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JornaliRmo Corporativo™ – A SÉRIE!

Espanando a poeira do blog, abandonado há meses, retomo o fio da meada iniciada com o GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVANuma espécie de tumblr improvisado, abrigado dentro do TdV, postarei diariamente conteúdos curtinhos – uma foto, um image macro, algumas linhas de texto – sobre as agruras que o profissional da comunicação corporativa enfrenta em sua labuta. Lembrem-se que (praticamente) tudo será extraído de experiências reais, ainda que os nomes e contextos exatos possam diferir um pouco, para proteger inocentes, culpados e, acima de tudo, a mim mesmo.

 

EPISÓDIO III: Habilidades desejáveis: inglês fluente, domínio do MS Office, telepatia

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EPISÓDIO II: Mais uma típica rodada de pedidos de revisão

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EPISÓDIO I: Meu Word está sem corressão hortográfica 

Quem nunca, não é mesmo, minha gente? (Clique na imagem para ver uma versão maior.)

Capítulo I: O GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVA.

Você é jornalista? Está empregado em um veículo de imprensa?  Digo, um veículo DE VERDADE – um jornal, uma revista, um site?  Presta contas sobre seu trabalho ao seu editor, e apenas ao seu editor, e ninguém mais?  Acredita que o seu “compromisso é com a verdade” e que o “leitor deve ser o único a julgar o seu trabalho”? Parabéns!

Ah, sim: você é um animal em extinção.

O conjunto de procedimentos e regras ao qual nos habituamos a chamar de “jornalismo” está mudando. E por “mudando”, eu quero dizer “em vias de acabar”. Vocês têm acompanhado as últimas notícias sobre o mercado brasileiro de comunicação? Ou mesmo as mais recentes conclusões sobre o futuro do jornalismo baseado em anúncios? Pois é, rapaziada, o negóço tá ruço.

Mas ainda que os empregos nas redações estejam desaparecendo (junto com as próprias redações), sempre haverá emprego para quem sabe escrever. Melhor ainda se esse camarada souber escrever de modo claro e conciso; conseguir obedecer a prazos e formatos bem definidos; souber como obter informações de outras pessoas.  Todo mundo tem uma história para contar, e não há profissional mais bem-preparado para conta-las do que os jornalistas. A diferença é que agora vivemos no mundo do conteúdo, e não mais no mundo do jornalismo. Conteúdo é uma espécie de jornalismo denorex: parece, mas não é. Em vez de trabalharmos na velha imprensa, trabalharemos em agências de comunicação, fornecendo palavrinhas, fotinhos e pagininhas para as mais diversas demandas de comunicação das mais diversas empresas. Em vez de termos um compromisso com a verdade (sic!), teremos um compromisso com o cronograma. Em vez de termos o leitor como juiz, teremos os clientes (empresas) nos julgando.

Entender como fazer a transição do jornalismo para o conteudismo é vital para o profissional de comunicação nos dias de hoje, e eu estou aqui para ajudar! Foi pensando nessa transição que resolvi escrever um livro sobre minha incursão no mundo do conteúdo. O Zen e a Arte de Gerenciar Projetos de Comunicação Corporativa é o título provisório da obra, e abaixo segue um trecho inédito: um rápido glossário de termos próprios do universo das agências de comunicação, para ajudar o pobre jornalista recém-chegado ao cenário. A conclusão do livro vai depender do meu tempo livre e, claro, da repercussão obtida por este post. Há algum interessado na plateia?

Conteudista em um raro momento de descontração na agência.

ATENDIMENTO. O setor responsável por fazer a interface entre o CLIENTE e a CRIAÇÃO e a prova viva de que sim, é possível servir a dois senhores. Isso quando o trabalho é bem feito, o que nem sempre acontece. Idealmente, deveria haver um equilíbrio entre a atenção dada ao cliente e o apoio ao trabalho da agência. Na vida real, na maioria das vezes o atendimento acaba pendendo para o lado do cliente (fazendo aquela média bacana com o pessoal da grana),  aceitando prazos impossíveis de cumprir e prometendo mundos & fundos os quais, muitas vezes, a agência não tem condição de executar. Costuma ser a ala mais arrumadinha e cheirosa da agência, composta basicamente por moças elegantes e dadivosas. Elas também detêm o conhecimento dos misteriosos meandros do MICROSOFT OFFICE, e são capazes de produzir apresentações em Power Point, CRONOGRAMAS em Project e tabelas de status em Excel, de modo profissional, clean e incompreensível.

APROVAÇÃO. O ritual místico no qual o CLIENTE dá seu OK ao material entregue pela agência. É um momento ansiosamente aguardado pelo cliente (que afinal vai ter o produto em mãos) e pela agência (que afinal vai poder faturar pelo trabalho). Mas nada é tão simples. As aprovações, via de regra, são feitas em vários níveis, após uma série de mudanças e correções (veja REFAÇÃO). No mínimo, o projeto precisa ser aprovado por um coordenador, um gerente de área e, na maioria dos casos, o diretor de comunicação da empresa-cliente. Esse diretor nunca tem tempo para nada e só vai ver o material às 17h55 de sexta-feira, para aí sim mandar refazer tudo do zero. A lentidão nas aprovações é um fator crítico no descumprimento dos CRONOGRAMAS.

BRIEFING. Todo JOB se inicia com um briefing, que vem a ser um resumo daquilo que o CLIENTE espera que a agência cumpra. Orientações básicas sobre estilo, conteúdo, contatos de pessoas a serem entrevistadas, objetivos principais do material a ser entregue, etc. Um bom briefing é sucinto e objetivo, descrevendo exatamente o que o cliente quer que a agência produza, sem se estender muito. Entretanto, bons briefings são artigos raros no mundo da CC. Em geral, os briefings são A) imprecisos, B) longos e confusos, C) crivados de expectativas irrealistas e/ou D) simplesmente imbecis. Boa parte das vezes, um único briefing se enquadra em todas as categorias descritas abaixo.

  • Exemplo de briefing A): “A reportagem tem que ter declarações das fontes X e Y, mas isso pode mudar. De qualquer maneira, ambos estão de férias agora. Talvez o diretor Z também entre. Mas não dá para confirmar isso agora. Vamos resolver depois de discutirmos internamente. Adiantem o que der enquanto isso.”
  • Exemplo de briefing B): “Temos de usar os recursos de storytelling, com um conteúdo bem em primeira pessoa, reforçando a busca pelo engajamento do usuário…” (seguem-se três páginas de yadayadayada)
  • Exemplo de briefing C): “Reportagem sobre as novas tendências da tecnologia. Entrevistados: Bill Gates, Larry Page, Mark Zuckerberg e Steve Jobs. Sim, sabemos que o Jobs morreu, mas vocês dão um jeito, né?”
  • Exemplo de briefing D): “Tema: o futuro das mídias digitais. Entrevistem dois especialistas, um contra e outro a favor.” (Esse é verdadeiro, eu mesmo fiz a reportagem.)

CLIENTE. A entidade em torno do qual gravitam as agências. Fonte de aporrinhações, noites mal-dormidas, trabalho no fim de semana, choro e ranger de dentes, mas também fonte do todo-poderoso faturamento. A galera do CONTEÚDO e  da CRIAÇÃO tem uma relação de amor e ódio com o cliente. Sem cliente, não há trabalho, nem dinheiro… mas também não há REUNIÕES, CRONOGRAMAS ou REFAÇÕES. Já a turma do ATENDIMENTO se sente muito à vontade com os clientes – claro, precisam fazer aquele social bonito para garantir que tudo saia bem. Nas palavras imortais de uma bela jovem (profissional de atendimento, claro) com quem trabalhei: “Vocês não deveriam reclamar tanto dos clientes. Eles pagam os seus salários.”

CONTEÚDO. Os textos, layouts, websites, fotos, ilustrações, infográficos, vídeos, animações, podcasts, aplicativos etc. que são produzidos pela agência e entregues aos CLIENTES. Acerta-se o JOB, recebe-se o BRIEFING, produz-se o conteúdo, entrega-se ao cliente, faz-se as REFAÇÕES pedidas, devolve-se o material e aguarda-se a APROVAÇÃO. É meio confuso explicar o conceito para os profissionais da velha guarda (especialmente jornalistas). Quanto mais rapidamente o profissional se desapegar do conteúdo que produz, mais tranquila será a sua vida. Ver também CONTEUDISTA.

CONTEUDISTA.  O conteudista é um profissional altamente demandado nas agências de comunicação. Sua função é produzir todo o tipo de textos: revistas, jornais, sites, posts de redes sociais, informes publicitários, slogans, anúncios, legendas para vídeos…  Não me canso de repetir: o jornalismo como o conhecíamos no século passado é uma arte morta. Resta às legiões de jornalistas desempregados realizar o salto definitivo rumo ao conteudismo – ou seja, escrever qualquer tipo de CONTEÚDO que demande texto. Nas agências de publicidade de formato clássico, essa é a seara dos redatores. Com a multiplicação dos projetos de comunicação corporativa e de branded content, mais e mais jornalistas estão se enquadrando no perfil. No começo, a adaptação é difícil. O jornalista que vem de uma redação vai sofrer muito até se encaixar nesse estranho mundo de CRONOGRAMAS, APROVAÇÕES e DUPLIPENSAR CORPORATIVO. Mas não se enganem, coleguinhas: caminhamos rumo a um futuro em que o jornalismo “puro” será algo cada vez mais raro. O conteudismo é única saída.

CRIAÇÃO. A porção da agência que concretamente trabalha no CONTEÚDO a ser entregue ao CLIENTE: (ex-)jornalistas, redatores, designers, consultores de mídias sociais. A CRIAÇÃO vive acossada, lutando contra CRONOGRAMAS pouco realistas, rebatendo os pedidos de REFAÇÃO enviados pelos CLIENTES e as incessantes demandas repassadas pelo ATENDIMENTO, e tentando se esquivar das constantes REUNIÕES.

CRONOGRAMA. Peça ficcional produzida em conjunto pela agência e pelo CLIENTE, fixando datas para a execução das várias etapas de um dado JOB. Funciona assim: depois de estabelecido o escopo do projeto, a agência apresenta o cronograma ao cliente, produzido com o misteriosíssimo e impenetrável Microsoft Project (ver MICROSOFT OFFICE). É um tabelão cheio de datas, linhas e prazos de entregas; o pessoal da CRIAÇÃO dá uma olhada, finge que entendeu e aprova. O cliente olha e diz que X dias devem ser diminuídos do tempo de produção – o que vai obrigar a agência a trabalhar mais rápido. A agência corre atrás, se desdobra e entrega o negócio no prazo menor… apenas para o projeto emperrar no labirinto das REFAÇÕES e das APROVAÇÕES. Não há, nunca houve e nunca haverá um cronograma cumprido à risca. Como costumo dizer, mais inútil que um cronograma, só mesmo o corretor ortográfico do Word. Ou, de acordo com uma das mais exatas leis de Murphy, “Nunca há tempo suficiente para que o trabalho saia perfeito, mas sempre há tempo para refações.”

DUPLIPENSAR CORPORATIVO. O jargão muito específico usado nas agências de conteúdo. Várias palavras aparentemente corriqueiras têm seu sentido modificado, enquanto outras, inventadas, surgem para explicar (ou não) situações inauditas. Seguem alguns exemplos:

  • Alinhamento: tentativa de garantir que todas os profissionais envolvidos em dado projeto estejam trabalhando com os mesmos objetivos, metas e prazos em mente. Nunca dá certo.
  • Demanda: problema.
  • Desafio: problema.
  • Desenvolvimento de competências: o popular desvio de função. “Fulana, do atendimento, saiu? Ah, vamos passar os clientes dela para a Beltrana. Será ótimo para ela desenvolver mais competências.”
  • Em negociação: enrolando.
  • “Estamos muito preocupados”:  prenúncio polido para algum tipo de esporro mais sério. “Estamos muito preocupados com o atraso no CRONOGRAMA…”
  • Oportunidade: problema.
  • Parceiro: profissional ou empresa disposto a trabalhar de graça, já que “vai ser bom para ele aparecer”.
  • Questão: problema.
  • “Vai ser bom pra você aparecer”: argumento principal usado para convencer alguém a se tornar um parceiro. O conceito é intimamente ligado ao de desenvolvimento de competências. Variações: “Vai enriquecer seu currículo” ou “Quebra essa agora, que mais trabalhos virão no futuro”.

JOB. Sinônimo anglicizado para “projeto”. Participar de um job é a garantia certa de encontrar demandas, desafios e oportunidades para desenvolvimento de competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO, acima).

MICROSOFT OFFICE. A fonte de onde emana todo o CONTEÚDO, devidamente formatado e empetecado. Antes de o jornalista aderir às hostes doa jornalismo comunicação corporativoa, é perfeitamente possível que ele tenha passado a vida usando apenas o bom e velho MS Word – e apenas para escrever, e olhe lá. O primeiro choque vem quando ele descobre que é possível deixar comentários (gasp!) em textos do Word. É assim que o CLIENTE sinaliza as REFAÇÕES inevitáveis que precisam ser feitas no texto. Depois, ele vai ter de aprender a usar o Excel, para acompanhar o status do CRONOGRAMA, saber quais pendências precisam ser resolvidas, etc. O próximo passo é compreender os recursos infinitos do Power Point, usado para fazer lindas e convincentes apresentações multimídia para os CLIENTES. Finalmente, quando o cansado ex-jornalista em atividade for um CONTEUDISTA pleno, vai dar o grande salto: aprender a usar o Project, com o qual se constroem os CRONOGRAMAS. Ninguém disse que seria fácil, colega.

REFAÇÃO. Palavra favorita do CLIENTE, aplicada quando surge a necessidade de refazer alguns, vários, ou TODOS os detalhes de algum item de CONTEÚDO. Outro termo exclusivo do universo das agências de comunicação/marketing. Eu mesmo só fui conhecer depois que entrei para o mundo da comunicação corporativa – e franzi a testa ao ouvir pela primeira vez, achando tratar-se de um erro. Para minha surpresa, conferi que a palavra existe no dicionário. Provavelmente vem do inglês remake. Ao menos uma vez, já ouvi a variação “refazimento” sendo usada, mas essa eu tenho certeza que não existe no Aurélio.

REUNIÃO. Ritual em função do qual toda a comunicação corporativa se organiza. Se a CC fosse um religião, a reunião seria a missa. Tudo em um projeto de CC gira em torno de reuniões, que são marcadas para iniciar o processo, para dar continuidade ao processo, para acompanhar o processo, para acompanhar o acompanhamento do processo, para promover o alinhamento, distribuir novos desafios, delimitar novas competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO), rediscutir o CRONOGRAMA, debater as REFAÇÕES a serem feitas, apresentar propostas em ppt (ver MICROSOFT OFFICE)… Entre uma reunião e outra, os CONTEUDISTAS tentam trabalhar. Às vezes, eles até conseguem.

FLAMENGO: CRISE NA GÁVEA, CRISE DO BRASIL.

Vocês sabem (ou não) que eu nunca fui do futebol. Nunca fui peladeiro, só fui ao Maracanã para ver show (e o Papai Noel), não encosto numa bola desde que terminei o ensino secundário. Costumo dizer que futebol para mim é esporte, e não essa coisa louca que transtorna as pessoas, arruína amizades, desfaz casamentos, mata uns e faz de outros assassinos. Contudo, entendo perfeitamente porque o futebol é tão apaixonante para todo mundo. É porque o nobre esporte bretão é um simulacro quase perfeito da vida, no qual os poderosos são sempre poderosos e os pequenos, sempre pequenos – até o dia em que, por sorte, azar ou pelo tal do destino, a situação se inverte. Nenhum outro esporte se presta tanto ao sabor do acaso, às reviravoltas que permitem que a esperança seja, enfim, a última que morre. É isso que enlouquece os torcedores: a certeza de que ali, durante aqueles 90 minutos, tudo pode acontecer. E às vezes acontece.

Por osmose (minha mulher é torcedora, daquelas chatas), acabo acompanhando com interesse antropológico as idas e vindas do Flamengo.  Por curiosidade profissional, acompanho também o noticiário sobre o clube, sempre eivado de especulações, recadinhos cifrados, espetadelas e indiretas. E depois de concluir que o futebol é um resumo da vida, arrisco afirmar que o Flamengo é um resumo do Brasil.

Como o Brasil, o Flamengo também sofre de um agudo sebastianismo. A cada temporada, anuncia-se um novo salvador para o time, um supercraque contratado a peso de ouro que vai, enfim, levar o clube de volta aos tempos áureos da geração Tóquio. Apenas nos últimos quatro anos, falou-se em Ronaldo Fenômeno, o que não deu em nada; trouxeram Adriano, ele veio, viu e venceu, mas acabou derrotado pela má disciplina e hábitos ainda piores. Ronaldinho Gaúcho, o último candidato a ungido, chegou com muita fanfarra, mas conseguiu fazer um papelão ainda maior que o de Adriano. Acabou de deixar o clube, sem rumo certo, depois de derrubar um treinador (Luxemburgo), faltar a concentrações e jogos e – dizem – ter se apresentado bêbado para treinar. Não há de ser nada, Adriano, ele mesmo, está se recuperando para voltar ao Mengão…

O sebastianismo que herdamos dos portugueses ajuda a explicar a necessidade que o brasileiro tem de achar um “pai”, um guia, um responsável por essa porra toda que está aí. O cara que vai resolver. Gente esperta e não muito bem intencionada já se deu muito bem apresentando-se como esse salvador; acreditamos e, invariavelmente, nos decepcionamos. Até vir a próxima promessa. E fechamos os olhos, acreditando que dessa vez vai ser diferente. (Estamos em ano eleitoral, não esqueçam.) Se, por aqui, essa regra vale para a política, para a economia, para o showbiz, por que não valeria para o futebol? Especialmente para o futebol, que nutre-se da fé do torcedor para continuar existindo. O torcedor abraça ansiosamente o candidato a ídolo na chegada, mas joga ovos no craque quando os gols não vêm, já de olho no próximo artilheiro – esse sim vai salvar a pátria!

Assim como os empresários, empreiteiros e demais lobistas da vida real, quem dá as cartas nos bastidores do futebol já sacou que, no caso do Flamengo, explorar a expectativa por um salvador  pode ser uma fonte inesgotável de lucros. E isso não se restringe a craques: pode ser um novo técnico, um novo patrocinador, um novo dirigente. Muito parecido com o povo que esquece das mamatas e das ligações perigosas, na hora de apertar o botão da urna eletrônica. Reportando tudo com uma avidez quase canibal, está o jornalismo (sic) esportivo carioca, um caldeirão de notícias plantadas, boatos tornados verdade e balões de ensaio – no qual o Flamengo, como time de maior torcida, está sempre sob os holofotes. (É um fenômeno conhecido nas internas como Flapress.) Não muito diferente da cobertura política, verdadeiro Fla-Flu no qual as torcidas estão cada vez menos dissimuladas.

E, óbvio, não há terra melhor para um clube como o Flamengo do que o Rio de Janeiro. O sebastianismo também ajuda a entender a blindagem que protege os ricos e poderosos no Brasil. Aqui, os ungidos podem tudo, sem se preocupar com as consequências. No Rio, isso é uma verdade ainda mais incontestável. Na Gávea, essa invulnerabilidade é levada ao pé da letra, com o resultado de sempre: o ungido pode faltar treino, criticar o clube em público, arrastar-se em campo, e ainda assim mantém o status de intocável. Em Brasília, guardadas as devidas proporções, também é por aí.

O brasileiro, mesmo que seja vascaíno, corintiano ou colorado, é  flamenguista no âmago. Flamenguista na crença irracional que vai chegar alguém para resolver todos os problemas, flamenguista no oba-oba cego com que recebe o candidato a salvador da vez, flamenguista na decepção e no jeito com que se deixa manipular e ter sua paciência abusada. E flamenguista na disposição para, no dia seguinte, esquecer tudo e rezar pela chegada do próximo Sebastião.

O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE JORNALISMO!

Inédito, exclusivo para o t.d.v (27/05/2007)

Certas frases que leio por aí, mesmo não sendo originalmente humorísticas, causam-me frouxos de riso. Gosto, por exemplo, de ler entrevistas com jornalistões velhos, veteranos. Percorro o texto com minha técnica improvisada de leitura dinâmica e, batata, lá está a bendita frase: “Um dia, bati à porta do jornal tal, pedi um emprego de repórter e consegui”. Uma pândega! Outro tipo de texto que sempre me diverte são reportagens sobre os vestibulares para comunicação social. Vejam só: este ano, na prova para a Unicamp, a relação candidato-vaga bateu nos 37 (candidatos) para uma (vaga). Na Universidade Federal Fluminense, a coisa chegou a 26/1 (quando ingressei na mesma instituição, há distantes 16 anos, era 16/1). Hilário!

Divirto-me lendo essas coisas ao constatar que tanto os veteranos do jornalismo quanto os aspirantes à mesma carreira se irmanam num ponto – eles não têm a mínima noção do que se passa nas redações hoje em dia. Vá você, meu caro estudante de comunicação, bater à porta de um grande jornal, em 2007 (ou em 2000, ou 1996, ou 1990…) para “pedir um emprego de repórter”. O mais provável é que você não ultrapasse a portaria. Se ultrapassasse (e vamos supor também que você saiba a quem pedir o tal emprego) verificaria que não há emprego. Há, no máximo, TRABALHO para repórter, o que é uma coisa bem diferente. Pergunte aos coleguinhas que têm de emitir nota fiscal para receber seus salários, quer dizer, seus pró-labores mensais, e eles te explicarão as diferenças.

Igualmente sem noção são o mancebo ou a moçoila que, sofregamente, enfiam a cara nos livros para vencer a dura corrida por uma vaga num curso de comunicação. Porque, meu filho, 37 para 1 não é bolinho não. O cara não pode brincar de estudar; tem que comer os livros mesmo. E pra quê? Para, ao final de quatro ou cinco anos, ser jogado na rua da amargura com um diploma de bacharel em comunicação social, tendo de enfrentar uma relação candidato/vaga (de emprego) mil vezes pior. A cada semestre, sei lá eu quantas centenas (milhares?) de bacharéis caem na vida, disputando encarniçadamente o direito a um posto de trabalho que, 99% das vezes, não existe. (Pausa para uma recomendação de leitura: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=359ENO001)

Porque, meu caro jornalistão velho, minha cara caloura do primeiro período, arrumar emprego em jornalismo não depende de preparação, de destemor ou de capacidade intelectual. Depende de uma série de fatores que não se apreendem na faculdade, nem no exercício da profissão. Jornalismo é oligarquia – às vezes, monarquia, aquela de direito divino, mesmo. Em oligarquia não existe espaço para edificantes historinhas de ascensão-pelos-próprios-méritos. E no mundo do jornalismo, fundamentado em uma oligarquia das mais estanques e impermeáveis, não é diferente.

Não seria bom se alguém avisasse isso aos incautos, na hora em que eles marcam a opção “Comunicação Social – Habilitação: Jornalismo” no formulário de inscrição no vestibular? Como saber as chances reais que esse mesmo incauto acima tem de vencer na selva das redações? Quais são as habilidades que ele deve desenvolver? Quais características ele deve procurar cultivar?

Pois é disso que este texto trata. Com vocês, sem mais delongas, segue…

O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE COMUNICAÇÃO

A seguir, deslindarei os talentos fundamentais que um aspirante a jornalista deve possuir para ir adiante na carreira. A apresentação das mesmas virá em ordem decrescente, da mais importante para a mais dispensável. Junto a cada descrição, aponto duas estimativas porcentuais sobre o futuro profissional do homem (ou mulher) de imprensa que possuir a tal característica: a primeira relativa à chance dele (dela) arrumar o primeiro emprego, a segunda sobre a capacidade que ele (ela) terá de se dar bem no ofício.

Desnecessário dizer que todos os exemplos que citarei nos tópicos a seguir são fictícios e postos no texto para mera ilustração de caráter humorístico. E não têm, em hipótese alguma, ligação com pessoas vivas, ou mortas, ou por nascer.

Lembre-se, o fato de não possuir uma, duas ou todas as características listadas abaixo não significa, necessariamente, que você não vai conseguir vencer no jornalismo. Vai ser mais difícil, diria eu quase impossível; as coisas vão andar muito mais lentamente para você do que para os outros. Mas, como eu aponto lá no final, perseverança também conta. Pouco, mas conta.

Para se dar bem no jornalismo, você deve ter os seguintes talentos (de preferência nesta ordem):

1. SER PARENTE DE ALGUM JORNALISTA CONSAGRADO
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: variável, mas em geral a partir de 90%

Em uma oligarquia, nada supera os laços sanguíneos. Capacidade, formação, experiência, preparo, pau grande; tudo isso fica em segundo plano, se você tiver que disputar uma vaga com o parente de algum figurão. Quanto mais proeminente na profissão (dono de jornal, bingo!; editor, editor-executivo, diretor de redação, OK; seu primo que acabou de virar estagiário, não OK) for seu ancestral, melhor. Quanto mais direto for o parentesco, melhor. Filho? Perfeito. Neto? Bom também. Sobrinho? Tá valendo, tá valendo. Aquele primo seu que você só conhece de ler o nome dele no jornal? Hmmmm, acho que não. Ser parente de um jornalista bem-posto na carreira é garantia certa de arrumar o primeiro emprego. Geralmente se começa por baixo – um estágio, uma vaguinha temporária, um frila meia-boca. Mas dado o impulso inicial, a bola passa a rolar rápida. Seu primeiro emprego pode não ser na mesma empresa em que seu parente importante trabalha. Na verdade isso é até comum, propositalmente comum; como em jornalismo todo mundo conhece todo mundo (veja o talento n°3), o que não falta é oportunidade para aquele parente-de-figurão. “Ô, fulano, quebra essa pra mim, arruma uma coisinha aí pro meu sobrinho. Ele tá começando agora, pode ser qualquer coisa…” Colocando você em outra empresa, seu ancestral influente não vai precisar se preocupar com as fofocas sobre nepotismo. Não se preocupe: sabendo quem é seu padrinho, as pessoas vão tratá-lo bem, não importa onde for. Faça o arroz-com-feijão, mantenha-se marginalmente acima do medíocre e relaxe. Cedo ou tarde seu nome será lembrado para cargos melhores. Geralmente os mais cobiçados, tipo colunista ou correspondente internacional (às vezes ambos ao mesmo tempo). Em caso eventual de desemprego, há a garantia de uma rápida recolocação. Vacilos pequenos ou até médios serão relevados, dependendo da importância de seu parente. Apenas evite as cagadas de grande porte – a menos que você seja filho único do dono de algum grande conglomerado de comunicação, aí vale tudo. O lado ruim dessa moleza é a já citada fofoca. Invariavelmente, você será alvo de comentários maldosos, que atribuirão sua posição profissional não à sua capacidade, mas à influência de seu padrinho (no sentido Mario Puzo do termo). Você, claro, deve cagar para os comentários e seguir impávido adiante.
Os casos práticos de aplicação deste talento são tantos que é difícil escolher um exemplo só. Lembre-se que boa parte das corporações de comunicação no Brasil são empresas familiares, nas quais há todo um incentivo para que as novas gerações substituam as antigas.

2. SE CASAR (OU NAMORAR, OU APENAS… VOCÊ SABE) COM ALGUM JORNALISTA INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: muito instável, mas em geral alta.

Se você não nasceu nobre, sempre resta o recurso de atrair a nobreza para sua cama. Conseguir uma ligação amorosa, mesmo que efêmera e de caráter meramente carnal (A.K.A. “teste do sofá”) com um nome importante no jornalismo tem um poder incontestável de abrir portas. Quer subir rápido na carreira? Escolha um alvo, naturalmente alguém bem importante, e invista sem trégua. Uma vez conquistado o coração do(a) big shot, faça de tudo para agradá-lo(a) e prolongar a vida do relacionamento. Vale tudo: flores, bombons, pompoarismo, aquela gravidez não-planejada (me engana que eu gosto!)… Você verá como as coisas vão melhorar pro seu lado, de modo bem rápido. Em geral, à medida em que seu ente amado for ascendendo, você tende a ir no vácuo. São conhecidos casos de repórteres inexperientes que, depois de cederem aos encantos de seus chefes, ganharam promoções, postos de trabalho no exterior e até, vejam vocês, polpudas pensões alimentícias. Uma dica para quem demonstra vocação nesta área: não perca tempo com redações de veículos impressos. Parta logo para as emissoras de TV, onde o toma-lá-dá-cá carnal é mais franco e direto (e os salários são melhores). Este talento é mais disseminado entre as aspirantes do sexo feminino, uma vez que a maioria dos postos de direção nas empresas de comunicação é ocupado por homens. O que não quer dizer que os mancebos não devam arriscar seus galanteios pra riba das superiores. (E dos superiores também, por que não?) Claro que no caso da investida homem-contra-mulher, a coisa deve ser levada com um pouco mais de tato e delicadeza. Um flerte feminino pode ser interpretado como uma brincadeira charmosa. Um flerte masculino costuma dar em processo por assédio.
As vantagens e desvantagens deste talento são mais ou menos os mesmos do talento n°1. Quem trepa – perdão – sobe na carreira por conta da influência de seu cônjuge tem de aturar uma dose ainda maior de fofoca, o que pode ser especialmente cruel para com as mulheres. É preciso redobrar o cuidado com seu desempenho profissional, depois de arranjar o tão sonhado primeiro emprego. Lembre-se que se você for um jornalista medíocre, seu status vai durar apenas enquanto seu love affair estiver em vigência. Trabalhe direitinho, esforce-se, puxe os sacos certos, cumpra seus horários; assim, se o romance acabar de uma hora para a outra, você será lembrado por seus próprios méritos, e não apenas por ser a(o)-fulaninha(o)-que-deu(comeu)-pro-editor(a). Outra desvantagem radical é a possibilidade de você se enrabichar por um psicopata travestido de diretor de redação. É raro, mas já aconteceu e está documentado (http://multimidia.terra.com.br/jornaldoterra/interna/0,,OI69142-EI1038,00.html).

3. SABER COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: fazendo o jogo direitinho, com paciência, 100%.

Num ramo profissional no qual as vagas rareiam e os candidatos abundam, a capacidade de criar um personal social networking é crucial. No jornalismo, mais que isso: se você não deu a sorte de nascer parente de algum figurão, ou não tem suficiente sangue-frio (ou os predicados físicos) para seduzir seus superiores, é IMPERATIVO que você faça o maior número possível de amigos. Não importam suas opiniões e preferências pessoais, sua personalidade ou seu temperamento. Você DEVE, repito, em maiúsculas novamente, DEVE ser tão cativante, confiável, simpático, agradável, espirituoso e gente-fina quanto possível. O objetivo é criar uma ampla rede de amizades que possam te levar adiante na profissão. Sem amigos, um jornalista não chupa nem um Chicabom. Subir na carreira então, nem pensar. Quanto mais amigos você tiver, de preferência em várias redações, maior é sua chance de conseguir o primeiro emprego e também de manter-se empregado. Porque, conforme já demonstrado na descrição dos dois primeiros talentos, não importa o que você sabe ou pode fazer e sim quem você conhece. Raciocine comigo: há uma vaga no jornal X, que tem de ser preenchida pela indicação do editor Y. Se Y não tiver algum parente (talento n°1) que se encaixe na vaga, nem um(a) namorada(o) aproveitável (talento n°2), vai sobrar quem para indicar? Os amigos, ora! E é aí que você entra.
Esse talento, diferente do primeiro (que envolve laços sanguíneos) e do segundo (que, sejamos claros, envolve beleza física), pode ser aprendido e desenvolvido por qualquer um. Mas a fina arte da brodagem tem meandros e sutilezas infindas. É preciso saber de quem se aproximar; evitar a fama de puxa-saco; avaliar quais amizades valem a pena cultivar e as dignas de dispensa; entender que é razoável passar por antipático diante de 20 colegas, se isso render a cumplicidade de um chefe; desviar da síndrome de arroz de festa, aquele chato que tenta desesperadamente ser amigo de todo mundo. É importante resistir à tentação de ficar “metido” assim que assumir um cargo importante. Eu sei, é irresistível assumir uma postura arrogante uma vez estando por cima da carne-seca. É a vingança, o desconto por anos de humilhação. Conselho de amigo: mantenha-se o mesmo camarada simpático de antes. Nunca se sabe o dia de amanhã. (Como era aquele ditado mesmo? “Seja legal com as pessoas que você encontra na subida, pois você as encontrará de novo na descida”. Ou algo assim.) Sua ascensão vai depender da solidez de suas amizades, da posição que seus amigos ocupam e, por último mas não menos importante, de sorte. Portanto, espere uma caminhada mais lenta e penosa rumo ao topo, em comparação com os coleguinhas que dispoêm dos talentos n°1 e/ou n°2. Mas a longo prazo, este talento pode ser mais vantajoso que o n°2. Se você mantiver a fama de cara maneiro, tenderá a manter os amigos para sempre (e ganhar outros com o tempo). Já os romances costumam ser muito mais instáveis que as amizades…

4. SER MEMBRO DE ALGUMA FAMÍLIA RICA E/OU INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: 75%

Grana & poder nunca atrapalharam ninguém. Qualquer que seja seu projeto de vida, com dinheiro no bolso e/ou parentes influentes tudo se torna mais fácil. Dentro do jornalismo não é diferente. Um sobrenome bacanudo pode garantir uma vaga em redação, desde que você saiba onde procurar. O fato é que jornalista é uma raça bajuladora e interesseira por natureza; muitas vezes, filhos de famílias importantes têm precedência na hora de conseguir o primeiro emprego, porque a coisa vira um “favor pessoal” ao chefe do tal clã influente. Exemplo: um outrora importante (mas hoje um tanto caidaço) diário carioca é um verdadeiro cabide de empregos para os herdeiros da sociedade local. Não se trata de questionar os méritos dos moços e moças de origem chique que trabalham lá. Até porque, por serem ricos, eles tiveram chance de estudar em bons colégios, viajaram ao exterior, enfim, estão razoavelmente bem preparados. Mas a quantidade de filhos, netos e sobrinhos de granfinos realmente impressiona. Muitas das vantagens do talento n°1 são aplicáveis ao talento n°4. Você será bem-tratado e, de maneira geral, popular na redação. Uma vez empregado, suas chances de prosseguir bem na carreira são altas. Entretanto, sua fortuna pode ser uma faca de dois gumes. O repórter de família rica que exerce a profissão só por diletantismo, pelo mero prazer de ver seu nominho escrito no jornal, tem maiores possibilidades de prosseguir. Ele sabe que o trabalho em geral é pesado e estressante e que o salário nunca é condizente com a aporrinhação. Mas é o preço que se paga por um hobby não-convencional. Por outro lado, o jovem mais ambicioso logo ficará frustrado, ao perceber que em qualquer outra carreira ele estaria ganhando mais e trabalhando menos. Aí é só chamar papai/vovô/titio ao telefone que ele te arruma outro emprego, em alguma outra área.

5. SABER COMO INVENTAR PAUTAS MIRABOLANTES
Chance de arrumar o 1° emprego: N/A (só é aplicável por quem já está empregado)
Chance de se dar bem na carreira: 100%

Finalmente entramos na relação de talentos ligados especificamente ao exercício da profissão. Você, ingênuo aspirante, já deve ter constatado, estarrecido, que abstrações como “escrever bem” ou “estar sempre bem informado” são questões periféricas, secundárias, na carreira de um jornalista. Então vamos lá: se você não é filho de jornalista, não casou com jornalista, não é de família rica e ainda não formou sua network pessoal, o talento mais imporante a desenvolver é o de criar pautas interessantes. “Pauta”, não sei se você já sabe, é a idéia básica a partir da qual as reportagens são apuradas e escritas. Em todas as redações existe um sinistro ritual conhecido como “reunião de pauta”, no qual os amedrontados repórteres “cantam” (anunciam) suas sugestões de pauta para os editores. As sugestões que mais encantarem os chefes vão virar matérias reais, em geral apuradas e escritas pelo mesmo sujeito que anunciou a idéia. Mas quem não sugeriu nada – ou cantou alguma pauta que não tenha agradado – não vai ficar de braços cruzados; esses vão fazer as pautas impostas pelos próprios editores. Aprenda comigo: editores valorizam muito mais o repórter que cria a pauta do que o repórter que só a executa. Então não marque bobeira. Qualquer idéia que você tiver para uma matéria – QUALQUER uma, não importa o quão idiota ela soe – está valendo. Editores adoram repórteres que sugerem cinco, seis pautas por reunião. Mesmo que as matérias sejam impossíveis de se fazer ou simplesmente ridículas. Em alguns casos (principalmente nos jornais ditos “populares”), quanto mais ridícula, melhor! Esse talento é vital para os jornalistas free-lancers. O interessante é que, muitas vezes, dá para ganhar cartaz com os chefes só sugerindo as reportagens, sem sequer chegar a executá-las. Pautas são “derrubadas” o tempo todo no dia-a-dia das redações – faltou foto, Beltrano de Tal não falou, o evento X foi cancelado em cima da hora. Aí você, que sugeriu a matéria derrubada, não vai precisar fazê-la… mas não perde o crédito que ganhou por tê-la sugerido. Claro que é necessário um equilíbrio aqui. Tente sugerir apenas pautas que você seja capaz de apurar. Nada é pior que inventar uma idéia tresloucada, simplesmente não-factível, e se ver obrigado a apurar a matéria porque o editor adorou a sugestão. Seja criativo, mas mantenha o pé no chão.

6. SER (OU TER) CARA-DE-PAU
Chance de arrumar o 1° emprego: 75%
Chance de se dar bem na carreira: 50%

Este talento funciona muito bem em conjunto com os talentos n°3 e n°5 – na verdade, a cara-de-pau os potencializa. Manter a expressão séria enquanto se tenta convencer o editor de uma pauta totalmente idiota (mas chamativa) é fundamental em vários momentos na carreira de um repórter. E a a cara dura nunca atrapalhou ninguém a arrumar novos amigos e/ou contatos profissionais, muito pelo contrário. É necessário entender também que a cara-de-pau é básica para a função primordial do jornalista: abordar pessoas desconhecidas e chateá-las com perguntas. A cara-de-pau é fundamental para os repórteres de Geral (a editoria que cuida das notícias metropolitanas), pois são eles quem mais precisam manter contato com o povão na rua. Em Política e Esportes este talento é desejável, mas não tão necessário. Jornalistas de áreas como Economia, Cultura e Informática até podem se dar bem sem precisar da cara-de-pau (visto que a maioria das pautas chega via assessoria de imprensa, que arruma as fontes para o repórter na tranqüilidade). Mas ainda assim não deixa de ser recomendável. Ter esse talento também significa ser capaz de improvisar, “virar” uma pauta para outro lado se o resultado previsto anteriormente não foi confirmado pela apuração, enrolar o chefe quando a matéria está engasgada, convencer o entrevistado a soltar aquela frasesinha que apimenta a matéria… Este talento é ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL, repito, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL a qualquer um que queira seguir carreira em fotografia. Sem cara-de-pau, um fotógrafo não chupa nem um Chicabom.

7. ESCREVER BEM
Chance de arrumar o 1° emprego: 0%
Chance de se dar bem na carreira: 50%, ou maior, se combinado com outros talentos acima

Quem não está por dentro das mumunhas da carreira pode se espantar com a baixa colocação deste talento nesta lista. Ora, mas escrever bem – saber passar uma idéia com clareza, elegância e concisão usando a escrita – não é, afinal de contas, o requisito primordial a qualquer um que deseje ser jornalista? Nem tanto, mestre, nem tanto. Primeiramente, “escrever bem”, em jornalismo, é um conceito bastante relativo. As cabriolas estilísticas de um Machado de Assis não cabem num colunão de polícia. Por outro lado, “Os sertões” foi concebido como uma reportagem, mas vá publicar aquilo num jornal hoje em dia! A internet liberou a criatividade de um porrilhão de escritores diletantes, uns com mais talento, outros com menos (e a grande maioria, com talento nenhum). Entretanto, caros blogueiros, o escrever jornalístico depende muito menos de inspiração e criatividade e muito mais da adequação do escritor ao formato do veículo e – principalmente – de agilidade, muita agilidade. Se a hora do fechamento não perdoou Hemingway, não é contigo que ela vai arregar.
Segundamente, o escrever de maneira correta em jornalismo é um ofício perfeitamente apreensível em faculdades e/ou cursos técnicos. Não tem mistério algum: lead, pirâmide invertida, ouvir os dois lados da questão, etc. Isso aí se aprende em seis meses. (Note bem, me refiro à maneira correta. Ninguém vai sair da aulinha de Técnica de Redação II, lá pelo quinto período da faculdade, pra escrever um “A sangue frio”. Aí sim entra em cena o tal do dom – e isso não se aprende na escola.) Portanto, neste quesito, estamos todos mais ou menos nivelados. Se o cara não é uma besta completa, ele sai da faculdade sabendo bater uma materinha de jornal.
Terceiramente, escrever bem hoje em dia não importa muito – pois não há muito o que escrever, de qualquer maneira. Os espaços para texto estão cada vez menores, subordinados primeiro à quantidade de anúncios e segundo ao tamanho das fotos da reportagem. Nos jornais diários, então, a centimetragem só encolhe, a olhos vistos. O melhor exemplo é o padrão telegráfico dos jornais populares do Rio, nos quais o que vale mesmo é um título bacana e um fotão estourado. Sendo assim, quem vai precisar de gênios da escrita na redação?
Mas calma, não se desespere. Saber escrever nunca atrapalhou jornalista algum. Na verdade, este talento é altamente desejável. A questão é que APENAS saber escrever não vai levá-lo muito longe. Muitos dos luminares da profissão, de hoje e de ontem, alcançaram os píncaros da glória sem saber posicionar uma vírgula corretamente. Mas eles sabiam o bê-a-bá (alguns, apenas isso) e, combinando um razoável dom com as palavras a um ou mais talentos mais importantes, progrediram na vida. Individualmente, este é o talento menos valorizado, mas talvez seja o melhor “talento secundário” para se ter. Conselho: se você já escreve direitinho, não perca tempo na faculdade prestando atenção nas bobagens dos professores. Tente fazer o máximo possível de amigos e vá lendo e escrevendo pra cacete nas horas vagas. Assim, quando um de seus muitos amigos te indicar para alguma vaga (lembre-se, só arruma emprego quem tem amigo/parente/conjuge no lugar certo), você vai fazer bonito e impressionar não apenas o camarada que te indicou, mas também seus superiores.

8.SER PERSEVERANTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100% (mas pode demorar um bocado)
Chance de se dar bem na carreira: variável. A longuíssimo prazo, tende a crescer, especialmente se combinado com outros talentos.

Quem espera sempre alcança. Será? Bem, no jornalismo essa é uma meia verdade, ou talvez 1/5 de verdade. Mesmo que você não disponha de ao menos um dos talentos descritos acima, a paciência, a insistência e o sangue de barata podem levá-lo longe na carreira. Comece já na faculdade fazendo todas as provas de estágio que pintarem. Provavelmente não vai passar de primeira. Nem de segunda… Mas aí o talento n°8 entra em cena. Não desista! Alguma hora você pega a manha da dinâmica de grupo. Ou saca o que exatamente deve colocar na prova escrita. Ou apenas dá a sorte de encontrar competidores (ainda) menos aptos que você mesmo. Se a faculdade acabou e você ainda não arrumou estágio, persevere mais. Mostre a cara, tente fazer amizades, fique moscando em volta de seus colegas que já decolaram na profissão. Mais cedo ou mais tarde (geralmente mais tarde) alguém vai te indicar pra alguma porra, nem que seja por pena.
Uma vez empregado, redobre seu estoicismo. Na certa você vai começar por baixo, num trabalho que será a) mal-remunerado, b) extenuante ou c) sem visibilidade alguma. Provavelmente, os três ao mesmo tempo. Mas sempre tenha em mente que jornalismo, especialmente nas redações, é um ramo de altíssima rotatividade empregatícia. A inércia está a seu favor, mesmo se você não for brilhante nem tiver algum dos talentos mais importantes acima descritos. Basta manter-se no mesmo lugar, suportando os baixos salários e as potenciais humilhações, que um dia só vai sobrar você como rosto conhecido na redação. Aí sim, podem pintar as promoções, os jabás, os aumentos… Lembre-se: se a perseverança é seu único talento, em alguns momentos a coisa parecerá preta. Vai testemunhar coleguinhas mais bem-relacionados e/ou apadrinhados e/ou mais safos subindo, enquanto você continua ali, marcando passo. Morda os lábios e siga em frente, impávido. À medida em que for desenvolvendo os talentos “adquiríveis” da lista (os de número 3, 5, 6 e 7), sua situação tende a melhorar. A grande, e talvez única vantagem deste talento é que todo mundo nasce com ele, em maior ou menor grau. Aproveite ao máximo – tirando a eventual boca-livre em coletivas de imprensa, pra jornalista nada costuma ser de graça.