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JornaliRmo Corporativo™ – A SÉRIE!

Espanando a poeira do blog, abandonado há meses, retomo o fio da meada iniciada com o GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVANuma espécie de tumblr improvisado, abrigado dentro do TdV, postarei diariamente conteúdos curtinhos – uma foto, um image macro, algumas linhas de texto – sobre as agruras que o profissional da comunicação corporativa enfrenta em sua labuta. Lembrem-se que (praticamente) tudo será extraído de experiências reais, ainda que os nomes e contextos exatos possam diferir um pouco, para proteger inocentes, culpados e, acima de tudo, a mim mesmo.

 

EPISÓDIO III: Habilidades desejáveis: inglês fluente, domínio do MS Office, telepatia

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EPISÓDIO II: Mais uma típica rodada de pedidos de revisão

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EPISÓDIO I: Meu Word está sem corressão hortográfica 

Quem nunca, não é mesmo, minha gente? (Clique na imagem para ver uma versão maior.)

Capítulo I: O GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVA.

Você é jornalista? Está empregado em um veículo de imprensa?  Digo, um veículo DE VERDADE – um jornal, uma revista, um site?  Presta contas sobre seu trabalho ao seu editor, e apenas ao seu editor, e ninguém mais?  Acredita que o seu “compromisso é com a verdade” e que o “leitor deve ser o único a julgar o seu trabalho”? Parabéns!

Ah, sim: você é um animal em extinção.

O conjunto de procedimentos e regras ao qual nos habituamos a chamar de “jornalismo” está mudando. E por “mudando”, eu quero dizer “em vias de acabar”. Vocês têm acompanhado as últimas notícias sobre o mercado brasileiro de comunicação? Ou mesmo as mais recentes conclusões sobre o futuro do jornalismo baseado em anúncios? Pois é, rapaziada, o negóço tá ruço.

Mas ainda que os empregos nas redações estejam desaparecendo (junto com as próprias redações), sempre haverá emprego para quem sabe escrever. Melhor ainda se esse camarada souber escrever de modo claro e conciso; conseguir obedecer a prazos e formatos bem definidos; souber como obter informações de outras pessoas.  Todo mundo tem uma história para contar, e não há profissional mais bem-preparado para conta-las do que os jornalistas. A diferença é que agora vivemos no mundo do conteúdo, e não mais no mundo do jornalismo. Conteúdo é uma espécie de jornalismo denorex: parece, mas não é. Em vez de trabalharmos na velha imprensa, trabalharemos em agências de comunicação, fornecendo palavrinhas, fotinhos e pagininhas para as mais diversas demandas de comunicação das mais diversas empresas. Em vez de termos um compromisso com a verdade (sic!), teremos um compromisso com o cronograma. Em vez de termos o leitor como juiz, teremos os clientes (empresas) nos julgando.

Entender como fazer a transição do jornalismo para o conteudismo é vital para o profissional de comunicação nos dias de hoje, e eu estou aqui para ajudar! Foi pensando nessa transição que resolvi escrever um livro sobre minha incursão no mundo do conteúdo. O Zen e a Arte de Gerenciar Projetos de Comunicação Corporativa é o título provisório da obra, e abaixo segue um trecho inédito: um rápido glossário de termos próprios do universo das agências de comunicação, para ajudar o pobre jornalista recém-chegado ao cenário. A conclusão do livro vai depender do meu tempo livre e, claro, da repercussão obtida por este post. Há algum interessado na plateia?

Conteudista em um raro momento de descontração na agência.

ATENDIMENTO. O setor responsável por fazer a interface entre o CLIENTE e a CRIAÇÃO e a prova viva de que sim, é possível servir a dois senhores. Isso quando o trabalho é bem feito, o que nem sempre acontece. Idealmente, deveria haver um equilíbrio entre a atenção dada ao cliente e o apoio ao trabalho da agência. Na vida real, na maioria das vezes o atendimento acaba pendendo para o lado do cliente (fazendo aquela média bacana com o pessoal da grana),  aceitando prazos impossíveis de cumprir e prometendo mundos & fundos os quais, muitas vezes, a agência não tem condição de executar. Costuma ser a ala mais arrumadinha e cheirosa da agência, composta basicamente por moças elegantes e dadivosas. Elas também detêm o conhecimento dos misteriosos meandros do MICROSOFT OFFICE, e são capazes de produzir apresentações em Power Point, CRONOGRAMAS em Project e tabelas de status em Excel, de modo profissional, clean e incompreensível.

APROVAÇÃO. O ritual místico no qual o CLIENTE dá seu OK ao material entregue pela agência. É um momento ansiosamente aguardado pelo cliente (que afinal vai ter o produto em mãos) e pela agência (que afinal vai poder faturar pelo trabalho). Mas nada é tão simples. As aprovações, via de regra, são feitas em vários níveis, após uma série de mudanças e correções (veja REFAÇÃO). No mínimo, o projeto precisa ser aprovado por um coordenador, um gerente de área e, na maioria dos casos, o diretor de comunicação da empresa-cliente. Esse diretor nunca tem tempo para nada e só vai ver o material às 17h55 de sexta-feira, para aí sim mandar refazer tudo do zero. A lentidão nas aprovações é um fator crítico no descumprimento dos CRONOGRAMAS.

BRIEFING. Todo JOB se inicia com um briefing, que vem a ser um resumo daquilo que o CLIENTE espera que a agência cumpra. Orientações básicas sobre estilo, conteúdo, contatos de pessoas a serem entrevistadas, objetivos principais do material a ser entregue, etc. Um bom briefing é sucinto e objetivo, descrevendo exatamente o que o cliente quer que a agência produza, sem se estender muito. Entretanto, bons briefings são artigos raros no mundo da CC. Em geral, os briefings são A) imprecisos, B) longos e confusos, C) crivados de expectativas irrealistas e/ou D) simplesmente imbecis. Boa parte das vezes, um único briefing se enquadra em todas as categorias descritas abaixo.

  • Exemplo de briefing A): “A reportagem tem que ter declarações das fontes X e Y, mas isso pode mudar. De qualquer maneira, ambos estão de férias agora. Talvez o diretor Z também entre. Mas não dá para confirmar isso agora. Vamos resolver depois de discutirmos internamente. Adiantem o que der enquanto isso.”
  • Exemplo de briefing B): “Temos de usar os recursos de storytelling, com um conteúdo bem em primeira pessoa, reforçando a busca pelo engajamento do usuário…” (seguem-se três páginas de yadayadayada)
  • Exemplo de briefing C): “Reportagem sobre as novas tendências da tecnologia. Entrevistados: Bill Gates, Larry Page, Mark Zuckerberg e Steve Jobs. Sim, sabemos que o Jobs morreu, mas vocês dão um jeito, né?”
  • Exemplo de briefing D): “Tema: o futuro das mídias digitais. Entrevistem dois especialistas, um contra e outro a favor.” (Esse é verdadeiro, eu mesmo fiz a reportagem.)

CLIENTE. A entidade em torno do qual gravitam as agências. Fonte de aporrinhações, noites mal-dormidas, trabalho no fim de semana, choro e ranger de dentes, mas também fonte do todo-poderoso faturamento. A galera do CONTEÚDO e  da CRIAÇÃO tem uma relação de amor e ódio com o cliente. Sem cliente, não há trabalho, nem dinheiro… mas também não há REUNIÕES, CRONOGRAMAS ou REFAÇÕES. Já a turma do ATENDIMENTO se sente muito à vontade com os clientes – claro, precisam fazer aquele social bonito para garantir que tudo saia bem. Nas palavras imortais de uma bela jovem (profissional de atendimento, claro) com quem trabalhei: “Vocês não deveriam reclamar tanto dos clientes. Eles pagam os seus salários.”

CONTEÚDO. Os textos, layouts, websites, fotos, ilustrações, infográficos, vídeos, animações, podcasts, aplicativos etc. que são produzidos pela agência e entregues aos CLIENTES. Acerta-se o JOB, recebe-se o BRIEFING, produz-se o conteúdo, entrega-se ao cliente, faz-se as REFAÇÕES pedidas, devolve-se o material e aguarda-se a APROVAÇÃO. É meio confuso explicar o conceito para os profissionais da velha guarda (especialmente jornalistas). Quanto mais rapidamente o profissional se desapegar do conteúdo que produz, mais tranquila será a sua vida. Ver também CONTEUDISTA.

CONTEUDISTA.  O conteudista é um profissional altamente demandado nas agências de comunicação. Sua função é produzir todo o tipo de textos: revistas, jornais, sites, posts de redes sociais, informes publicitários, slogans, anúncios, legendas para vídeos…  Não me canso de repetir: o jornalismo como o conhecíamos no século passado é uma arte morta. Resta às legiões de jornalistas desempregados realizar o salto definitivo rumo ao conteudismo – ou seja, escrever qualquer tipo de CONTEÚDO que demande texto. Nas agências de publicidade de formato clássico, essa é a seara dos redatores. Com a multiplicação dos projetos de comunicação corporativa e de branded content, mais e mais jornalistas estão se enquadrando no perfil. No começo, a adaptação é difícil. O jornalista que vem de uma redação vai sofrer muito até se encaixar nesse estranho mundo de CRONOGRAMAS, APROVAÇÕES e DUPLIPENSAR CORPORATIVO. Mas não se enganem, coleguinhas: caminhamos rumo a um futuro em que o jornalismo “puro” será algo cada vez mais raro. O conteudismo é única saída.

CRIAÇÃO. A porção da agência que concretamente trabalha no CONTEÚDO a ser entregue ao CLIENTE: (ex-)jornalistas, redatores, designers, consultores de mídias sociais. A CRIAÇÃO vive acossada, lutando contra CRONOGRAMAS pouco realistas, rebatendo os pedidos de REFAÇÃO enviados pelos CLIENTES e as incessantes demandas repassadas pelo ATENDIMENTO, e tentando se esquivar das constantes REUNIÕES.

CRONOGRAMA. Peça ficcional produzida em conjunto pela agência e pelo CLIENTE, fixando datas para a execução das várias etapas de um dado JOB. Funciona assim: depois de estabelecido o escopo do projeto, a agência apresenta o cronograma ao cliente, produzido com o misteriosíssimo e impenetrável Microsoft Project (ver MICROSOFT OFFICE). É um tabelão cheio de datas, linhas e prazos de entregas; o pessoal da CRIAÇÃO dá uma olhada, finge que entendeu e aprova. O cliente olha e diz que X dias devem ser diminuídos do tempo de produção – o que vai obrigar a agência a trabalhar mais rápido. A agência corre atrás, se desdobra e entrega o negócio no prazo menor… apenas para o projeto emperrar no labirinto das REFAÇÕES e das APROVAÇÕES. Não há, nunca houve e nunca haverá um cronograma cumprido à risca. Como costumo dizer, mais inútil que um cronograma, só mesmo o corretor ortográfico do Word. Ou, de acordo com uma das mais exatas leis de Murphy, “Nunca há tempo suficiente para que o trabalho saia perfeito, mas sempre há tempo para refações.”

DUPLIPENSAR CORPORATIVO. O jargão muito específico usado nas agências de conteúdo. Várias palavras aparentemente corriqueiras têm seu sentido modificado, enquanto outras, inventadas, surgem para explicar (ou não) situações inauditas. Seguem alguns exemplos:

  • Alinhamento: tentativa de garantir que todas os profissionais envolvidos em dado projeto estejam trabalhando com os mesmos objetivos, metas e prazos em mente. Nunca dá certo.
  • Demanda: problema.
  • Desafio: problema.
  • Desenvolvimento de competências: o popular desvio de função. “Fulana, do atendimento, saiu? Ah, vamos passar os clientes dela para a Beltrana. Será ótimo para ela desenvolver mais competências.”
  • Em negociação: enrolando.
  • “Estamos muito preocupados”:  prenúncio polido para algum tipo de esporro mais sério. “Estamos muito preocupados com o atraso no CRONOGRAMA…”
  • Oportunidade: problema.
  • Parceiro: profissional ou empresa disposto a trabalhar de graça, já que “vai ser bom para ele aparecer”.
  • Questão: problema.
  • “Vai ser bom pra você aparecer”: argumento principal usado para convencer alguém a se tornar um parceiro. O conceito é intimamente ligado ao de desenvolvimento de competências. Variações: “Vai enriquecer seu currículo” ou “Quebra essa agora, que mais trabalhos virão no futuro”.

JOB. Sinônimo anglicizado para “projeto”. Participar de um job é a garantia certa de encontrar demandas, desafios e oportunidades para desenvolvimento de competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO, acima).

MICROSOFT OFFICE. A fonte de onde emana todo o CONTEÚDO, devidamente formatado e empetecado. Antes de o jornalista aderir às hostes doa jornalismo comunicação corporativoa, é perfeitamente possível que ele tenha passado a vida usando apenas o bom e velho MS Word – e apenas para escrever, e olhe lá. O primeiro choque vem quando ele descobre que é possível deixar comentários (gasp!) em textos do Word. É assim que o CLIENTE sinaliza as REFAÇÕES inevitáveis que precisam ser feitas no texto. Depois, ele vai ter de aprender a usar o Excel, para acompanhar o status do CRONOGRAMA, saber quais pendências precisam ser resolvidas, etc. O próximo passo é compreender os recursos infinitos do Power Point, usado para fazer lindas e convincentes apresentações multimídia para os CLIENTES. Finalmente, quando o cansado ex-jornalista em atividade for um CONTEUDISTA pleno, vai dar o grande salto: aprender a usar o Project, com o qual se constroem os CRONOGRAMAS. Ninguém disse que seria fácil, colega.

REFAÇÃO. Palavra favorita do CLIENTE, aplicada quando surge a necessidade de refazer alguns, vários, ou TODOS os detalhes de algum item de CONTEÚDO. Outro termo exclusivo do universo das agências de comunicação/marketing. Eu mesmo só fui conhecer depois que entrei para o mundo da comunicação corporativa – e franzi a testa ao ouvir pela primeira vez, achando tratar-se de um erro. Para minha surpresa, conferi que a palavra existe no dicionário. Provavelmente vem do inglês remake. Ao menos uma vez, já ouvi a variação “refazimento” sendo usada, mas essa eu tenho certeza que não existe no Aurélio.

REUNIÃO. Ritual em função do qual toda a comunicação corporativa se organiza. Se a CC fosse um religião, a reunião seria a missa. Tudo em um projeto de CC gira em torno de reuniões, que são marcadas para iniciar o processo, para dar continuidade ao processo, para acompanhar o processo, para acompanhar o acompanhamento do processo, para promover o alinhamento, distribuir novos desafios, delimitar novas competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO), rediscutir o CRONOGRAMA, debater as REFAÇÕES a serem feitas, apresentar propostas em ppt (ver MICROSOFT OFFICE)… Entre uma reunião e outra, os CONTEUDISTAS tentam trabalhar. Às vezes, eles até conseguem.

RAFINHA BASTOS NA REDETV!: COMO IR DE 4.518.384 A 0.8 EM ZERO SEGUNDO

Não assisti à estreia do Saturday Night Live brasileiro, transmitido ontem (domingo – não sábado, domingo) pela RedeTV!. Mentira: para não dizer que não assisti, dei uma olhada em dois quadros, um que não entendi (protagonizado por dois caras que se xingavam “amistosamente” e duas mulheres que se autoflagelavam) e outro que entendi, mas que não teve graça alguma (o do casamento no qual a noiva era homem). Sou fã do programa original e tinha curiosidade para ver como o negócio iria ficar, ainda que sem muitas expectativas quanto à qualidade do programa ou mesmo sobre a validade da proposta. Afinal, se um SNL brasileiro fosse realmente uma boa ideia, não teria parado nas mãos da RedeTV!, né?

Mas mesmo sendo ruim, péssima ou pavorosa, a versão brasuca do programa despertou em mim umas ideias. Hoje pela manhã, o Ibope anunciava que a estreia do show fora um fracasso de audiência. Muita polêmica em torno de seu comandante, o comediante Rafinha Bastos, muita expectativa em torno do conteúdo da atração, e no fim deu em quase nada: 0,8 pontos de média na Grande São Paulo, o que, extrapolando para a média nacional, equivaleria a pouco mais de 152 mil domicílios. Até aí, nada de anormal. A RedeTV! sempre capengou na audiência e nem mesmo os mais otimistas esperariam que o SNL pudesse fazer frente a Gugu, Faustão e Silvio Santos.

O “anormal” é que Rafinha Bastos é uma personalidade mundial no tal mundo das redes sociais. Seu twitter é seguido, no momento em que digito, por 4.518.384  outros tuiteiros. Seu perfil para tuites em inglês (!) tem mais de 15 mil seguidores. No ano passado, uma pesquisa publicada no site do The New York Times apontava que o comediante era, então, o tuiteiro mais influente do mundo. Ora… a conta não fecha, né? Desses 4,5 milhões de pessoas que recebem os tuítes de Bastos, seria razoável supor que 99,99% tenham uma TV em casa. Onde estavam todos esses tuiteiros ontem? Por que a personalidade mais influente de uma das redes sociais mais bombadas não conseguiu traduzir esse prestígio internético para o mundo da old media?

Já tinha abordado uma questão semelhante nesse post aqui, publicado originalmente no ano passado. O fato é que todos nós (produtores, difusores e consumidores de conteúdo) ainda estamos tentando entender como funciona a conversão de valores entre a nova e a velha mídia. Milhares de “Likes” no Facebook valem quantos pontos de audiência?  Um vídeo com um milhão de execuções no YouTube foi visto por quem – por um milhão de pessoas ou por mil pessoas que clicaram mil vezes no link? Quanto vale para um patrocinador a presença de um tuiteiro com 4,5 milhões de seguidores? Quanto vale, em dinheiro do mundo real, uma companhia que presta serviços a (e é amada por) centenas de milhares de pessoas, mas que, na prática, não produz nada? 

Quem, como eu e você, passa muito tempo online, pode acabar achando que o mundo todo cabe na internet. Mas não cabe. Se cada um dos seguidores de Rafinha assistisse a seu programa, teríamos aí (considerando um tuiteiro por domicílio) mais de 23 pontos de Ibope nacional. (Humildemente, peço ajuda a qualquer leitor que entenda de estatísticas para corrigir meus cálculos e/ou meu raciocínio.) Mas esse batalhão de gente só segue o cara na web. Na web, o que basta para você dar sua audiência a alguém é um clique. Um retuite, um “Curtir”, uma hashtag. A mesma pessoa que faz isso para o Rafinha também o faz para o Luciano Huck, para o Marcelo Tas, para os caras do Pânico. Ao mesmo tempo, eles comentam posts de blogs e de portais de notícias, repassam memes em redes sociais, adicionam material a seus boards no Pinterest. Tudo junto. Essa é a lógica  - e a graça – da internet: absorver tudo ao mesmo tempo, já que é uma informação que vem de graça, chega rápido e vai rápido. E com a qual as pessoas se relacionam de modo diferente, horizontal e integrado. A fama do Rafinha se deve aos milhares de retuites que seus chistes ganham diariamente. O espectador é, de maneira nem tão indireta assim, um co-produtor do conteúdo que ele solta. Se ninguém o retuitasse, seus 4,5 milhões de seguidores não valeriam nada.

Old media não é assim. Mesmo um programa mambembe como o SNL brasileiro custa caro e precisa se pagar para manter-se no ar. E exige de seus espectadores coisas que, hoje em dia, valem muito mais do que dinheiro: tempo e atenção. Retuitar uma piada do Rafinha leva meio segundo. Daí a presumir que essa mesma pessoa vai plantar-se diante da TV por 90 minutos, aturar intervalos comerciais (e sem o botão “Você pode pular esse anúncio em 5…”) e valores de produção duvidosos, aí é esperar um pouco demais. O tchan da internet é a agilidade e o do-it-yourself, é imaginar que um moleque com um Photoshop e uma sacada boa pode criar um meme, atingindo instantaneamente um público enorme. Mas a midia mainstream não é assim. Há equipes, executivos, decisões, produções… e há a necessidade de retorno, financeiro e/ou de outras formas. E as expectativas do espectador são, naturalmente, mais altas. Na internet, aprovamos um conteúdo quando nos identificamos com o que foi comunicado, ou mesmo quando sacamos que poderíamos fazer igual (ou melhor). Vivemos conectados o tempo todo, consumindo e descartando mídia em alta velocidade – porque ela está ali, também o tempo todo. Se não olhamos agora, olhamos depois. Ou não olhamos, seguimos adiante; tem sempre um link novo à espera. Na TV (ou no cinema, ou no rádio) – com hora marcada para começar e terminar, e o pré-requisito da atenção exclusiva – queremos mais. Ou então ficamos com aquela pulga atrás da orelha. “Ora, se era para ver isso aí, eu ficava no YouTube mesmo.”

Dai o abismo entre o prestígio na web e a audiência de massa. Rafinha surgiu ao fazer um barulhão (na web) participando de um programa que nunca passou de um barulhinho (para o público de massa). A audiência decepcionante do SNL reafirma, mais uma vez, que alguns fenômenos da web nem sempre se traduzem facilmente para a mídia mainstream. E às vezes são intraduzíveis mesmo e pronto. Por isso é que ficou fácil para o Dr. Rey, que estreou ontem na RedeTV! logo depois do Rafinha, ultrapassa-lo no Ibope. O programa do médico (?) lança mão de um meme antiquíssimo, que precede toda a mídia, velha ou nova, de massa ou de nicho, mas que continua infalível: mulher pelada.

 

LOL CATS: O FUTURO DA TV?

(Publicado originalmente em 19/09/2011.)

Domingo à noite, aquela depressão que bate ao pensar na segunda-feira prestes a começar, e você sintoniza no Fantástico. Talvez por inércia, talvez porque não haja mais nada que preste na TV, talvez por gostar de verdade do programa. Aí você nota, entre uma reportagem sobre comportamento de adolescentes e uma entrevista chapa-branca da Patrícia Poeta, uns quadros meio estranhos. Tipo esse aí, do vídeo abaixo.

Ou então esse outro aqui:

Estranho, né? Você pagou uma nota para ter uma TV fininha de LCD, paga outra nota para assinar canais em full HD, e se depara com aquelas imagens em baixa definição, francamente amadoras, registradas com câmeras não-profissionais, e supostamente “divertidas” ou “intrigantes”. Pior: são imagens que você já viu em algum lugar – num linque enviado por email, no YouTube, no seu celular. Pior: você nota que essa, digamos, “opção estética” não se restringe ao Fantástico, mas também está se alastrando para outros programas.

Já percebeu quantas vezes a expressão “fenômeno na internet” tem sido usada na TV brasileira? E que cada vez mais, assuntos, personagens e principalmente imagens que nunca teriam espaço na televisão há 10, 15 anos estão ganhando destaque, apenas porque viraram “fenômenos na internet”? Note que nem me refiro a gente como Felipe Neto, que saltou de um canal do YouTube para o Esporte Espetacular. Falo do deslumbramento que a TV está demonstrando diante de qualquer porcaria que alcança notoriedade na web. Estamos tratando aqui da Globo, uma das maiores redes de televisão do mundo, que tem uma verdadeira indústria state of the art de produção de jornalismo e dramaturgia – e que dedica cada vez tempo a imagens tremidas, de gosto e qualidade dúbios, cujo único mérito foi terem se transformado em… “fenômeno na internet”. Sabe no que eu penso quando ouço essa expressão, “fenômeno na internet”?

Nisso aí. É nisso aí que eu penso quando ouço a expressão "fenômeno na internet".

É compreensível que a TV tenha curiosidade sobre a internet. Ainda é um meio novo, que está ganhando popularidade e influência num ritmo galopante aqui no Brasil, com o (relativo) barateamento das conexões rápidas e dos smartphones. Mas esse fascínio parece contraproducente. Elevar ao nível de “notícia” um meme ou um vídeo viral – coisas que nasceram para ser compartilhadas e descartadas imediatamente – é, na melhor das hipóteses, sinal de que os manda-chuvas da TV não entendem a lógica do fluxo de conteúdo na web. Na pior, significa que a preguiça e o descaso com o telespectador chegou a um nível assombroso. “Ei, tem esse vídeo aqui do gatinho! Milhões de views! Vamos repeti-lo no Fantástico, é sucesso certo!” E aí ficamos todos com nossas telas de LCD, revendo bobeiras registradas em péssima qualidade – e que provavelmente já assistimos na internet mesmo.

Vale fazer uma comparação com a reação que o cinema americano exibiu diante do avanço da TV, há cerca de 60 anos. No começo da década de 1950, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) começou a regulamentar o serviço das redes de televisão no país, o que coincidiu com a primeira explosão nas vendas dos aparelhos de TV domésticos. Já havia transmissões por lá desde 1928, a princípio experimentais, e a partir de 1946, regulares, com grade de programação e tudo o mais. A TV popularizou-se inicialmente na costa leste dos EUA: em 1947, dos estimados 44 mil aparelhos domésticos existentes no país, 30 mil estavam na região metropolitana de Nova York. Enquanto isso, na costa oeste, o cenário em Hollywood não parecia tão promissor. Em 1948, um processo federal contra os estúdios Paramount abriria o precedente para que, para combater a formação de cartel, a estrutura que permitia a existência do studio system fosse desmontada – o poder dos grandes estúdios de Hollywood provinha da verticalização da atividade cinematográfica, controlando a produção, distribuição e exibição dos filmes. Obrigados por lei a dissolver o esquema, os estúdios major (MGM, RKO, Columbia, Warner e a citada Paramount) perderam grande parte de sua capacidade de dominação dos meios de comunicação. Essa derrota, combinada com a ascensão da televisão – gratuita e conveniente, instalada nas salas de estar de cada família – fez com que os peixes graúdos de Hollywood balançassem. A quantidade de filmes produzidos caiu drasticamente a cada ano, acompanhando a queda nas bilheterias a partir de 1950 (tido como o último ano da era dourada do cinema americano).

Os estúdios, entretanto, contratacaram. E contratacaram fazendo o que sabiam fazer melhor. A TV era de graça e estava na casa de todos? OK, vamos provar que vale a pena pagar o ingresso e ir ao cinema. Vamos fazer filmes maiores, mais elaborados, mais portentosos. Vamos intensificar o uso da cor (afinal, a TV ainda era P&B). Contra a telinha pequena dos aparelhos da época, dá-lhe Vistavision, Cinemascope, filmes rodados em 70mm, em 3-D, exibidos em telas ultrapanorâmicas. Ou seja, o cinema tentou provar seu valor e suas vantagens, diante do novo e rapidamente massificado meio de comunicação. A reação de Hollywood não impediu que a TV dividisse, na segunda metade do século 20, o espaço que antes cabia apenas aos filmes no imaginário popular. Mas ao menos eles tentaram. E tentaram da maneira certa: reforçando aquilo que eles sabiam fazer de melhor.

Corta para a segunda década do século 21. A internet é, para a old media, o que a TV representava para o cinema nos anos 50. Algo novo, acessível, (mais) barato, abrindo várias possibilidades para distribuição de áudio & vídeo & jogos & textos & etc. De repente, a TV não é mais o modo preferencial e default pelo qual as pessoas acessam seus interesses (jornalismo, entretenimento, esportes, etc.). Assim como, no começo dos anos 1950, o cinema começou a perder sua primazia como principal canal de conteúdo audiovisual. E o que a TV faz, diante desse desafio? Contra-ataca como o cinema o fez, demonstrando aos espectadores que ainda há coisas que só a TV pode fazer? Não. Adere, embasbacada, ao festival de bobeiras que a internet pode produzir. E que deveria continuar restrito aos domínios da internet. Uma coisa é você interromper seu trabalho por 30 segundos para assistir a um linque no YouTube. A outra é uma rede de TV gastar neurônios (de seus profissionais) e tempo (de seu espectador) para exibir isso em horário nobre. A relação que o espectador tem com TV é completamente distinta daquela que ele mantém com a internet (mesmo porque na internet não somos meros espectadores.) Invoco Kurt Cobain e clamo: “Here we are now, entertain us!”… e vocês nos dão isso?!

Na batalha travada contra a TV, o cinema tinha uma vantagem crucial, que a caixinha da sala de estar nunca poderia ter: era uma experiência social, e ainda é. Ir ao cinema, por si só, é um programa com “valor agregado” – mais ainda nessa era de projeções 3-D, som THX, telões IMAX e sacos de pipoca XXL. A TV tem a favor de si apenas a comodidade. E mesmo nesse aspecto vem perdendo terreno para a internet, que está em todo o lugar – no celular, no relógio, na geladeira. E tudo o que a TV tem a oferecer são… “fenômenos da internet”, ocupando o espaço que deveria ser de produções e conteúdos originais?

Não sei não.