Espanando a poeira do blog, abandonado há meses, retomo o fio da meada iniciada com o GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVA. Numa espécie de tumblr improvisado, abrigado dentro do TdV, postarei diariamente conteúdos curtinhos – uma foto, um image macro, algumas linhas de texto – sobre as agruras que o profissional da comunicação corporativa enfrenta em sua labuta. Lembrem-se que (praticamente) tudo será extraído de experiências reais, ainda que os nomes e contextos exatos possam diferir um pouco, para proteger inocentes, culpados e, acima de tudo, a mim mesmo.
EPISÓDIO III: Habilidades desejáveis: inglês fluente, domínio do MS Office, telepatia
(Clique na imagem para ver uma versão maior.)
EPISÓDIO II: Mais uma típica rodada de pedidos de revisão
Você é jornalista? Está empregado em um veículo de imprensa? Digo, um veículo DE VERDADE – um jornal, uma revista, um site? Presta contas sobre seu trabalho ao seu editor, e apenas ao seu editor, e ninguém mais? Acredita que o seu “compromisso é com a verdade” e que o “leitor deve ser o único a julgar o seu trabalho”? Parabéns!
Mas ainda que os empregos nas redações estejam desaparecendo (junto com as próprias redações), sempre haverá emprego para quem sabe escrever. Melhor ainda se esse camarada souber escrever de modo claro e conciso; conseguir obedecer a prazos e formatos bem definidos; souber como obter informações de outras pessoas. Todo mundo tem uma história para contar, e não há profissional mais bem-preparado para conta-las do que os jornalistas. A diferença é que agora vivemos no mundo do conteúdo, e não mais no mundo do jornalismo. Conteúdo é uma espécie de jornalismo denorex: parece, mas não é. Em vez de trabalharmos na velha imprensa, trabalharemos em agências de comunicação, fornecendo palavrinhas, fotinhos e pagininhas para as mais diversas demandas de comunicação das mais diversas empresas. Em vez de termos um compromisso com a verdade (sic!), teremos um compromisso com o cronograma. Em vez de termos o leitor como juiz, teremos os clientes (empresas) nos julgando.
Entender como fazer a transição do jornalismo para o conteudismo é vital para o profissional de comunicação nos dias de hoje, e eu estou aqui para ajudar! Foi pensando nessa transição que resolvi escrever um livro sobre minha incursão no mundo do conteúdo. O Zen e a Arte de Gerenciar Projetos de Comunicação Corporativa é o título provisório da obra, e abaixo segue um trecho inédito: um rápido glossário de termos próprios do universo das agências de comunicação, para ajudar o pobre jornalista recém-chegado ao cenário. A conclusão do livro vai depender do meu tempo livre e, claro, da repercussão obtida por este post. Há algum interessado na plateia?
Conteudista em um raro momento de descontração na agência.
ATENDIMENTO. O setor responsável por fazer a interface entre o CLIENTE e a CRIAÇÃO e a prova viva de que sim, é possível servir a dois senhores. Isso quando o trabalho é bem feito, o que nem sempre acontece. Idealmente, deveria haver um equilíbrio entre a atenção dada ao cliente e o apoio ao trabalho da agência. Na vida real, na maioria das vezes o atendimento acaba pendendo para o lado do cliente (fazendo aquela média bacana com o pessoal da grana), aceitando prazos impossíveis de cumprir e prometendo mundos & fundos os quais, muitas vezes, a agência não tem condição de executar. Costuma ser a ala mais arrumadinha e cheirosa da agência, composta basicamente por moças elegantes e dadivosas. Elas também detêm o conhecimento dos misteriosos meandros do MICROSOFT OFFICE, e são capazes de produzir apresentações em Power Point, CRONOGRAMAS em Project e tabelas de status em Excel, de modo profissional, clean e incompreensível.
APROVAÇÃO. O ritual místico no qual o CLIENTE dá seu OK ao material entregue pela agência. É um momento ansiosamente aguardado pelo cliente (que afinal vai ter o produto em mãos) e pela agência (que afinal vai poder faturar pelo trabalho). Mas nada é tão simples. As aprovações, via de regra, são feitas em vários níveis, após uma série de mudanças e correções (veja REFAÇÃO). No mínimo, o projeto precisa ser aprovado por um coordenador, um gerente de área e, na maioria dos casos, o diretor de comunicação da empresa-cliente. Esse diretor nunca tem tempo para nada e só vai ver o material às 17h55 de sexta-feira, para aí sim mandar refazer tudo do zero. A lentidão nas aprovações é um fator crítico no descumprimento dos CRONOGRAMAS.
BRIEFING. Todo JOB se inicia com um briefing, que vem a ser um resumo daquilo que o CLIENTE espera que a agência cumpra. Orientações básicas sobre estilo, conteúdo, contatos de pessoas a serem entrevistadas, objetivos principais do material a ser entregue, etc. Um bom briefing é sucinto e objetivo, descrevendo exatamente o que o cliente quer que a agência produza, sem se estender muito. Entretanto, bons briefings são artigos raros no mundo da CC. Em geral, os briefings são A) imprecisos, B) longos e confusos, C) crivados de expectativas irrealistas e/ou D) simplesmente imbecis. Boa parte das vezes, um único briefing se enquadra em todas as categorias descritas abaixo.
Exemplo de briefing A): “A reportagem tem que ter declarações das fontes X e Y, mas isso pode mudar. De qualquer maneira, ambos estão de férias agora. Talvez o diretor Z também entre. Mas não dá para confirmar isso agora. Vamos resolver depois de discutirmos internamente. Adiantem o que der enquanto isso.”
Exemplo de briefing B): “Temos de usar os recursos de storytelling, com um conteúdo bem em primeira pessoa, reforçando a busca pelo engajamento do usuário…” (seguem-se três páginas de yadayadayada)
Exemplo de briefing C): “Reportagem sobre as novas tendências da tecnologia. Entrevistados: Bill Gates, Larry Page, Mark Zuckerberg e Steve Jobs. Sim, sabemos que o Jobs morreu, mas vocês dão um jeito, né?”
Exemplo de briefing D): “Tema: o futuro das mídias digitais. Entrevistem dois especialistas, um contra e outro a favor.” (Esse é verdadeiro, eu mesmo fiz a reportagem.)
CLIENTE. A entidade em torno do qual gravitam as agências. Fonte de aporrinhações, noites mal-dormidas, trabalho no fim de semana, choro e ranger de dentes, mas também fonte do todo-poderoso faturamento. A galera do CONTEÚDO e da CRIAÇÃO tem uma relação de amor e ódio com o cliente. Sem cliente, não há trabalho, nem dinheiro… mas também não há REUNIÕES, CRONOGRAMAS ou REFAÇÕES. Já a turma do ATENDIMENTO se sente muito à vontade com os clientes – claro, precisam fazer aquele social bonito para garantir que tudo saia bem. Nas palavras imortais de uma bela jovem (profissional de atendimento, claro) com quem trabalhei: “Vocês não deveriam reclamar tanto dos clientes. Eles pagam os seus salários.”
CONTEÚDO. Os textos, layouts, websites, fotos, ilustrações, infográficos, vídeos, animações, podcasts, aplicativos etc. que são produzidos pela agência e entregues aos CLIENTES. Acerta-se o JOB, recebe-se o BRIEFING, produz-se o conteúdo, entrega-se ao cliente, faz-se as REFAÇÕES pedidas, devolve-se o material e aguarda-se a APROVAÇÃO. É meio confuso explicar o conceito para os profissionais da velha guarda (especialmente jornalistas). Quanto mais rapidamente o profissional se desapegar do conteúdo que produz, mais tranquila será a sua vida. Ver também CONTEUDISTA.
CONTEUDISTA. O conteudista é um profissional altamente demandado nas agências de comunicação. Sua função é produzir todo o tipo de textos: revistas, jornais, sites, posts de redes sociais, informes publicitários, slogans, anúncios, legendas para vídeos… Não me canso de repetir: o jornalismo como o conhecíamos no século passado é uma arte morta. Resta às legiões de jornalistas desempregados realizar o salto definitivo rumo ao conteudismo – ou seja, escrever qualquer tipo de CONTEÚDO que demande texto. Nas agências de publicidade de formato clássico, essa é a seara dos redatores. Com a multiplicação dos projetos de comunicação corporativa e de branded content, mais e mais jornalistas estão se enquadrando no perfil. No começo, a adaptação é difícil. O jornalista que vem de uma redação vai sofrer muito até se encaixar nesse estranho mundo de CRONOGRAMAS, APROVAÇÕES e DUPLIPENSAR CORPORATIVO. Mas não se enganem, coleguinhas: caminhamos rumo a um futuro em que o jornalismo “puro” será algo cada vez mais raro. O conteudismo é única saída.
CRIAÇÃO. A porção da agência que concretamente trabalha no CONTEÚDO a ser entregue ao CLIENTE: (ex-)jornalistas, redatores, designers, consultores de mídias sociais. A CRIAÇÃO vive acossada, lutando contra CRONOGRAMAS pouco realistas, rebatendo os pedidos de REFAÇÃO enviados pelos CLIENTES e as incessantes demandas repassadas pelo ATENDIMENTO, e tentando se esquivar das constantes REUNIÕES.
CRONOGRAMA. Peça ficcional produzida em conjunto pela agência e pelo CLIENTE, fixando datas para a execução das várias etapas de um dado JOB. Funciona assim: depois de estabelecido o escopo do projeto, a agência apresenta o cronograma ao cliente, produzido com o misteriosíssimo e impenetrável Microsoft Project (ver MICROSOFT OFFICE). É um tabelão cheio de datas, linhas e prazos de entregas; o pessoal da CRIAÇÃO dá uma olhada, finge que entendeu e aprova. O cliente olha e diz que X dias devem ser diminuídos do tempo de produção – o que vai obrigar a agência a trabalhar mais rápido. A agência corre atrás, se desdobra e entrega o negócio no prazo menor… apenas para o projeto emperrar no labirinto das REFAÇÕES e das APROVAÇÕES. Não há, nunca houve e nunca haverá um cronograma cumprido à risca. Como costumo dizer, mais inútil que um cronograma, só mesmo o corretor ortográfico do Word. Ou, de acordo com uma das mais exatas leis de Murphy, “Nunca há tempo suficiente para que o trabalho saia perfeito, mas sempre há tempo para refações.”
DUPLIPENSAR CORPORATIVO. O jargão muito específico usado nas agências de conteúdo. Várias palavras aparentemente corriqueiras têm seu sentido modificado, enquanto outras, inventadas, surgem para explicar (ou não) situações inauditas. Seguem alguns exemplos:
Alinhamento: tentativa de garantir que todas os profissionais envolvidos em dado projeto estejam trabalhando com os mesmos objetivos, metas e prazos em mente. Nunca dá certo.
Demanda: problema.
Desafio: problema.
Desenvolvimento de competências: o popular desvio de função. “Fulana, do atendimento, saiu? Ah, vamos passar os clientes dela para a Beltrana. Será ótimo para ela desenvolver mais competências.”
Em negociação: enrolando.
“Estamos muito preocupados”: prenúncio polido para algum tipo de esporro mais sério. “Estamos muito preocupados com o atraso no CRONOGRAMA…”
Oportunidade: problema.
Parceiro: profissional ou empresa disposto a trabalhar de graça, já que “vai ser bom para ele aparecer”.
Questão: problema.
“Vai ser bom pra você aparecer”: argumento principal usado para convencer alguém a se tornar um parceiro. O conceito é intimamente ligado ao de desenvolvimento de competências. Variações: “Vai enriquecer seu currículo” ou “Quebra essa agora, que mais trabalhos virão no futuro”.
JOB. Sinônimo anglicizado para “projeto”. Participar de um job é a garantia certa de encontrar demandas, desafios e oportunidades para desenvolvimento de competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO, acima).
MICROSOFT OFFICE. A fonte de onde emana todo o CONTEÚDO, devidamente formatado e empetecado. Antes de o jornalista aderir às hostes doa jornalismo comunicação corporativoa, é perfeitamente possível que ele tenha passado a vida usando apenas o bom e velho MS Word – e apenas para escrever, e olhe lá. O primeiro choque vem quando ele descobre que é possível deixar comentários (gasp!) em textos do Word. É assim que o CLIENTE sinaliza as REFAÇÕES inevitáveis que precisam ser feitas no texto. Depois, ele vai ter de aprender a usar o Excel, para acompanhar o status do CRONOGRAMA, saber quais pendências precisam ser resolvidas, etc. O próximo passo é compreender os recursos infinitos do Power Point, usado para fazer lindas e convincentes apresentações multimídia para os CLIENTES. Finalmente, quando o cansado ex-jornalista em atividade for um CONTEUDISTA pleno, vai dar o grande salto: aprender a usar o Project, com o qual se constroem os CRONOGRAMAS. Ninguém disse que seria fácil, colega.
REFAÇÃO. Palavra favorita do CLIENTE, aplicada quando surge a necessidade de refazer alguns, vários, ou TODOS os detalhes de algum item de CONTEÚDO. Outro termo exclusivo do universo das agências de comunicação/marketing. Eu mesmo só fui conhecer depois que entrei para o mundo da comunicação corporativa – e franzi a testa ao ouvir pela primeira vez, achando tratar-se de um erro. Para minha surpresa, conferi que a palavra existe no dicionário. Provavelmente vem do inglês remake. Ao menos uma vez, já ouvi a variação “refazimento” sendo usada, mas essa eu tenho certeza que não existe no Aurélio.
REUNIÃO. Ritual em função do qual toda a comunicação corporativa se organiza. Se a CC fosse um religião, a reunião seria a missa. Tudo em um projeto de CC gira em torno de reuniões, que são marcadas para iniciar o processo, para dar continuidade ao processo, para acompanhar o processo, para acompanhar o acompanhamento do processo, para promover o alinhamento, distribuir novos desafios, delimitar novas competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO), rediscutir o CRONOGRAMA, debater as REFAÇÕES a serem feitas, apresentar propostas em ppt (ver MICROSOFT OFFICE)… Entre uma reunião e outra, os CONTEUDISTAS tentam trabalhar. Às vezes, eles até conseguem.
Lembram do Baralhinho do Momento? Não? Como assim? Onde vocês estavam em 2009? Ah, deixa para lá. Enfim, ofereço agora meu próprio conjunto de úteis imagens macro, para serem usadas especificamente no ambiente de trabalho. A sabedoria dos grandes narradores de futebol da Globo/SporTV pode ser aplicada de modo perfeito a várias situações do mundo corporativo. Basta clicar sobre as imagens, salva-las em seu PC/celular/tablet/gadget e remetê-las (por email, MSN, sei lá) aos colegas de trabalho, posta-las em redes sociais, etc. Confira:
Para usar naquele momento em que tudo parece estar dando errado.
Use quando um camarada no çirvisso cometer uma mancada catastrófica.
Use quando um co-worker cometer um mau passo não tão grave quanto o anterior.
Para levantar a moral de um camarada que tenha levado um esporro.
Quando você quiser tripudiar de algum co-worker que tenha se metido numa roubada.
Para sacar naqueles momentos em que, em meio ao caos total, surge um fio de esperança.
Encaminhe para o chefe quando ele redobrar a carga de trabalho e reduzir o prazo do projeto.
Para desdenhar daquele co-worker cuja opinião não vale porra nenhuma.
Use quando estiver pedindo para esticar o cronograma mais uns dias. De preferência, quando o prazo já estiver bem estouradão.
Não assisti à estreia doSaturday Night Live brasileiro, transmitido ontem (domingo – não sábado, domingo) pela RedeTV!. Mentira: para não dizer que não assisti, dei uma olhada em dois quadros, um que não entendi (protagonizado por dois caras que se xingavam “amistosamente” e duas mulheres que se autoflagelavam) e outro que entendi, mas que não teve graça alguma (o do casamento no qual a noiva era homem). Sou fã do programa original e tinha curiosidade para ver como o negócio iria ficar, ainda que sem muitas expectativas quanto à qualidade do programa ou mesmo sobre a validade da proposta. Afinal, se um SNL brasileiro fosse realmente uma boa ideia, não teria parado nas mãos da RedeTV!, né?
Mas mesmo sendo ruim, péssima ou pavorosa, a versão brasuca do programa despertou em mim umas ideias. Hoje pela manhã, o Ibope anunciava que a estreia do show fora um fracasso de audiência. Muita polêmica em torno de seu comandante, o comediante Rafinha Bastos, muita expectativa em torno do conteúdo da atração, e no fim deu em quase nada: 0,8 pontos de média na Grande São Paulo, o que, extrapolando para a média nacional, equivaleria a pouco mais de 152 mil domicílios. Até aí, nada de anormal. A RedeTV! sempre capengou na audiência e nem mesmo os mais otimistas esperariam que o SNL pudesse fazer frente a Gugu, Faustão e Silvio Santos.
O “anormal” é que Rafinha Bastos é uma personalidade mundial no tal mundo das redes sociais. Seu twitter é seguido, no momento em que digito, por 4.518.384 outros tuiteiros. Seu perfil para tuites em inglês (!) tem mais de 15 mil seguidores. No ano passado, uma pesquisa publicada no site do The New York Times apontava que o comediante era, então, o tuiteiro mais influente do mundo. Ora… a conta não fecha, né? Desses 4,5 milhões de pessoas que recebem os tuítes de Bastos, seria razoável supor que 99,99% tenham uma TV em casa. Onde estavam todos esses tuiteiros ontem? Por que a personalidade mais influente de uma das redes sociais mais bombadas não conseguiu traduzir esse prestígio internético para o mundo da old media?
Quem, como eu e você, passa muito tempo online, pode acabar achando que o mundo todo cabe na internet. Mas não cabe. Se cada um dos seguidores de Rafinha assistisse a seu programa, teríamos aí (considerando um tuiteiro por domicílio) mais de 23 pontos de Ibope nacional. (Humildemente, peço ajuda a qualquer leitor que entenda de estatísticas para corrigir meus cálculos e/ou meu raciocínio.) Mas esse batalhão de gente só segue o cara na web. Na web, o que basta para você dar sua audiência a alguém é um clique. Um retuite, um “Curtir”, uma hashtag. A mesma pessoa que faz isso para o Rafinha também o faz para o Luciano Huck, para o Marcelo Tas, para os caras do Pânico. Ao mesmo tempo, eles comentam posts de blogs e de portais de notícias, repassam memes em redes sociais, adicionam material a seus boards no Pinterest. Tudo junto. Essa é a lógica - e a graça – da internet: absorver tudo ao mesmo tempo, já que é uma informação que vem de graça, chega rápido e vai rápido. E com a qual as pessoas se relacionam de modo diferente, horizontal e integrado. A fama do Rafinha se deve aos milhares de retuites que seus chistes ganham diariamente. O espectador é, de maneira nem tão indireta assim, um co-produtor do conteúdo que ele solta. Se ninguém o retuitasse, seus 4,5 milhões de seguidores não valeriam nada.
Old media não é assim. Mesmo um programa mambembe como o SNL brasileiro custa caro e precisa se pagar para manter-se no ar. E exige de seus espectadores coisas que, hoje em dia, valem muito mais do que dinheiro: tempo e atenção. Retuitar uma piada do Rafinha leva meio segundo. Daí a presumir que essa mesma pessoa vai plantar-se diante da TV por 90 minutos, aturar intervalos comerciais (e sem o botão “Você pode pular esse anúncio em 5…”) e valores de produção duvidosos, aí é esperar um pouco demais. O tchan da internet é a agilidade e o do-it-yourself, é imaginar que um moleque com um Photoshop e uma sacada boa pode criar um meme, atingindo instantaneamente um público enorme. Mas a midia mainstream não é assim. Há equipes, executivos, decisões, produções… e há a necessidade de retorno, financeiro e/ou de outras formas. E as expectativas do espectador são, naturalmente, mais altas. Na internet, aprovamos um conteúdo quando nos identificamos com o que foi comunicado, ou mesmo quando sacamos que poderíamos fazer igual (ou melhor). Vivemos conectados o tempo todo, consumindo e descartando mídia em alta velocidade – porque ela está ali, também o tempo todo. Se não olhamos agora, olhamos depois. Ou não olhamos, seguimos adiante; tem sempre um link novo à espera. Na TV (ou no cinema, ou no rádio) – com hora marcada para começar e terminar, e o pré-requisito da atenção exclusiva – queremos mais. Ou então ficamos com aquela pulga atrás da orelha. “Ora, se era para ver isso aí, eu ficava no YouTube mesmo.”
Dai o abismo entre o prestígio na web e a audiência de massa. Rafinha surgiu ao fazer um barulhão (na web) participando de um programaque nunca passou de um barulhinho (para o público de massa). A audiência decepcionante do SNL reafirma, mais uma vez, que alguns fenômenos da web nem sempre se traduzem facilmente para a mídia mainstream. E às vezes são intraduzíveis mesmo e pronto. Por isso é que ficou fácil para o Dr. Rey, que estreou ontem na RedeTV! logo depois do Rafinha, ultrapassa-lo no Ibope. O programa do médico (?) lança mão de um meme antiquíssimo, que precede toda a mídia, velha ou nova, de massa ou de nicho, mas que continua infalível: mulher pelada.
Assim como não se pode julgar um livro por sua capa, também não é recomendável julgar um senador da República por sua coleção de discos. Demóstenes Cachoeira, quer dizer, Torres, aqui fez e aqui pagou. Suas ligações mais-do-que-perigosas com as manobras do bicheiro Carlinhos Cachoeira caíram na boca do povo. Perdeu o partido (imagine só, ser chutado do DEM!), viu suas pretensões de eleger-se prefeito de Goiânia virarem pó e provavelmente será espancado na vindoura CPI que vai investigar suas más práticas. O que se perde com a desgraça de Demóstenes? De acordo com uma inspiradíssima coluna dominical do Gaspari, o Brasil escapou de mais um falso profeta do moralismo a caminho do Palácio do Planalto. Eu enxergo outro ângulo nessa reviravolta toda. Se tudo o que o nobre Demóstenes planejava desse certo, o país poderia ter um presidente com um gosto musical acima da média.
Explico: Demóstenes Torres é um ávido colecionador de discos (extraído do Twitter do senador: “Na verdade, eu ouço todos os estilos, menos esses antecipadamente ruins demais. Coleciono LP, compacto, CD, DVD”). Na edição de 14 de abril, a revista Época apontou que “O senador (…) é um apreciador refinado de música – especialmente MPB e jazz -, orgulhoso de sua coleção de discos de vinil e organizador de saraus. O sisudo Demóstenes também organizava karaokês para parlamentares em sua casa.” Antes dessa lambança toda, imaginei várias vezes fazer uma reportagem sobre a coleção de discos do político, entrevistando-o sobre suas preferências e títulos favoritos. Soava-me muito exótico: um senador do DEM, cuja plataforma era toda em cima de valores morais linha-dura, e que ao mesmo tempo discorria com exuberância sobre variados estilos musicais. Mas agora, acho difícil ele topar dar entrevista para quem quer que seja…
O careca anda meio arredio das redes sociais – também, né, não é pra menos. Entretanto, fuçando sua timeline do Twitter, deu para ter uma amostra do eclético e apurado hit parade do senador. Vai do jazz ao novo pop indie brasileiro, de Carlos Gardel a… Bon Iver?! Fiquei lembrando da época em que o Collor, outro símbolo do fisiologismo e do conservadorismo tosco, foi eleito. O breganejo de Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo foi adotado como trilha sonora informal da “nova era da democracia”. Antes, Francisco Alves tinha colocado sua voz maviosa a serviço de Getúlio Vargase o governo militar apertara o arrocho ao som de Dom & Ravel. Maus passos, prevaricações e más companhias à parte, ao menos com Demóstenes na presidência nossos ouvidos teriam uma vida melhor. Eu acho.
8 Jan ”@demostenes_go: Há 77 anos nascia Elvis Presley:”
6 Jan: “@demostenes_go: 19 anos sem Dizzy Gillespie”
16 Jan: ”@demostenes_go: Louis Armstrong: When The Saints Go Marching In:”
21 Jan “@demostenes_go: Uma das revelações da nova música brasileira, Pélico (@pelicomusica), interpretando Tenha Fé, Meu Bem:”
24 Jan “@demostenes_go: Uma música: Bon Iver: Holocene”
26 Jan ”@demostenes_go: George Harrison: My Sweet Lord:”
28 Jan “@demostenes_go: Um clássico de Carlos Gardel e do brasileiro Alfredo Le Pera:”
31 Jan “@demostenes_go: Pixinguinha: Rosa”
22 Fev “@demostenes_go: Adagio do Concerto Nº 23 para Piano e Orquestra de Mozart. Interpretado por Hélène Grimaud:”
26 Fev ”@demostenes_go: Para inspirar a tarde: J.S. Bach: arranjo livre para violoncelo, suite nº 1″
2 Mar “@demostenes_go: Para inspirar a sexta-feira: Somewhere Over The Rainbow: arranjo livre para violoncelo e piano:”
Certas frases que leio por aí, mesmo não sendo originalmente humorísticas, causam-me frouxos de riso. Gosto, por exemplo, de ler entrevistas com jornalistões velhos, veteranos. Percorro o texto com minha técnica improvisada de leitura dinâmica e, batata, lá está a bendita frase: “Um dia, bati à porta do jornal tal, pedi um emprego de repórter e consegui”. Uma pândega! Outro tipo de texto que sempre me diverte são reportagens sobre os vestibulares para comunicação social. Vejam só: este ano, na prova para a Unicamp, a relação candidato-vaga bateu nos 37 (candidatos) para uma (vaga). Na Universidade Federal Fluminense, a coisa chegou a 26/1 (quando ingressei na mesma instituição, há distantes 16 anos, era 16/1). Hilário!
Divirto-me lendo essas coisas ao constatar que tanto os veteranos do jornalismo quanto os aspirantes à mesma carreira se irmanam num ponto – eles não têm a mínima noção do que se passa nas redações hoje em dia. Vá você, meu caro estudante de comunicação, bater à porta de um grande jornal, em 2007 (ou em 2000, ou 1996, ou 1990…) para “pedir um emprego de repórter”. O mais provável é que você não ultrapasse a portaria. Se ultrapassasse (e vamos supor também que você saiba a quem pedir o tal emprego) verificaria que não há emprego. Há, no máximo, TRABALHO para repórter, o que é uma coisa bem diferente. Pergunte aos coleguinhas que têm de emitir nota fiscal para receber seus salários, quer dizer, seus pró-labores mensais, e eles te explicarão as diferenças.
Igualmente sem noção são o mancebo ou a moçoila que, sofregamente, enfiam a cara nos livros para vencer a dura corrida por uma vaga num curso de comunicação. Porque, meu filho, 37 para 1 não é bolinho não. O cara não pode brincar de estudar; tem que comer os livros mesmo. E pra quê? Para, ao final de quatro ou cinco anos, ser jogado na rua da amargura com um diploma de bacharel em comunicação social, tendo de enfrentar uma relação candidato/vaga (de emprego) mil vezes pior. A cada semestre, sei lá eu quantas centenas (milhares?) de bacharéis caem na vida, disputando encarniçadamente o direito a um posto de trabalho que, 99% das vezes, não existe. (Pausa para uma recomendação de leitura: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=359ENO001)
Porque, meu caro jornalistão velho, minha cara caloura do primeiro período, arrumar emprego em jornalismo não depende de preparação, de destemor ou de capacidade intelectual. Depende de uma série de fatores que não se apreendem na faculdade, nem no exercício da profissão. Jornalismo é oligarquia – às vezes, monarquia, aquela de direito divino, mesmo. Em oligarquia não existe espaço para edificantes historinhas de ascensão-pelos-próprios-méritos. E no mundo do jornalismo, fundamentado em uma oligarquia das mais estanques e impermeáveis, não é diferente.
Não seria bom se alguém avisasse isso aos incautos, na hora em que eles marcam a opção “Comunicação Social – Habilitação: Jornalismo” no formulário de inscrição no vestibular? Como saber as chances reais que esse mesmo incauto acima tem de vencer na selva das redações? Quais são as habilidades que ele deve desenvolver? Quais características ele deve procurar cultivar?
Pois é disso que este texto trata. Com vocês, sem mais delongas, segue…
O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE COMUNICAÇÃO
A seguir, deslindarei os talentos fundamentais que um aspirante a jornalista deve possuir para ir adiante na carreira. A apresentação das mesmas virá em ordem decrescente, da mais importante para a mais dispensável. Junto a cada descrição, aponto duas estimativas porcentuais sobre o futuro profissional do homem (ou mulher) de imprensa que possuir a tal característica: a primeira relativa à chance dele (dela) arrumar o primeiro emprego, a segunda sobre a capacidade que ele (ela) terá de se dar bem no ofício.
Desnecessário dizer que todos os exemplos que citarei nos tópicos a seguir são fictícios e postos no texto para mera ilustração de caráter humorístico. E não têm, em hipótese alguma, ligação com pessoas vivas, ou mortas, ou por nascer.
Lembre-se, o fato de não possuir uma, duas ou todas as características listadas abaixo não significa, necessariamente, que você não vai conseguir vencer no jornalismo. Vai ser mais difícil, diria eu quase impossível; as coisas vão andar muito mais lentamente para você do que para os outros. Mas, como eu aponto lá no final, perseverança também conta. Pouco, mas conta.
Para se dar bem no jornalismo, você deve ter os seguintes talentos (de preferência nesta ordem):
1. SER PARENTE DE ALGUM JORNALISTA CONSAGRADO
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: variável, mas em geral a partir de 90%
Em uma oligarquia, nada supera os laços sanguíneos. Capacidade, formação, experiência, preparo, pau grande; tudo isso fica em segundo plano, se você tiver que disputar uma vaga com o parente de algum figurão. Quanto mais proeminente na profissão (dono de jornal, bingo!; editor, editor-executivo, diretor de redação, OK; seu primo que acabou de virar estagiário, não OK) for seu ancestral, melhor. Quanto mais direto for o parentesco, melhor. Filho? Perfeito. Neto? Bom também. Sobrinho? Tá valendo, tá valendo. Aquele primo seu que você só conhece de ler o nome dele no jornal? Hmmmm, acho que não. Ser parente de um jornalista bem-posto na carreira é garantia certa de arrumar o primeiro emprego. Geralmente se começa por baixo – um estágio, uma vaguinha temporária, um frila meia-boca. Mas dado o impulso inicial, a bola passa a rolar rápida. Seu primeiro emprego pode não ser na mesma empresa em que seu parente importante trabalha. Na verdade isso é até comum, propositalmente comum; como em jornalismo todo mundo conhece todo mundo (veja o talento n°3), o que não falta é oportunidade para aquele parente-de-figurão. “Ô, fulano, quebra essa pra mim, arruma uma coisinha aí pro meu sobrinho. Ele tá começando agora, pode ser qualquer coisa…” Colocando você em outra empresa, seu ancestral influente não vai precisar se preocupar com as fofocas sobre nepotismo. Não se preocupe: sabendo quem é seu padrinho, as pessoas vão tratá-lo bem, não importa onde for. Faça o arroz-com-feijão, mantenha-se marginalmente acima do medíocre e relaxe. Cedo ou tarde seu nome será lembrado para cargos melhores. Geralmente os mais cobiçados, tipo colunista ou correspondente internacional (às vezes ambos ao mesmo tempo). Em caso eventual de desemprego, há a garantia de uma rápida recolocação. Vacilos pequenos ou até médios serão relevados, dependendo da importância de seu parente. Apenas evite as cagadas de grande porte – a menos que você seja filho único do dono de algum grande conglomerado de comunicação, aí vale tudo. O lado ruim dessa moleza é a já citada fofoca. Invariavelmente, você será alvo de comentários maldosos, que atribuirão sua posição profissional não à sua capacidade, mas à influência de seu padrinho (no sentido Mario Puzo do termo). Você, claro, deve cagar para os comentários e seguir impávido adiante.
Os casos práticos de aplicação deste talento são tantos que é difícil escolher um exemplo só. Lembre-se que boa parte das corporações de comunicação no Brasil são empresas familiares, nas quais há todo um incentivo para que as novas gerações substituam as antigas.
2. SE CASAR (OU NAMORAR, OU APENAS… VOCÊ SABE) COM ALGUM JORNALISTA INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: muito instável, mas em geral alta.
Se você não nasceu nobre, sempre resta o recurso de atrair a nobreza para sua cama. Conseguir uma ligação amorosa, mesmo que efêmera e de caráter meramente carnal (A.K.A. “teste do sofá”) com um nome importante no jornalismo tem um poder incontestável de abrir portas. Quer subir rápido na carreira? Escolha um alvo, naturalmente alguém bem importante, e invista sem trégua. Uma vez conquistado o coração do(a) big shot, faça de tudo para agradá-lo(a) e prolongar a vida do relacionamento. Vale tudo: flores, bombons, pompoarismo, aquela gravidez não-planejada (me engana que eu gosto!)… Você verá como as coisas vão melhorar pro seu lado, de modo bem rápido. Em geral, à medida em que seu ente amado for ascendendo, você tende a ir no vácuo. São conhecidos casos de repórteres inexperientes que, depois de cederem aos encantos de seus chefes, ganharam promoções, postos de trabalho no exterior e até, vejam vocês, polpudas pensões alimentícias. Uma dica para quem demonstra vocação nesta área: não perca tempo com redações de veículos impressos. Parta logo para as emissoras de TV, onde o toma-lá-dá-cá carnal é mais franco e direto (e os salários são melhores). Este talento é mais disseminado entre as aspirantes do sexo feminino, uma vez que a maioria dos postos de direção nas empresas de comunicação é ocupado por homens. O que não quer dizer que os mancebos não devam arriscar seus galanteios pra riba das superiores. (E dos superiores também, por que não?) Claro que no caso da investida homem-contra-mulher, a coisa deve ser levada com um pouco mais de tato e delicadeza. Um flerte feminino pode ser interpretado como uma brincadeira charmosa. Um flerte masculino costuma dar em processo por assédio.
As vantagens e desvantagens deste talento são mais ou menos os mesmos do talento n°1. Quem trepa – perdão – sobe na carreira por conta da influência de seu cônjuge tem de aturar uma dose ainda maior de fofoca, o que pode ser especialmente cruel para com as mulheres. É preciso redobrar o cuidado com seu desempenho profissional, depois de arranjar o tão sonhado primeiro emprego. Lembre-se que se você for um jornalista medíocre, seu status vai durar apenas enquanto seu love affair estiver em vigência. Trabalhe direitinho, esforce-se, puxe os sacos certos, cumpra seus horários; assim, se o romance acabar de uma hora para a outra, você será lembrado por seus próprios méritos, e não apenas por ser a(o)-fulaninha(o)-que-deu(comeu)-pro-editor(a). Outra desvantagem radical é a possibilidade de você se enrabichar por um psicopata travestido de diretor de redação. É raro, mas já aconteceu e está documentado (http://multimidia.terra.com.br/jornaldoterra/interna/0,,OI69142-EI1038,00.html).
3. SABER COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: fazendo o jogo direitinho, com paciência, 100%.
Num ramo profissional no qual as vagas rareiam e os candidatos abundam, a capacidade de criar um personal social networking é crucial. No jornalismo, mais que isso: se você não deu a sorte de nascer parente de algum figurão, ou não tem suficiente sangue-frio (ou os predicados físicos) para seduzir seus superiores, é IMPERATIVO que você faça o maior número possível de amigos. Não importam suas opiniões e preferências pessoais, sua personalidade ou seu temperamento. Você DEVE, repito, em maiúsculas novamente, DEVE ser tão cativante, confiável, simpático, agradável, espirituoso e gente-fina quanto possível. O objetivo é criar uma ampla rede de amizades que possam te levar adiante na profissão. Sem amigos, um jornalista não chupa nem um Chicabom. Subir na carreira então, nem pensar. Quanto mais amigos você tiver, de preferência em várias redações, maior é sua chance de conseguir o primeiro emprego e também de manter-se empregado. Porque, conforme já demonstrado na descrição dos dois primeiros talentos, não importa o que você sabe ou pode fazer e sim quem você conhece. Raciocine comigo: há uma vaga no jornal X, que tem de ser preenchida pela indicação do editor Y. Se Y não tiver algum parente (talento n°1) que se encaixe na vaga, nem um(a) namorada(o) aproveitável (talento n°2), vai sobrar quem para indicar? Os amigos, ora! E é aí que você entra.
Esse talento, diferente do primeiro (que envolve laços sanguíneos) e do segundo (que, sejamos claros, envolve beleza física), pode ser aprendido e desenvolvido por qualquer um. Mas a fina arte da brodagem tem meandros e sutilezas infindas. É preciso saber de quem se aproximar; evitar a fama de puxa-saco; avaliar quais amizades valem a pena cultivar e as dignas de dispensa; entender que é razoável passar por antipático diante de 20 colegas, se isso render a cumplicidade de um chefe; desviar da síndrome de arroz de festa, aquele chato que tenta desesperadamente ser amigo de todo mundo. É importante resistir à tentação de ficar “metido” assim que assumir um cargo importante. Eu sei, é irresistível assumir uma postura arrogante uma vez estando por cima da carne-seca. É a vingança, o desconto por anos de humilhação. Conselho de amigo: mantenha-se o mesmo camarada simpático de antes. Nunca se sabe o dia de amanhã. (Como era aquele ditado mesmo? “Seja legal com as pessoas que você encontra na subida, pois você as encontrará de novo na descida”. Ou algo assim.) Sua ascensão vai depender da solidez de suas amizades, da posição que seus amigos ocupam e, por último mas não menos importante, de sorte. Portanto, espere uma caminhada mais lenta e penosa rumo ao topo, em comparação com os coleguinhas que dispoêm dos talentos n°1 e/ou n°2. Mas a longo prazo, este talento pode ser mais vantajoso que o n°2. Se você mantiver a fama de cara maneiro, tenderá a manter os amigos para sempre (e ganhar outros com o tempo). Já os romances costumam ser muito mais instáveis que as amizades…
4. SER MEMBRO DE ALGUMA FAMÍLIA RICA E/OU INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: 75%
Grana & poder nunca atrapalharam ninguém. Qualquer que seja seu projeto de vida, com dinheiro no bolso e/ou parentes influentes tudo se torna mais fácil. Dentro do jornalismo não é diferente. Um sobrenome bacanudo pode garantir uma vaga em redação, desde que você saiba onde procurar. O fato é que jornalista é uma raça bajuladora e interesseira por natureza; muitas vezes, filhos de famílias importantes têm precedência na hora de conseguir o primeiro emprego, porque a coisa vira um “favor pessoal” ao chefe do tal clã influente. Exemplo: um outrora importante (mas hoje um tanto caidaço) diário carioca é um verdadeiro cabide de empregos para os herdeiros da sociedade local. Não se trata de questionar os méritos dos moços e moças de origem chique que trabalham lá. Até porque, por serem ricos, eles tiveram chance de estudar em bons colégios, viajaram ao exterior, enfim, estão razoavelmente bem preparados. Mas a quantidade de filhos, netos e sobrinhos de granfinos realmente impressiona. Muitas das vantagens do talento n°1 são aplicáveis ao talento n°4. Você será bem-tratado e, de maneira geral, popular na redação. Uma vez empregado, suas chances de prosseguir bem na carreira são altas. Entretanto, sua fortuna pode ser uma faca de dois gumes. O repórter de família rica que exerce a profissão só por diletantismo, pelo mero prazer de ver seu nominho escrito no jornal, tem maiores possibilidades de prosseguir. Ele sabe que o trabalho em geral é pesado e estressante e que o salário nunca é condizente com a aporrinhação. Mas é o preço que se paga por um hobby não-convencional. Por outro lado, o jovem mais ambicioso logo ficará frustrado, ao perceber que em qualquer outra carreira ele estaria ganhando mais e trabalhando menos. Aí é só chamar papai/vovô/titio ao telefone que ele te arruma outro emprego, em alguma outra área.
5. SABER COMO INVENTAR PAUTAS MIRABOLANTES
Chance de arrumar o 1° emprego: N/A (só é aplicável por quem já está empregado)
Chance de se dar bem na carreira: 100%
Finalmente entramos na relação de talentos ligados especificamente ao exercício da profissão. Você, ingênuo aspirante, já deve ter constatado, estarrecido, que abstrações como “escrever bem” ou “estar sempre bem informado” são questões periféricas, secundárias, na carreira de um jornalista. Então vamos lá: se você não é filho de jornalista, não casou com jornalista, não é de família rica e ainda não formou sua network pessoal, o talento mais imporante a desenvolver é o de criar pautas interessantes. “Pauta”, não sei se você já sabe, é a idéia básica a partir da qual as reportagens são apuradas e escritas. Em todas as redações existe um sinistro ritual conhecido como “reunião de pauta”, no qual os amedrontados repórteres “cantam” (anunciam) suas sugestões de pauta para os editores. As sugestões que mais encantarem os chefes vão virar matérias reais, em geral apuradas e escritas pelo mesmo sujeito que anunciou a idéia. Mas quem não sugeriu nada – ou cantou alguma pauta que não tenha agradado – não vai ficar de braços cruzados; esses vão fazer as pautas impostas pelos próprios editores. Aprenda comigo: editores valorizam muito mais o repórter que cria a pauta do que o repórter que só a executa. Então não marque bobeira. Qualquer idéia que você tiver para uma matéria – QUALQUER uma, não importa o quão idiota ela soe – está valendo. Editores adoram repórteres que sugerem cinco, seis pautas por reunião. Mesmo que as matérias sejam impossíveis de se fazer ou simplesmente ridículas. Em alguns casos (principalmente nos jornais ditos “populares”), quanto mais ridícula, melhor! Esse talento é vital para os jornalistas free-lancers. O interessante é que, muitas vezes, dá para ganhar cartaz com os chefes só sugerindo as reportagens, sem sequer chegar a executá-las. Pautas são “derrubadas” o tempo todo no dia-a-dia das redações – faltou foto, Beltrano de Tal não falou, o evento X foi cancelado em cima da hora. Aí você, que sugeriu a matéria derrubada, não vai precisar fazê-la… mas não perde o crédito que ganhou por tê-la sugerido. Claro que é necessário um equilíbrio aqui. Tente sugerir apenas pautas que você seja capaz de apurar. Nada é pior que inventar uma idéia tresloucada, simplesmente não-factível, e se ver obrigado a apurar a matéria porque o editor adorou a sugestão. Seja criativo, mas mantenha o pé no chão.
6. SER (OU TER) CARA-DE-PAU
Chance de arrumar o 1° emprego: 75%
Chance de se dar bem na carreira: 50%
Este talento funciona muito bem em conjunto com os talentos n°3 e n°5 – na verdade, a cara-de-pau os potencializa. Manter a expressão séria enquanto se tenta convencer o editor de uma pauta totalmente idiota (mas chamativa) é fundamental em vários momentos na carreira de um repórter. E a a cara dura nunca atrapalhou ninguém a arrumar novos amigos e/ou contatos profissionais, muito pelo contrário. É necessário entender também que a cara-de-pau é básica para a função primordial do jornalista: abordar pessoas desconhecidas e chateá-las com perguntas. A cara-de-pau é fundamental para os repórteres de Geral (a editoria que cuida das notícias metropolitanas), pois são eles quem mais precisam manter contato com o povão na rua. Em Política e Esportes este talento é desejável, mas não tão necessário. Jornalistas de áreas como Economia, Cultura e Informática até podem se dar bem sem precisar da cara-de-pau (visto que a maioria das pautas chega via assessoria de imprensa, que arruma as fontes para o repórter na tranqüilidade). Mas ainda assim não deixa de ser recomendável. Ter esse talento também significa ser capaz de improvisar, “virar” uma pauta para outro lado se o resultado previsto anteriormente não foi confirmado pela apuração, enrolar o chefe quando a matéria está engasgada, convencer o entrevistado a soltar aquela frasesinha que apimenta a matéria… Este talento é ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL, repito, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL a qualquer um que queira seguir carreira em fotografia. Sem cara-de-pau, um fotógrafo não chupa nem um Chicabom.
7. ESCREVER BEM
Chance de arrumar o 1° emprego: 0%
Chance de se dar bem na carreira: 50%, ou maior, se combinado com outros talentos acima
Quem não está por dentro das mumunhas da carreira pode se espantar com a baixa colocação deste talento nesta lista. Ora, mas escrever bem – saber passar uma idéia com clareza, elegância e concisão usando a escrita – não é, afinal de contas, o requisito primordial a qualquer um que deseje ser jornalista? Nem tanto, mestre, nem tanto. Primeiramente, “escrever bem”, em jornalismo, é um conceito bastante relativo. As cabriolas estilísticas de um Machado de Assis não cabem num colunão de polícia. Por outro lado, “Os sertões” foi concebido como uma reportagem, mas vá publicar aquilo num jornal hoje em dia! A internet liberou a criatividade de um porrilhão de escritores diletantes, uns com mais talento, outros com menos (e a grande maioria, com talento nenhum). Entretanto, caros blogueiros, o escrever jornalístico depende muito menos de inspiração e criatividade e muito mais da adequação do escritor ao formato do veículo e – principalmente – de agilidade, muita agilidade. Se a hora do fechamento não perdoou Hemingway, não é contigo que ela vai arregar.
Segundamente, o escrever de maneira correta em jornalismo é um ofício perfeitamente apreensível em faculdades e/ou cursos técnicos. Não tem mistério algum: lead, pirâmide invertida, ouvir os dois lados da questão, etc. Isso aí se aprende em seis meses. (Note bem, me refiro à maneira correta. Ninguém vai sair da aulinha de Técnica de Redação II, lá pelo quinto período da faculdade, pra escrever um “A sangue frio”. Aí sim entra em cena o tal do dom – e isso não se aprende na escola.) Portanto, neste quesito, estamos todos mais ou menos nivelados. Se o cara não é uma besta completa, ele sai da faculdade sabendo bater uma materinha de jornal.
Terceiramente, escrever bem hoje em dia não importa muito – pois não há muito o que escrever, de qualquer maneira. Os espaços para texto estão cada vez menores, subordinados primeiro à quantidade de anúncios e segundo ao tamanho das fotos da reportagem. Nos jornais diários, então, a centimetragem só encolhe, a olhos vistos. O melhor exemplo é o padrão telegráfico dos jornais populares do Rio, nos quais o que vale mesmo é um título bacana e um fotão estourado. Sendo assim, quem vai precisar de gênios da escrita na redação?
Mas calma, não se desespere. Saber escrever nunca atrapalhou jornalista algum. Na verdade, este talento é altamente desejável. A questão é que APENAS saber escrever não vai levá-lo muito longe. Muitos dos luminares da profissão, de hoje e de ontem, alcançaram os píncaros da glória sem saber posicionar uma vírgula corretamente. Mas eles sabiam o bê-a-bá (alguns, apenas isso) e, combinando um razoável dom com as palavras a um ou mais talentos mais importantes, progrediram na vida. Individualmente, este é o talento menos valorizado, mas talvez seja o melhor “talento secundário” para se ter. Conselho: se você já escreve direitinho, não perca tempo na faculdade prestando atenção nas bobagens dos professores. Tente fazer o máximo possível de amigos e vá lendo e escrevendo pra cacete nas horas vagas. Assim, quando um de seus muitos amigos te indicar para alguma vaga (lembre-se, só arruma emprego quem tem amigo/parente/conjuge no lugar certo), você vai fazer bonito e impressionar não apenas o camarada que te indicou, mas também seus superiores.
8.SER PERSEVERANTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100% (mas pode demorar um bocado)
Chance de se dar bem na carreira: variável. A longuíssimo prazo, tende a crescer, especialmente se combinado com outros talentos.
Quem espera sempre alcança. Será? Bem, no jornalismo essa é uma meia verdade, ou talvez 1/5 de verdade. Mesmo que você não disponha de ao menos um dos talentos descritos acima, a paciência, a insistência e o sangue de barata podem levá-lo longe na carreira. Comece já na faculdade fazendo todas as provas de estágio que pintarem. Provavelmente não vai passar de primeira. Nem de segunda… Mas aí o talento n°8 entra em cena. Não desista! Alguma hora você pega a manha da dinâmica de grupo. Ou saca o que exatamente deve colocar na prova escrita. Ou apenas dá a sorte de encontrar competidores (ainda) menos aptos que você mesmo. Se a faculdade acabou e você ainda não arrumou estágio, persevere mais. Mostre a cara, tente fazer amizades, fique moscando em volta de seus colegas que já decolaram na profissão. Mais cedo ou mais tarde (geralmente mais tarde) alguém vai te indicar pra alguma porra, nem que seja por pena.
Uma vez empregado, redobre seu estoicismo. Na certa você vai começar por baixo, num trabalho que será a) mal-remunerado, b) extenuante ou c) sem visibilidade alguma. Provavelmente, os três ao mesmo tempo. Mas sempre tenha em mente que jornalismo, especialmente nas redações, é um ramo de altíssima rotatividade empregatícia. A inércia está a seu favor, mesmo se você não for brilhante nem tiver algum dos talentos mais importantes acima descritos. Basta manter-se no mesmo lugar, suportando os baixos salários e as potenciais humilhações, que um dia só vai sobrar você como rosto conhecido na redação. Aí sim, podem pintar as promoções, os jabás, os aumentos… Lembre-se: se a perseverança é seu único talento, em alguns momentos a coisa parecerá preta. Vai testemunhar coleguinhas mais bem-relacionados e/ou apadrinhados e/ou mais safos subindo, enquanto você continua ali, marcando passo. Morda os lábios e siga em frente, impávido. À medida em que for desenvolvendo os talentos “adquiríveis” da lista (os de número 3, 5, 6 e 7), sua situação tende a melhorar. A grande, e talvez única vantagem deste talento é que todo mundo nasce com ele, em maior ou menor grau. Aproveite ao máximo – tirando a eventual boca-livre em coletivas de imprensa, pra jornalista nada costuma ser de graça.
Minha cinefilia precoce deve muito aos filmes de Woody Allen. Ficava de madrugada acordado, esperando a Globo reprisar A Última Noite de Boris Gruschenko ou O Dorminhoco. Sou velho o suficiente para lembrar que A Rosa Púrpura do Cairo ficou mais de um ano em cartaz no Rio, entre 1985 e 1986. Ou que Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo, um filme de 1972, só foi estrear na TV brasileira no fim dos anos 80 (passou no Supercine). Lembro-me ter encarado uma sessão à meia-noite de Zelig, sem legendas, nalgum momento do comecinho da década de 1990. Depois de ter enriquecido minha cultura woodyística com livros (dele ou sobre ele), peças de teatro, entrevistas e documentários, percebi que, na verdade, a obra de Allen não apenas moldou meu gosto cinematográfico. Devo a ele também muito de meu senso de humor – e mesmo a maneira como enxergo a vida foi influenciada por seus pensamentos. Eu acompanhava até a tirinha em quadrinhos “estrelada” por ele, que o Globo publicava nos anos 80! Enfim, sou fã do cara, tendo visto cada um de seus filmes ao menos uma vez (a maioria deles, bem mais que uma vez).
Poucos cineastas encarnaram a teoria do auteur cinematográfico quanto Allen. Especialmente depois que o ator-roteirista-diretor percebeu que poderia usar o cinema para algo além de contar piadas (muito) engraçadas. Alguns o criticam por “fazer sempre o mesmo filme”. Eu vejo aí coerência autoral. Woody tem um repertório de temas que o interessam como artista e como ser humano, e usa seus filmes para trabalhar e retrabalhar esses temas. O estudo de sua obra por completo revela a constância dessas obsessões e a evolução da abordagem que Allen vem dando a elas.
A seguinte filmografia comentada restringe-se aos longas dirigidos por Allen. Não inclui, por exemplo, o curta-metragem que ele assina emContos de Nova York. Nem os filmes nos quais ele participa apenas como ator e/ou roteirista (O que Há, Gatinha?, Sonhos de um Sedutor, Testa de Ferro por Acaso…). Também restringi os textos a comentários sobre técnica, estilo e temática – não há sinopse nem ficha técnica de cada filme, ou grandes elaborações sobre a trama. Parto do princípio que os leitores estão ao menos familiarizados com os longas. ATENÇÃO PARA OS EVENTUAIS SPOILERS. Se você não assistiu ao filme comentado, recomendo pular a leitura para o longa seguinte.
O QUE HÁ, TIGRESA? (What’s up Tiger Lily, 1966): Confesso que não sabia qual era o título traduzido do primeiro filme “dirigido” por Allen. Assisti-o em uma mostra no CCBB, em 1990 & vovô garoto, sem legendas. Como em todos os longas da fase inicial do diretor, a prioridade era manter um ritmo acelerado de piadas farsescas. Aqui, o estilo era levado às últimas consequências. Allen pegou dois filmes japoneses de espionagem (este aquie mais este outro aqui), reeditou-os e botou uma dublagem por cima, transformando a trama numa história sem pé nem cabeça (em vez de um microfilme ultrasecreto, os espiões brigam por uma receita de salada de ovos). A ideia sequer foi do cineasta. O estúdio AIP comprou os longas orientais com a intenção de lança-los nos EUA, mas achou a história confusa demais; um executivo então sugeriu entregar tudo a Allen, que estava na crista da onda como roteirista e comediante. Menos um longa-metragem do que um experimento em nonsense, ainda tem a participação da banda riponga Lovin’ Spoonful, em cenas enxertadas sem a autorização do diretor (para esticar a duração do filme). Hoje é uma mera relíquia, um passatempo para completistas – e nem tão engraçado assim, se não me falha a memória depois quase 20 anos.
UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO (Take the Money and Run, 1969): Eis, afinal, a estreia de facto de Allen como diretor. Na mesma tacada, ele estabelece sua persona cinematográfica inicial – tímido, atrapalhado, autodepreciativo, caricatural e intrinsecamente judaico – e um modus operandi estilístico que seguiria, com variações, até 1977. Há pouco roteiro per se. Em vez de uma história coerente, temos uma metralhadora de esquetes com níveis variados de comicidade (minha piada favorita: “Os prisioneiros tinham direito a um refeição quente por dia: um prato de vapor.”) A fórmula de metadocumentário seria retomada, com muito mais brilhantismo, em Zelig.
MELHOR MOMENTO: Woody aprisionado numa chain gang, marretando dormentes numa linha férrea, e cantando um spiritual (que, na versão dublada, ficou “Eu vou ver a Dona Lyla/ Vou pro Mississipi”).
COTAÇÃO:
BANANAS (Bananas, 1971): Inspirado no (bom) livro Dom Quixote Americano, de Richard Powell, é o mais político dos filmes de Allen, junto ao mais metafórico Neblinas e Sombras. Claro que o confuso cenário “revolucionário” na América Central só serve como pano de fundo para o humor anárquico. Em termos de ritmo e de piadas, é um retrocesso em comparação com Um Assaltante. Allen perde um pouco a mão na segunda metade (quando seu personagem retorna aos EUA). Irregular, mas exemplo importante de uma fase menos “cabeça” e despretensiosa do cineasta.
TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE SEXO (MAS TINHA MEDO DE PERGUNTAR) [Everything You Always Wanted to Know About Sex*(*But Were Afraid to Ask), 1972]: Woody voltava a basear-se mais uma vez num livro (o clássico homônimo, e seriíssimo, de David Reuben). Para Allen, um obcecado com o sexo e suas questões correlatas, o revolucionário livro de Reuben era um prato transbordando. TOQVSQSSS (MTMDP) é um filme mais ambicioso que seus predecessores. O diretor usou sete dos tópicos abordados no livro (afrodisíacos, sodomia, dificuldades do orgasmo feminino, travestismo, perversão, pesquisas sexuais e ejaculação) para criar um longa em episódios. Contou com um elenco recheado de talentos cômicos (Tony Randall, Lou Jacobi, Gene Wilder) e exibiu notável tino para brincadeiras estilísticas. Exemplos são o episódio sobre o orgasmo feminino, parodiando o cinema italiano dos anos 60 (com direito a diálogos em italiano) e o game show retrô feito para ilustrar o capítulo sobre perversão. E chega a esbarrar no surrealismo no episódio sobre as pesquisas – que culmina com um seio gigante fora de controle, correndo pelos campos – e no epílogo, no qual o próprio Woody interpreta um espermatozóide. O resultado, até mesmo pelo formato, é o mais divertido e “satisfatório” (cinematograficamente falando) dos filmes da fase inicial de Allen.
O DORMINHOCO (Sleeper, 1973): Continuando a inspiração surreal que marcou o longa anterior, aqui Allen se aventura pela ficção científica. Apropriando-se de/referenciand0-se em Kubrick, George Orwell e H.G.Wells, é uma sátira distópica. Mas, como em Bananas, o subtexto é mera formalidade. O roteiro volta a apoiar-se na persona fílmica de Woody para extrair a maior parte de sua graça. Visualmente, é mais refinado e impactante, usando sets elaborados e efeitos especiais (como na cena em que Woody flutua usando uma roupa inflável). Só que ainda é claramente a obra de um cineasta procurando sua própria voz, e ainda usando gêneros e trabalhos alheios como base para o humor. Curiosidade extraída do IMDb: a ideia original era rodar o longa em Brasília, aproveitando o visual futurista da capital.
A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSCHENKO (Love and Death, 1975): Bergman, Chaplin, Dostoiévski e Tolstoi irmanam-se nesse sexto filme, que pode ser considerado o Rubber Soul de Allen – o primeiro salto que possibilitou vôos maiores. O método de paródias e/ou referências a obras alheias persiste. Mas aqui Woody já aborda assuntos que seriam martelados ao longo de sua carreira – a angústia diante da morte, o sentido da vida, a infidelidade. Talvez rebatendo os críticos que ainda o viam como um mero piadista, exibe uma intenção explicitamente mais intelectualizada, enchendo o roteiro de referências à literatura russa e a filmes de Ingmar Bergman (em especial O Sétimo Selo). Só isso tudo ainda vem embaralhado com passagens de nonsense radical e discussões pseudofilosóficas – que, no entanto, refletiam temas bastante importantes para o diretor, como se veria mais tarde. Como diretor de atores e roteirista, Allen mostra evolução, aplicando nuances aos personagens (em especial ao de Diane Keaton, mas também ao seu protagonista, apesar do tom caricatural).
NOIVA NERVOSA, NOIVO NEURÓTICO (Annie Hall, 1977): Ou: Ah, Esses Tradutores Criativos! Ou, voltando à analogia beatlesca, o Revolver de Woody. Nos dois anos que separaram Annie Hall de Boris Gruschenko, Allen deu um salto quântico como ator, roteirista e diretor. Quase todos os traços autorais de seu futuro estavam contidos aqui: personagens neuroticamente absorvidos em si mesmos, relacionamentos fadados ao fracasso, comentários sardônicos sobre a fama e o showbiz, a protagonista feminina levemente louquinha, a busca da expressão criativa como forma de suplantar a mundanidade do cotidiano, uma visão cínica e pessimista (mas ao mesmo tempo melancólica) sobre o amor em particular e a existência humana em geral. Nova York também assumia um papel fundamental, não apenas como cenário da ação, mas como um “estado de espírito” que influencia diretamente as personalidades dos protagonistas. NY era “o mundo” – o retrato patético que Woody faz da Califórnia pós-flower power é a prova. Os planos são mais longos, o roteiro contempla diálogos e situações que evoluem de forma natural, e não apenas amarram piadas. Conscientemente, Allen abandonou a zoeira dos longas anteriores em busca de um tom mais naturalista e maior profundidade psicológica. Mesmo que, aqui e ali, escape do realismo (como na sequência com Marshall McLuhan na fila do cinema). Sucesso de crítica e público, NN,NN é também seu filme mais influente. É a quintessência da comédia romântica de Allen – que não apenas evita os clichês do gênero, mas também cristaliza sua (anti)heroína por excelência, Diane Keaton. Ganhou uma penca de Oscars (batendo Star Wars, haha) e hoje é provavelmente o filme mais querido do fãs “casuais” do diretor.
MELHOR MOMENTO: O monólogo inicial, no qual Allen dirige-se direto ao público e não apenas apresenta as questões fundamentais do filme, mas redefine sua persona cinematográfica.
COTAÇÃO:
INTERIORES (Interiors, 1978): Outro marco fundamental. Além de ser seu primeiro drama, é também o primeiro filme no qual ele dirige, mas não atua. Disposto a mostrar que tinha mais a oferecer do que apenas piadas amalucadas, Allen seguiu com um longa austero e 100% desprovido de humor. É possível, como vários críticos sugeriram à época, enxergar o filme como uma emulação/homenagem ao estilo de Ingmar Bergman – e sua maneira seca, econômica em palavras, de analisar as dificuldades nos relacionamentos humanos. Na figura da matriarca vivida por Geraldine Page há traços emblemáticos dos personagens femininos de Allen: instabilidade mental contrabalançada por charme e inclinações artísticas, características que reapareceriam em outros roteiros. Não é, nem de longe, seu melhor drama. Alguns diálogos soam muito artificiais e há um tom pretensioso, afetado, que permeia situações e os personagens. Mas para uma primeira incursão, dá pro gasto. A fotografia é bela (de Gordon Willis) e as performances são boas (em especial as de Page e Maureen Stapleton).
MANHATTAN (Manhattan, 1979): Apesar da precedência histórica de Annie Hall, este é para mim o filme que sumariza o melhor de Allen. O humor é afiado, mas temperado com melancolia ímpar; os relacionamentos amorosos e os personagens são perfeitamente críveis; há a nítida procura por sofisticação (visual e de conteúdo), mas que nunca esbarra na afetação. Carta de amor declarada a Nova York, é também a análise definitiva sobre a impossibilidade de satisfação plena no amor. Tracy ama Isaac que ama Mary que ama Yale, que é casado e abandona Mary, abrindo caminho para que Isaac fique com Mary, que continua pensando em Yale, que neste meio tempo já deixou a esposa para ficar com Mary, e só aí Isaac descobre que deveria ter ficado com Tracy desde o começo, mas agora é tarde demais… ou não? Prova da maturidade de Allen como roteirista é o modo como discussões filosóficas e citações intelectualóides se misturam, sem costuras aparentes, às piadas – e todos ficamos com a impressão de que sim, era daquele jeito mesmo que os nova-iorquinos antenados falavam no fim da década de 1970. A sedução se completa com a fotografia de Gordon Willis (é o primeiro de vários filmes P&B que o diretor faria) e a igualmente bela trilha sonora (com arranjos orquestrais para as mais famosas canções de George Gershwin).
MELHOR MOMENTO: O epílogo, obra-prima de diálogo agridoce que se encerra com a frase “Você tem que ter mais fé nas pessoas” e um tímido sorriso de Allen.
COTAÇÃO:
MEMÓRIAS (Stardust Memories, 1980): Reza o clichê que este é o 8 1/2 de Allen, seu filme mais “confessional”, “onírico” e “surreal”. (Relativamente) pouco visto, é decerto um de seus trabalhos mais interessantes. É pretensioso também, mas o approach irônico que Woody aplica à sua obra e à sua persona fílmica contrabalançam a pretensão. Woody sempre negou que o roteiro e o protagonista sejam autobiográficos. Foi acusado (não sem razão) de egomania e narcisismo. Mas as semelhanças são tantas que a narrativa beira a auto-paródia. O retrato que o cineasta pinta de si mesmo é contraditório e perceptivo. Assediado pelos fãs e pela crítica, é assaltado por cobranças para que ele retorne aos “antigos filmes, mais engraçados”. Os dias de rejeição crônica ficaram para trás; agora Sandy (Woody) brinca de cirandinha com três belas mulheres (Charlotte Rampling, Marie-Christine Barrault e Jessica Harper). O diretor lança mão do sobrenatural (ou mais especificamente aqui, do extraterrestre) como recurso narrativo. Não que fosse uma novidade – lembram-se dos passeios de mãos dadas com a Morte, em Boris Grushenko? Mas, dentro da segunda fase iniciada com Annie Hall, mais realística e menos zoada, era a primeira vez. Formalmente, é sofisticado. Outra vez fotografado em P&B, tem sequências lindamente filmadas (como a cena com os balões, ao som de “Moonlight Serenade”). Memórias foi mal recebido pela crítica e fracassou na bilheteria. Natural. Os críticos não devem ter gostado da imagem obtusa que Allen faz deles na tela; seu público é tratado como um bando de chatos, que não aceitam a mudança em seu estilo e o perturbam constantemente com pedidos de autógrafos. Autoanálise de um artista em pleno processo de maturação/transição, tentando lidar com os conflitos que pipocavam durante o período.
SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO (A Midsummer’s Night Sex Comedy, 1981): Em quatro anos, Allen cristalizou seu estilo autoral, aventurou-se no drama e fez uma (suposta?) autocrítica. Parou para tomar fôlego com esta comédia ligeira, que apesar de não ser um de seus filmes mais populares, tem lugar importante em sua obra. É o primeiro (de 13) longas que rodou com Mia Farrow, que viria a ser sua mulher. Também marca sua primeira experiência como diretor de um elenco em formato ensemble, sem um protagonista claramente definido – opção à qual ele voltaria varias vezes. Divertido, o roteiro embala de forma leve e agradável as fixações de Woody com a infidelidade e o flerte compulsivo. Baseado bem livremente em Sorrisos em uma Noite de Verão, de Bergman, exibe mais uma vez uma fotografia belíssima, de inspiração impressionista. Outro ponto para Gordon Willis, que usou um estilo completamente diferente do visto nos filmes P&B anteriores.
ZELIG (Zelig, 1982): Treze anos depois de Um Assaltante bem Trapalhão, Woody arrisca mais um falso documentário. Saiu-se com um dos mais ousados e justificadamente cultuados filmes de sua carreira. Antecipando o conceito básico de Forrest Gump (sem o sentimentalismo, claro), Zelig é uma proeza tanto de conceituação quanto de realização cinematográfica. A ideia do camaleão-humano como metáfora do judeu que busca a assimilação dentro de culturas alheias é brilhante – e serve também, em última instância, de espelho para a própria história de Hollywood. Afinal, a máquina de sonhos (e de divulgação do american way of life) que é o cinema ianque foi criada por judeus vindos da Europa… Coube de tudo no filme: crônica social & histórica, psicanálise, crítica à máquina de entretenimento e à cultura das celebridades. A fixação nostálgica do diretor com o modo de vida da primeira metade do século 20 emerge forte. Ah, e coube comédia de altíssimo nível também. Na fotografia, Allen e (de novo) Gordon Willis inseriram de modo perfeito o protagonista em cenas históricas, e criaram todo um universo absolutamente crível em torno da figura de Leonard Zelig. A elaboração dos efeitos especiais levou mais de um ano. Prova cabal da imaginação, da inteligência e da capacidade técnica de Woody como cineasta.
MELHOR MOMENTO: Os depoimentos fake que pessoas seríissimas, como Saul Below, prestam discorrendo sobre o “fenômeno” Zelig.
COTAÇÃO:
BROADWAY DANNY ROSE (Broadway Danny Rose, 1984): “Filminho” agridoce e muito engraçado sobre o showbiz, ou mais especificamente sobre os derrotados pelo showbiz. A persona clássica de Woody volta em full mode – ansioso, atrapalhado, hesitante e hilário. Mia Farrow, por outro lado, desvia completamente da imagem mais tímida de outros filmes e incorpora uma namorada de gangster, trashy e falastrona. Melancólico, mas com final feliz, BDR tem momentos de pastelão bastante inspirados e uma constelação de figuraças do time B da Broadway. Se você acha que a voz do narrador é familiar, saiba que é ele mesmo: Sandy Baron, o Jack Klompus de Seinfeld.
A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The Purple Rose of Cairo, 1985): Escapar da vida mundana, seja por meio da arte, seja por meios mágicos/místicos, é uma busca constante de vários personagens de Allen. Aqui, o cineasta tece suas considerações definitivas sobre o(s) tema(s). E foi feliz, como poucas vezes, no equilíbrio entre pathos, comédia e drama. Se Memórias é o 8 1/2 de Woody, A Rosa é seu Sherlock Jr., sua nostálgica ode à capacidade do cinema de nos levar (ou nos trazer…) a outros mundos. Num outro aceno a Memórias (e também a Zelig, claro), espicha as brincadeiras metalinguísticas ao imaginar um personagem de ficção que confronta o ator que o interpreta… com resultados tragicômicos. É uma meta-quebra da quarta parede, se é que podemos usar esse tipo de termo. O contraponto agridoce entre a ingenuidade dos protagonistas (Mia e Jeff Daniels) e a barra pesada dos EUA dos anos da Depressão é comovente. É, não por acaso, um dos filmes preferidos do próprio Allen dentro de sua obra, que define a paixão que o diretor sente pelo cinema – e, neste aspecto, não deixa de ser um primo espiritual de A Era do Rádio.
MELHOR MOMENTO: Jeff Daniels aprendendo na marra que a vida real e o cinema têm diferenças. Às vezes agradáveis, às vezes não.
COTAÇÃO:
HANNAH & SUAS IRMÃS (Hannah and her Sisters, 1986): Em contraste com sua satisfação com A Rosa Púrpura, Allen nunca escondeu sua decepção com o resultado deste longa (o final teria ficado “feliz demais”, segundo ele). Permita-me discordar, Woody. Para mim, é um de seus melhores trabalhos. Também é um de seus maiores sucessos de crítica e bilheteria, além de ter levado três Oscar (Dianne Wiest e Michael Caine venceram como melhores coadjuvantes, e Allen levou o prêmio de roteiro original). Retornando ao formato de elenco ensemble, o diretor acompanha as desventuras das irmãs do título, que fazem uma força desgraçada para complicarem suas vidas amorosas. Woody acena explicita e metaforicamente a Bergman mais uma vez, ao espelhar a trama na estrutura narrativa de Fanny & Alexander e ao escalar Max von Sydow como o rabugento marido de Barbara Hershey. Mais uma vez, o balanço entre drama e comédia é fino e exato, os personagens são bastante críveis e o nível de humor equivale aos momentos enternecedores. Da lista de tropesfavoritos do diretor, retornam a preocupação com a finitude humana (o que nos aguarda do outro lado?) e a mãe desequilibrada e com temperamento artístico (Maureen O’Hara), personagem similar à mãe de Interiores.
A ERA DO RÁDIO (Radio Days, 1987): Na mesma veia nostálgica de A Rosa, Woody mistura autobiografia, memória afetiva e ficção para recriar uma América mais simples, galvanizada pelo poder do rádio. Volta a questão do entretenimento como forma de escapatória da realidade – música, radionovelas e programas de humor unindo a nação e providenciando, por alguns momentos, uma saída dos tempos duros da II Guerra Mundial. É um dos filmes mais “fofos” e menos cínicos de Allen, incorporando (e romantizando) o espírito ingênuo da época. Mia Farrow demonstra mais uma vez sua versatilidade, como a vendedora de cigarros que se transforma em personalidade do rádio. Não perca a ponta de Larry “Seinfeld” David, como o vizinho comunista da família de Joe (Seth Green).
SETEMBRO (September, 1987). Aproveitando o fértil momento criativo, Allen soltou mais um filme naquele mesmo ano. Mas o projeto seria um tanto acidentado. Descontente com o resultado do longa, o cineasta deu-se ao luxo de jogar o filme inteiro fora e refilmar tudo de novo, promovendo mudanças decisivas no elenco. Estritamente dramática, a ação é concentrada em poucos cenários e um punhado de personagens, e é filmada em takes longos, reforçando o tom teatral e evocando Tchecov e Strindberg. Pode ser encarada como uma versão pesadona e solene do bailado sentimental de Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão. Não é dos filmes mais queridos pela crítica, mas eu particularmente gosto. As atuações são sólidas (tirando os exageros de Elaine Stritch e os choramingos eventuais de Mia) e a fotografia é magistral.
MELHOR MOMENTO: As muitas cenas tensas entre as personagens femininas, como esta aqui.
COTAÇÃO:
A OUTRA (Another Woman, 1988): Pretensioso em sua pesada dramaticidade bergmaniana, este é, para mim, o primeiro tropeço real de Woody. Ainda que, em retrospecto, não seja realmente um mau filme. Apenas quebrou a sequência de maior inspiração na carreira do diretor. É mais um drama acerca de infelicidade conjugal, sonhos não realizados e Mia Farrow de novo no papel de coitadinha. Para o meu gosto, a premissa inicial (Gena Rowlands ouve as sessões de psicanálise de Mia, por acaso, e passa a repensar sua própria vida) soa muito implausível. Mas, como sempre, tem elenco e encenação exemplares, além da bela fotografia do (também bergmaniano) Sven Nykvist.
MELHOR MOMENTO: Osonho de Marion (Gena Rowlands), tentando conciliar (de forma bem teatralizada) seus dilemas interiores.
COTAÇÃO:
CRIMES E PECADOS (Crimes and Misdemeanors, 1989): Um dos mais importantes longas do diretor, coroando sua fase de maior brilhantismo. Não apenas é, empatado com Manhattan, seu melhor filme (pelo menos para mim, né). Também ecoou em sua obra pelo menos outras duas vezes (Match Point e O Sonho de Cassandra são, a meu ver, tentativas mais pálidas de repensar as mesmas questões vistas aqui). Dividido explicitamente entre drama pesado e comédia, segue o dilema de consciência do médico Judah (Martin Landau) e os tropeços sentimentais e profissionais do cineasta Cliff (Allen), em histórias que só se encontram ao final. No fundo, são a mesma história: homens diante de momentos cruciais de suas vidas, a serem definidos por escolhas morais que terão consequências irreversíveis. Assumindo ares sofisticados – referencia Dostoiévski, tangencia conceitos filosóficos e cita James Joyce – Woody também faz boas, porém sutis piadas. O drama de Judah, encenado de forma solene, às vezes até hiperbólica (como na sequência em que ele “volta no tempo” para dialogar sobre moral com o próprio pai), é balanceado de modo perfeito com a desajeitada corte que Cliff faz à personagem de Mia Farrow. Os coadjuvantes estão ótimos (Alan Alda, Sam Waterston e Jerry Orbach merecem destaque) e o próprio Woody se supera, numa versão ainda mais frágil e melancólica de sua persona. Obra complexa, emocionante, múltipla, contemplando as crenças do diretor em assuntos tão distintos quanto a comercialização da arte, a herança cultural judaica, o adultério e… o assassinato.
MELHOR MOMENTO: O encontro, nos momentos finais do filme, entre Judah e Cliff.
COTAÇÃO:
SIMPLESMENTE ALICE (Alice, 1990): Em 1977, Woody fez de uma ode a sua primeira musa – Diane Keaton – um de seus clássicos. Aqui, ao colocar sua segunda musa, Mia, como razão de ser, acabou construindo um filme bem inferior. Comediazinha leve e despretensiosa, retorna ao sobrenatural como recurso narrativo (a protagonista toma “chás” que mudam sua realidade, justificando a referência a Lewis Carroll). Problema: fica difícil para o público identificar-se com Alice. Ela é apenas uma dondoca rica e mal-casada do Upper East Side, que procura uma saída para seu vazio existencial. Flerta aqui, toma um chazinho batizado ali, reclama do marido (William Hurt, numa performance sonâmbula) acolá. O desfecho parece particularmente implausível. Começava aqui uma fase de transição para o diretor, depois de uma sequência de 13 anos (quase) sem engasgos.
NEBLINA E SOMBRAS (Shadows and Fog, 1991): Essa comédia não deixa de ser uma volta ao passado mais anárquico de Allen, por conta de seu tiroteio indiscriminado em vários alvos. É uma paródia dos pesadelos claustrofóbicos de Kafka; uma homenagem à mística (romantizada) do mundo do circo; uma tributo ao cinema expressionista; uma alegoria política a respeito da paranóia com o fascismo; uma sátira noir aos crimes de Jack, O Estripador… Enfim, é muita coisa rolando, num filme estilizado ao extremo (rodado em P&B adequadamente sombrio), mas cujo conteúdo fica aquém do visual elaborado. Gastando um elenco coadjuvante de alto luxo (John Malkovich, William H.Macy, Jodie Foster, Wallace Shawn, Lily Tomlin, Kathy Bates… e Madonna), Woody até consegue fazer graça aqui e ali, num filme que tem elaboração demais e conteúdo de menos.
MELHOR MOMENTO: O clima comicamente sufocante decenas como esta.
COTAÇÃO:
MARIDOS E ESPOSAS (Husbands and Wives, 1992). Outro filme importantíssimo, tanto por suas qualidades artísticas quanto pela polêmica que cercou a vida pessoal de Allen na época. Seu personagem é um professor cinquentão que, em crise com a mulher (Mia), se encanta por uma aluna (Juliette Lewis) algumas décadas mais jovem. Na época do lançamento do filme, o casamento de Woody e Mia havia acabado na vida real, justo porque ele apaixonara-se por uma mulher décadas mais jovem… e que era filha adotiva da própria Mia. Pior: no filme, a personagem de Mia é uma chata de galochas, carente em último grau. Allen nunca teve muito problema em inspirar-se em seu cotidiano para ter ideias criativas, mas neste caso a realidade superou, em muito, a ficção. Quem já achava que o diretor era obcecado com seu próprio umbigo soltou fogos. Formalmente, é zoado, cheio de arestas: câmera na mão, planos longos, diálogos sobrepostos e cenas de “depoimentos” que sugerem a filmagem de um documentário. Desnecessário dizer que foi o último filme rodado com Mia. Com o fim do casamento, Allen parece ter perdido uma certa coerência. Talvez a “obrigação” de construir filmes para serem estrelados por Mia tenha direcionado sua obra por tempo demais, para o bem e para o mal. A partir de Maridos e Esposas, ele demonstraria muito mais apetite para o risco. Para o bem e para o mal…
MELHOR MOMENTO: O joguinho de sedução entre Juliette e Woody, espelhando a relaçao com Muriel Hemingway em Manhattan.
COTAÇÃO:
MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN (Manhattan Murder Mystery, 1993): Woody estava perdido. Não marcava um hit de bilheteria desde Hannah & Suas Irmãs. Seus últimos dramas straight tinham sido mal recebidos. Sua sempre discreta vida pessoal caiu em bocas-de-matildes, ao trocar Mia por Soon-Yi. O que fazer? Voltar à comédia, claro. A trama é hitchcockiana, mas Allen transforma tudo em farsa – e volta a contemplar o tédio conjugal e o adultério. Citações a Janela Indiscreta, Festim Diabólico e (no desfecho) A Dama de Shanghai justificam a ponte. A dobradinha com Diane Keaton, reatada após 14 anos, soa fresca como nunca. Desencanado de tortuosos dramas psicológicos, Woody volta a causar frouxos de riso na plateia – ainda que, como filme criminal, a trama seja enrolada e implausível demais. Nos anos seguintes, Allen transformaria a crise em sinônimo de oportunidade artística, com resultados variados.
MELHOR MOMENTO: A cena do elevador. (Acho que nunca ri tanto no cinema. Infelizmente só achei um vídeo dublado em espanhol.)
COTAÇÃO:
TIROS NA BROADWAY (Bullets over Broadway, 1994): Arte X comercialismo. Sucesso X inspiração. Idealismo X showbusiness. Criatividade como meio de alcançar a imortalidade. Bastidores do mundo do entretenimento. Nostalgia (o filme se passa nos anos 1920). Temas recorrentes para Allen, nesta comédia eles foram burilados à quase-perfeição, sumarizando a angústia que o cineasta demonstra diante das crises criativas e das interferências externas em seu trabalho. Pela primeira vez (descontando o garotinho de A Era do Rádio), Allen escalava um outro ator para viver sua persona habitual – o desempenho de John Cusack diante da responsabilidade é excelente. Nos anos seguintes, vários outros intérpretes tentariam o mesmo, chegando a imitar a gagueira e o gestual de Woody, mas nenhum saiu-se tão bem. O resto do elenco não fica nem um pouco atrás, embarcando com gosto no clima farsesco que toma conta da peça-dentro-d0-filme. O roteiro tem clichês (como a namorada burra do mafioso), mas a visão de uma Mary-Louise Parker novinha compensa tudo.
PODEROSA AFRODITE (Mighty Aphrodite, 1995): Outro bom momento cômico da década, no qual Allen usa referências highbrow (coro grego, citações mitológicas, etc.) para contrastar com a protagonista, a prostituta obtusa vivida por Mira Sorvino – que ganhou Oscar pelo papel. Comparando com seu antecessor e seu predecessor, é um filme mais despretensioso. Há espaço para ótimas gags, a participação do coro é um achado, mas a direção de atores é meio irregular. O romance afetado e forçado entre Peter Weller e Helena Bonham-Carter, por exemplo, não me convence. Ainda assim, fez merecido sucesso de público.
MELHOR MOMENTO: O primeiro encontro entre Lenny (Allen) e Linda (Sorvino). ELA: “Você não é desses caras bem-dotados, que ficam pelados por aí, arrastando sua coisa e batendo pelos móveis, né?” ELE: “Acredite, não poderia fazer isso nem que eu quisesse”.
COTAÇÃO:
TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone Says I Love You, 1996): Ele estava realmente esforçando aqui, a ponto de arriscar-se… num musical. Amado por boa parte da crítica, fracasso de bilheteria, é para mim um dos menos interessantes e mais artificiais filmes de Allen. Claro, há o artificialismo inerente ao gênero musical. Claro, há um artificialismo inerente também à toda a obra do diretor, eivada de personagens com aspirações e dilemas não raro implausíveis. Elevado a essa potência toda, o tom é de overdose. Fotografado em locações deslumbrantes em Nova York, Paris e Veneza, é agradável, mas não consegue convencer em momento algum (Julia Roberts namorando com Woody?). É preciso ser muito fã de Allen E muito fã de musicais para não se entediar, ao menos em algum momento.
DESCONSTRUINDO HARRY (Deconstructing Harry, 1997): Boa parte dos aficionados por Allen enxerga neste filme sua última obra-prima de facto. Realmente, trata-se do melhor trabalho do diretor nos últimos 15 anos, fase europeia inclusa. É um filme de paradoxos. Ao mesmo tempo em que fisga a narrativa de Morangos Silvestres (Bergman…), entope o filme com uma quantidade inédita de palavrões. Faz com que os personagens criados por seu protagonista, um escritor com bloqueio criativo, saltem para a “realidade”, enrolando ainda mais sua vida. A caminho para ser homenageado por uma pomposa universidade, resolve levar uma vulgar prostituta como companhia. Pela primeira vez, assume um papel ambíguo e por vezes até antipático – sexista, escroto com as mulheres, misantropo. Colocando a imaginação de Block, o protagonista, como fio condutor, Allen aproveita para fazer digressões quase surreais – achados como o homem fora de foco (Robin Williams) ou enxergando seu rival Larry (Billy Crystal) como o próprio Diabo. Não deixa de ter suas conexões com Memórias, ao abordar o cruzamento entre crise criativa e turbulências pessoais – além de mostrar como Allen, ou seus protagonistas, tentam lidar com as exigências e expectativas do público. Filme sólido, com roteiro rico em referências mas sem descuidar do humor, demonstrando que, diferentemente de seu personagem, Allen estava transbordando de imaginação.
MELHOR MOMENTO: A visita de Harry Blockao inferno.
COTAÇÃO:
CELEBRIDADES (Celebrity, 1998): É chato ficar vendo paralelos em todos os filmes do cara, mas… Se Allen já quis fazer um La Dolce Vita, ei-lo. Até a fotografia em P&B reforça a associação. Na prática, é o “mesmo filme de sempre”: escritor (Kenneth Branagh) tenta lidar com suas neuroses em meio a uma crise profissional. O diretor demonstra todo o seu desprezo pela o culto às celebridades transformando Lee (Branagh) num apalermado jornalista, fascinado e apequenado diante do glamour dos ricos & famosos. Não é das obras mais memoráveis do diretor, muito por causa da performance de Branagh, que se limita a parodiar os tiques de Allen. Isso é ruim, já que o protagonista deveria ser o único ponto de identificação do público – os famosos, intencionalmente, são retratados de maneira unidimensional e caricata. O roteiro, construído em episódios, ajuda a tornar o filme mais palatável.
POUCAS & BOAS (Sweet and Lowdown, 1999): Pouco comentado pelos brasileiros, é um dos meus favoritos filmes do período. Resgatado de uma ideia original que Allen teve em 1969, o longa retoma a veia da nostalgia dos anos 20 e 30 e ganha muito com as excepcionais performances de Sean Penn (que NÃO faz um alter-ego de Woody) e Samantha Morton (interpretando uma muda!). Como “musical” é até mais eficaz que Todos Dizem Eu Te Amo, com sua onipresente trilha de jazz vintage. O personagem de Penn, um guitarrista egomaníaco, mulherengo e arrogante, equilibra o fascínio romantizado que Allen empresta ao filme. É um dos tipos mais interessantes e complexos construídos pelo cineasta.
MELHOR MOMENTO: As “conversas” entre Penn e Samantha. Queria achar a cena final, mas não encontrei. Essa aqui substitui bem.
COTAÇÃO:
TRAPACEIROS (Small Time Crooks, 2000): Nova década, novos problemas criativos. Começava aqui uma sequência de filmes menores, de baixos bem baixos e altos mais ou menos elevados. Trapaceiros soa preguiçoso desde a gênese, já que é um remake dum filme dos anos 40. Tentativa clara de buscar um humor mais despretensioso, o roteiro é ao mesmo tempo implausível e óbvio. Sem aparecer na tela desde 1997, Woody parece envelhecido para seus então 65 anos. A partir daqui, surgiria um clichê nas resenhas sobre os trabalhos de Allen: “É apenas um filme mediano, mas um filme mediano de Woody Allen é melhor do que a média do atual cinema americano” (ou algo do tipo).
O ESCORPIÃO DE JADE (The Curse of the Jade Scorpion, 2001): O próprio diretor apontou (no livro de entrevistas com Eric Lax) que este seria, provavelmente, seu pior filme. Decerto que pouca coisa funciona a contento aqui. Como protagonista, Woody está hesitante e inconvincente, e sua química com Helen Hunt inexiste. O roteiro volta a apelar para o misticismo (no caso, hipnotismo) para fazer a história prosseguir, o que acaba parecendo forçado. Como comédia, deixa a desejar; como trama de mistério, beira o incompreensível. Para compensar, a direção de arte e a fotografia exibem o capricho habitual, recriando uma atmosfera noir à base de tons sépia.
DIRIGINDO NO ESCURO (Hollywood Ending, 2002): Dos três filmes em sequência em que Allen tentou retornar a um estilo mais leve de humor, este é o mais bem resolvido. Ainda que perca, de longe, para qualquer uma de suas comédias rasgadas do começo dos anos 70. Talvez seja porque aqui ele tinha algo a dizer, além do conteúdo cômico. Woody nunca escondeu seu desprezo pelos grandes estúdios e como detesta sofrer interferências sobre seu trabalho. Ele transforma isso tudo numa “vingança”: seu personagem, um cineasta cultuado no passado mas hoje na pior, fica cego às vésperas de assumir um filme de grande orçamento. E, mesmo apavorado, segue em frente, literalmente dirigindo às cegas. É uma comédia-de-uma-piada-só, mas se sustenta. Entre os coadjuvantes, destaque para um impossivelmente bronzeado George Hamilton.
MELHOR MOMENTO: Qualquer um com Woody lidando com sua inexplicável cegueira, como este.
COTAÇÃO:
IGUAL A TUDO NA VIDA (Anything Else, 2003): Massacrado pela crítica (Leonard Maltin diz que é o pior dos filmes de Allen), fracasso de público, este filme é o meu Allen favoritodo terceiro milênio. E não, não tem nada a ver com a minha declarada paixonite pela Christina Ricci. (uma preferência na qual também não tenho muitos pares. Mas é uma história para outro post.) É um longa no qual ele demonstrou que estava com apetite para tentar algo novo. Sim, a história central (aspirante a escritor se apaixona por garota doidivanas e instável) é antiga. Mas o personagem que Allen escolheu para interpretar, o professor Dobel, não tem nada a ver com sua persona clássica: é um sujeito agressivo, cínico e paranoico, com um pessimismo caricato. É a primeira vez também que o diretor foca num casal bem mais jovem como protagonista, em vez de gente de sua própria geração. Uma interpretação freudiana simplória: Allen olha para o próprio passado personificado na figura de Jerry (Jason Biggs) e pede ao destino uma segunda chance, tentando convencer o jovem a livrar-se da namorada (que só vai lhe dar problemas mesmo) e a abandonar o sonho de ser escritor em Nova York (afinal, os empregos estão todos em Hollywood). Para manter o nível cômico em alta, o apoio dos coadjuvantes-figuraças Stockard Channing e Danny DeVito é fundamental.
MELINDA & MELINDA (Melinda and Melinda, 2004): E Woody seguia tentando buscar fôlego novo. A invenção da vez foi contar a mesma história duas vezes, uma de forma cômica, outra de maneira trágica. É uma brincadeirinha narrativa, um exercício. A parte cômica funciona bem melhor, apesar (ou por causa) da histeria de Will Ferrell. Não chega a ser um de seus filmes mais memoráveis. Os saltos entre comédia e drama são abruptos e o elenco da parte dramática não convence muito. As críticas foram condescendentes, mas simpáticas. Em breve, ele começaria a quarta fase “oficial” de sua carreira…
PONTO FINAL – MATCH POINT (Match Point, 2005): Em 2005, Woody Allen parecia encaminhar-se para seu crepúsculo criativo. Sim, ele tentara voltar a gags mais simples, e sim, ele tentara reinventar sua fórmula particular de comédia romântica. Mas desde Desconstruindo Harry, nenhum longa seu tinha sido particularmente empolgante. Há tempos também ele não era mais unanimidade entre os críticos, e seus filmes mal conseguiam se pagar (Melinda teve um lançamento “limitado” nos EUA, ou seja, rodou apenas no circuito de filmes de arte). O que fazer? O impensável: abandonar Nova York, cenário de quase toda a sua obra, e partir para a Europa. Radicando-se em Londres, fez logo de cara seu filme mais impactante desde Harry. Match Point representava a volta a um estilo de drama mais austero (apesar dos breves interlúdios cômicos a cargo de Stephen Fry), lidando com dilemas de consciência, questões morais e a importância decisiva do acaso sobre o destino. O peso do drama contrastava com a sensualidade gráfica que o diretor emprestou às cenas mais quentes. De quebra, encontrava afinal uma nova musa, na figura improvável de Scarlett Johansson. OK, os fãs mais atentos perceberam que Woody estava requentando temas com os quais já havia lidado, com muito mais habilidade, em Crimes e Pecados. E que a trama central também é muito aparentada à deUm Lugar ao Sol, que por sua vez baseava-se no livro Uma Tragédia Americana. Outras implicâncias podem residir no retrato caricato que o autor faz da burguesia britânica. Auto-referências e caricaturas à parte, o fato é que o filme ressuscitou a carreira de Allen, tornand0-se hit de crítica e público.
MELHOR MOMENTO: Assista o vídeo abaixo. Podemos culpar o pobre e incauto Jonathan Rhys-Myers?
COTAÇÃO:
SCOOP – O GRANDE FURO (Scoop, 2006): Por cima da carne-seca como há muito tempo não ficava, Woody quase põe tudo a perder com o filme seguinte, também passado em Londres. Scoop é uma anêmica comédia de mistério, baseada em personagens improváveis e situações forçadas – ao ponto de quase esbarrar na farsa pura e simples. Tá, podem dizer que o roteiro é uma homenagem às comédias amalucadas dos anos 40. Mas sobra ingenuidade e falta engenho. Scarlett, claro, está uma gracinha, mas Hugh Jackman, suave e flanêur, é uma decepção. Woody volta a atuar e também decepciona: gaguejante, parece não ter certeza a respeito das piadas que ele mesmo escreveu. Tique autoral da vez: volta a recorrer ao sobrenatural como ponto importante da trama (as dicas para a solução do mistério são passadas pelo espírito de um jornalista inglês).
O SONHO DE CASSANDRA (Cassandra’s Dream, 2007): Decepcionante, mas não tanto quanto Scoop. O problema é o potencial desperdiçado. Uma história densa envolvendo crime, a inexorabilidade do destino, moral e consciência… e um resultado inferior. A coisa se agrava pela proximidade da trama com a história de dois outros filmes bem melhores: Crimes e Pecados, obviamente, e Match Point (feito apenas dois anos antes). O tom, entretanto, é mais sombrio e fatalista – e moralista também, uma vez que Allen julga (e condena) explicitamente seus personagens. O elenco é forte (Ewan McGregor, Colin Farrell e Tom Wilkinson), mas Farrell, fora de controle, quase estraga o filme com seu overacting. Alguns críticos compararam o longa às “peças morais”da Idade Média, alegorias hiperrealistas a respeito de escolhas entre o BEM e o MAL. Pode ser, pode ser.
VICKY CRISTINA BARCELONA (Vicky Cristina Barcelona, 2008): Sexy, desigual e meio destrambelhado, VCB é quase um corpo estranho na obra de Allen. Uma “comédia romântica” mais intensa do que o habitual para o diretor, que retrata um menàge a trois na cara dura (nada explícito, não se exaltem). É um filme de clima envolvente, mas tem vários aspectos bizarros. Woody apresenta uma imagem romantizada (e clichêzenta) do povo espanhol, com seu “sangue quente” e sua “sensualidade à flor da pele”. Sua câmera parece a de um turista encantado com as belezas locais. Entretanto, o vigor quase jovial com que o cineasta penetra (ops) na intimidade do threesome é genuíno; ele não criava personagens tão interessantes e vitais há anos. Penélope Cruz entra com garbo na galeria de mulheres sedutoras e mentalmente instáveis de sua filmografia; ela tornou-se a quinta atriz a ganhar um Oscar por um filme dirigido por Allen.
TUDO PODE DAR CERTO (Whatever Works, 2009): Woody volta triunfante a Manhattan, depois de uma temporada europeia de saldo positivo. No retorno, veio pisando em terreno mais do que seguro. Escala ninguém menos que Larry David para ser seu alter ego, e o cara sai-se muito bem na tarefa (ainda que, basicamente, bisando a persona de Curb Your Enthusiasm). Começa como uma comédia romântica improvável – cínico profissional de meia-idade tem sua vida transformada por uma ingênua e energética garota do interior. E vai se transformando numa farsesca crítica de costumes, mostrando o choque cultural experimentado pela jovem Melodie (Evan Rachel Wood) e seus pais, vindos do interiorzão dos EUA e caindo de boca na boêmia do Upper East Side. As entrelinhas trazem, que surpresa, as preocupações de sempre com o sentido da vida, as dificuldades dos relacionamentos amorosos e a interferência decisiva do acaso (refletido até no título original, que perde o sentido na “tradução” brasileira). Bom filme, mas… imagine-o sendo rodado nos anos 80, com o próprio Woody no papel central?
VOCÊ VAI ENCONTRAR O HOMEM DOS SEUS SONHOS (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010): Eis o longa mais preguiçoso e desinspirado que o diretor já fez. Será que o Allen de 1987 ficaria satisfeito com este novo filme? O problema é que ele tem o que dizer, mas não consegue expressar-se muito bem. Os temas/obsessões pessoais são familiares (infidelidade & crise conjugal, insatisfação existencial, o fascínio cada vez mais descaradamente chauvinista por mulheres mais jovens). E, importante ressaltar, o dilema não se encontra aí. A familiaridade, a recorrência de situações e personagens pode ser excessiva. Mas não prejudica tanto o filme quanto a falta de pulso na direção, o artificialismo das cenas ou a falta de humanidade dos personagens. Entretanto, nenhum dos personagens parece crível, ou pelo menos passavelmente humano. Não há qualquer conexão com o público.
MELHOR MOMENTO: As cenas com Lucy Punch, único alívio cômico do filme.
COTAÇÃO:
MEIA-NOITE EM PARIS (Midnight in Paris, 2011): As reações a este filme aqui no Brasil, tanto por parte da crítica quanto (especialmente) do público, foram um tanto exageradas. Tudo bem, o último longa de Allen representa um avanço e tanto em relação ao tosco …O Homem dos Seus Sonhos. Mas não justifica os suspiros que ecoaram pelas redes sociais por semanas, louvando o filme. Como em A Rosa Púrpura do Cairo, o roteiro apela ao sobrenatural, mas com a lógica invertida: agora é o protagonista que deixa o mundo real, voltando no tempo para uma Paris onírica e romantizada. O tom fantástico libera Allen para chutar a plausibilidade longe (conhecer Cole Porter, o casal Fitzgerald e Hemingway na MESMA noite? Qualé!). Em relação aos personagens, a má vontade para com as mulheres, demonstrada no filme anterior, se repete (Rachel McAdams e Mimi Kennedy interpretam tipos consumistas e fúteis, e Marion Cottillard aparece como a maluquete-sedutora-de-espírito-indomável da vez). O desembaraço de Owen Wilson como “dublê” de Woody compensa. Leve, belamente fotografado, é um filme agradável, que aborda questões caras à oeuvre de Allen (criatividade, infidelidade, nostalgia) sem deixar o humor de lado.
MELHOR MOMENTO: O detetive perdido no Palácio de Versalhes, em algum momento do passado.
Este blog é um repositório atualizável dos textos que eu, MARCO ANTONIO BARBOSA, ou Marco Antonio Bart, ou Bart, escrevi e publiquei (ou não) como jornalista profissional desde 1996. O antigo http://fubap.org/telhadodevidro pifou sem dó nem piedade. O renascido TdV 2.0.1 está sendo montado aos poucos, inicialmente com os arquivos do antigo. Stay tuned!
São tantos, pode ser mais específico? RT @malvados: Chato da harmonização de vinhos deixa fotos cafonas nos tediosos corredores do Facebook 2 hours ago