Archives for pop brasileiro

A ENCRUZILHADA DO POP BRASILEIRO.

Uma imagem vale mais que mil xingamentos no Twitter.

(Publicado originalmente em 23/11/2011.)

“No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Parece que Tom Jobim disse isso mesmo, ou ao menos algo parecido. A tirada resume um pouco da notória desconfiança com que nós olhamos para os bem-sucedidos;  resume um pouco do sentimento de culpa – herança católica portuguesa? – que propulsiona nossa falsa modéstia; resume nossa afeição compulsiva pelos “perdedores” da história, os fracassados e injustiçados, os anti-heróis. A popularidade alheia instiga nos brasileiros uma mistureba de sentimentos e atitudes contraditórios: inveja (“Ah, se eu estivesse no lugar dele!”), deslumbramento servil (“Ah, ele é tudo de bom!”), despeito (“Ah, ele aposto que deve ser bicha!”), menosprezo (“Ah, fala sério, né? Tá no Faustão!”).

A frase de Tom também resume a dificuldade de se definir os limites para o pop made in Brazil. “Pop” aqui entra como sinônimo de música popular de massa, alegre, sentimental, democrática, feita primordialmente para o entretenimento – em contraposição ao “rock”, que é sério, profundo, cheio de dogmas, agressivo e contestador.  Diferentemente do rock, que emana(ria) duma vontade de expressão artística genuína, de uma “verdade” que o músico tem a dizer para o mundo, o pop busca apenas agradar ao maior número de pessoas, despreocupado com questões como perenidade, autenticidade, “atitude” (ahn?).  Pop é o que sua irmã mais nova ouve. Rock é o que o seu primo mais velho, aquele que já tem barba e se veste de preto, ouve. Isso não significa que o pop, puro, populista e descompromissado, não seja capaz de momentos de beleza sublime, ou de ousadias desconcertantes. Pet Sounds é pop. Thriller é pop. Frank Sinatra, Burt Bacharach, Elvis Costello, o wall of sound de Phil Spector, Elton John – tudo pop.

No Brasil a discussão tem diversos complicadores. A nossa música popular (veja bem, não “pop”, e sim descendente de raízes tradicionais, como o samba ou o sertanejo) é fortíssima, a ponto de eclipsar a produção pop-roqueira em quantidade e qualidade.  Quando se pensa na contribuição do Brasil para a música popular mundial, vem à cabeça a MPB, a bossa nova e o samba, e não os Paralamas do Sucesso ou o Marcelo D2. O “Bob Dylan brasileiro” é o Chico Buarque, não o Marcelo Nova. O “David Bowie brasileiro” é o Caetano, não o Lobão. Isso faz com que o pop-rock (e vamos generalizar aqui, colocando toda a música-jovem-feita-com-guitarra no mesmo balaio) brasileiro seja sempre coisa de gueto, de minoria, que se apequena – em termos de vendas e popularidade – diante do tecnobrega, do axé ou do pagode dor-de-corno.  Os fenômenos pontuais de popularidade, cada vez mais espaçados, só confirmam a regra.

E dentro do já segregado pop-rock, ainda há um racha significativo entre pop e rock. É o que separou o RPM de seus contemporâneos de underground paulistano, por volta de 1985 – Paulo Ricardo & Cia queriam estourar, o Akira S e o Fellini, nem tanto. É o que fazia Renato Russo sacanear publicamente o Dinho Ouro-Preto. É o que fez de Toni Garrido um dos mais detestados personagens da música brasileira. É o que fez Marcelo Nova sacanear o Skank. É a “atitude” que fez o “ogro” Chorão dar uma porrada no “sensível” Marcelo Camelo. É o que faz Lobão bater nos cachorros-mortos Fiuk e Restart. Numa cena que se leva tão a sério quanto a do rock brasileiro, almejar o sucesso, a simpatia e a popularidade é pecado gravíssimo, merecedor de vaias e agressões por parte da intelligentzia. Para o pop “puro” brazuca, parece só existir duas escolhas: a breguice ou a galhofa. Ou, na pior das hipóteses, ambas de uma só vez. A linha foi traçada nos anos 80, quando assumiu-se que a solenidade messiânico-politizada de Renato Russo era o modelo ideal para o roqueiro nacional. Imagine se, em vez da Legião Urbana, o “pacote” eleito fosse o Ultraje a Rigor? Voltando ainda mais, encontramos essa raiva/despeito/desprezo pelo pop em momentos tão diversos como o ostracismo imposto a Wilson Simonal (abandonado por se recusar a seguir a cartilha da MPB engajada). Ou no racha entre o Fino da Bossa e o Jovem Guarda (e, bem ali no meio, o patriarca espiritual do pop brazuca: Ben). Ou na galera que, procurando chifre em cabeça de cavalo, chamava a bossa nova de “música americana”. Etc.

Talvez por isso, como reação a essa má vontade histórica, a esse racha entre “sérios” e “descompromissados”, é que a galera do pop se atira na farofa com vontade. O raciocínio deve ser: “Porra, ninguém me leva a sério, todo mundo me esculacha. Então vou radicalizar na direção contrária”.  Aí fica difícil defender o mérito artístico de uma banda que topa, por exemplo, tocar no casamento do Luciano Huck com a Angélica. Ou na final do Big Brother Brasil. Ou, vergonha alheia das vergonhas alheias, vende a alma ao diabo – AKA Roberto Medina – para aparecer num patético videozinho antidrogas. Então existe uma retroalimentação da má vontade: o rock implica com o pop por ser pop, o pop revida tornando-se ainda mais pop, e o rock reage novamente.

Breguice e galhofa, entretanto, nunca foram impedimentos para fazer boa música. Ideologias e discursos à parte, grandes canções e bons discos já foram cometidos por artistas pop brasileiros, que nunca tiveram qualquer outra intenção além de agradar o público. E não há nada errado em admitir isso. O bom é que o tempo, senhor da razão, borra as fronteiras traçadas pela “atitude” roqueira. Lembro do dia em que cheguei à escola, fins da década de 1980, portando orgulhosamente minha cópia recém-adquirida de Educação Sentimental, segundo disco do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens. Comprei no sebo e fui direto pra escola. Fui alvo de olhares zombeteiros. Um gaiato, mal-contendo o riso, apontou e perguntou, incrédulo: “Kid Abelha? Kid Abelha?!” É, Kid Abelha. Qual foi? Era eu, adolescente, suburbano e brasileiro, obrigado a ouvir só Joy Division? Hoje, com o distanciamento que só os anos podem dar, vemos que o Kid Abelha e a Legião Urbana nem eram tão diferentes assim. E que sim, dá para gostar de ambos. Aliás, já dava na época – as rádios FM tocavam ambos sem distinção. Só os roqueiros mais pentelhos implicavam com a “descartabilidade” de um e livravam a cara das “mensagens” do outro.

Minha proposta é apenas essa: ouçam as músicas. Esqueçam o que o artista “representa” ou “representou” no cenário pop, livre-se das ideologias, abdique da busca por mensagens. Concentrem-se na melodia, no refrão, no arranjo, até nas letras – que, em sua santa simplicidade, muitas vezes têm mais conteúdo que as arengas “poéticas” das bandas de rock. E tentem relevar os maus passos que os artistas deram, as recaídas bregas, as idas ao programa da Xuxa, as pérolas proferidas em entrevistas. Estamos todos, pops e rocks, do mesmo lado.