e publiquei (ou não) como jornalista profissional desde 1996. O antigo http://fubap.org/telhadodevidro pifou sem dó nem piedade. O renascido TdV 2.0.1 está sendo montado aos poucos, inicialmente com os arquivos do antigo. Stay tuned!