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FLAMENGO: CRISE NA GÁVEA, CRISE DO BRASIL.

Vocês sabem (ou não) que eu nunca fui do futebol. Nunca fui peladeiro, só fui ao Maracanã para ver show (e o Papai Noel), não encosto numa bola desde que terminei o ensino secundário. Costumo dizer que futebol para mim é esporte, e não essa coisa louca que transtorna as pessoas, arruína amizades, desfaz casamentos, mata uns e faz de outros assassinos. Contudo, entendo perfeitamente porque o futebol é tão apaixonante para todo mundo. É porque o nobre esporte bretão é um simulacro quase perfeito da vida, no qual os poderosos são sempre poderosos e os pequenos, sempre pequenos – até o dia em que, por sorte, azar ou pelo tal do destino, a situação se inverte. Nenhum outro esporte se presta tanto ao sabor do acaso, às reviravoltas que permitem que a esperança seja, enfim, a última que morre. É isso que enlouquece os torcedores: a certeza de que ali, durante aqueles 90 minutos, tudo pode acontecer. E às vezes acontece.

Por osmose (minha mulher é torcedora, daquelas chatas), acabo acompanhando com interesse antropológico as idas e vindas do Flamengo.  Por curiosidade profissional, acompanho também o noticiário sobre o clube, sempre eivado de especulações, recadinhos cifrados, espetadelas e indiretas. E depois de concluir que o futebol é um resumo da vida, arrisco afirmar que o Flamengo é um resumo do Brasil.

Como o Brasil, o Flamengo também sofre de um agudo sebastianismo. A cada temporada, anuncia-se um novo salvador para o time, um supercraque contratado a peso de ouro que vai, enfim, levar o clube de volta aos tempos áureos da geração Tóquio. Apenas nos últimos quatro anos, falou-se em Ronaldo Fenômeno, o que não deu em nada; trouxeram Adriano, ele veio, viu e venceu, mas acabou derrotado pela má disciplina e hábitos ainda piores. Ronaldinho Gaúcho, o último candidato a ungido, chegou com muita fanfarra, mas conseguiu fazer um papelão ainda maior que o de Adriano. Acabou de deixar o clube, sem rumo certo, depois de derrubar um treinador (Luxemburgo), faltar a concentrações e jogos e – dizem – ter se apresentado bêbado para treinar. Não há de ser nada, Adriano, ele mesmo, está se recuperando para voltar ao Mengão…

O sebastianismo que herdamos dos portugueses ajuda a explicar a necessidade que o brasileiro tem de achar um “pai”, um guia, um responsável por essa porra toda que está aí. O cara que vai resolver. Gente esperta e não muito bem intencionada já se deu muito bem apresentando-se como esse salvador; acreditamos e, invariavelmente, nos decepcionamos. Até vir a próxima promessa. E fechamos os olhos, acreditando que dessa vez vai ser diferente. (Estamos em ano eleitoral, não esqueçam.) Se, por aqui, essa regra vale para a política, para a economia, para o showbiz, por que não valeria para o futebol? Especialmente para o futebol, que nutre-se da fé do torcedor para continuar existindo. O torcedor abraça ansiosamente o candidato a ídolo na chegada, mas joga ovos no craque quando os gols não vêm, já de olho no próximo artilheiro – esse sim vai salvar a pátria!

Assim como os empresários, empreiteiros e demais lobistas da vida real, quem dá as cartas nos bastidores do futebol já sacou que, no caso do Flamengo, explorar a expectativa por um salvador  pode ser uma fonte inesgotável de lucros. E isso não se restringe a craques: pode ser um novo técnico, um novo patrocinador, um novo dirigente. Muito parecido com o povo que esquece das mamatas e das ligações perigosas, na hora de apertar o botão da urna eletrônica. Reportando tudo com uma avidez quase canibal, está o jornalismo (sic) esportivo carioca, um caldeirão de notícias plantadas, boatos tornados verdade e balões de ensaio – no qual o Flamengo, como time de maior torcida, está sempre sob os holofotes. (É um fenômeno conhecido nas internas como Flapress.) Não muito diferente da cobertura política, verdadeiro Fla-Flu no qual as torcidas estão cada vez menos dissimuladas.

E, óbvio, não há terra melhor para um clube como o Flamengo do que o Rio de Janeiro. O sebastianismo também ajuda a entender a blindagem que protege os ricos e poderosos no Brasil. Aqui, os ungidos podem tudo, sem se preocupar com as consequências. No Rio, isso é uma verdade ainda mais incontestável. Na Gávea, essa invulnerabilidade é levada ao pé da letra, com o resultado de sempre: o ungido pode faltar treino, criticar o clube em público, arrastar-se em campo, e ainda assim mantém o status de intocável. Em Brasília, guardadas as devidas proporções, também é por aí.

O brasileiro, mesmo que seja vascaíno, corintiano ou colorado, é  flamenguista no âmago. Flamenguista na crença irracional que vai chegar alguém para resolver todos os problemas, flamenguista no oba-oba cego com que recebe o candidato a salvador da vez, flamenguista na decepção e no jeito com que se deixa manipular e ter sua paciência abusada. E flamenguista na disposição para, no dia seguinte, esquecer tudo e rezar pela chegada do próximo Sebastião.

VAMOS BOTAR DESORDEM NESSA P#$@&?

(Publicado originalmente em 29/01/2012.)

Quanto à parte da beleza, pode haver controvérsia. Mas que o Rio de Janeiro é o purgatório do caos, disso não há como duvidar. Nos últimos dias, a vocação da cidade para a falta de controle tem sido testada e aprovada com louvor. O desastre ocorrido com os prédios na 13 de Maio nem precisa de maiores comentários, certo? Mas também rolou a árvore que demoliu o bar Planalto do Chopp, ali no Flamengopertinho de onde, há algumas semanas, a tradicional churrascaria Majórica virou… carvão. E isso é só o que tem rolado recentemente, sem contar a expectativa da tragédia-anunciada-anual das chuvas de verão, o bonde sem freio de Santa Teresa, os bueiros explosivos. Isso tudo é normal?

Isso tudo é normal. O Rio sempre foi assim, desde 1565. A propensão típica do carioca/fluminense para a bagunça, somada ao desinteresse do poder público, gera esse estado de caos permanente, ao qual os habitantes vão se acostumando e com o qual vão convivendo. Faz parte do espírito da cidade – essa guerra cordial de todos contra todos, esse embaralhamento de ricos & pobres, de montanha & praia, de precariedade humana & natureza superlativa. Se, no Rio, o Brasil é mais brasileiro, aqui também se exacerbam as mazelas e as belezas do nosso contraditório povo.

Só que de um tempo para cá, tem gente querendo mudar essa história secular. O assunto já foi comentado aqui mesmo. Há uma nova estirpe de carioca à solta, e a nova guarda não quer saber de bagunça. Por isso mesmo, tratou de escolher como seus representantes no Poder Executivo essa GENTE QUE FAZ (mas faz mesmo?), que se preocupa com o verniz da eficiência e da gestão eficaz. Afinal, estamos a dois anos de receber uma Copa do Mundo, e a quatro de recebermos uma Olimpíada. A cidade precisa estar impecável, funcional, bonita e acima de tudo ORDENADA, para podermos fazer bonito diante dos olhos do mundo. Por isso é que o Rio está TODO em obras – quer dizer, não todo, só do Centro à Barra, é o trecho que interessa, né? Há tapumes, andaimes e placas “Homens trabalhando” em todos os cantos, num afã de ajeitar, em alguns anos, todas as gambiarras e defeitos estruturais que se acumularam ao longo de quatro séculos e meio.

Mas a vocação do Rio para a bagunça é maior que isso tudo. Somos, na feliz definição do colega Márvio dos Anjos, a capital mundial do terrorismo acidental: não precisamos de aviões batendo em torres gêmeas, aqui as torres caem por conta própria, por descaso, por jeitinho, por falta de fiscalização. E a cidade reage contra essa tentativa frenética de “arrumar a casa” acelerando a frequência de suas catástrofes. As árvores, os bueiros, os prédios desabando, tudo isso são as entranhas do Rio de Janeiro reagindo contra essa megaoperação de maquiagem que quer forçar a cidade a ser o que não é: uma metrópole arrumadinha e funcional. Não adianta: o “não funcionar” é intrínseco ao Rio. Não é agradável, cansa, irrita às vezes, mas lembrem-se que existem alternativas bem pioresA cidade está dizendo a seus governantes: “Querem trazer Copa, Olimpíada, o escambau, tragam. Mas não queiram mudar o mudar o meu jeito de ser. Não vai dar certo.”

Parafraseando o tal do Peter Kellemenque teria dito que “O Brasil não é para amadores”, eu riposto: o Rio de Janeiro não é para coxinhas.

(ÂPIDAITES RELEVANTES:
http://oglobo.globo.com/rio/presidente-do-crea-diz-que-ao-menos-cem-predios-no-rio-correm-risco-de-desabar-4900313

http://oglobo.globo.com/rio/explosao-no-cais-do-porto-deixa-um-morto-dois-feridos-3792854)

Leia também:

VÃO DEIXAR CABRAL DESCOBRIR O BRASIL?

VÃO DEIXAR CABRAL DESCOBRIR O BRASIL?

(...)

(Publicado originalmente em 22/12/2011.)

O Rio de Janeiro não é mais aquele. Lembra do Rio malandro, cheio de ginga, território privilegiado para a prática do jeitinho brasileiro? Acabou. O Rio bossa nova, da orla, dos favelados sorridentes e dos ricos benevolentes, se esfumaçou. A barra tem estado pesada demais, a um ponto tal que não dá mais pra neguinho continuar rindo e achando graça de todas as merdas que rolam na cidade e no estado, só porque deu praia no fim de semana. Espremido, de um lado, pela violência patrocinada pelo tráfico e, de outro, por décadas de ausência completa do poder público, o élan carioca sucumbiu. Não há manemolência que resista a décadas de tiroteios, sequestros-relâmpagos, enfermarias lotadas, transportes públicos em colapso, polícia/políticos corruptos. E o pior: a sensação de estarmos desamparados, literal e figurativamente desgovernados. Isso tudo minou a paciência do cidadão médio, que hoje pende muito mais para o pragmatismo conservador da Zona Norte do que para a joie de vivre prafrentex da Zona Sul. Isso sem demérito de tijucanos nem glorificação dos ipanemenses. O morador do Rio hoje quer competência, eficácia, ordem, arrumação. Ou, ao menos, a aparência desses predicados.

Mas não se esqueçam que o Rio, desde sempre, é uma caixa de ressonância para o Brasil, amplificando (quase às raias da caricatura) os pontos mais marcantes da fisionomia nacional. Assim como no resto do Brasil, no RJ a tal da nova classe média concentra cada vez mais poder – e é dela que emana esse desejo de arrumação, de ordem, algo que, historicamente, nunca fez parte das prioridades do carioca. Vendo-se, finalmente, com um dinheirinho a mais no bolso, o sujeito que acaba de desembarcar nas classes C e D quer ter seu carrinho 1.0, sua tevêzinha de LED e sua viagenzinha para o Nordeste. Mas quer também que o mundo à sua volta – segurança, saúde, infraestrutura – funcione direito, para que ele possa aproveitar ao máximo suas aquisições materiais, sem preocupações. E pouco além disso. O debate político, neste panorama, começa e acaba no mito da administração “eficiente”. O cara com mais pinta de gerentão, de síndico, que conseguir convencer que ele é capaz de arrumar a casa, esse sim é o homem da hora.

Vejam bem, não estou criticando a nova classe média. Pessoal trabalhou por anos, deu duro, pastou por muito tempo sem ter oportunidades. Agora é a hora de aproveitar. O problema é que, com sua capacidade de caricaturar, sintetizar e microcosmicizar (inventei agora) a realidade brasileira, a nova classe média fluminense está cantando a bola dos rumos futuros do país. E é aí que nosso governador, Sergio Cabral, terá a chance de dar seu pulo do gato.

Cabral é o político ideal para o Brasil da nova classe média, para o Brasil coxinha que tem Luciano Huck, Luan Santana e Tiago Leifert como ícones midiáticos e figuras reverenciadas. Todos gente fina, clean, amigos dos amigos, engajados (no quê, exatamente?), cheios de simpatia, bom-mocismo e correção, exsudando uma aura de eficiência e proatividade, que agradam a uma galera enooooooooorme que quer se enxergar também assim – clean, gente fina, engajada. Cabral é o homem certo para esse contingente que se contenta com o superficial, com as aparências – afinal, trata-se de uma turma que só conhece a vida através da tela da TV. O governador sabe disso. Sabe-se de seu marketing, de sua imagem de administrador competente, de “síndico” capaz de resolver as angústias da nova classe média para que esta possa, enfim, gastar sua graninha em paz.

Cabral é certinho, arrumadinho, fala bem. É do PMDB, o que garante berço esplêndido e eterno à sombra do Palácio do Planalto, não importando o titular da casa. O governador do Rio é de direita ou de esquerda? Como saber? Não há como interpretar seu discurso. Ele é o governador do carioca careta, do fluminense coxinha, que não quer sobressaltos comportamentais nem se interessa por polêmicas ideológicas. Do carioca que admite para si mesmo: já que não dá para resolver de vez os problemas da cidade/estado, que ao menos eles não me afetem. E que fiquem longe da TV e dos jornais. Resta agora convencer o país de que ele, Cabral, também pode ser o presidente do brasileiro careta.

No mundo ideal que Cabral traçou, as UPPs darão (aparentemente) certo, deixando que os eventos da Copa do Mundo sejam realizados sem sobressaltos (aparentes) no quesito segurança. Em 2014, ungido como o homem que derrotou os traficantes no Rio, ele lança-se como vice peemedebista na chapa petista à presidência. Não havendo nada de extraordinário que impeça a vitória do PT (Lula? Dilma?), Cabral em 2016 deixa a vice-presidência para lançar-se à prefeitura do Rio, navegando na publicidade dos Jogos Olímpicos. Ganhando a prefeitura (e mais espaço na mídia), aí sim ele enfrentaria um real problema: precisaria sair do PMDB, que não vai lançar candidato próprio à presidência nem fudendo (lembram do último que tentou? ). A nova casa de Cabral bem poderia ser o PSD de Kassab, o partido que não é “nem de direita, nem de centro, nem de esquerda”.  Mais Cabral que isso, impossível. Nos braços do povo (e da mídia), une-se ao PFL DEM, que terá moderado seu discurso, e parte para as eleições presidenciais de 2018 com a certeza da vitória.

Não digam que não avisei.

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BARATOS & AFINS EM COPACABANA.

Quando perguntei ao boa-praça Maurício Gouveia qual era a lotação de sua livraria – ou seja, quantas pessoas cabiam lá dentro, quando o recinto se transformava momentaneamente em casa de shows – ele, sem pestanejar, impávido respondeu: “Cem pessoas”. Por que eu perguntava aquilo? Era minha atribuição. Como repórter de música da revista Programa (do Jornal do Brasil), eu tinha de informar, no serviço dos shows, a capacidade de cada casa. E o Maurício, de uns tempos pra cá, dera para promover shows de rock em sua livraria, a simpaticíssima Baratos da Ribeiro. Já rolou briga com vizinhos, interdição, reuniões com a subprefeitura e até uma temporária suspensão das atividades. Mas o som, apesar dos percalços, também continua rolando.

Pois quando cheguei à Baratos, no último sábado, para assistir ao meu primeiro Vespeiro (é o nome do microfestival promovido pela livraria), duvidei da seriedade de meu anfitrião. E de sua sanidade também. Ali não caberiam cem pessoas nem sobrepostas umas nas outras. É claro que eu já havia estado na livraria antes, e sabia que o espaço era exíguo. Estantes e mais estantes, um balcão, uma mesa, pilhas de LPs em bancadas. Mas supunha que, para dia de show, a arrumação fosse diferente. Que tirassem algumas estantes, talvez. Na verdade, Maurício e sua gangue só dão uma afastada básica nos móveis, para dar um espacinho mínimo aos equipamentos dos roqueiros e a os roqueiros em si (porque, se não deu para adivinhar pelo nome, o Vespeiro se compõe basicamente de shows de rock). Não importa, o povo se espalha entre as frestas, nos cantos das estantes, no quartinho dos fundos. E principalmente na calçada (da Rua Barata Ribeiro) em frente, diante da vitrine da livraria. Por conveniente coincidência, o boteco do lado está sempre a postos. “Já teve um Vespeiro em que um cara foi atropelado, aqui em frente”, conta Maurício. “Ele estava no bar do outro lado da rua, correu pra atravessar e tomou uma trombada”. Morreu? “Sei lá”, relata o livreiro, sempre impávido.

A atitude “sei-lá”, inclusive, talvez seja o charme maior do Vespeiro. E sua improbabilidade. Num pequeno sebo no coração de Copacabana, espremido entre botecos caídos, galerias comerciais e hotéis duas-estrelas, o couro come. Tudo bem que é mais do lado de fora do que dentro do pequeno sebo, mas continua a comer. Não sem atritos, resolvidos também na base do “sei-lá”. “Tem uma senhora que mora aqui, ela se acha meio dona do quarteirão”, narra Maurício, evitando conspicuamente o termo “mendiga”. “Às vezes ela encrenca, se mete no meio do público…” E numa loja com livros pelo ladrão, como evitar os ladrões de livros? Já houve caso de pegar algum roqueiro com a mão na massa, levando algum volume debaixo da jaqueta de couro? “Sabe que eu nunca notei?” A população de rua e o potencial shoplifting não são os únicos dissabores. Ano passado, moradores da área pediram à Prefeitura o fim do evento, reclamando do barulho. Aos poucos, depois de muita deliberação, o Vespeiro foi ressurgindo, com a condição de que fosse feito mais cedo, e com o volume mais moderado. E o negócio, recriado para ser vespertino, adentra a noite de sábado. Ainda mais em dias com três, quatro bandas a tocar. “Volta e meia algum vizinho aparece berrando: ‘Das dez da noite isso não passa!’”, conta Maurício.

O convescote estava marcado para as 16h (conforme eu mesmo noticiara em minha coluna no JB). Na minha santa inocência, cheguei um pouco antes da hora marcada. Nem sinal de bandas, instrumentos, amplis, nada. Boa-praça como todo boa-praça, Maurício faz as vezes de DJ e MC. Convoca a pequena, mas crescente galerinha que já chegou a chegar ainda mais, curtir os sons que ele mete em MP3 num DVD-player, só bandas boas que eu nunca ouvi falar (incluindo uma versão meio shoegaze pra “The sun always shine on TV”, eu perdi o nome da banda, falaê Maurícioooo!). Lá atrás, na salinha onde ficam os quadrinhos, os livros de teatro, cinema e música e uma bizarra pilha de discos videolaser – muitos dos quais 0km, selados, vejam só – tem um carinha atrás de um balcão improvisado. No “cardápio” pendurado diz que ele faz drinques, mas não esta tarde. Houve um problema com o gelo, então só tem cerveja (feliz e paradoxalmente, gelada). E a moçada continua a chegar.Foram quatro bandas naquela tarde de sábado, mas eu estava lá apenas por duas. O Laura Palmer, o projeto comandado pelo chapa Mansur, faria seu dèbut nos palcos. (Só não tinha palco, apenas um tapete.) E os The Feitos, que apesar de niteroienses podem tirar onda de ser uma das melhores bandas do novo rock carioca. Como seriam as últimas a tocar, fiquei a dar uns rolês pela região, aquela meíuca de Copa na qual se abrigam também o metrô Siqueira Campos, a aditivada Ladeira dos Tabajaras, a Fosfobox e a eterna Adega Pérola.

No retorno, o Laura Palmer tentava reunir sua babélica formação, ali na calçada mesmo. Figuraças como Pedro Selector, Loïs Lancaster e Silvio Essinger, que colaboram com o grupo, pintaram para prestigiar (e tocar, no caso de Pedro e Lancaster). O show, honestamente, não fez jus ao potencial do projeto. Nota 7.85, como eu mesmo disse para o Mansur. Era muita gente para pouco espaço – duas guitarras, baixo, bateria, um laptop, mais três convidados especiais. O som não também não deu conta das nuances dos arranjos. Os barulhinhos & bases & efeitos do laptop se perderam, as guitarras estavam meio baixas, faltou o silêncio necessário na platéia para as passagens mais calmas. Então você se lembra que a banda tem uma formação mutante e quase não ensaia, que aquele era o primeiro show deles. Aí a avaliação melhora. E não é que teve gente balançando a caveira ao som de “Death metal is playing at my house (and Def Leppard is playing at your house)”? Funcionou, galera, podem ficar tranqüilos. Só falta a prática.

Prática que não falta ao The Feitos, que estava lá para lançar seu primeiro álbum. O curioso é que eles atuam no extremo oposto do som climático-sombrio-coldwave-eletrônico do Laura Palmer. É bem menos indefinível/complexo/experimental que a banda do Mansur. O que não atrapalha sua eficácia. Alguém sussurrou pra mim, durante o show: “Não agüento mais essas bandas influenciadas pelo The Who!” Bom, pelo jeito, eu ainda agüento. E olha que eu nem tinha notado tanta semelhança entre os niteroienses e os pais do mod rock… The Feitos é rock curto, grosso, descabelado, com letras bizarramente divertidas e um punhado de hits em potencial: “Disco do Roberto”, “Gente feiosa”, “Por isso eu não dou satisfação”… Pense no Jon Spencer liderando uma banda da Jovem Guarda, e terá uma idéia vaga do resultado final. Não toca no rádio, não faz sucesso de massa. E poderia muito bem tocar. Mas quem toca no rádio hoje em dia? Pergunte a qualquer um dos suados jovens que se acotovelavam diante do trio, naquela noite fria de sábado. Eles não se importam.

Aliás, por falar em coldwave, a noite era fria e chuvosa, o que certamente impediu que a mítica lotação de cem pessoas (dentro e fora) se concretizasse. Na calçada, a chuva castigava; nada torrencial, mas o ventinho frio vindo da orla, batendo nas roupas úmidas, dava um desânimo danado. Nada que a cerveja não se encarregasse de contrabalançar. Lá dentro, o ar condicionado não dava vazão à sudorese da rapaziada. Sem brincadeira, devia haver uma diferença duns 15 graus centígrados entre a temperatura dentro e fora da livraria. Lá fora, um dos “senhores-que-moram-por-ali” se misturava, amarradão, aos roqueiros, quase todos muito jovens, reforçando o clima de matinê adrenalinada do Vespeiro.

Porra, ainda preciso dizer que me diverti pra cacete?