(Publicado originalmente em 19/09/2011.)
Domingo à noite, aquela depressão que bate ao pensar na segunda-feira prestes a começar, e você sintoniza no Fantástico. Talvez por inércia, talvez porque não haja mais nada que preste na TV, talvez por gostar de verdade do programa. Aí você nota, entre uma reportagem sobre comportamento de adolescentes e uma entrevista chapa-branca da Patrícia Poeta, uns quadros meio estranhos. Tipo esse aí, do vídeo abaixo.
Ou então esse outro aqui:
Estranho, né? Você pagou uma nota para ter uma TV fininha de LCD, paga outra nota para assinar canais em full HD, e se depara com aquelas imagens em baixa definição, francamente amadoras, registradas com câmeras não-profissionais, e supostamente “divertidas” ou “intrigantes”. Pior: são imagens que você já viu em algum lugar – num linque enviado por email, no YouTube, no seu celular. Pior: você nota que essa, digamos, “opção estética” não se restringe ao Fantástico, mas também está se alastrando para outros programas.
Já percebeu quantas vezes a expressão “fenômeno na internet” tem sido usada na TV brasileira? E que cada vez mais, assuntos, personagens e principalmente imagens que nunca teriam espaço na televisão há 10, 15 anos estão ganhando destaque, apenas porque viraram “fenômenos na internet”? Note que nem me refiro a gente como Felipe Neto, que saltou de um canal do YouTube para o Esporte Espetacular. Falo do deslumbramento que a TV está demonstrando diante de qualquer porcaria que alcança notoriedade na web. Estamos tratando aqui da Globo, uma das maiores redes de televisão do mundo, que tem uma verdadeira indústria state of the art de produção de jornalismo e dramaturgia – e que dedica cada vez tempo a imagens tremidas, de gosto e qualidade dúbios, cujo único mérito foi terem se transformado em… “fenômeno na internet”. Sabe no que eu penso quando ouço essa expressão, “fenômeno na internet”?
É compreensível que a TV tenha curiosidade sobre a internet. Ainda é um meio novo, que está ganhando popularidade e influência num ritmo galopante aqui no Brasil, com o (relativo) barateamento das conexões rápidas e dos smartphones. Mas esse fascínio parece contraproducente. Elevar ao nível de “notícia” um meme ou um vídeo viral – coisas que nasceram para ser compartilhadas e descartadas imediatamente – é, na melhor das hipóteses, sinal de que os manda-chuvas da TV não entendem a lógica do fluxo de conteúdo na web. Na pior, significa que a preguiça e o descaso com o telespectador chegou a um nível assombroso. “Ei, tem esse vídeo aqui do gatinho! Milhões de views! Vamos repeti-lo no Fantástico, é sucesso certo!” E aí ficamos todos com nossas telas de LCD, revendo bobeiras registradas em péssima qualidade – e que provavelmente já assistimos na internet mesmo.
Vale fazer uma comparação com a reação que o cinema americano exibiu diante do avanço da TV, há cerca de 60 anos. No começo da década de 1950, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) começou a regulamentar o serviço das redes de televisão no país, o que coincidiu com a primeira explosão nas vendas dos aparelhos de TV domésticos. Já havia transmissões por lá desde 1928, a princípio experimentais, e a partir de 1946, regulares, com grade de programação e tudo o mais. A TV popularizou-se inicialmente na costa leste dos EUA: em 1947, dos estimados 44 mil aparelhos domésticos existentes no país, 30 mil estavam na região metropolitana de Nova York. Enquanto isso, na costa oeste, o cenário em Hollywood não parecia tão promissor. Em 1948, um processo federal contra os estúdios Paramount abriria o precedente para que, para combater a formação de cartel, a estrutura que permitia a existência do studio system fosse desmontada – o poder dos grandes estúdios de Hollywood provinha da verticalização da atividade cinematográfica, controlando a produção, distribuição e exibição dos filmes. Obrigados por lei a dissolver o esquema, os estúdios major (MGM, RKO, Columbia, Warner e a citada Paramount) perderam grande parte de sua capacidade de dominação dos meios de comunicação. Essa derrota, combinada com a ascensão da televisão – gratuita e conveniente, instalada nas salas de estar de cada família – fez com que os peixes graúdos de Hollywood balançassem. A quantidade de filmes produzidos caiu drasticamente a cada ano, acompanhando a queda nas bilheterias a partir de 1950 (tido como o último ano da era dourada do cinema americano).
Os estúdios, entretanto, contratacaram. E contratacaram fazendo o que sabiam fazer melhor. A TV era de graça e estava na casa de todos? OK, vamos provar que vale a pena pagar o ingresso e ir ao cinema. Vamos fazer filmes maiores, mais elaborados, mais portentosos. Vamos intensificar o uso da cor (afinal, a TV ainda era P&B). Contra a telinha pequena dos aparelhos da época, dá-lhe Vistavision, Cinemascope, filmes rodados em 70mm, em 3-D, exibidos em telas ultrapanorâmicas. Ou seja, o cinema tentou provar seu valor e suas vantagens, diante do novo e rapidamente massificado meio de comunicação. A reação de Hollywood não impediu que a TV dividisse, na segunda metade do século 20, o espaço que antes cabia apenas aos filmes no imaginário popular. Mas ao menos eles tentaram. E tentaram da maneira certa: reforçando aquilo que eles sabiam fazer de melhor.
Corta para a segunda década do século 21. A internet é, para a old media, o que a TV representava para o cinema nos anos 50. Algo novo, acessível, (mais) barato, abrindo várias possibilidades para distribuição de áudio & vídeo & jogos & textos & etc. De repente, a TV não é mais o modo preferencial e default pelo qual as pessoas acessam seus interesses (jornalismo, entretenimento, esportes, etc.). Assim como, no começo dos anos 1950, o cinema começou a perder sua primazia como principal canal de conteúdo audiovisual. E o que a TV faz, diante desse desafio? Contra-ataca como o cinema o fez, demonstrando aos espectadores que ainda há coisas que só a TV pode fazer? Não. Adere, embasbacada, ao festival de bobeiras que a internet pode produzir. E que deveria continuar restrito aos domínios da internet. Uma coisa é você interromper seu trabalho por 30 segundos para assistir a um linque no YouTube. A outra é uma rede de TV gastar neurônios (de seus profissionais) e tempo (de seu espectador) para exibir isso em horário nobre. A relação que o espectador tem com TV é completamente distinta daquela que ele mantém com a internet (mesmo porque na internet não somos meros espectadores.) Invoco Kurt Cobain e clamo: “Here we are now, entertain us!”… e vocês nos dão isso?!
Na batalha travada contra a TV, o cinema tinha uma vantagem crucial, que a caixinha da sala de estar nunca poderia ter: era uma experiência social, e ainda é. Ir ao cinema, por si só, é um programa com “valor agregado” – mais ainda nessa era de projeções 3-D, som THX, telões IMAX e sacos de pipoca XXL. A TV tem a favor de si apenas a comodidade. E mesmo nesse aspecto vem perdendo terreno para a internet, que está em todo o lugar – no celular, no relógio, na geladeira. E tudo o que a TV tem a oferecer são… “fenômenos da internet”, ocupando o espaço que deveria ser de produções e conteúdos originais?
Não sei não.






