Archives for jornal musical

DA AMAZÔNIA À URCA, VIA CALIFÓRNIA: AS AVENTURAS DE JOÃO DONATO

(Republicado originalmente em 27/05/2007, publicado no Jornal Musical (03/04/2007).

 

É tempo de João Donato, mais uma vez. Aliás, é tempo de Donato há quase 60 anos, se pensarmos que o compositor, cantor, arranjador e multiinstrumentista tem como marco inicial de sua carreira profissional o ano de 1949. Ou antes ainda, se navegarmos mais longe no tempo, voltando à época em que, garoto em Rio Branco (AC), já arriscava os primeiros precoces dedilhados no acordeon. E também agora. Comprovando sua proverbial capacidade produtiva, Donato acaba de lançar simultaneamente dois discos bem diferentes. Uma tarde com Bud Shank & João Donato (Biscoito Fino) promove o reencontro do brasileiro com o saxofonista norte-americano Shank, 42 anos depois do lançamento de Bud Shank & his Brazilian friends (1965). E O piano de João Donato (Deckdisc) marca a estréia do músico no formato de piano solo, reinterpretando músicas que marcaram sua trajetória. Em um agradável fim de tarde, João abriu sua casa na Urca (Zona Sul do Rio de Janeiro) para falar do presente e do passado de sua carreira. E também para explicar como os dois novos discos se encaixam dentro de sua visão pessoal sobre a música – a qual, passados tantos anos, segue a mesma.

“Nesses anos todos meu método não mudou muito. Todas as músicas, na verdade, se parecem umas com as outras. Tem as sutilezas do desenho, os traços individuais de cada um, mas não saem muito desse esquema. Se ficar muito diferente, ninguém entende”, explica Donato, 72 anos. Tanto o disco de jazz que gravou com Bud Shank quanto o álbum de piano solo seguiram a lógica descontraída e improvisada que marca o trabalho do compositor. “Em 2004 reencontrei o Bud no festival Chivas Jazz, aqui no Rio. Desde os anos 60 nós só nos víamos esporadicamente. Perguntei na cara: ‘quer gravar um disco?’ Então tá, fomos lá. Ficamos um sábado e um domingo gravando, às pressas, de uma hora para outra. Tem faixas que não têm baixo nem bateria, porque não deu tempo de achar gente para nos acompanhar. Bud declarou que rememorou vários episódios de sua vida, fez umas viagens durante as gravações. Ele disse que nunca tinha ido tão longe. Foi muito animador”, narra Donato.

O piano… é um disco de memórias musicais, mas nem por isso Donato abdicou de seu approach espontâneo. “São músicas que eu gosto de ouvir, que acho bonitas. Há muito tempo, desde quando era adolescente, essas músicas me chamavam a atenção”, diz o compositor, referindo-se aos temas de autores como Stan Kenton, Neil Hefti e Horace Silver que estão no CD. “Eu chegava no estúdio e tocava o que me desse na telha. E depois não me lembro o que entrou e o que ficou de fora. Não foi um disco planejado. Não pensei ‘Ah, o que eu devo tocar?’ Eu dizia: ‘Vamos gravar ‘Manhã de carnaval’ e gravava. Tinha um cardápio de umas 20 canções, mas acabam entrando outras, algumas até que não existiam… Sempre gravei assim. Já no Muito à vontade (de 1963) tem várias músicas que eu fiz na hora no estúdio”.

A figura de Donato é tão associada ao piano que é difícil acreditar que só agora ele gravou um disco solo ao instrumento. Sucessos como “A rã” (com Caetano Veloso), “Bananeira” ou “Amazonas” (com o irmão Lysias Ênio) são tão conhecidos pela batida inconfundível do pianista quanto pela melodia vocal. Mais surpreendente é relembrar que, nos primeiros anos de sua carreira, Donato era especialista em acordeon. Mas, segundo ele mesmo lembra, o piano sempre esteve por ali, rondando. “Quando eu acordava de manhã – eu dormia em rede, no Acre, não tinha cama – ouvia minha irmã Eneyda tocando escalas no piano. E eu passava por ali e ficava brincando, passando a mão nas teclas”.

Além dos estudos da irmã, as possibilidades musicais eram rarefeitas – lembrem-se que estávamos nos confins da Amazônia, na década de 30 do século passado. “Eu comecei a tocar o acordeon porque era o que havia. No Acre a única referência era a banda do Exército, que tocava marchas militares, aos domingos, na praça. Eu ganhei de Papai Noel uma sanfoninha de brinquedo. Meu irmão (Lysias Ênio) também ganhou uma. Só que ele pegou a dele e abriu para ver de onde saia o som. E eu saí tocando. Tocava ‘Tatu subiu no pau’, ‘Ciranda cirandinha’. Se impressionaram com aquilo e foram me dando acordeons melhores”. Antes disso, Joãozinho brincava com flautas de bambu e batucava em panelas. Aos 11 anos, quando chegou ao Rio de Janeiro, já manejava um instrumento profissional, de 120 baixos, com o qual começou a tocar em festas da turma do colégio.

De acordeon em punho, mas cada vez mais interessado no piano (“O piano te dá a liberdade. Não é aquele trambolho pendurado no pescoço”, compara), Donato compatibilizava o amor por Luiz Gonzaga (“Meu maior ídolo, sempre foi e sempre será”) com as descobertas no campo do jazz e das big bands americanas, absorvidas no contato com as novas amizades cariocas. Entronizou-se no Sinatra-Farney Fan Club, núcleo proto-bossanovístico por onde passaram Johnny Alf, Paulo Moura, Dóris Monteiro e Nora Ney. Nessa época, virada dos anos 40 para os 50, abandonara os estudos (para horror do pai, major da Aeronaútica) e alternava a carreira de instrumentista profissional, na Rádio Guanabara, com uma incipiente boemia musical – formando os grupos Os Modernistas e, depois, os Namorados.

“Isso tudo foi antes da televisão…” lembra Donato. Em 1949, participa de sua primeira gravação. “O Altamiro Carrilho ia gravar seu primeiro 78 RPM. Nós eramos colegas, assistíamos os ensaios um do outro. Demos uma ensaiadinha e gravamos ‘Brejeiro’. É bonito até hoje. Tinha também o César (Faria) – o pai do Paulinho da Viola – no violão”. No começo da década de 50, já assinando como Donato & Seu Conjunto, mas sem deixar os Namorados, lançaria mais discos de 78 RPM; gravaria o primeiro álbum, Chá dançante, produzido por Tom Jobim, em 1956; e teria em “Minha saudade” a primeira composição sua a ser gravada, por Luís Bonfá.

Enquanto isso, sua reputação de inconformista (musicalmente e no comportamento) crescia no Rio. As noitadas que ele comandava na boate do Hotel Plaza, a partir de 1957, ficaram famosas. Mas a indisciplina de Donato e sua iconoclastia como músico – incorporando harmonias novas, dissonantes e síncopes que entortavam todos os gêneros, do baião ao samba – o tornaram um estranho no ninho, “Eu sempre gostei de música mais dissonante, mais exótica, sofisticada, sei lá como se qualifica. Aqui eu estava travado. Teve uma momento em que eu não conseguia mais nem dar canja em boate. Os gerentes diziam que minha música era anti-comercial. Mesmo depois do sucesso da bossa nova, o horizonte estava muito fechado”, considera.

Foi quando transferiu-se para a América do Norte. Em 1959, viajou para o México acompanhando o amigo Nanai (ex-Namorados) e de lá partiu para Los Angeles (EUA). Em três anos, correu o circuito das orquestras de música latina, onde trocou o acordeon e o piano pelo trombone. “Tinha ido para tocar jazz, melhorar minha técnica. Cheguei lá e procurei o jazz e cadê? Não tinha. Lugares para tocar jazz eram um ou dois, com centenas de músicos querendo um espaço… Então cada um tocava em uma orquestra latina, pra trabalhar. Não faltava emprego. O que eu ia fazer? Fui tocar com eles. Quando em Roma… (risos)” A temporada foi proveitosa, pois Donato incluiu mais uma influência – a dos sons afro-caribenhos – à sua musicalidade. “Fui para melhorar e melhorei, mas não do jeito que eu esperava. Eu já levava uma simpatia pela música cubana, quando eu a encontrei pessoalmente (risos) foi sopa no mel. Toquei com Mongo Santamaria, Tito Puente…”.

Nos anos 60, Donato viu a turma da bossa ganhar o mundo. Mas seu caminho era outro, sempre perseguindo suas revoluções pessoais. Gravou dois discos no Brasil (Muito à vontade e A bossa muito moderna de João Donato & seu trio) que ajudaram a definir o samba-jazz. De volta aos EUA, onde ficaria entre 1963 e 1972, finalmente seria aceito pela elite jazzística. “Corri várias companhias com o acetato do Muito à vontade, para ver se interessava a alguém. Ninguém queria meu disco, ninguém estava interessado naquele assunto – piano, baixo e bateria tocando coisas minhas, um brasileiro desconhecido. Até que fui à Pacific Jazz, por onde gravavam Chet Baker, Gerry Mulligan, Laurindo de Almeida. Lá houve empatia maior e o diretor da gravadora disse: ‘Gostei do seu trabalho, mas vai depender dos outros músicos te aceitarem. Não dá para ir lançando seu disco assim direto, do nada. E por acaso vou me encontrar com Bud Shank amanhã. Se ele gostar…” E o Bud gostou ele me aceitou e então gravei com ele meu primeiro disco nos EUA”.

Nos EUA e Europa, acompanhou os amigos João Gilberto, Tom Jobim, Sergio Mendes e Astrud Gilberto, e os ídolos Dorival Caymmi e Stan Kenton, entre muitos outros. Da nova aventura americana, sobraram os hoje cultDeodato Donato (unindo o piano do compositor aos arranjos de Eumir Deodato, em 1969) e A bad Donato(registrado com feras da vanguarda do jazz ianque, em 1970). O reecontro com o Brasil, em 1973, se deu com o primeiro álbum no qual Donato assumia os vocais, Quem é quem. “Eu fazia os meus teminhas, como sempre fiz. Mas nada de pensar em letra. Música para mim era o que eu gostava de ouvir, jazz instrumental, raramente tem cantor. Quando voltei ao Brasil o Agostinho (dos Santos, produtor) falou: ‘Cadê as letras? Sem letra ninguém canta’. Ai eu comecei a me preocupar com a canção propriamente dita. A gente pode fazer dezenas de temas em minutos, mas não quer dizer que são canções. Tem de ter uma bela letra e uma bela melodia, aí sim. Tem de ter uma certa capacidade de comunicação universal”, acredita o compositor.

“Quando comecei a cantar, foi um certo drama para mim. Mas segui o exemplo de Tom Jobim, Vinicius, Nelson Cavaquinho. cada um canta sua própria música com a voz que Deus lhe deu. Gente sem grande material vocal, mas com uma grande emoção. Foi um momento de mudança nos rumos da música, quando todo compositor passou a ser cantor também”, diz.

A experiência de Quem é quem se provou tão positiva que hoje Donato é um dos campeões absolutos em número de parceiros na história da MPB. “Comecei a fazer música com mais e mais gente. Um dos primeiros foi o Martinho da Vila. Aí vieram Gil, Caetano, Moraes Moreira, Abel Silva… até Baby Consuelo! Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Cacaso, Marcos Valle, Ronaldo Bastos, Lô Borges, Aldir Blanc, João Bosco, Geraldo Carneiro e até o arisco João Gilberto estão entre as dezenas de figurões que já racharam canções com Donato, que prefere oferecer as melodias aos poetas a fazer o processo inverso. “É complicado botar música em letra. É mais fácil a música ficar passeando sozinha, tentando encontrar uma letra, deixar as palavras sairem da melodia”.

As décadas de 70 e 80 exibem um Donato de ímpeto mais domado. Entre 1975 e 1996, grava apenas três LPs. Um contraste tremendo com a explosão de sua produção de lá para cá: nos últimos 11 anos, o compositor lançou nada menos que 15 álbuns (cinco deles no mesmo ano, 2002) e seu primeiro DVD, Donatural (2005). “Tenho tido momentos de silêncio também – já passei, por duas vezes diferentes, dez anos sem gravar nada e já tive anos que lancei seis discos de uma vez. Não é plano, é coincidência, vou aceitando vários convites de vários lugares, já que não tenho contrato com uma gravadora só”, diz o músico, que congrega gerações em seus discos mais recentes – dividindo espaço com nomes como Marisa Monte, Marcelo D2, Davi Moraes e Arnaldo Antunes, todos fãs confessos. Além de fazer discos também com veteranos como Paulo Moura e Emílio Santiago.

Desses anos todos, Donato afirma não ter extraído filosofia alguma, a não ser um amor incondicional pela música. E conta mais uma historinha: “Sempre me perguntam se eu tenho uma fórmula, um método para fazer música. E eu não consigo entender quem pensa que é assim que a coisa funciona. Certa vez, nos EUA, comprei um livro – por 99 cents, num supermercado 24h – chamado How to write a song. Uma duzia de grandes autores dando conselhos sobre composição. Gente de categoria, Hoagy Carmichael, Johnny Mercer… Li aquilo tudo e não gravei nada. Só lembro do conselho do Duke Ellington. Ele disse: Quando tiver uma idéia interessante, grave ou anote na hora. Pode ser um verso, uma melodia… Se deixar pra depois, você esquece e some. E aquela poderia ter sido a melhor música que você iria fazer na vida”.

DOSSIÊ: CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE II)

(Publicado originalmente em 04/06/2007).

Eis a segunda parte da série de reportagens que fiz recentemente sobre a crise no mercado fonográfico. São mais dois textos publicados no Jornal Musical, devidamente interligados: a cobertura da Feira Música Brasil, que rolou em março, no Recife, e uma entrevista com Carlos de Andrade, presidente da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), entidade que organizou a Feira.

Feira Música Brasil: talento é tudo, a crise não é nada
12/03/2007

Tantas foram as direções apontadas, perguntas levantadas e conclusões tiradas da Feira Música Brasil (realizada entre os dias 7 e 11 deste mês) que só mesmo uma cidade tão múltipla musicalmente como Recife (PE) poderia ser o habitat natural do evento. “A diversidade foi uma das maiores características da Feira. E quer lugar melhor para reunir tudo isso que Pernambuco, cujo nome tem dez letras e nenhuma se repete?”, gracejou Carlos de Andrade, presidente da ABMI (Associação Brasileira de Música Independente), entidade que coordenou a FMB. A reafirmação da força dos selos independentes no mercado brasileiro; a constatação de que a música brasileira é um produto de potencial comercial imenso, e que precisa ser tratada como tal; sugestões de caminhos alternativos para a crise da indústria fonográfica; uma intensa programação de negócios envolvendo acordos e parcerias entre gravadoras, produtores, artistas e órgãos governamentais; e por fim, mas nunca por último, uma batelada de shows dos mais diversos estilos, pondo em prática o que as dezenas de debates e palestras não cansaram de afirmar: que a nossa música vai muito bem, sim. Mesmo que o mercado, sempre ele, vá mal, muito mal.

A primeira edição da Feira Música Brasil (a segunda já está confirmada, no mesmo Recife, no ano que vem) ofereceu palestras, cursos, mostras de filmes, um espaço com stands de produtos e outro para negócios e parcerias e, como ninguém é de ferro, mais de 60 shows espalhados em diversos palcos. A mira era uma só: despertar a atenção do público e da mídia para a importância da música para a economia brasileira. “A música é o pilar principal da economia da cultura no Brasil e a Feira quer deixar isso claro”, afirmou Andrade. Ao final da FMB, a ABMI distribuiu publicamente um documento intitulado Carta de Recife, no qual resumiu os resultados obtidos na Feira:

“Graças às parcerias, patrocinadores e apoiadores, a Feira Música Brasil 2007 foi um sucesso.
A Feira Música Brasil 2007 foi uma plataforma de estrutura para o setor da música como pilar da economia da cultura.
A Feira Música Brasil concretizou os ideais da ABMI mostrando a importância do associativismo, da diversidade e da descentralização.
Fruto dos debates e discussões, a ABMI propõe as seguintes questões:
- A criação de mecanismos de financiamento para a música independente;
- A equiparação tributária dos bens culturais;
- O cumprimento da legislação que regula as concessões públicas de rádio e TV;
- O aperfeiçoamento do sistema de arrecadação e distribuição de direitos autorais;
- A criação de um órgão nacional para auxiliar na definição de regras de utilização dos direitos autorais, que proporcionem ao Brasil agilidade e competitividade no mercado mundial de música digital.
Recife, 10 de fevereiro de 2007″

Em termos de acordos econômicos, a ABMI considerou a primeira FMB um sucesso. As rodadas de negócios promovidas pelo Sebrae e BNDES geraram perspectivas de acordos comerciais que, confirmados, podem movimentar R$ 8 milhões, entre gravadoras, editoras, produtoras e distribuidoras. Setenta e cinco empresas tiveram seus planos de negócios de avaliados pelos analistas do Sebrae, e oito empresas foram selecionadas pelo BNDES para receber investimento do Fundo de Capitalização de Risco. As estatísticas da Feira Música Brasil apontam quase 2 mil e 100 pessoas que circularam nos auditórios e corredores do evento: 900 inscritos nas conferências e rodadas de negócios, shows que envolveram 270 músicos, 180 profissionais de imprensa em circulação, estandes de 200 expositores, 36 conferencistas, 550 profissionais de produção e apoio. No site www.feiramusicabrasil.com.br, pode-se ver fotos e notícias sobre todos os setores da feira. Na foto acima, a praça do Marco Zero, no bairro do Recife Antigo, que foi o quartel-general da feira. Foi na praça que aconteceu o show em comemoração aos 100 anos do frevo, na última sexta, dia 9.

“A salvação está nos independentes”

Quem se dispôs a acompanhar as 27 conferências oferecidas pela FMB em torno dos rumos do mercado fonográfico precisou não apenas de fôlego; também tinha de se multiplicar, pois várias das palestras tiveram horários conflitantes. As idéias foram muitas e as mais diversas, mas apontaram para direções semelhantes – o modelo de negócios do mercado atual vai desmoronar em um futuro bem próximo e as gravadoras independentes parecem estar mais preparadas para sair na frente quando a poeira baixar. “É mais fácil para as gravadoras pequenas se adaptarem a mudanças. As majors são como grandes navios, é difícil de virá-los rapidamente. Já os independentes são como lanchas, pequenas, mas que acabam indicando o caminho para o barcos maiores”, compara Carlos de Andrade. Um indício revelador é o fato de nenhuma das gravadoras majors (as multinacionais Sony BMG, Universal, Warner e EMI, que controlam mais de 80% do mercado, ter enviado representantes à FMB. “Todas foram convidadas, mas nenhuma foi cortejada para estar aqui. O comportamento do mercado ao longo de 2007 é que vai dizer se as majors estavam certas ou erradas em não vir”, diz Andrade, ressaltando que algumas independentes de renome, como a Trama, também não estiveram presentes.

Segundo César Prado, representante da distribuidora de CDs A Universal (não confundir com a gravadora homônima), o quadro é negro para quem vive da venda de discos. “Em 2002 tínhamos 7.600 lojas de CD cadastradas. Em 2005 o número caiu para 3.300. Só em 2006 mais de 300 lojas fecharam”. Maurício Bussab, da distribuidora Tratore, confirmou. “2006 foi um ano péssimo, 2007 será pior e 2008, ainda mais trágico”. Para João Augusto, dono da Deckdisc, as práticas viciadas das majors contribuem ainda mais para a crise. “O caso da EMI deu uma estragada violenta nos números de 2006″, diz, referindo-se ao escândalo contábil que derrubou a cúpula da administração brasileira do selo.

“A salvação está nos independentes”, afirma João Moreirão, vice-presidente da ABMI e ele mesmo diretor da gravadora CPC-Umes. “Nós (as independentes) somos o reflexo da capacidade do Brasil de produzir música”, diz, batendo forte no que chama de “sistema McDonalds de produção de discos”: “As gravadoras multinacionais trabalham com objetivos deletérios: querem ter apenas um punhado de artistas que vendam muito em todo o mundo. É inconcebível que um selo gigante como a Warner lance exatamente a mesma quantidade de discos brasileiros em um ano – apenas sete – que a minha gravadora, que é minúscula”.

As alternativas estão aí, e várias foram debatidas nas mesas da FMB. Pena Schmidt, veterano produtor (ajudou bandas como Ira!, Titãs e Ultraje a Rigor a decolar) e diretor do selo Tinitus, pintou um cenário caótico mas cheio de oportunidades. “Hoje música e distribuição digital são a mesma coisa. Temos de abrir mão de nossos antigos deuses e entender que a gravadora como era antes – um representante dos artistas para o mercado de música gravada – não existe mais”. Maurício Bussab, pioneiro na distribuição de música online (sua banda, Bojo, lançou em 1999 o primeiro álbum virtual do Brasil), diz que “o CD está deixando de ser um objeto de desejo. Pode ser que no futuro não haja o negócio de venda de música. O artista vai ganhar dinheiro de outras formas, com acordos corporativos com empresas ou licenciamento para filmes e comerciais, mas não com a venda direta para o ouvinte”. Moreirão reivindicou isenção de impostos para o CD de música brasileira, pedido antigo tanto de indies quanto de majors, e propôs: “Os impostos cobrados sobre os discos de artistas estrangeiros deveriam ir para um fundo de iniciativas de educação musical para o povo”.

E dentro da mesma independência, variam muito os caminhos individuais para a sobrevivência. Caso inconteste de sucesso no segmento das independentes, João Augusto apontou as diretrizes que levaram a Deckdisc a abiscoitar 2,24% do mercado em 2005, ficando atrás apenas das majors e da Indie Records. “Você pode ficar reclamando ou entrar na briga. Eu preferi entrar na briga. A gente não faz disco por favor a ninguém, e sim para fazer sucesso. Temos uma liberdade artística que as grandes gravadoras não têm, mas nossa estrutura não é nada inovadora, nossos valores são os mesmos das majors”, confirma João, que já passou por altos cargos em gravadoras como EMI, Abril Music e Polygram (atual Universal). Já o independente radical Fabrício Nobre, dono do selo Monstro e organizador dos festivais Bananada e Goiânia Noise, vai na contramão do capitalismo. “Fazemos música que é uma alternativa ao que está estabelecido aí, usando os princípios do trabalho da economia solidária e autosustentável”, diz Nobre, cujas iniciativas, entre selo e festivais, geram cerca de 100 empregos temporários.

A pirataria, online ou na banquinha do camelô, também esteve em pauta. E não necessariamente vista com maus olhos. “Nunca fomos pirateados. Acho isso uma ofensa”, brincou Bussab, da Tratore, a maior distribuidora de gravadoras independentes do Brasil. Pena Schmidt causou polêmica ao afirmar que “a pirataria é o maior serviço de divulgação que existe”. Mais ponderado e falando em nome da ABMI, Carlos de Andrade (de branco na foto abaixo, junto a Fabrício Nobre) atacou tanto o mercado de CDs piratas quanto os internautas que baixam música de graça. “Isso tudo desvaloriza o sentido da música, o valor do conteúdo daquele produto. O conceito da pirataria é um só: roubo. Precisamos educar, conscientizar o público, reprimir firmemente o pirata e investir em novas estratégias de marketing para convencer o cara que ainda compra CD a continuar comprando – e ampliar essa base”, afirma Andrade, também diretor do selo Visom.

Para além das discussões mercadológicas, ficou clara a fé que os representantes da indústria têm na força da música brasileira. Quem investir nessa força, independentemente do fim do CD ou de sua sobrevida, vai vencer. “Os números pioram a cada ano, mas a música continua”, diz Bussab. “Tudo se resume ao talento. Se a música vai ser paga ou não, isso é uma pequeníssima questão comercial. O que importa é: quantas pessoas querem ouvir aquela determinada canção? Música de graça sempre existiu”, reforça Schmidt. E o presidente da ABMI contou uma historinha que exemplifica o poder supremo do artista. “Certa vez Caetano Veloso discutiu com um diretor da Universal, que veio argumentar com ele dizendo ‘Eu sou o presidente’, e coisa e tal. E o Caetano rebateu: ‘Você é o presidente da Universal. Eu sou a Universal’”. Como redargüir?

____________________________________________________

‘Gravadoras precisam ouvir o público’, diz presidente da ABMI
08/04/2007

Haja bola de cristal para tentar prever para onde o mercado fonográfico brasileiro vai. Uma boa bússola pode ser seguir a orientação dada pelos selos independentes. Afinal, enquanto as gigantes do setor – as multinacionais Sony BMG, EMI, Warner e Universal – acusam prejuízos, balanços no vermelho e promovem demissões coletivas, as indies transformam a crise em oportunidade. Olhando tudo disso à distância está a ABMI – Associação Brasileira da Música Independente (www.abmi.com.br), órgão que congrega cerca de 100 gravadoras independentes. Fundada em janeiro de 2002, a associação vem provendo a seus sócios meios de aumentar suas forças na dura batalha por uma fatia maior do mercado (hoje dominado em mais de 80% pelas multinacionais). E, no começo do mês passado, deu sua maior demonstração pública de força ao organizar, com apoio de entidades como Petrobras e BNDES, a Feira Música Brasil (www.feiramusicabrasil.com.br), um dos maiores eventos já realizados no país em torno da indústria musical. Em entrevista ao Jornal Musical, o presidente da ABMI, Carlos Eduardo de Andrade, o popular Carlão, ele mesmo dono do selo Visom (especializado em música instrumental), falou sobre as perspectivas dos independentes em relação ao momento atual do mercado.

Jornal Musical: As gravadoras independentes parecem estar enfrentando a crise do mercado fonográfico de modo mais eficiente do que as multinacionais. Qual é o segredo?
Carlos Eduardo de Andrade: Para um selo independente, é mais fácil tomar iniciativas novas. Somos pequenos e ágeis. Uma comparação boa; as multis são como navios, grandes, poderosos, mas lentos. E nós, os independentes, somos lanchas, pequenas mas rápidas. E podemos indicar a direção aos navios grandes. Sei que isso pode parecer inveja ou despeito – ah, quem sou eu para falar das grandes gravadoras? Elas são gigantes, tem o poder de alavancar o mercado. Mas as multis não acreditaram que pudéssemos levantar uma bola tão grande quanto essa da Feira Música Brasil. A Warner recusou o convite para participar da Feira e, poucos dias depois, anunciou que teve perdas em seu balanço financeiro de 2006. Eles fizeram mal em não participar? Só podermos afirmar isso vendo os rumos que o mercado vai tomar em 2007.

Selos independentes como a Deckdisc, a Trama e a Indie ocupam hoje parcelas do mercado que seriam inatingíveis há 15, 10 anos. Já é possível falar em uma nova divisão do mercado, com os selos independentes oferecendo alternativas reais e acessíveis à música produzida pelas grandes gravadoras?
Sim. Estamos nos sentindo como parte do mercado agora. A representatividade – e a visibilidade – dos independentes só vem crescendo. Eles, os grandes, as majors, podem nos chamar de pequenos. Mas o que importa é o que o público quer. E não podemos desprezar o poder da associação. Organizações como a ABMI, a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) e a Abeart (Associação Brasileira dos Empresários Artísticos) estão se reunindo. E em ações conjuntas, com todo mundo reunido, o Golias do mercado fica parecendo pequenininho. Entre nós, os independentes, não há concorrência; as informações e os projetos são trocados entre os associados. Esses casos que você citou, como a Trama, a Deck e a Atração, por exemplo, são gravadoras muito bem sucedidas na exploração de determinados formatos que elas identificaram e que não estavam sendo atendidos pelas majors.

Queremos provar que, apesar da crise, é viável investir na indústria, pois existe uma demanda popular por música que só cresce. Se você pensar bem, tudo que nos cerca tem música: o carnaval, a televisão, o som ambiente nos restaurantes… Por isso mesmo o nosso nome é Associação Brasileira de Música Independente, e não ABDI – Associação Brasileira do Disco Independente. Porque a música é muito maior que o disco.

Fala-se muito no papel que a pirataria tem na crise do mercado. Os independentes, por apostarem em produtos e estratégias de marketing diferenciadas, sofrem menos com os piratas. Que lições os selos pequenos podem dar às grandes gravadoras? 

Posso falar pela minha gravadora, a Visom. Eu sei que nunca serei pirateado, porque o meu público é bem formado, tem educação suficiente para saber que pirataria é o mesmo que roubo. E além de tudo ele quer o produto, o encarte, o CD legítimo. É como os discos da (gravadora) Biscoito Fino: são lindos, embalagens bacanas, som ótimo. É realmente um biscoito fino, não é rosquinha Mabel (risos). Mas também tem público para a rosquinha, tudo é questão de fazer um marketing inteligente. É possível pensar em lançamentos com preços diferenciados, edições com mais ou menos atrativos para atingir todo os públicos – desde o cara que quer pagar mais para ter o digipack, o encarte especial de fotos, o DVD-bônus, até o outro que só quer o CD mesmo e mais nada, e quer pagar mais barato. Um escalonamento de versões. As gravadoras têm de conversar com o público e saber o que ele quer, para atraí-lo. Por exemplo, acho um erro tratar o camelô como inimigo. Se as majors soubessem lidar com os camelôs, que é o cara que tem acesso direto ao público, poderia colocar na banquinha dele um CD legítimo, com encarte e tudo, a R$ 5. Já pensou?
Se o departamento de marketing servisse ao A&R (artists & repertoire, o setor artístico das gravadoras), estaria tudo resolvido. Mas acontece o contrário. O problema é que, em termos de marketing, gravadora grande é tudo igual. Eles não inventam, não ousam. Nós independentes estamos mais preparados para isso, pois atuamos em nichos de mercado.

E em termos imediatos, qual é o pensamento da ABMI sobre o combate à pirataria e ao download ilegal de MP3?
A pirataria tem um efeito maléfico. É a desvalorização do sentido do conteúdo da obra. Não adianta pensar em combater a pirataria abaixando o preço do CD na loja – não se combate roubo com preço baixo, o pirata sempre vai ser mais barato. O problema é que o público enxerga o artista de cima para baixo. Olha para o cara cantando lá no palco e pensa: “Ele é rico, eu sou pobre. Vou comprar o pirata, o artista não precisa do meu dinheiro”. Isso é errado! Falta é educar esse cara, fazê-lo entender que ele está cometendo um crime. Já para quem baixa música sem pagar, o que falta é repressão, pois ele em geral tem dinheiro e um nível cultural mais alto e sabe que está fazendo algo errado. Cito o exemplo do meu filho adolescente, que baixa música da internet usando Soulseek e outras ferramentas, e me disse: “Não concebo a idéia de pagar por música”. Ora, é o que eu falei sobre a desvalorização da obra. A repressão é antipática? É, mas mais antipático ainda é o cara que rouba.

Outro assunto em pauta é o potencial da música brasileira como produto de exportação. Como a ABMI está se preparando para essa nova realidade?
Precisamos transformar o Brasil em um país completo. Agora somos apenas um agrupamento de sons regionais. A música de Pernambuco, por exemplo, chega mais fácil no mercado exterior do que no Rio de Janeiro! O Silvério Pessoa é rejeitado no Rio e em São Paulo porque é “regional demais” e no entanto é isso que desperta o interesse das pessoas lá fora. Já ouvi gente reclamando do sotaque paulista da Céu, porque foram ouvir o disco dela esperando encontrar uma “nova Maria Rita”, e isso é tudo o que ela não quer ser… A diversidade, e esse é o ponto principal da FMB, é o que tem de ser valorizado. Temos de recuperar a visão mais “européia” de mercado que vigorava há alguns anos, com investimentos a longo prazo nas carreiras dos artistas. De uns anos para cá, as filiais das gravadoras passaram a seguir o modelo norte-americano, imediatista, de retorno a curto prazo. Deu no que deu.

A Feira Música Brasil reuniu representantes de todos os setores da indústria fonográfica para um debate amplo sobre os rumos do mercado. Mas nenhuma das gravadoras multinacionais quis participar do evento. Que conclusões podemos tirar disso?

Todas as gravadoras foram convidadas, mas nenhuma foi cortejada. Veio quem quis. E nem todos os associados da ABMI vieram, tampouco. A Trama, por exemplo, é tão independente que quis ficar sozinha, nem veio (risos). Mas garanto que na próxima Feira eles virão, e pelo menos uma ou duas multinacionais também. Não existe este cabo de guerra, “independentes X majors”; a nossa questão é música brasileira X música estrangeira. Temos uma agenda positiva com relação à crise e o importante é que as multinacionais saibam que já estão todas convidadas para a próxima feira.

DOSSIÊ: CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE I)

( Publicado originalmente em 27/05/2007.)

Acompanho com interesse pessoal e profissional os desdobramentos da crise da indústria fonográfica. Nos últimos meses, tive a oportunidade de cobrir vários eventos dedicados ao tema, e acabei escrevendo algumas reportagens para o Jornal Musical sobre o tópico. Aqui, reúno cinco dessas reportagens. Esses mesmos textos me renderam um convite para uma matéria mais ampla, a ser publicada no Valor Econômico (no dia 4 de maio deste ano, com o títuloDançando conforme a música). Como no jornal o texto saiu bastante modificado, com várias inclusões apuradas pelo editor Robinson Borges, posto aqui a versão original do que eu apurei. Como bônus, postarei também uma matéria que fiz em 2003 sobre o fechamento da Abril Music – prenúncio dos dias sombrios que as gravadoras vivem hoje. Publicado nos sites Jornal Musical e Cliquemusic e no jornal Valor Econômico (trechos).

Na velocidade do som
Trechos publicados no Valor Econômico, 04/05/2007

O ano de 2007 deve passar para a história da indústria fonográfica brasileira como o momento em que as gravadoras, finalmente, caíram na real. A movimentação nas cúpulas dirigentes dos selos multinacionais (que vem sendo acompanhada de perto pela imprensa nas últimas semanas) é apenas a ponta de um iceberg que ainda prevê ajustes ainda mais profundos e mudanças radicais nas estratégias de negócios. Tudo para tentar recuperar o tempo perdido na luta contra os predadores (pirataria, downloads ilegais de música, preços altos) do mercado – um mercado que movimentava R$ 1 bilhão e 200 milhões em 1995 e em 2006, bateu no fundo do poço, chegando a R$ 250 milhões, um retração de quase 80% em uma década. Substituições de executivos em postos-chave, cortes de elenco e de investimentos estão na pauta do dia das gravadoras, que já colocam a venda de música pela internet como prioridade imediata.

Na verdade, a dança das cadeiras nas filiais brasileiras das multinacionais do disco começou ainda no ano passado, com o afastamento de Marcos Maynard da direção da EMI. A própria sede inglesa da gravadora revelou, em outubro último, que a filial brasileira manipulava seus balanços – contabilizando CDs e DVDs passados às lojas como títulos realmente vendidos ao público, ignorando os discos devolvidos ao estoque. A fraude afetou as avaliações do mercado brasileiro em 2005 e teve reflexos nos números de 2006. “Essa brincadeira da EMI deu uma estragada boa no mercado”, confirma o diretor de um importante selo independente, que já passou por várias gravadoras grandes antes de se firmar por conta própria.

Maynard, substituído por Marcelo Castello Branco, foi apenas o primeiro eliminado. A Universal demitiu seu diretor artístico, Max Pierre, no começo do mês, resultado de uma auditoria promovida pela matriz da companhia na filial local. Cláudio Condé, presidente da Warner brasileira, perdeu para Sérgio Affonso o cargo, em meados de março. Apenas a Sony & BMG não mexeu em sua cúpula – em time que está ganhando, não se mexe. Segundo o principal executivo da companhia, Alexandre Schiavo, pelo segundo ano consecutivo a gravadora manteve a posição de primeiro lugar no ranking nacional. “Nosso market share passou de 25,05%, em 2005, para 26,14%. Depois de dez anos seguidos de dominação da Universal, consolidamos nossa posição”, adianta Schiavo, com a confiança de quem está por cima – números como esses são usualmente mantidos a sete chaves pelas gravadoras, especialmente em hora de crise e de troca de comando. A manutenção da Sony & BMG no primeiro lugar do mercado já era prevista desde a divulgação, em março, da lista dos lançamentos mais vendidos em 2006. Oito títulos da gravadora de Schiavo (incluindo o campeão, Minha benção, do Padre Marcelo Rossi) integram a lista dos 20 CDs mais vendidos do ano. A estimativa é que não haja mudanças no ranking em relação a 2005, com a Sony & BMG em primeiro, Universal em segundo, EMI em terceiro e Warner em quarto lugar.

Os números oficiais do mercado no ano passado ainda não foram divulgados pela ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco). Tradicionalmente, a associação (que congrega as cinco maiores gravadoras do país: as multinacionais Sony & BMG, Warner, Universal e EMI e a brasileira Som Livre) segue o calendário da IFPI (International Federation of the Phonograph Industry) para anunciar seu balanço anual. Sabe-se, entretanto, que 2006 representou mais um degrau – para baixo – no agravamento da crise da indústria. “Nosso último ano bom foi mesmo em 2004. A indústria está de ressaca”, analisa Paulo Rosa, diretor geral da ABPD. Ele fala, sem citar números, em “uma redução bastante significativa” no tamanho do mercado em 2006. “Em 2004 não houve queda nas vendas de produtos de áudio. Já em 2005 tivemos uma redução de cerca de 13% em relação a 2004. E em 2006 a queda foi ainda maior”.

Rosa diz que o momento difícil do negócio do disco é mundial. Mas no Brasil a coisa é pior por fatores já bastante conhecidos. “Pirataria existe em qualquer lugar. Mas aqui o negócio é muito acima do tolerável. Houve avanços no combate aos piratas, o índice de mercado dominado pelos piratas vem caindo – de 52% em 2003 para cerca 40% em 2005. Só que esse efeito ainda não foi sentido pela indústria”. O diretor da ABPD também aponta que o número de downloads ilegais de MP3 (via programas de compartilhamento de arquivos como Kazaa e Soulseek) está aumentando, por conta da crescente inclusão digital no país, mas que este potencial mercado para venda legalizada de música ainda não desabrochou. “No exterior a venda de música online já começa a compensar as perdas com a pirataria e o peer-to-peer, o que não acontece no Brasil”.

Para além das conjunturas do mercado, Rosa não deixa de creditar às próprias gravadoras uma boa parcela da culpa pela crise. “No ano passado, tivemos poucos lançamentos importantes, poucos sucessos e poucas novidades. É sintomático: por anos seguidos, as gravadoras só vêm cortando, reduzindo investimentos, funcionários e seus elencos de artistas. Tenho sentido a falta de produtos fortes, que possam resgatar os grandes sucessos de outrora”. Sem citar nomes, o representante da ABPD diz que 2006 foi um ano de balanços “atípicos” por conta do alto número de devoluções de CDs às gravadoras – referência indireta ao escândalo que derrubou Marcos Maynard.

Schiavo classifica 2006 como um ano “complicado e deprimido” para o mercado, mas ressalta que sua gravadora foi “na direção contrária da crise”. “Tivemos um ano excelente, com o primeiro registro de lucro operacional depois de cinco anos no vermelho”, narra o diretor da Sony & BMG. O resultado é fruto de um plano de reestruturação em curso há quatro anos, durante os quais, segundo Schiavo, a companhia tratou de “enxergar a realidade no tamanho certo”. Ainda assim, toda essa antecipação não blindou completamente a gravadora, que detém o passe de grandes vendedores como Roberto Carlos, Ana Carolina, Zezé Di Camargo & Luciano e Bruno & Marrone. “Estamos quase no limite do achatamento de nossa margem de lucro; nos últimos anos, reduzimos o preço do CD em quase 16%. E não temos tido apoio do governo na luta contra a pirataria”, afirma Schiavo.

No meio desse tiroteio, os selos independentes seriam tropas de guerrilha, em comparação à artilharia pesada das multinacionais. Pequenos e sem muitos recursos, compensariam com a agilidade que falta às poderosas multis. Paulo Rosa acha que a crise não escolhe vítimas, grandes ou pequenas: “O mercado é um só. Os independentes têm uma mentalidade diferente, mas acabam enfrentando as mesmas dificuldades”. O presidente da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), Carlos de Andrade, tem uma visão diferente. “Aumentamos nossa participação no mercado em 2006 e ocupamos mais espaço, principalmente nos nichos onde as grandes gravadoras não entram”, diz Carlos, ele mesmo dono de um selo independente (a Visom). Ele cita casos vitoriosos em que os selos pequenos correram por fora e destronaram as grandes: “O Nordeste, por exemplo, é quase todo independente. A cena musical do Pará também. O caso da Banda Calypso é só um exemplo. No Rio Grande do Sul temos gravadoras gigantes, como a Orbeat ou a Acit”.

O termo “gigantes”, entretanto, deve ser contextualizado no caso das indies. As multinacionais ainda dominam mais de 90% do mercado. “Sabemos que nunca vamos ver a Ivete Sangalo em uma gravadora independente. Mas mais e mais grandes nomes estão saindo dos grandes selos. Com o encolhimento do mercado, gente como Alceu Valença, Chico Buarque, Djavan – ou seja, artistas já preparados para a indústria, que vendem bem e são reconhecidos – foram para a independência”. Quem se destaca no meio das independentes – em particular a Indie Records e a Deckdisc – está tentando o pulo do gato: serem reconhecidas como selos pequenos, mas capazes de abocanhar público das grandes. “A vantagem das independentes é saber que tipo de disco estão fazendo e para quem vão vender, uma noção que as multinacionais às vezes não têm”, diz, reconhecendo que, volta e meia, selos pequenos emplacam grandes sucessos. “A Deck é a major das independentes”, afirma Andrade sobre o selo carioca, que ainda cita como selos representativos a Biscoito Fino, Trama, Atração, MZA, Azul Music, Rob Digital e Dubas, dentro de um universo que abriga mais de 500 selos (cerca de 100 desses associados à ABMI).

A citada Deckdisc merece realmente o crédito do presidente da ABMI. Dominando 3,28% do mercado (números de 2005), o selo carioca tem um catálogo vasto, que vai do pop-rock ao sertanejo, e já emplacou legítimos sucessos populares como os grupos Falamansa (dois milhões de CDs vendidos) e Revelação (cerca de um milhão e meio de CDs). Foi a gravadora que mais cresceu nos últimos dez anos. Ainda assim, o presidente da companhia, João Augusto, adota um discurso cauteloso ao avaliar sua posição atual. “Tivemos um ano muito difícil, talvez o pior de nossa história”, afirma. “Nossa queda foi ainda maior que a da média do mercado, porque ativamos um plano de contingência para baixar os custos e garantir o negócio”. Ao mesmo tempo que enquadra na devida perspectiva a ascensão das independentes (“Hoje em dia não há vencedores, todos perderam alguma coisa, grandes e pequenos”), João não deixa de fazer suas apostas. “Não deixaremos de trazer novos artistas e projetos para o mercado. Temos pelo menos um sentimento de vitória por termos passado pelas tormentas sem mexer na estrutura e sem cancelar projetos”, diz.

Passado o primeiro trimestre, o ano de 2007 configura-se sombrio. “Houve uma queda de 50% nas vendas em comparação com o mesmo período do ano passado”, testemunha Alexandre Schiavo. “Para a venda de CDs, 2007 deverá ser mesmo um ano difícil”, confirma Paulo Rosa. O único consenso a que os figurões do mercado conseguem chegar é que a sobrevivência passa pela internet. “É ilusão achar que a música digital vai repor as perdas que já tivemos. Mas o segmento é importantíssimo”, resume o presidente da Sony & BMG. Em 2006, houve a chegada de duas novas megastores virtuais de música, o UOL Música e o Sonora (do portal Terra), juntando-se à pioneira iMúsica. Em 2007 entrou no ar o BaixaHits (mantido pelo grupo Jovem Pan) e o provedor de internet IG também prepara sua loja de música. Gravadoras independentes como a Deckdisc e a Rob Digital e multinacionais como a Warner também já vendem seu catálogo por meio do download pago.

Neste contexto, seria de se esperar que os principais players de venda de música online estejam animados com a expansão, certo? Mais ou menos. O download pago representa apenas 2% das receitas das gravadoras brasileiras (enquanto nos EUA, Europa e Japão chega a 10% do total). O iMúsica teve em 2006 uma média de 30 mil faixas comercializadas por mês, número irrisório diante do mais de um bilhão de canções que os internautas brasileiros baixaram sem pagar no ano passado (segundo a ABPD). “Nossa perspectiva para 2007 é positiva por um único motivo: nosso mercado ainda não existe, na prática. Então, só podemos olhar para cima”, afirma Felipe Llerena, um dos fundadores do iMúsica, primeiro site a vender (já em 2000) música pela internet no Brasil. No entanto, diferente do resto da indústria, Llerena tem motivos para comemorar pelo ano que passou. “Passamos finalmente, com a adesão da Sony & BMG e da Universal, a oferecer músicas das quatro gravadoras multinacionais. Hoje temos o maior banco digital de música brasileira à venda na internet, o que é interessantíssimo para o mercado exterior”. A animação é ainda maior quando se fala em download para telefones celulares. “Já em 2007 passaremos a vender canções full-track (músicas inteiras, em MP3 estéreo) de várias gravadoras, para todas as operadores de telefonia. Temos 100 milhões de celulares no Brasil, é um mercado que cresce a cada dia e o que é melhor – sem pirataria”, afirma Llerena.

“Estamos, como sempre, otimistas. Esperamos que as gravadoras consigam reagir em 2007”, resume, em nome da ABPD, Paulo Rosa. Multinacionais e independentes preparam suas armas, em movimentos baseados na cautela. A líder do mercado vai batalhar por mais apoio do governo. “Queremos discutir a sério a questão da isenção de impostos para CDs e DVDs, a exemplo do que ocorre com os livros. Isso possibilitaria baixar muito os preços para o consumidor”, diz Alexandre Schiavo, da Sony & BMG, ressaltando que as conversas com o governo nesse sentido ainda não deram em “nada de concreto”. Schiavo também cita a execução, em 2007, de um “plano estratégico” que, segundo ele “vai garantir o futuro da companhia” e que inclui revisão minuciosa de contratos de alto a baixo – e também a dispensa de artistas, que já abateu nomes (outrora) bons de venda como Gabriel o Pensador e o grupo Cidade Negra. João Araújo segue apostando em variados segmentos musicais (punk rock, música eletrônica, MPB instrumental), mas seguirá escorando-se no sucesso de seus nomes mais populares. “Projetávamos um crescimento para 2007. Mas vendo como o ano começou, já considero que se conseguirmos empatar nossos custos ao fim do ano, terá sido uma vitória”, diz o dono da Deckdisc. Representante do futuro do comercio musical, Felipe Llerena joga uma metáfora no debate: “Para a música digital, 2007 será um bom ano. Estamos ainda na infância: jogando bola na rua, levando topada, caindo mas sempre sorrindo, dispostos. As gravadoras tradicionais são como velhinhos que acordam cansados, com artrite, dores nas costas. Mas ainda estão aí, firmes, e ainda estarão por um bom tempo”.

Download ilegal: a vez do contra-ataque

Jornal Musical, 17/10/2006

Em 2005, estima-se que os internautas brasileiros tenham downloadeado cerca de 1,2 bilhão de músicas ilegais, através de sites e programas de compartilhamento de arquivos. Esse número indica que o Brasil é responsável por 5% de toda a movimentação ilegal mundial de música via internet – enquanto que, no mercado fonográfico legalizado, o país está bem atrás, representando apenas 1% das vendas mundiais. Esses e outros espantosos dados levaram a ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos) a anunciar as primeiras 20 ações cíveis contra pessoas físicas que baixam músicas da internet no Brasil. Os processos fazem parte de um conjunto de 8 mil ações semelhantes iniciadas em 17 países, num esforço comandado pela IFPI (International Federation of the Phonograph Industry) – a organização que congrega as gravadoras e selos em nível mundial – para tentar conter a sangria de lucros causada pela troca ilegal de música em MP3.

As medidas foram anunciadas em uma coletiva de imprensa no hotel Copacabana Palace (RJ), na manhã de hoje, comandada pelo inglês John Kennedy (presidente mundial da IFPI, visto na foto acima) e por Paulo Rosa, diretor geral da ABPD – além de representantes de gravadoras, artistas e lojas de venda de música online legalizada. Paulo Rosa disse não ter detalhes específicos sobre os 20 primeiros processados brasileiros, mas traçou um perfil dos acusados: “Estamos atrás dos grandes infratores. Buscamos usuários que tenham um número grande – na casa dos milhares – de arquivos em seus computadores, permitindo que outras pessoas em todo o mundo os acessem. Todos os processados moram nas regiões metropolitanas do país”. Segundo John Kennedy, a onda global de processos cíveis deve ter um efeito educativo sobre o resto dos internautas. “É difícil acabar com o hábito de baixar música nos internautas mais experientes. Estamos fazendo progressos com as pessoas que estão começando a acessar a internet agora. Eles estão vendo os perigos potenciais do download ilegal e se recusam a usá-lo. A combinação de campanhas educativas e ações legais está funcionando”. No mundo todo, desde 2004, cerca de 2.300 pessoas já foram condenadas por download ilegal, pagando indenizações com valor médio de R$ 6.300.

O presidente da IFPI – que representa mais de 1.400 companhias grandes e pequenas – se referiu à situação do Brasil neste campo como “uma história muito, muito triste” e previu, de forma apocalíptica: “Estamos assistindo à derrocada da música brasileira, que já teve talentos tão grandes como Vincius de Morais e Ary Barroso. Quem mais sofre com a pirataria e a ilegalidade são países como o Brasil, pois sempre vai haver mercado para música cantada em inglês”.

Além das medidas júridicas, a Associação dos Produtores de Disco também lançou uma campanha de conscientização do público. Usuários de programas de compartilhamento de arquivos estão recebendo, desde a semana passada, mensagens instantâneas alertando sobre a ilegalidade de suas ações. Além disso, a ABPD anunciou o lançamento do programa Digital File Check, que detecta e desinstala programas de troca de MP3 (o DFC pode ser baixado, numa versão em português, no site www.ifpi.org/dfc/downloads/dfc.html).

As ações movidas pela ABPD se seguem a uma pesquisa encomendada pela associação ao instituto Ipsos, que levantou o perfil do brasileiro que baixa MP3 ilegalmente (veja o resultado abaixo). A pesquisa apontou que podem existir até 3 milhões de brasileiros usando redes como Kazaa, Morpheus e eMule. Esse número ajuda a derrubar ainda mais o combalido mercado fonográfico nativo. Nos primeiros seis meses de 2006, a venda de CDs teve uma queda de 16,65% em comparação com o mesmo período do ano passado, emendando com outro tombo de 20% registrado ao longo de 2005. “Somadas, as músicas baixadas pela internet só em 2005 totalizariam cerca de 75 milhões de CDs. Junto aos 40 milhões de CDs piratas vendidos ano passado, temos um cenário de 115 milhões de CDs ilegais, um número muito superior aos cerca de 55 milhões de discos vendidos legalmente”, lamentou o diretor da ABPD.

Ao mesmo tempo, o download ilegal atrapalha o nascente mercado legalizado de música online por aqui. Portais como iMusica (www.imusica.com.br), Uol (www.uol.com.br) e Terra (www.terra.com.br) e gravadoras como Warner (www.warnermusic.com.br) e Deckdisc (www.deckpod.com.br) já oferecem venda de arquivos digitais. No mundo todo já são cerca de 350 os sites de venda de música online, responsáveis por um nada desprezível total de 5,5% do faturamento da indústria fonográfica em 2005. É esse o público que a ABPD e a IFPI quer manter – e ampliar.

‘Nosso modelo ainda é sustentável’

Paulo Rosa, diretor-geral da Associação Brasileira de Produtores de Discos, defendeu na coletiva de hoje o atual formato do mercado fonográfico brasileiro – que, para muitos observadores, se auto-encurralou em um esquema à base de jabá e preços inflacionados para o consumidor. E agora precisa lutar contra a pirataria e a galopante febre do download ilegal.

Em termos práticos, como os usuários que compartilham MP3 pela internet estão sendo abordados? Existe o risco de violação de privacidade e invasão de computadores alheios? 
Estamos usando as próprias redes de file-sharing para descobrir quem são os maiores uploaders (usuários que oferecem músicas), aqueles que têm mais arquivos. Programas como Kazaa e eMule permitem que descubramos o IP do usuário sem qualquer invasão – e com o IP, junto aos provedores de acesso, podemos obter os dados pessoais do internauta.

Dadas as dificuldades que as gravadoras enfrentam, não seria hora para buscar um novo modelo de venda de música ao grande público?
É claro que é muito difícil competir com a pirataria e o download. Mas nosso modelo atual ainda não ficou obsoleto. Aqui no Brasil a venda de CDs ainda é perfeitamente sustentável. Não é hora de repensar nada, e sim de fazer com que as leis sejam aplicadas.

E os exemplos alternativos? A banda Calypso vende milhões de CDs a um preço bem mais baixo que o das grandes gravadoras e não sofre com a pirataria. Já revistas como a Outracoisa conseguem lançar em bancas de jornal CDs a preços baixos. 
Não sei dizer se essas gravadoras que vendem a preços baixos trabalham como os membros da ABPD – que pagam impostos e agem dentro da lei. Nós arcamos com custos de produção, direitos autorais, divulgação e outros, que encarecem o produto final. Os impostos representam 35% do preço dos CDs. Quanto à venda de CD em banca, não a consideramos uma maneira legítima de distribuir música, porque as publicações são isentas de impostos. Não é justo comparar quem vende em banca com quem vende em loja.

A gravadora Trama já se posicionou favoravelmente à liberação dos direitos autorais de seus discos, através de mecanismos como o Creative Commons. Não seria uma forma de baratear o CD?
Pessoalmente eu não entendo esse tipo de negócio da Trama. Você vai entregar de graça o conteúdo que custou dinheiro para produzir? Esse sistema não funciona. Quer dizer, quem sou eu para criticar, eles podem fazer o que quiserem – opa, já estou criticando (risos).

Qual é o formato musical do futuro? O CD vai mesmo acabar? 
Há dez anos previa-se que hoje não existiria mais o CD. E ainda existe, como se vê; 75% da música mundial é comercializada em CDs. A música digital, seja em computadores, MP3 players e telefones, ainda vai caminhar por um bom tempo ao lado do CD.

Perfil do brasileiro baixador

Eis o internauta brasileiro que baixa MP3 ilegalmente:

Compõe um universo estimado em 2.995.633 pessoas, ou 8% da população maior de 15 anos nas dez principais regiões metropolitanas do país;
Na maioria (55%) é homem;
Tem bom nível sócio-cultural (67% deles estão nas classes A e B, e 69% completou ao menos o ensino secundário);
São jovens (59% têm entre 15 e 24 anos; 39% são estudantes);
O Kazaa (na foto ao lado) é o programa mais usado (63%) para baixar músicas;
Cada um deles baixou uma média de 101,3 músicas nos últimos três meses – o que dá base para o cálculo estimado de 1.187.809.461 arquivos baixados em 2005.

Entrevistas feitas com 1.209 pessoas maiores de 15 anos, das classes A, B, C e D, nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Recife e Brasília.
______________________________________

Crises e oportunidades no mercado da música
Jornal Musical, 10/11/2006

A ironia no nome do seminário O processo da música, realizado ontem (dia 9) pela Fundação Getúlio Vargas, pode ter passado despercebida para alguns. A idéia era reunir artistas, juristas e gente da mídia para discutir, afinal, como e onde devem se posicionar compositores, gravadoras e ouvintes dentro do furacão que perpassa o mercado fonográfico atualmente – que lida com pirataria rampante, a “ameaça” dos downloads ilegais, o esgotamento de um modelo de negócios que já vem desde os anos 60 e novas propostas para a arrecadação de direitos autorais. Ao final do dia, sobressaíram algumas declarações impactantes, algumas soluções alternativas e muitas dúvidas.

Os artistas ouvidos – Marcelo Camelo (Los Hermanos), BNegão e Lucas Santanna (na foto, falando ao microfone) – demonstraram completa falta de fé no esquema “rédea curta” imposto pelas grandes gravadoras. Os anfitriões da GV, advogados membros do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação, expuseram as mudanças que os novos tempos tecnológicos impõem sobre a música (e a resistência das corporações a se adequar a essas mudanças). E os juristas e especialistas em propriedade intelectual concluiram que as leis relativas ao setor também estão em descompasso com as práticas da sociedade contemporânea.

Mas uma outra questão ainda encasquetava a coordenação do evento: debater a validade das ações cíveis movidas no Brasil contra 20 internautas que fizeram download de músicas usando programas peer-to-peer (como Kazaa, eMule e outros). E daí o porquê do nome – quando a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco) convocou a imprensa para anunciar os processos, no dia 17 de outubro (leia mais aqui), nenhum dos setores que participaram do seminário na FGV foi convidado. Nem sequer um representante do Ministério Público.

“Fomos barrados no evento da ABPD. Em contrapartida, convidamos o Paulo Rosa (diretor da Associação) e o Fernando Brant (presidente da União Brasileira de Compositores) para conversar conosco, mas eles avisaram que não poderiam vir… Coincidentemente, eles tinham compromissos agendados no mesmo horário…” lamentou o advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade e um dos representantes do Creative Commons (www.creativecommons.org.br) no debate.

Músicos adotam o ‘faça-você-mesmo’

Os artistas que participaram do seminário são de estilos distintos e ocupam posições variadas no mercado. Mas todos concordam em um ponto: as gravadoras tradicionais já não atendem mais às suas necessidades. Quanto às do público, nisso nem se fala. Mais bem-sucedido comercialmente dos falantes no seminário, Marcelo Camelo (na foto ao lado) usou sua trajetória para exemplificar a necessidade de mudança do modelo vigente. “O primeiro disco dos Los Hermanos vendeu mais de 300 mil cópias, em 1999. Hoje, com a banda muito mais estabelecida, mais conhecida e com uma base de fãs maior, não passamos dos 40 mil. A pirataria tem seu papel nisso, mas o fato é que o CD não representa mais para o povo o que representava há cinco, dez anos”, considera o compositor de “Anna Júlia”.

Falando na primeira das mesas redondas do dia (sob o tema “Cenários da música em vista das novas mídias”), o baiano Lucas Santanna se colocou como exemplo vivo das tais “novas mídias”. “Comecei em uma gravadora tradicional (a Natasha), depois abri meu próprio selo (Diginóis). Entretanto, só mesmo quando inaugurei meu website (www.diginois.com.br) e pus as músicas de meu terceiro álbum, 3 sessions in a greenhouse, para download gratuito no site, é que meu contato com o público ficou mais instigante – porque passou a ser mais direto”. A quem acha um contrasenso o artista “dar de graça” a música que lhe custou tempo e dinheiro para gravar e produzir, Lucas responde: “3 sessions… está vendendo muito mais rápido que meus outros discos. Em cinco meses, já ultrapassou as 1.500 cópias vendidas, algo que credito à divulgação e à interação com o público através da internet”.

BNegão é outro caso de sucesso – internacional, até – que deve tudo à grande rede mundial. Dois meses depois de lançar Enxugando gelo (2004), seu primeiro disco solo, o rapper aderiu ao esquema copyleft de direitos autorais, liberando suas músicas para quem quiser pegá-las. Desde que não haja fins lucrativos na jogada. “Se o cara baixar o disco todo, gravar mil CDs com as músicas e der para quem ele quiser, tá valendo. Se ele quiser vender um, aí não pode”, narra BNegão. A difusão das canções de Enxugando gelo mundo afora, via internet, levou o cantor e sua banda (Os Seletores de Freqüência) a se apresentarem em vários festivais na Europa – onde, como conta o próprio BNegão (na foto ao lado), “ficamos surpresos ao ver que todo mundo conhecia as músicas. Somos maiores no exterior do que no Brasil”.

Mudança na lei e não à repressão

A flexibilização dos direitos autorais também esteve em pauta no encontro na FGV. Para Carlos Affonso, do Centro de Tecnologia e Sociedade, os tempos mudaram e a legislação ficou para trás. “A lei nº 9.610/98, que rege o direito autoral no Brasil, é estrita demais e se baseia apenas em negativas – ‘não pode isso’, ‘não pode aquilo’… Isso funcionava na época em que as gravadoras centralizavam o poder de produção e distribuição de música. Isso tudo mudou. O público quer acesso amplo e interatividade no conteúdo que recebe, e a legislação não prevê nada disso”. Dênis Borges Barbosa, advogado especialista em propriedade intelectual e membro da Ordem Brasileira dos Músicos, que palestrou sob o tema “Ações judiciais contra usuários de redes P2P”, concordou. “As leis devem proteger o interesse maior do público e devem levar em conta os avanços tecnológicos. Os artistas estão se adaptando aos novos tempos e os ouvintes também. Quem está tendo problemas – e prefere apelar à lei – são os intermediários, ou seja, as gravadoras”.

O patrulhamento sobre as pessoas que baixam músicas da internet foi repudiado por todos os participantes. “A repressão é um equívoco. Não se deve pular na jugular do consumidor, e sim esclarecer a situação a ele”, disse André Barcellos, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Pirataria. “Baixar música e roubar música são coisas diferentes”, afirmou Sérgio Branco, da FGV. “As pessoas baixam MP3 por vários motivos, entre os quais está a cópia única da música para uso pessoal, sem qualquer fim lucrativo. Mas a legislação não permite. Em vários países isso é permitido, mas no Brasil não. Aqui, não é a sociedade que está à margem da lei – e sim o contrário”. O desembargador André Fontes, do Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro, foi ainda mais categórico. “Sou contra botar a polícia para apreender computador na casa dos outros. As gravadoras satanizam os internautas que baixam música; desde o começo dos tempos, tudo o que é diferente, inovador, é combatido por quem está no poder. Mas vai haver polícia para prender todo mundo? Não vai. E o filho do juiz federal, que também baixa suas musiquinhas? A polícia vai à casa dele, pegar seu computador? Isso não vai acontecer”.

Alguns dos petardos ditos no seminário:

“Temos hoje uma relação inócua com nossa gravadora. Elas nos tomam muito dinheiro – uns 80% de cada CD vendido – e não nos dão nada em troca. Essas ações judiciais contra quem baixa MP3 são ações de gente desesperada, de um negócio que está minguando” (Marcelo Camelo)

“Praticamente todos os departamentos das gravadoras foram fechados, menos o de marketing. Elas (as gravadoras) gostam mais de dinheiro do que de música e o errado é o cara que compra disco pirata?” (BNegão)

“Falam que pirataria é crime organizado. Ora, jabá também é crime. E é organizado!” (BNegão)

“No futuro, lançar um CD será uma opção estética de cada artista, para reunir um conjunto de canções que tenham uma afinidade. Mas o CD não será mais o formato padrão para as gravadoras” (Alexandre Matias, da gravadora Trama)

“O combate à pirataria também precisa de apoio do setor fonográfico. A repressão está indo bem, mas as gravadoras precisam conter a demanda do público pelo CD pirata – criando, por exemplo, linhas de lançamentos com preços mais baixos, destinados aos ouvintes de menor poder aquisitivo” (André Barcellos)

“Hoje em dia a música não é mais um bem – o direito sobre a música vale mais que a própria música. Isso é uma patologia” (Desembargador André Fontes)