Archives for mpb

ETERNO CHORO: ONTEM, HOJE E AMANHÃ.

(Republicado em 30/07/2007, Publicado no Jornal Musical, agosto de 2006.)

Voltando ao resgate das melhores reportagens que fiz para o www.jornalmusical.com.br, posto agora um texto que traça um panorama do choro contemporâneo. Deu trabalho, mas acho que ficou bacana. E, de quebra, aprendi que referir-se ao gênero como “chorinho” pega mal entre os experts… mesmo que Candido Portinari tenha usado o termo para batizar o belo quadro reproduzido abaixo. 

Em 1902, quando a indústria do disco surgiu no Brasil, o choro já contabilizava quase 40 anos de história. Não foram poucas as transformações pelas quais o gênero – parte básica do DNA da cultura musical brasileira – passou desde 1867 (ano de lançamento de “Flor amorosa”, composição de Joaquim Calado e Catulo da Paixão Cearense apontada frequentemente como marco zero do choro). Tão notável quanto a permanência e a influência do estilo em nossa música é a série de dogmas que envolvem a composição e a execução do choro. Transformações à parte, o que não falta é gente, de um lado, querendo manter a tradição do choro intocada; e, do outro, novos nomes que partem do choro para outras paragens musicais, aliando o estilo a outras influências e referências. Veteranos que seguem atuando (Joel Nascimento, Altamiro Carrilho, Déo Rian e grupos como Época de Ouro e Galo Preto), seguindo a estrita cartilha determinada ainda na primeira metade do século 20, dividem espaço com músicos de gerações posteriores, que trazem novas abordagens ao estilo. Hoje em dia vale tocar Beatles em clima de choro (como Henrique Cazes fez), incorporar novas influências e inovar na execução instrumental (caso do bandolinista Hamilton de Holanda) e usar o gênero como plataforma de miscelâneas mil (como o precocemente desfeito grupo Tira Poeira).

O fato é que cada uma das duas vertentes – os “fundamentalistas” e os “renovadores” – tentam puxar a brasa para suas respectivas sardinhas. Mas será que é assim mesmo, tão preto no branco? Em conversa com chorões (e outros nem tanto) de várias vertentes, das mais ortodoxas a aquelas abertas a novas experiências, fica claro que ninguém quer ser facilmente rotulado num ou noutro grupo.

O exemplo de Luciana Rabello é emblemático. Cavaquinista com 30 anos de carreira, discípula do mestre Jonas do Cavaquinho e criadora da gravadora Acari Records, ela é vista por muitos como a personificação da ortodoxia no choro. Imagem com a qual a própria Luciana não concorda. “Não há nada de tradicionalista na música que faço. Na Acari há uma preocupação de lançar registros históricos do choro, mas também mostramos a produção contemporânea”, conta a polivalente artista. “Além do mais, essa divisão é simplista demais. Nos anos 50, Radamés Gnatalli tocava choro com guitarra elétrica, bateria e contrabaixo mas não tinha pretensão de ser ‘moderno’”, prossegue.

Entretanto, a própria Luciana esclarece alguns pontos nesse qüiproquó estético. Ela diz: “Se há alguma verdadeira modernidade no choro produzido hoje, isso só vai se constatar daqui a uns 40 anos. Mais ou menos a cada 20 anos surge uma nova geração de músicos de choro. O que eu vejo hoje é uma série de artistas talentosos, mas confusos. Trazer novos ritmos para o choro é um engano. O (clarinetista) Nailor Proveta costuma dizer para seus alunos: ‘Quando vocês estiverem tocando, de cabeça, 200 choros clássicos, aí sim vocês podem pensar em improvisar’. E eu concordo com ele. Não existe futuro sem passado”.

No front dos veteranos legítimos, o fervor fundamentalista abrandou-se. Do alto de seus 69 anos de vida (e mais de 50 de carreira), o bandolinista Joel Nascimento já viu muita água passar debaixo da ponte do choro. E diz: “Os músicos de choro já foram muito radicais em relação à forma ‘certa’ de tocar. Antigamente não se admitia, por exemplo, violino no choro. Ou que um músico de choro tocasse jazz. Mas isso vem mudando. Nos anos 70, quando toquei com a Camerata Carioca, já tínhamos uma visão bem aberta”. Ainda assim, o instrumentista (que atualmente se apresenta acompanhado pelos jovens chorões do grupo paulista Quatro a Zero) é cauteloso ao se referir aos rumos contemporâneos do gênero. “Confunde-se a evolução do choro, enquanto estilo musical, com a evolução do músico que toca choro”, analisa Joel. “Não há grandes evoluções no choro. Fazer arranjos novos para músicas velhas, isso todo mundo pode fazer. Mas o choro em si não se descaracteriza”.

Altamiro Carrilho tem uma visão parecida com a de Joel, mas um tanto mais crítica. “As músicas que esse pessoal novo anda tocando são complicadas demais. Daqui a pouco, só músico de jazz vai poder tocar choro. Interpretar choro não é fazer pirueta. É um estilo que vem de black tie, que pede seriedade do músico. Não me considero um sujeito quadrado, mas acho que o choro é a mola mestra de tudo o que já se fez em música brasileira. Então não há necessidade de mudar nada. Como vai se modernizar o que já nasceu moderno?”, indaga o flautista.

Uma noção clara para muitos dos tradicionalistas é a de que o choro é uma “linguagem”. E quem se dispõe a “falar” essa língua precisa aprender primeiro o bê-a-bá, antes de sair recitando discursos complexos. “É preciso conhecer a tradição a fundo. A garotada tem o direito de experimentar, mas há de se respeitar a história”, pondera Mauricio Carrilho, parceiro de Luciana Rabello na Acari e integrante desde os anos 70 de grupos como Os Carioquinhas e a Camerata Carioca. Mauricio (sobrinho de Altamiro Carrilho) prossegue, contemporizando: “Há mais coisa além dessa divisão básica de tradição X modernidade. Eu, particularmente, não me enquadro em nenhum dos campos. Existe muita gente séria fazendo, hoje, boa música sem apelar para fusões. O choro vive hoje uma época próspera”.

Henrique Cazes pode bem representar o paradigma do músico que trafegou de um extremo a outro no choro. Tocou com gigantes como Radamés e Joel Nascimento, mas deu a cara a tapa ao reler Pixinguinha usando instrumentos eletrônicos (no projeto EletroPixinguinha) e ao recriar hits de Lennon & McCartney (com a série Beatles’n’Choro). Sobre o estado atual do choro, ele só vê motivos para comemorar. “Vivemos um momento de liberdade. Os músicos estão à vontade, livre dos dogmas. Antes qualquer mudança era algo absurdo, um sacrilégio. O mais interessante é que ao lado dos novos nomes, a turma da velha guarda também voltou a tocar e gravar mais. Os formatos se multiplicaram”, diz Cazes.

A liberdade de que fala Henrique gerou frutos interessantes. Há toda uma geração de músicos jovens, formados a partir do último “renascimento” do choro (que Cazes situa cronologicamente no final dos anos 80) que usa o estilo como base para toda a sorte de fusões. Um dos nomes mais citados neste campo é o de Hamilton de Holanda. Bandolinista de 30 anos, que já tocou com Deus e o mundo (de Altamiro Carrilho ao roqueiro John Paul Jones, do grupo inglês Led Zeppelin), Hamilton reconhece que deve o que sabe ao choro. Mas que nem por isso se limita somente ao estilo.

“Acho que existem na verdade três caminhos no choro hoje em dia. Há o pessoal mais da tradição, há essa turma nova que gosto de chamar de ‘progressista’, e tem gente que fica no meio, que é o meu caso”, opina Hamilton. “O que eu faço não é choro, tem outros elementos. O músico tem a obrigação de ser livre. Mas as mudanças precisam ser feitas com consciência. Sabendo-se que não dá para reinventar a roda, pode-se experimentar. A menos que surja um novo Pixinguinha ou um talento equivalente, não se pode falar em um ‘novo choro’”, completa o bandolinista. De ouvidos atentos à nova produção, o músico reconhece valor em experiências menos ortodoxas. “O Henrique (Cazes), por exemplo, tem toda a autoridade para fazer coisas novas dentro do choro”, diz.

O violonista Zé Paulo Becker é outro que caminha na linha entre passado e presente. De formação erudita, imerso no choro mas também cultor do samba e da MPB, o instrumentista trafega desenvolto entre estilos e épocas. “Minha geração ouve mais jazz, samba, outras coisas além de choro. Então há essa influência saudável e natural. O mais importante é conhecer a tradição. A turma que chegou agora tem base e bom senso, toca de forma muito profissional”, fala Zé. Na hora do debate sobre os novos rumos do estilo, o violonista assume um discurso mais reverente. “Temos que definir o que é e o que não é evolução. Radamés e Garoto eram e ainda são modernos, em termos de harmonia, e nunca deixarão de ser”.

Em geral, quem emprega o choro como elemento a mais não tem pretensões de remoçar o gênero. A confluência de jazz, samba, MPB (e choro, claro) marca a música do grupo carioca Sardinha’s Club, antes conhecido como Pagode Jazz Sardinha’s Club. Eduardo Neves, flautista e saxofonista do grupo (que reúne uma série de feras, como Rodrigo Lessa e Marcos Esguleba), confirma: “Não buscamos renovar o choro. Eu e Rodrigo aprendemos a tocar na escola do choro tradicional e é isso o que se ouve no Sardinha’s. Quem vai pela tradição costuma acertar mais do que o pessoal que quer inventar muito”.

Uma reflexão feita por um observador insuspeito da cena acrescenta nova luz ao debate. A princípio, o nome de Henrique Filho pode não dizer muito aos chorões. Mas mencione-se a alcunha profissional do músico e produtor – Reco do Bandolim – e a coisa muda. Reco é presidente do Clube do Choro de Brasília, instituição que preserva o gênero com espetáculos, debates, cursos e oficinas. E para ele não faz diferença se o choro a preservar é velho ou novo.

“Nos últimos anos, felizmente acabou essa noção de que ‘choro é só para chorão’ e ninguém mais. Essa divisão só atrapalhava a boa música. A fiscalização que os músicos mais velhos faziam sobre os novatos era muito negativa. Choro é uma coisa viva, não é uma arte para ficar presa em uma cristaleira, pegando poeira”, discursa Reco, que está à frente do Clube há 12 anos. Ele, que já pôs Pepeu Gomes e o Zimbo Trio para tocar choro em seu palco, resume sua visão: “Não há melhor nem pior nessa história, nem quem defende a tradição, nem os que pregam a novidade. Mas é claro que a evolução tem que partir de um profundo conhecimento sobre a obra das gerações anteriores”.

DA AMAZÔNIA À URCA, VIA CALIFÓRNIA: AS AVENTURAS DE JOÃO DONATO

(Republicado originalmente em 27/05/2007, publicado no Jornal Musical (03/04/2007).

 

É tempo de João Donato, mais uma vez. Aliás, é tempo de Donato há quase 60 anos, se pensarmos que o compositor, cantor, arranjador e multiinstrumentista tem como marco inicial de sua carreira profissional o ano de 1949. Ou antes ainda, se navegarmos mais longe no tempo, voltando à época em que, garoto em Rio Branco (AC), já arriscava os primeiros precoces dedilhados no acordeon. E também agora. Comprovando sua proverbial capacidade produtiva, Donato acaba de lançar simultaneamente dois discos bem diferentes. Uma tarde com Bud Shank & João Donato (Biscoito Fino) promove o reencontro do brasileiro com o saxofonista norte-americano Shank, 42 anos depois do lançamento de Bud Shank & his Brazilian friends (1965). E O piano de João Donato (Deckdisc) marca a estréia do músico no formato de piano solo, reinterpretando músicas que marcaram sua trajetória. Em um agradável fim de tarde, João abriu sua casa na Urca (Zona Sul do Rio de Janeiro) para falar do presente e do passado de sua carreira. E também para explicar como os dois novos discos se encaixam dentro de sua visão pessoal sobre a música – a qual, passados tantos anos, segue a mesma.

“Nesses anos todos meu método não mudou muito. Todas as músicas, na verdade, se parecem umas com as outras. Tem as sutilezas do desenho, os traços individuais de cada um, mas não saem muito desse esquema. Se ficar muito diferente, ninguém entende”, explica Donato, 72 anos. Tanto o disco de jazz que gravou com Bud Shank quanto o álbum de piano solo seguiram a lógica descontraída e improvisada que marca o trabalho do compositor. “Em 2004 reencontrei o Bud no festival Chivas Jazz, aqui no Rio. Desde os anos 60 nós só nos víamos esporadicamente. Perguntei na cara: ‘quer gravar um disco?’ Então tá, fomos lá. Ficamos um sábado e um domingo gravando, às pressas, de uma hora para outra. Tem faixas que não têm baixo nem bateria, porque não deu tempo de achar gente para nos acompanhar. Bud declarou que rememorou vários episódios de sua vida, fez umas viagens durante as gravações. Ele disse que nunca tinha ido tão longe. Foi muito animador”, narra Donato.

O piano… é um disco de memórias musicais, mas nem por isso Donato abdicou de seu approach espontâneo. “São músicas que eu gosto de ouvir, que acho bonitas. Há muito tempo, desde quando era adolescente, essas músicas me chamavam a atenção”, diz o compositor, referindo-se aos temas de autores como Stan Kenton, Neil Hefti e Horace Silver que estão no CD. “Eu chegava no estúdio e tocava o que me desse na telha. E depois não me lembro o que entrou e o que ficou de fora. Não foi um disco planejado. Não pensei ‘Ah, o que eu devo tocar?’ Eu dizia: ‘Vamos gravar ‘Manhã de carnaval’ e gravava. Tinha um cardápio de umas 20 canções, mas acabam entrando outras, algumas até que não existiam… Sempre gravei assim. Já no Muito à vontade (de 1963) tem várias músicas que eu fiz na hora no estúdio”.

A figura de Donato é tão associada ao piano que é difícil acreditar que só agora ele gravou um disco solo ao instrumento. Sucessos como “A rã” (com Caetano Veloso), “Bananeira” ou “Amazonas” (com o irmão Lysias Ênio) são tão conhecidos pela batida inconfundível do pianista quanto pela melodia vocal. Mais surpreendente é relembrar que, nos primeiros anos de sua carreira, Donato era especialista em acordeon. Mas, segundo ele mesmo lembra, o piano sempre esteve por ali, rondando. “Quando eu acordava de manhã – eu dormia em rede, no Acre, não tinha cama – ouvia minha irmã Eneyda tocando escalas no piano. E eu passava por ali e ficava brincando, passando a mão nas teclas”.

Além dos estudos da irmã, as possibilidades musicais eram rarefeitas – lembrem-se que estávamos nos confins da Amazônia, na década de 30 do século passado. “Eu comecei a tocar o acordeon porque era o que havia. No Acre a única referência era a banda do Exército, que tocava marchas militares, aos domingos, na praça. Eu ganhei de Papai Noel uma sanfoninha de brinquedo. Meu irmão (Lysias Ênio) também ganhou uma. Só que ele pegou a dele e abriu para ver de onde saia o som. E eu saí tocando. Tocava ‘Tatu subiu no pau’, ‘Ciranda cirandinha’. Se impressionaram com aquilo e foram me dando acordeons melhores”. Antes disso, Joãozinho brincava com flautas de bambu e batucava em panelas. Aos 11 anos, quando chegou ao Rio de Janeiro, já manejava um instrumento profissional, de 120 baixos, com o qual começou a tocar em festas da turma do colégio.

De acordeon em punho, mas cada vez mais interessado no piano (“O piano te dá a liberdade. Não é aquele trambolho pendurado no pescoço”, compara), Donato compatibilizava o amor por Luiz Gonzaga (“Meu maior ídolo, sempre foi e sempre será”) com as descobertas no campo do jazz e das big bands americanas, absorvidas no contato com as novas amizades cariocas. Entronizou-se no Sinatra-Farney Fan Club, núcleo proto-bossanovístico por onde passaram Johnny Alf, Paulo Moura, Dóris Monteiro e Nora Ney. Nessa época, virada dos anos 40 para os 50, abandonara os estudos (para horror do pai, major da Aeronaútica) e alternava a carreira de instrumentista profissional, na Rádio Guanabara, com uma incipiente boemia musical – formando os grupos Os Modernistas e, depois, os Namorados.

“Isso tudo foi antes da televisão…” lembra Donato. Em 1949, participa de sua primeira gravação. “O Altamiro Carrilho ia gravar seu primeiro 78 RPM. Nós eramos colegas, assistíamos os ensaios um do outro. Demos uma ensaiadinha e gravamos ‘Brejeiro’. É bonito até hoje. Tinha também o César (Faria) – o pai do Paulinho da Viola – no violão”. No começo da década de 50, já assinando como Donato & Seu Conjunto, mas sem deixar os Namorados, lançaria mais discos de 78 RPM; gravaria o primeiro álbum, Chá dançante, produzido por Tom Jobim, em 1956; e teria em “Minha saudade” a primeira composição sua a ser gravada, por Luís Bonfá.

Enquanto isso, sua reputação de inconformista (musicalmente e no comportamento) crescia no Rio. As noitadas que ele comandava na boate do Hotel Plaza, a partir de 1957, ficaram famosas. Mas a indisciplina de Donato e sua iconoclastia como músico – incorporando harmonias novas, dissonantes e síncopes que entortavam todos os gêneros, do baião ao samba – o tornaram um estranho no ninho, “Eu sempre gostei de música mais dissonante, mais exótica, sofisticada, sei lá como se qualifica. Aqui eu estava travado. Teve uma momento em que eu não conseguia mais nem dar canja em boate. Os gerentes diziam que minha música era anti-comercial. Mesmo depois do sucesso da bossa nova, o horizonte estava muito fechado”, considera.

Foi quando transferiu-se para a América do Norte. Em 1959, viajou para o México acompanhando o amigo Nanai (ex-Namorados) e de lá partiu para Los Angeles (EUA). Em três anos, correu o circuito das orquestras de música latina, onde trocou o acordeon e o piano pelo trombone. “Tinha ido para tocar jazz, melhorar minha técnica. Cheguei lá e procurei o jazz e cadê? Não tinha. Lugares para tocar jazz eram um ou dois, com centenas de músicos querendo um espaço… Então cada um tocava em uma orquestra latina, pra trabalhar. Não faltava emprego. O que eu ia fazer? Fui tocar com eles. Quando em Roma… (risos)” A temporada foi proveitosa, pois Donato incluiu mais uma influência – a dos sons afro-caribenhos – à sua musicalidade. “Fui para melhorar e melhorei, mas não do jeito que eu esperava. Eu já levava uma simpatia pela música cubana, quando eu a encontrei pessoalmente (risos) foi sopa no mel. Toquei com Mongo Santamaria, Tito Puente…”.

Nos anos 60, Donato viu a turma da bossa ganhar o mundo. Mas seu caminho era outro, sempre perseguindo suas revoluções pessoais. Gravou dois discos no Brasil (Muito à vontade e A bossa muito moderna de João Donato & seu trio) que ajudaram a definir o samba-jazz. De volta aos EUA, onde ficaria entre 1963 e 1972, finalmente seria aceito pela elite jazzística. “Corri várias companhias com o acetato do Muito à vontade, para ver se interessava a alguém. Ninguém queria meu disco, ninguém estava interessado naquele assunto – piano, baixo e bateria tocando coisas minhas, um brasileiro desconhecido. Até que fui à Pacific Jazz, por onde gravavam Chet Baker, Gerry Mulligan, Laurindo de Almeida. Lá houve empatia maior e o diretor da gravadora disse: ‘Gostei do seu trabalho, mas vai depender dos outros músicos te aceitarem. Não dá para ir lançando seu disco assim direto, do nada. E por acaso vou me encontrar com Bud Shank amanhã. Se ele gostar…” E o Bud gostou ele me aceitou e então gravei com ele meu primeiro disco nos EUA”.

Nos EUA e Europa, acompanhou os amigos João Gilberto, Tom Jobim, Sergio Mendes e Astrud Gilberto, e os ídolos Dorival Caymmi e Stan Kenton, entre muitos outros. Da nova aventura americana, sobraram os hoje cultDeodato Donato (unindo o piano do compositor aos arranjos de Eumir Deodato, em 1969) e A bad Donato(registrado com feras da vanguarda do jazz ianque, em 1970). O reecontro com o Brasil, em 1973, se deu com o primeiro álbum no qual Donato assumia os vocais, Quem é quem. “Eu fazia os meus teminhas, como sempre fiz. Mas nada de pensar em letra. Música para mim era o que eu gostava de ouvir, jazz instrumental, raramente tem cantor. Quando voltei ao Brasil o Agostinho (dos Santos, produtor) falou: ‘Cadê as letras? Sem letra ninguém canta’. Ai eu comecei a me preocupar com a canção propriamente dita. A gente pode fazer dezenas de temas em minutos, mas não quer dizer que são canções. Tem de ter uma bela letra e uma bela melodia, aí sim. Tem de ter uma certa capacidade de comunicação universal”, acredita o compositor.

“Quando comecei a cantar, foi um certo drama para mim. Mas segui o exemplo de Tom Jobim, Vinicius, Nelson Cavaquinho. cada um canta sua própria música com a voz que Deus lhe deu. Gente sem grande material vocal, mas com uma grande emoção. Foi um momento de mudança nos rumos da música, quando todo compositor passou a ser cantor também”, diz.

A experiência de Quem é quem se provou tão positiva que hoje Donato é um dos campeões absolutos em número de parceiros na história da MPB. “Comecei a fazer música com mais e mais gente. Um dos primeiros foi o Martinho da Vila. Aí vieram Gil, Caetano, Moraes Moreira, Abel Silva… até Baby Consuelo! Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Cacaso, Marcos Valle, Ronaldo Bastos, Lô Borges, Aldir Blanc, João Bosco, Geraldo Carneiro e até o arisco João Gilberto estão entre as dezenas de figurões que já racharam canções com Donato, que prefere oferecer as melodias aos poetas a fazer o processo inverso. “É complicado botar música em letra. É mais fácil a música ficar passeando sozinha, tentando encontrar uma letra, deixar as palavras sairem da melodia”.

As décadas de 70 e 80 exibem um Donato de ímpeto mais domado. Entre 1975 e 1996, grava apenas três LPs. Um contraste tremendo com a explosão de sua produção de lá para cá: nos últimos 11 anos, o compositor lançou nada menos que 15 álbuns (cinco deles no mesmo ano, 2002) e seu primeiro DVD, Donatural (2005). “Tenho tido momentos de silêncio também – já passei, por duas vezes diferentes, dez anos sem gravar nada e já tive anos que lancei seis discos de uma vez. Não é plano, é coincidência, vou aceitando vários convites de vários lugares, já que não tenho contrato com uma gravadora só”, diz o músico, que congrega gerações em seus discos mais recentes – dividindo espaço com nomes como Marisa Monte, Marcelo D2, Davi Moraes e Arnaldo Antunes, todos fãs confessos. Além de fazer discos também com veteranos como Paulo Moura e Emílio Santiago.

Desses anos todos, Donato afirma não ter extraído filosofia alguma, a não ser um amor incondicional pela música. E conta mais uma historinha: “Sempre me perguntam se eu tenho uma fórmula, um método para fazer música. E eu não consigo entender quem pensa que é assim que a coisa funciona. Certa vez, nos EUA, comprei um livro – por 99 cents, num supermercado 24h – chamado How to write a song. Uma duzia de grandes autores dando conselhos sobre composição. Gente de categoria, Hoagy Carmichael, Johnny Mercer… Li aquilo tudo e não gravei nada. Só lembro do conselho do Duke Ellington. Ele disse: Quando tiver uma idéia interessante, grave ou anote na hora. Pode ser um verso, uma melodia… Se deixar pra depois, você esquece e some. E aquela poderia ter sido a melhor música que você iria fazer na vida”.

ARQUIVO: JOÃO GILBERTO, 80 ANOS

(Publicado originalmente em 08/06/2011.) 

João Gilberto surgiu na minha vida antes do rock. Influência de minha mãe, que me pôs para assistir, ainda moleque, ao clássico especial Grandes Nomes, da Globo – aquele no qual João cantava com Rita Lee e o escambau. Depois, as repetidas audições de “Estate”, “Wave” e “S’wonderful” nas ondas da Rádio JB AM me tornaram ainda mais fã do cantor, isso anos antes de eu começar a comprar meus próprios discos. No dia 10 deste mês, João chega aos 80 anos, numa maré meio baixa. Comentou-se muito sobre seu iminente despejolembraram que seus três primeiros discos – régua & compasso da bossa nova – continuam sem previsão de relançamento, sua proverbial reclusão segue inquebrantável. Marco a efeméride resgatando materinha que fiz para o Cliquemusic quando dos 70 anos do baiano, que  já apontava, há uma década, a pendenga judicial que impede o relançamento de seus primeiros trabalhos.  Enquanto isso, no Mercado Livre…

Não é todo dia que uma lenda viva faz aniversário – especialmente o 70º 80° aniversário. João Gilberto Prado Pereira de Oliveira completa neste dia 10 de junho 70 80 anos: sete décadas do músico que cristalizou, na batida de seu violão e em seu canto gentil, o paradigma da bossa nova. E que, por tabela, mudou os rumos da música popular brasileira na segunda metade do século XX, transformando o samba, influenciando sucessivas gerações posteriores, popularizando a bossa nova pelo mundo, sendo copiado, e enfim tornando-se… uma lenda viva.

Se a bossa nova virou plataforma de toda uma linha evolutiva da MPB a partir do final dos anos 50, então João Gilberto é o símbolo vivo dessa evolução. Desconstruindo o samba tradicional e escapando do clichê do “cantor gutural” (e principalmente atingindo uma simbiose perfeita entre seu violão sincopado e sua voz), João deu vida às idéias do jovem Tom Jobim – transformando suas canções em algo que ainda não se tinha ouvido. A pedra filosofal da bossa nova (o álbum Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, 1958) entrou para a história por trazer os primeiros registros da revolucionária junção violão/voz de João – em Chega de Saudade e Outra Vez. E nos três LPs que gravaria em 59, 60 e 61, o cantor (um “baiano bossa nova”, como o definiu Tom Jobim) dava o formato definitivo à bossa, fazendo um “estrago” sem par na formação musical de gente como Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo e Tom Zé. “João Gilberto já estreava mestre e líder de um movimento que viraria de pernas para o ar as questões harmônica, rítmica, melódica e poética da chamada linha evolutiva da MPB”, como definiu Tárik de Souza, editor de Cliquemusic.

Lançou a música brasileira ao mundo, com seus trabalhos com Stan Getz nos anos 60. Irmanou-se à turma dos Novos Baianos, assumindo a “paternidade espiritual” de sua geração. Tocou no mundo inteiro, e depois retornou ao Brasil para mais uma vez congregar-se com seus discípulos – Caetano, Gil, Bethânia. Deixou sua marca tanto no samba-canção da era do rádio quanto na canção pop de Lobão. Ultrapassou em muito as limitações da bossa nova, chegando mesmo a renegar o estilo (“O que eu canto é samba”, disse mais de uma vez). E mesmo com toda sua fama de “difícil”, implicante, arredio, é com certeza o nome mais cultuado da história de nossa música popular.

Em 2001, 42 anos depois de ter inventado a bossa nova, João Gilberto ainda está na moda. Venceu em fevereiro um Grammy (o prêmio máximo da indústria musical dos EUA) na categoria “melhor álbum de world music” por seu último álbum, João Voz e Violão. Vai se apresentar no Festival de Jazz de Montreux, Suíça (em uma das vezes em que participou do evento, em 1985, deixou um impecável álbum ao vivo, Live at the 19th Montreux Jazz Festival). Pelo menos dois livros sobre o cantor estão para ser lançados: A Poética do Som, de Edinha Diniz, e outro, ainda sem título, preparado por Luiz Galvão (ex-Novos Baianos).

O que ouvir de João
Por incrível que pareça, a trilogia básica de álbuns nos quais João Gilberto definiu a bossa nova não está disponível em CD. Chega de Saudade (59), O Amor, o Sorriso e a Flor (60) e João Gilberto (61) foram compilados em um único CD (intitulado O Mito) em 1992 pela gravadora EMI – detentora do catálogo da antiga Odeon, que lançou as edições originais dos LPs. O Mito acabou justificando o próprio título, visto que tornou-se um disco-lenda: o próprio João Gilberto entrou na justiça contra a EMI, obrigando a gravadora a retirar os CDs das lojas. Motivo: a ordem original das faixas foi mexida, as músicas foram remixadas e ainda inventou-se um medley (juntando as metades A Felicidade e O Nosso Amor em uma só faixa), tudo isso sem sequer consultar o cantor. A EMI, que posteriormente pretendia relançar os três álbuns em seus formatos originais, está impedida de mexer no material.

(N. do. E.: João chegou a aventar a possibilidade de uma conspiração movida pelos Rolling Stones – ! – para prejudica-lo na questão com a EMI. O próprio explica – ? – nesta rara entrevista aqui.)

É pena, pois se há um CD que pode se chamar de “seminal” é O Mito. Todo o refinamento estético que JG trouxe ao samba está contido nas 38 faixas do álbum. Dos primeiros clássicos de Tom Jobim (Desafinado, Chega de Saudade, Samba de Uma Nota Só, Corcovado, Insensatez, Amor em Paz) a acenos gentis à MPB pré-bossanovística (Trem de Ferro, de Lauro Maia, É Luxo Só, de Ary Barroso e Luiz Peixoto, ou Morena Boca de Ouro, também de Barroso), passando por suas raras composições próprias (Oba-la-la, Bim-bom), João imprimia sua elegância em três álbuns que hoje têm o status de um verdadeiro manifesto sonoro.

Quem deseja conhecer a simbiose entre a MPB e o jazz tramada por João nos anos 60 deve procurar Getz/Gilberto (1964), mega-sucesso de vendas só batido pelos Beatles. O disco trazia a primeira versão em inglês para Garota de Ipanema – que, como The Girl From Ipanema, transformou-se numa das canções mais executadas da história. A mescla do saxofone de Getz (da escola cool jazz fundada por Miles Davis) com a batida do violão de João marcou época e apresentou a moderna música brasileira ao mundo (aposentando Carmem Miranda e seus cachos de banana).

Registro da maturidade iluminada do cantor, Amoroso, de 1976, é um dos discos favoritos de muita gente. No álbum, João mostra sua universalidade ao recriar do bolerão clássico (Besame Mucho) à canção romântica italiana (Estate) sem perder a pose. Releituras de Tom Jobim (Triste, Zingaro, Caminhos Cruzados, Wave) e até dos irmãos Gershwin (S’Wonderful) completam o panorama, no qual voz e violão de JG se casam com os arranjos de cordas de Claus Ogerman.

Para se ter idéia da “suave potência” da performance de João no palco, o melhor é partir para o já citado Live at the 19th Montreux Jazz Festival, registrado só na voz e violão. Clássicos da bossa nova e relíquias sambísticas (Pra Que Discutir Com Madame?, Adeus América, Preconceito) estão no repertório do disco, lançcado originalmente em 1986 como um LP duplo e transposto para CD (também duplo) em 1993.

O MITO DA ‘NOVA’ MPB: QUEM VAI CHUTAR ESSE BALDE?

O brasileiro é um povo cordial. Sim, um chavão, facilmente desmentido pelas estatísticas sobre crimes violentos. E, como todo chavão, também é rigorosamente verdadeiro. Essa cordialidade, nem sempre genuína, nem sempre produtiva, deveria ser um traço positivo de nossa personalidade coletiva. Mas às vezes atrapalha. Criatividade artística, por exemplo, não tem nada a ver com cordialidade. Na verdade, em muitos casos é necessário romper, agredir, bater de frente, para que uma expressão cultural possa florescer da maneira adequada. A iconoclastia e o confronto sempre acompanharam a evolução da música popular. Quem procura a adequação, a conciliação, a reverência se coloca, voluntariamente, à sombra daqueles que já passaram. E, com isso, atrasa a evolução do cenário. Imagine se Elvis ingressasse no exército antes de lançar o primeiro single, alinhando-se com o establishment antes de causar qualquer impacto sobre a juventude. Ou se Dylan acatasse a vontade dos puristas folkeiros e nunca tivesse empunhado uma guitarra elétrica. Ou se os jovens Caetano & Gil apenas abraçassem, sem questionamentos, as tradições musicais que os antecederam – as quais, devidamente digeridas (“antropofagizadas”?), ajudaram a formatar o tropicalismo?

Fiquei matutando sobre essas e outras ao ver essa matéria da revista Serafina, da Folha de São Paulo, retratando os caminhos da geração de artistas que vêm construindo a (pela falta de rótulo melhor) nova MPB. Na verdade, o que pegou nem foi o texto, e sim o ensaio de fotos, que pode ser visto no link citado. Pegaram a jovem guarda – Criolo, Mallu Magalhães, Rômulo Fróes, Emicida, Marcelo Jeneci – e puseram-na para recriar fotos icônicas da velha guarda. Criolo posando de Cartola, Mallu de Rita Lee, etc., tudo culminando na recriação da capa do disco Tropicália (uma ideia pra lá de manjada, já cantava a bola – em 2009 – o Matias). Ora bolas. Ficou legal, interessante, por que não fazer? Destaque na edição de domingo, uma levantada boa na moral da rapaziada, etc. E, pombas, não há nada de errado em querer se espelhar, mesmo que para um fugaz ensaio fotográfico, em gigantes do passado. Certo?

Não sei. Não consigo deixar de comparar a atitude da rapaziada que chega agora com a atitude de quem os precedeu – e que conquistou seu espaço justamente por oferecer alternativas ao que estava estabelecido. Não consigo imaginar Caetano em 1968, imitando uma pose de Francisco Alves. Ou os Mutantes fantasiados de Bando da Lua (a menos que fosse para sacanear). Ou Ney Matogrosso comportadinho, reprimido, tal e qual   Cauby Peixoto trancado no armário com suas macacas de auditório. Eles, no passado, romperam com os padrões. E nossos novos emepebeiros vão na contramão: buscam a aprovação do (e a comparação com o) cânone sagrado. Não quero dizer com isso que os artistas novos devem cair na tentação barata da polêmica vazia, do xingamento-pelo-xingamento. Nem que a grandessíssima obra das gerações passadas – e digo isso sem ironia alguma – não possa servir de referência básica e fundamental para quem está chegando. Negar o passado apenas por negar, por ideologia ou por pura oligofrenia, é estupidez. O negócio é que a forçada política de boa vizinhança que pauta nossas relações cotidianas ajuda a pasteurizar a evolução de nossa música, e atrasa o estabelecimento de novos ícones – que, antes de provar que têm valor próprio, precisam submeter-se ao ritual de aprovação.

Na verdade, isso vem de longe, e remete ao caráter cordial de que falei lá em cima. Estamos na terra da conciliação (mesmo que transitória), do tapinha nas costas (mesmo que hipócrita), do adesismo (mesmo que por interesse). É um dado que marca nossa identidade nacional. O dissenso é malvisto e o consenso deve ser procurado a qualquer custo, mesmo que implique em atraso e conservadorismo. Essa atitude tem ônus e bônus, e repercussões que permeiam toda a sociedade, do trocado dado ao flanelinha “pra ajudar” às mamatas tramadas entre os líderes da oposição e da situação no Congresso (aliás, que “oposição”?) Enfim, a vida é dura no Brasil para quem pensa diferente da maioria, ou para aqueles que questionam a ordem estabelecida. Beijar a mão, procurar um lugarzinho no coro dos contentes, cercar-se dos amigos dos amigos dos amigos, abrir a tampa da panelinha: eis a receita do sucesso.

E isso vale também, mais do que nunca, para a música popular. Um ramo no qual, todo mundo sabe, proselitismo e camaradagem podem te levar muito, muito longe. A geração do tropicalismo veio, quebrou tudo, subverteu expectativas, afrontou o establishment. E pagou caro por isso: o exílio londrino de Gil & Caê foi a ponta mais visível. Num país essencialmente anti-pop como o Brasil da virada dos anos 1960 para os 70, com um governo militar de olho em qualquer manifestação dissidente e um povão feliz com o mito do “Brasil Grande” e Odair José tocando na AM, era foda tentar reinterpretar os valores da contracultura sob uma ótica nacional. Caetano & cia foram em frente, ralaram e venceram. A próxima onda jovem que chegou ao mainstream – o BRock dos anos 80 – nasceu amigada da geração anterior, já então entronizada como a realeza da MPB. Não houve ruptura: Cazuza era o afilhado (aham) de Ney Matogrosso, Paulo Ricardo cantava ombro a ombro (aham-aham) com Caetano, Paralamas ajoelhavam-se diante de Gil. O mito da destruição dos totens, que sempre pautou a evolução da música pop, aqui não frutificou. Refastelavam-se todos, veteranos e calouros, numa festa sem fim ditada por outro mito, o da inata cordialidade brazuca, traduzido em intermináveis panelas e beija-mãos.

E a toada seguiu pelas próximas décadas, com a geração de cantoras ecléticas (quase todas lésbicas, né? Estranho), Chico Science pedindo a benção a Gil, os mineiros Skank & Jota Quest reverenciando/referenciando o Clube da Esquina. Nos anos 2000, Caetano seguiu soberano como eminência parda, especialmente após a reinvenção roqueira de  e seu apadrinhamento a mais uma geração de jovens artistas pop. A cobra mordeu o próprio rabo com a adesão de Criolo – marrento, durão – ao cortejo, circulando, cantando, fotografando com Caetano e Chico. O ensaio da Serafina então nem chega a ser uma sacada inteligente. É apenas a constatação do óbvio: não há troca de guarda na MPB, há apenas o referendo da geração passada aos novos postulantes, que não postulam nada, apenas o direito de postarem-se ao lado do trono, esperando por um olhar benevolente da realeza.

 

Leia mais sobre música brasileira:

A ENCRUZILHADA DO POP BRASILEIRO.
RENATO RUSSO, 15 ANOS DEPOIS.
A ANTEPENÚLTIMA CEIA DOS LOS HERMANOS.
LANNY GORDIN EM GUARAMIRANGA.
DOSSIÊ: CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE I)
DOSSIÊ: CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE II)
ARQUIVO: JOÃO GILBERTO, 80 ANOS.
ENTREVISTA: JOÃO DONATO.
ETERNO CHORO: ONTEM, HOJE E AMANHÃ.

 

LANNY GORDIN + DIÁRIO DE VIAGEM A GUARAMIRANGA

(Republicado originalmente em 03/08/2010.)

Passei o carnaval de 2009 envolto num frio de 12° C, no Ceará. Explico: fui lá cobrir o Festival Jazz & Blues de Guaramiranga, aprazível cidadela distante 110 km da capital Fortaleza… e plantada a 865 metros acima do nível do mar, o que explica a baixa temperatura em pleno fevereiro nordestino. Lá, entrevistei o legendário Lanny Gordin, que fez um belo show no evento. De bônus-track, mando embaixo um pequeno diário da viagem; não faltaram gargalhadas na curta temporada.  Publicado no Jornal do Brasil, fevereiro /2009. (A foto é do brother Luiz Lima, que foi meu roommate na jornada).

 

GUARAMIRANGA – O contraste entre o discurso de Lanny Gordin e sua habilidade na guitarra é gritante. Ao falar, o músico consagrado por sua participação em discos históricos como Caetano Veloso (1969), Build up (Rita Lee, 1970), Fa-tal (Gal Costa, 1971) e Expresso 2222 (Gilberto Gil, 1972) hesita, faz longas pausas, se esquece de detalhes. Empunhando sua Gibson ES-137, o músico esbanja a fluidez e a agilidade que faltam à voz. Uma das atrações do 10ª Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga, no Ceará, o guitarrista de 57 anos planeja para 2010 um novo marco de sua carreira ímpar – a gravação de um CD/DVD ao vivo comemorativo dos 10 anos de formação da banda que o acompanha, o Projeto Alfa (formado pelo baixista Fábio Sá, o guitarrista Guilherme Held e o percussionista Zé Aurélio).

– É uma banda perfeita, que acompanha muito bem o meu estilo novo – afirma Gordin sobre sua colaboração com o trio.

Retomando o improviso

Zé Aurélio, o porta-voz do PA, dá mais informações:

– Neste DVD queremos recuperar um pouco do espírito dos nossos primeiros shows, quando tocávamos de forma mais free – diz o percussionista, que conheceu Gordin em 2000, numa das apresentações que marcaram a retomada da carreira do guitarrista. – Nos discos que fizemos (Projeto Alfa I e II, lançados como um CD duplo em 2004) gravamos 90% do material na hora, ao vivo no estúdio.

Gordin confirma a predileção pelo improviso.

– Quando eu toco com eles, sai o que sair. Meu estilo não exige muita técnica, é mais uma questão de liberdade.

A produtiva união com o Projeto Alfa deu ao guitarrista a estabilidade que faltava para a segunda decolagem de sua trajetória profissional. Desde 2001, quando lançou seu primeiro álbum solo (homônimo), Gordin vem ganhando, aos pouquinhos, o espaço que sempre mereceu e que alguns negaram. Nascido em Xangai, China (!), o músico transformou-se no guitar hero da geração tropicalista ao tocar ao vivo e em estúdio com Caetano, Gil, Gal, Rita Lee, a banda do maestro Rogério Duprat e o grupo psicodélico Brazilian Octopus.

– Sempre procurei ser original. Misturávamos nossos estilos até sair a música que acabou saindo. Os cantores sempre me deixaram completamente à vontade. O Gil, quando me conheceu, disse: “Você era o guitarrista que eu estava esperando” – narra Gordin, que, entre lembranças meio enevoadas, exibe modéstia: – Não inventei nada. Já havia guitarristas tocando quando apareci. O que fiz foi comprar um pedal de wah-wah (efeito sonoro típico do rock sessentista). Admiro muito os efeitos que os músicos usam hoje. Quem sabe um dia compro um deles?

Seu toque podia ir das mais alucinadas distorções hendrixianas a delicadas dissonâncias vindas do jazz e da bossa nova. Os excessos químicos característicos dos anos 70 prejudicaram a saúde mental do guitarrista, que acabou três vezes internado em sanatórios. Ao fim da década, enquanto os baianos espraiavam-se ao sol do superestrelato pop, Gordin estava esquecido. Mas sem ressentimentos. Ainda hoje é o tropicalismo que domina o repertório atual do músico, que em Guaramiranga apresentou belíssimos arranjos novos para “Tropicália”, “Baby” e “Atrás do trio elétrico” (Caetano). E standards jazzísticos como “Fly me to the moon” e “Someday my prince will come”, além de uma delicada recriação de “Yesterday” (Beatles).

– Meu pai era dono de uma boate em São Paulo nos anos 50 e 60, chamada Stardust. Dessas músicas eu ainda me lembro, daquela época – conta o instrumentista.

Uma reconciliação com o passado se deu com o belo álbum Duos, lançado no fim de 2006. Usando como instrumentação apenas a guitarra de Gordin, o disco juntava o músico aos tropicalistas originais, a quem não via há mais de 30 anos.

– Matamos as saudades, conversamos muito – diz o guitarrista, que no CD também trouxe expoentes da atual geração do pop, como Junio Barreto, Rodrigo Amarante, Vanessa da Mata e Adriana Calcanhotto. – Ensaiávamos uma ou duas vezes cada música. Eu procurava me adaptar ao estilo de cada cantor e fazia os arranjos na hora.

Bonus-track: diário de viagem

Manhã de sexta-feira de Carnaval. O telefone toca lá pelas 10h30, enquanto eu acabava de fazer a mala.  É o Luiz.  “Cara, você também perdeu o avião, né?”

Perdi o avião?! Nada, eu deixei bem claro para a moça da assessoria que o meu vôo só podia ser na sexta-feira. E ela marcou, sexta-feira, 01h45 PM, tudo certo. “Foi o que eu pensei também”, retruca Luiz. “Mas 01h45 da manhã de sexta é de quinta para sexta, e não de sexta para sábado, né?” Gelei. Tinhamos, eu e o fotógrafo Luiz Lima, perdido nosso vôo para Fortaleza, de onde pegaríamos uma van rumo à serra cearense, para cobrirmos o Festival Jazz & Blues na cidade de Guaramiranga. É, a viagem prometia. Mas uma mera confusão de fusos não seria suficiente para me derrubar. Depois de pedirmos um milhão de desculpas para a assessoria do evento (e arcarmos com a taxa para remarcar o vôo), partimos na noite daquela sexta rumo ao Nordeste.  Passamos a noite na capital e na primeira hora da manhã de sábado subimos a serra.

Guaramiranga é uma improbabilidade geográfica; o festival é uma improbabilidade cultural. Em pleno carnaval nordestino – axé music comendo a 40° C à sombra -  não se ouvia uma batucada sequer na cidadezinha cearense. E a temperatura durante não passava dos 22°; à noite, podia cair até pruns 13°, 14°. Testemunho: madrugada de terça-feira gorda (terça para quarta, notem), chuva fina e gélida caindo, e um monte de gente lotando uma quadra polisportiva para assistir a uma mega jam session blueseira.  Mais estranho que a ficção. Não levei fé na famigerada friaca guaramiranguense e botei na mala apenas meu bom e velho Adidas vintage. Vou te contar: passei maus bocados.

Assim como estranho também era o hotel em que nos instalamos, um antigo mosteiro reformado (modo de dizer, né).  Por exemplo: não tinha sabonete no quarto. Quando pedi o dito cujo para o sujeito que fazia as vezes deconcierge do estabelecimento, o cara me olhou como se eu tivesse perguntado por um frigobar cheio de Petrus 1982. “Não tem”, disse o gajo, imperturbável. Piores  foram os olhares do quitandeiro local quando eu e Luiz – ambos de sotaque carioca, cavanhaque e trajando sportwear – aparecemos para comprar um sabonete.  “Um só pros dois?”, perguntou o bodegueiro, obviamente pondo em dúvida nossas masculinidades.

Os shows foram bacanas. Gostei especialmente da Na Ozzetti (com um repertório de clássicos ancestrais do nosso cancioneiro) e do Lanny Gordin. Mas ainda mais divertidos foram os figuraças da cidade.  Além dos malucos da área (toda cidadezinha de interior tem sua cota), o festival atraiu uma grande quantidade de doidos vindos não só de Fortaleza, mas também de outros estados.  Encontramos por exemplo uma carioca perdida na friagem, que tinha chegado à cidade sem ter onde ficar (e logo arrumou um canto na casa dum local hospitaleiro).  E um grupo de estudantes de moda vindo da capital, pronta (e ironica)mente apelidados de “Cansei de Ser Sexy“, loucos para saber novidades do Rio. Vimos que o gente boníssima Jefferson Gonçalves é um verdadeiro popstar por aquelas bandas – seus workshops de gaita são concorridíssimos e as pessoas param o cabra na rua para tirar foto! (Eu disse  “rua” e não “ruas”, e  não é exagero. Eu disse que a cidade é pequena.) Junte a tudo isso um simpático boteco que teimava em vender a dose de Red Label a R$ 6, e você vai ter uma looooonga sequência de gargalhadas madrugada adentro. A julgar pela ressaca apenas moderada nas manhãs seguintes, a procedência da beberagem era honesta.

Entretanto, a maior piada pronta não rolou na nâite, e sim sob a luz do dia. Ao final de um dos shows vespertinos, encontramos uma enorme barraca de CDs, comandada por um simpático casal. Ao nos aproximarmos, notei que os CDs eram todos, aham, artesanais (daqueles sem capa nem nada, só com o nome das faixas impressos).  Entre o mundaréu de coisas à disposição – de Pinduca a Led Zeppelin – um item me chamou a atenção. Um disco todo branco, sem inscrições adicionais além do nome “Che Guevara” na capa e nas laterais. Intrigadíssimo, pincei o artefato e dirigi-me à dona da barraca, querendo saber sobre o conteúdo do disco misterioso. Segue-se transcrição literal do diálogo que travei com a senhorinha:

- Moça, o que é isso aqui?

- Isso ai? – rebateu a dona, com uma expressão tão intrigada quanto a minha.

- É, isso  aqui – disse eu, brandindo o tal CD  do Che. – O que é?

- Isso aí? Isso aí é CD, ué!

(Só faltou dizer: “Esses cariocas vêm pra cá achando que a gente é tudo roceiro, mas nunca viram um CD na vida, oras…”). O tal disco era uma coletânea de discursos do Guevara. Achei melhor deixar lá mesmo.