Entrevista que fiz para o Jornal do Brasil em junho de 2009 antecipando a vinda do cineasta francêsMichel Gondryao Brasil, no ano passado. Ele apresentou no Rio e em SP a exposiçãoRebobine, Por Favor, cujo conceito é descrito abaixo.
Imagine que uma pessoa que nunca ouviu falar em Michel Gondry se deparasse com a exposição ‘Rebobine, por favor’. Como você tentaria explicar seu trabalho?
– A exposição é minha tentativa de demonstrar que qualquer pessoa pode criar arte ou entretenimento. Ou pelo menos tentar. Quero que as pessoas deixem a imaginação encher as suas vidas. É possivel sobreviver sem imaginação, mas não é uma vida muito boa. Nossos cérebros são muito criativos, podemos construir muita coisa a partir de pequenos fragmentos de informação.
Acredita realmente que o cinema pode ser uma arte ao alcance de todos?
– Sim. Muitas pessoas não têm acesso ao mundo criativo, não porque não querem, mas simplesmente não estão em contato com esse mundo. Fazer arte não deveria ser privilégio de um pequeno grupo de pessoas, mas acaba sendo. Eu mesmo me considero sortudo e privilegiado por ter nascido e crescido com acesso à arte e ao pensamento criativo.
Para participar de ‘Rebobine, por favor’ o público tem de seguir as normas do ‘Protocolo Gondry’. Como isso funciona?
– Formamos grupos de trabalho assim que as pessoas chegam. Os participantes então assistem a uma oficina para formatar suas ideias. O primeiro passo, a questão mais básica, é perguntar: que tipo de filme você quer fazer? Uma comédia, um drama, um musical? Decidimos o gênero e discutimos suas limitações e a segurança que trabalhar dentro desses limites proporciona. Depois o resto todo sai muito fácil. É preciso ter um ponto de partida para a trama – por exemplo, uma história sobre um cozinheiro que põe veneno na comida. Daí é que vamos para as questões mais complexas, como escolher um líder para o grupo e decidir quem vai interpretar qual personagem.
E as pessoas podem usar tudo o que está à disposição nos cenários?
– É a segunda parte do protocolo: providenciar o cenário. Os objetos estão lá para inspirar as pessoas. É como brincar no quintal de um ferro-velho. Todas as coisas têm outras possibilidades de uso além de suas funções primordiais. Essa ideia também orientou a filmagem de Rebobine, por favor. Você pode usar um gramofone, um trem ou um carro… enfim, lance mão de tudo, desde que siga outra orientação: tudo deve ser feito na própria câmera. Não há montagem: as filmagens devem seguir a ordem em que serão apresentadas no filme final e a edição será feita na própria câmera.
Esse processo não está mais sujeito a erros, ainda mais quando utilizado por amadores?
– Sim, mas é isso mesmo o que queremos. Os erros se misturam às sugestões, às novas possibilidades. É algo bastante libertador. Seria perigoso dizer que alguém vai realmente aprender a dirigir um filme participando da exposição: só quero que aprendam a se expressar. Você já apresentou a exposição em Nova York e São Paulo. Que diferenças pôde notar entre os públicos que passaram pela experiência em cada uma das cidades?
– Na América, as pessoas trataram o cinema de uma forma mais séria. Pensaram bastante no gênero do filme que queriam fazer, criaram roteiros mais elaborados. Em São Paulo a coisa correu mais solta, com mais liberdade.
Algum trabalho em particular o surpreendeu ou impressionou mais do que os outros?
– Ah, todos me surpreendem. Fico espantado com a engenhosidade dos participantes. Como em Nova York a exposição ficou em cartaz por dois meses, notei que os vídeos apresentados se tornavam mais e mais criativos com o passar do tempo – os participantes começaram a usar mais truques, fazer trabalhos mais sofisticados.
Em todos os seus filmes, a memória ocupa um papel importante nos roteiros. A exposição no CCBB também aborda o tema. Que semelhanças existem entre o modo como trata a memória no cinema com a abordagem aplicada na exposição?
– São expressões diferentes. Creio que há uma similaridade no espírito, mas meus objetivos com os filmes são muito diferentes dos que imagino para a exposição. Meu interesse, em ambos os meios, é na humanidade, nas pessoas. Em resumo, num filme eu caminho num território mais controlado, seguindo um conceito pré-determinado. Na exposição, as memórias dos participantes têm tanta importância quanto as minhas ideias. Esta é a segunda intervenção no campo das artes plásticas que você faz simultaneamente a um filme. Pretende continuar a trabalhar desta forma?
– As exposições são um meio de estender a vida do filme. Gosto de tentar descobrir o que pode ser feito em cada expressão artística, a partir de uma mesma ideia. É como se fossem duas empresas que trocassem ações entre si, uma espécie de fusão.
Você produz filmes em Hollywood, acabou de rodar um documentário (‘L’epine dans le coeur’, com histórias de sua própria família), cria vídeos para astros pop, dirige comerciais e agora também é artista plástico. Como administra seu tempo e seus vários impulsos criativos?
– Tudo isso me mantém muito ocupado. Geralmente meus projetos acabam atrasando. Às vezes sei que há coisas a serem feitas, mas simplesmente deixo o trabalho de lado. Quando recebo a proposta de alguma produção nunca consigo apresentar um conceito logo de cara. Aí acordo um dia e começo a fazer, tentando criar tudo muito rapidamente. No caso de um videoclipe, a própria música é minha inspiração para as cenas. Atualmente trabalho na adaptação de O besouro verdepara o cinema; as filmagens devem começar em setembro.
Quando a exposição estreou em Nova York, você afirmou que queria provar que “as pessoas podem se divertir sem precisar fazer parte de um sistema comercial”. Acha que conseguiu provar seu ponto?
– Creio que sim. A diversão vem da alegria das pessoas ao notarem que elas mesmas são o componente principal dos filmes que estão produzindo.
(Republicado originalmente em 27/05/2007, publicado no Jornal Musical (03/04/2007).
É tempo de João Donato, mais uma vez. Aliás, é tempo de Donato há quase 60 anos, se pensarmos que o compositor, cantor, arranjador e multiinstrumentista tem como marco inicial de sua carreira profissional o ano de 1949. Ou antes ainda, se navegarmos mais longe no tempo, voltando à época em que, garoto em Rio Branco (AC), já arriscava os primeiros precoces dedilhados no acordeon. E também agora. Comprovando sua proverbial capacidade produtiva, Donato acaba de lançar simultaneamente dois discos bem diferentes. Uma tarde com Bud Shank & João Donato (Biscoito Fino) promove o reencontro do brasileiro com o saxofonista norte-americano Shank, 42 anos depois do lançamento deBud Shank & his Brazilian friends (1965). E O piano de João Donato (Deckdisc) marca a estréia do músico no formato de piano solo, reinterpretando músicas que marcaram sua trajetória. Em um agradável fim de tarde, João abriu sua casa na Urca (Zona Sul do Rio de Janeiro) para falar do presente e do passado de sua carreira. E também para explicar como os dois novos discos se encaixam dentro de sua visão pessoal sobre a música – a qual, passados tantos anos, segue a mesma.
“Nesses anos todos meu método não mudou muito. Todas as músicas, na verdade, se parecem umas com as outras. Tem as sutilezas do desenho, os traços individuais de cada um, mas não saem muito desse esquema. Se ficar muito diferente, ninguém entende”, explica Donato, 72 anos. Tanto o disco de jazz que gravou com Bud Shank quanto o álbum de piano solo seguiram a lógica descontraída e improvisada que marca o trabalho do compositor. “Em 2004 reencontrei o Bud no festival Chivas Jazz, aqui no Rio. Desde os anos 60 nós só nos víamos esporadicamente. Perguntei na cara: ‘quer gravar um disco?’ Então tá, fomos lá. Ficamos um sábado e um domingo gravando, às pressas, de uma hora para outra. Tem faixas que não têm baixo nem bateria, porque não deu tempo de achar gente para nos acompanhar. Bud declarou que rememorou vários episódios de sua vida, fez umas viagens durante as gravações. Ele disse que nunca tinha ido tão longe. Foi muito animador”, narra Donato.
O piano… é um disco de memórias musicais, mas nem por isso Donato abdicou de seu approach espontâneo. “São músicas que eu gosto de ouvir, que acho bonitas. Há muito tempo, desde quando era adolescente, essas músicas me chamavam a atenção”, diz o compositor, referindo-se aos temas de autores como Stan Kenton, Neil Hefti e Horace Silver que estão no CD. “Eu chegava no estúdio e tocava o que me desse na telha. E depois não me lembro o que entrou e o que ficou de fora. Não foi um disco planejado. Não pensei ‘Ah, o que eu devo tocar?’ Eu dizia: ‘Vamos gravar ‘Manhã de carnaval’ e gravava. Tinha um cardápio de umas 20 canções, mas acabam entrando outras, algumas até que não existiam… Sempre gravei assim. Já noMuito à vontade (de 1963) tem várias músicas que eu fiz na hora no estúdio”.
A figura de Donato é tão associada ao piano que é difícil acreditar que só agora ele gravou um disco solo ao instrumento. Sucessos como “A rã” (com Caetano Veloso), “Bananeira” ou “Amazonas” (com o irmão Lysias Ênio) são tão conhecidos pela batida inconfundível do pianista quanto pela melodia vocal. Mais surpreendente é relembrar que, nos primeiros anos de sua carreira, Donato era especialista em acordeon. Mas, segundo ele mesmo lembra, o piano sempre esteve por ali, rondando. “Quando eu acordava de manhã – eu dormia em rede, no Acre, não tinha cama – ouvia minha irmã Eneyda tocando escalas no piano. E eu passava por ali e ficava brincando, passando a mão nas teclas”.
Além dos estudos da irmã, as possibilidades musicais eram rarefeitas – lembrem-se que estávamos nos confins da Amazônia, na década de 30 do século passado. “Eu comecei a tocar o acordeon porque era o que havia. No Acre a única referência era a banda do Exército, que tocava marchas militares, aos domingos, na praça. Eu ganhei de Papai Noel uma sanfoninha de brinquedo. Meu irmão (Lysias Ênio) também ganhou uma. Só que ele pegou a dele e abriu para ver de onde saia o som. E eu saí tocando. Tocava ‘Tatu subiu no pau’, ‘Ciranda cirandinha’. Se impressionaram com aquilo e foram me dando acordeons melhores”. Antes disso, Joãozinho brincava com flautas de bambu e batucava em panelas. Aos 11 anos, quando chegou ao Rio de Janeiro, já manejava um instrumento profissional, de 120 baixos, com o qual começou a tocar em festas da turma do colégio.
De acordeon em punho, mas cada vez mais interessado no piano (“O piano te dá a liberdade. Não é aquele trambolho pendurado no pescoço”, compara), Donato compatibilizava o amor por Luiz Gonzaga (“Meu maior ídolo, sempre foi e sempre será”) com as descobertas no campo do jazz e das big bands americanas, absorvidas no contato com as novas amizades cariocas. Entronizou-se no Sinatra-Farney Fan Club, núcleo proto-bossanovístico por onde passaram Johnny Alf, Paulo Moura, Dóris Monteiro e Nora Ney. Nessa época, virada dos anos 40 para os 50, abandonara os estudos (para horror do pai, major da Aeronaútica) e alternava a carreira de instrumentista profissional, na Rádio Guanabara, com uma incipiente boemia musical – formando os grupos Os Modernistas e, depois, os Namorados.
“Isso tudo foi antes da televisão…” lembra Donato. Em 1949, participa de sua primeira gravação. “O Altamiro Carrilho ia gravar seu primeiro 78 RPM. Nós eramos colegas, assistíamos os ensaios um do outro. Demos uma ensaiadinha e gravamos ‘Brejeiro’. É bonito até hoje. Tinha também o César (Faria) – o pai do Paulinho da Viola – no violão”. No começo da década de 50, já assinando como Donato & Seu Conjunto, mas sem deixar os Namorados, lançaria mais discos de 78 RPM; gravaria o primeiro álbum, Chá dançante, produzido por Tom Jobim, em 1956; e teria em “Minha saudade” a primeira composição sua a ser gravada, por Luís Bonfá.
Enquanto isso, sua reputação de inconformista (musicalmente e no comportamento) crescia no Rio. As noitadas que ele comandava na boate do Hotel Plaza, a partir de 1957, ficaram famosas. Mas a indisciplina de Donato e sua iconoclastia como músico – incorporando harmonias novas, dissonantes e síncopes que entortavam todos os gêneros, do baião ao samba – o tornaram um estranho no ninho, “Eu sempre gostei de música mais dissonante, mais exótica, sofisticada, sei lá como se qualifica. Aqui eu estava travado. Teve uma momento em que eu não conseguia mais nem dar canja em boate. Os gerentes diziam que minha música era anti-comercial. Mesmo depois do sucesso da bossa nova, o horizonte estava muito fechado”, considera.
Foi quando transferiu-se para a América do Norte. Em 1959, viajou para o México acompanhando o amigo Nanai (ex-Namorados) e de lá partiu para Los Angeles (EUA). Em três anos, correu o circuito das orquestras de música latina, onde trocou o acordeon e o piano pelo trombone. “Tinha ido para tocar jazz, melhorar minha técnica. Cheguei lá e procurei o jazz e cadê? Não tinha. Lugares para tocar jazz eram um ou dois, com centenas de músicos querendo um espaço… Então cada um tocava em uma orquestra latina, pra trabalhar. Não faltava emprego. O que eu ia fazer? Fui tocar com eles. Quando em Roma… (risos)” A temporada foi proveitosa, pois Donato incluiu mais uma influência – a dos sons afro-caribenhos – à sua musicalidade. “Fui para melhorar e melhorei, mas não do jeito que eu esperava. Eu já levava uma simpatia pela música cubana, quando eu a encontrei pessoalmente (risos) foi sopa no mel. Toquei com Mongo Santamaria, Tito Puente…”.
Nos anos 60, Donato viu a turma da bossa ganhar o mundo. Mas seu caminho era outro, sempre perseguindo suas revoluções pessoais. Gravou dois discos no Brasil (Muito à vontadeeA bossa muito moderna de João Donato & seu trio) que ajudaram a definir o samba-jazz. De volta aos EUA, onde ficaria entre 1963 e 1972, finalmente seria aceito pela elite jazzística. “Corri várias companhias com o acetato do Muito à vontade, para ver se interessava a alguém. Ninguém queria meu disco, ninguém estava interessado naquele assunto – piano, baixo e bateria tocando coisas minhas, um brasileiro desconhecido. Até que fui à Pacific Jazz, por onde gravavam Chet Baker, Gerry Mulligan, Laurindo de Almeida. Lá houve empatia maior e o diretor da gravadora disse: ‘Gostei do seu trabalho, mas vai depender dos outros músicos te aceitarem. Não dá para ir lançando seu disco assim direto, do nada. E por acaso vou me encontrar com Bud Shank amanhã. Se ele gostar…” E o Bud gostou ele me aceitou e então gravei com ele meu primeiro disco nos EUA”.
Nos EUA e Europa, acompanhou os amigos João Gilberto, Tom Jobim, Sergio Mendes e Astrud Gilberto, e os ídolos Dorival Caymmi e Stan Kenton, entre muitos outros. Da nova aventura americana, sobraram os hoje cultDeodato Donato (unindo o piano do compositor aos arranjos de Eumir Deodato, em 1969) e A bad Donato(registrado com feras da vanguarda do jazz ianque, em 1970). O reecontro com o Brasil, em 1973, se deu com o primeiro álbum no qual Donato assumia os vocais, Quem é quem. “Eu fazia os meus teminhas, como sempre fiz. Mas nada de pensar em letra. Música para mim era o que eu gostava de ouvir, jazz instrumental, raramente tem cantor. Quando voltei ao Brasil o Agostinho (dos Santos, produtor) falou: ‘Cadê as letras? Sem letra ninguém canta’. Ai eu comecei a me preocupar com a canção propriamente dita. A gente pode fazer dezenas de temas em minutos, mas não quer dizer que são canções. Tem de ter uma bela letra e uma bela melodia, aí sim. Tem de ter uma certa capacidade de comunicação universal”, acredita o compositor.
“Quando comecei a cantar, foi um certo drama para mim. Mas segui o exemplo de Tom Jobim, Vinicius, Nelson Cavaquinho. cada um canta sua própria música com a voz que Deus lhe deu. Gente sem grande material vocal, mas com uma grande emoção. Foi um momento de mudança nos rumos da música, quando todo compositor passou a ser cantor também”, diz.
A experiência de Quem é quem se provou tão positiva que hoje Donato é um dos campeões absolutos em número de parceiros na história da MPB. “Comecei a fazer música com mais e mais gente. Um dos primeiros foi o Martinho da Vila. Aí vieram Gil, Caetano, Moraes Moreira, Abel Silva… até Baby Consuelo! Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Cacaso, Marcos Valle, Ronaldo Bastos, Lô Borges, Aldir Blanc, João Bosco, Geraldo Carneiro e até o arisco João Gilberto estão entre as dezenas de figurões que já racharam canções com Donato, que prefere oferecer as melodias aos poetas a fazer o processo inverso. “É complicado botar música em letra. É mais fácil a música ficar passeando sozinha, tentando encontrar uma letra, deixar as palavras sairem da melodia”.
As décadas de 70 e 80 exibem um Donato de ímpeto mais domado. Entre 1975 e 1996, grava apenas três LPs. Um contraste tremendo com a explosão de sua produção de lá para cá: nos últimos 11 anos, o compositor lançou nada menos que 15 álbuns (cinco deles no mesmo ano, 2002) e seu primeiro DVD, Donatural(2005). “Tenho tido momentos de silêncio também – já passei, por duas vezes diferentes, dez anos sem gravar nada e já tive anos que lancei seis discos de uma vez. Não é plano, é coincidência, vou aceitando vários convites de vários lugares, já que não tenho contrato com uma gravadora só”, diz o músico, que congrega gerações em seus discos mais recentes – dividindo espaço com nomes como Marisa Monte, Marcelo D2, Davi Moraes e Arnaldo Antunes, todos fãs confessos. Além de fazer discos também com veteranos como Paulo Moura e Emílio Santiago.
Desses anos todos, Donato afirma não ter extraído filosofia alguma, a não ser um amor incondicional pela música. E conta mais uma historinha: “Sempre me perguntam se eu tenho uma fórmula, um método para fazer música. E eu não consigo entender quem pensa que é assim que a coisa funciona. Certa vez, nos EUA, comprei um livro – por 99 cents, num supermercado 24h – chamado How to write a song. Uma duzia de grandes autores dando conselhos sobre composição. Gente de categoria, Hoagy Carmichael, Johnny Mercer… Li aquilo tudo e não gravei nada. Só lembro do conselho do Duke Ellington. Ele disse: Quando tiver uma idéia interessante, grave ou anote na hora. Pode ser um verso, uma melodia… Se deixar pra depois, você esquece e some. E aquela poderia ter sido a melhor música que você iria fazer na vida”.
Billy Corgan está na estrada novamente. Pareceu-me um momento auspicioso para reeditar aqui a famigerada (infame?) entrevista que fiz com Corganem 1998, quando a banda empreendia sua segunda passagem pelo Brasil.Publicada na edição 16 da Rock Press, a matéria resultante logo se tornou um clássico nos anais (ops) da revista. Na época eu não era exatamente um repórter iniciante, mas não tinha muita experiência em entrevistas com superastros do rock internacional. Junte isso a um entrevistado impaciente e reticente e temos… um magnífico fiasco! Hoje, é uma das minhas matérias favoritas. Os comentários em itálico entre as declarações já faziam parte do texto que foi publicado originalmente.
Entrevistar o líder dos Smashing Pumpkins: tarefa árdua especialmente para mim, que nunca fui exatamente um cara extrovertido. Entrevista cara a cara, então… as histórias de terror sobre o mau humor e o estrelismo de Billy Corgan são lendárias. O que dizer então, quando, por conta de uma confusão de horários, acabei fazendo a entrevista mais de uma hora depois do horário marcado inicialmente? Bem, o fato é que me sentei diante de Corgan (estranhamente grandalhão, com mãos enormes) um pouco trêmulo, munido de um punhado de questões um tanto superficiais, mas que poderia dar margem a revelações interessantes.
Isso, claro, se eu pudesse contar com a boa vontade de meu entrevistado. Que não se manifestou. Saca aquelas entrevistas em que as perguntas acabam sendo mais longas que as respostas?
Enfim, segue a íntegra dos quinze minutos de conversa mais duros deste ano para mim.
De que maneira você vêAdore: como uma ruptura ou uma progressão natural na carreira dos Pumpkins?
(Pausa. Ri.) Ruptura… bem, talvez como um pouco de cada. Ruptura não é a palavra certa para definir o álbum.
Por que?
Porque (gravar) o disco foi uma decisão consciente. Não foi um rompimento com coisa alguma.
E por que arriscar tanto, mudando tão drasticamente o som da banda?
Ah… (pausa) Não sei. Porque sempre estivemos dispostos a correr riscos. Quero dizer, o que há de arriscado quando você lança três discos de rock em seqüência, e então lança um quarto disco de rock logo em seguida?
Sim, quero dizer “risco” considerando o público que vocês conquistaram.
Mas algumas de nossas maiores canções não são rocks. “1979″, “Tonight, tonight”, “Disarm”… Então, não chega a ser importante. É só música. Não estamos concorrendo à presidência (risos).
E quanto a suas letras, que soam extremamente pessoais? Você considera uma espécie de exorcismo quando coloca assuntos tão pessoais em suas canções?
Não.
Então você pode dizer por que escreve desta forma?
Porque é desta maneira que eu quer colocar as coisas. Não é catarse, não é exorcismo. Eu escrevo sobre aquilo que compreendo. Quer dizer, se você quiser que eu escreva sobre a sua mãe, eu escreverei. Mas eu não conheço a sua mãe. Então…
(A essa altura, eu já suava frio e lutava para dominar meu inglês, cada vez mais capenga.)
Como você concebeu o som deAdore? Os arranjos, os timbres…
Bem lentamente, pedacinho por pedacinho. Como se fosse… um sonho estranho.
E quanto tempo levou o processo?
Seis meses.
Os arranjos foram surgindo junto com o processo de composição, ou…
Sim. Tudo foi composto e gravado muito rapidamente. Então, levei um bom tempo depois só mexendo botões no estúdio.
Sobre a música eletrônica… você abandonou os experimentos eletrônicos que vinha fazendo entreMellon collie and the infinite sadnesseAdore, que renderam canções como “Eye”…
(Interrompendo) Não considero essas músicas experimentos.
Então como você as define?
Eram o que eu queria fazer. A palavra “experimento” pode sugerir que eu estava jogando com as músicas, ou algo parecido. Mas eu sei o que estou fazendo.
No que, exatamente, a saída do baterista Jimmy Chamberlin afetou o som dos Pumpkins?
Bem, não há baterista no disco. Essa foi a maior mudança.
Mas… (neste ponto, confesso, engasguei. Senti-me um total imbecil). OK.
(Rindo, talvez com pena do repórter) Quer dizer, você entende, não? Não há baterista.
A saída de Jimmy ainda é um assunto delicado para a banda?
Não, não se trata disso. É apenas o que eu disse: quando ele saiu, perdemos nosso baterista.
(Achei melhor não insistir mais nesse ponto.)
Muita gente vem apontando a influência de bandas britânicas dos anos 80 – especialmente New Order e The Cure – na sonoridade deAdore. Você poderia comentar sobre isso?
Eu acho que muitas pessoas mencionam isso, mas não creio que seja tão importante assim.
Mas você sempre foi fã dessas bandas, certo?
Sim; eu sempre disse que éramos fãs desses grupos desde o começo dos Pumpkins, em 1988. Se você pegar todas as nossas entrevistas, vai ver que mencionamos Led Zeppelin, New Order, Bauhaus, The Cure, Black Sabbath, Cheap Trick, tudo isso junto. Então a imprensa pega isso e exagera… não tem tanta importância. As pessoas ouvem uma guitarra com efeito de delay e logo dizem: “Ah, isso soa como The Cure”. É mais um clichê, na verdade. Não estão sacando nada. Se tocamos guitarras barulhentas, então somos o Black Sabbath. Estamos apenas tocando alto. só isso. (Pausa.) Eu acho que as pessoas não entendem Adore. Entáo estão procurando por coisas que possam compreender no disco. A influência dos anos 80 é apenas uma pequena parte de Adore. O disco é mais influenciado pelos anos 40 e 50 do que pelos 80.
Como assim?!
Pelas composições, pelo o que há de folk music nelas.
Algumas canções do disco têm sido radicalmente rearranjadas ao vivo. Como foram concebidas essas mudanças no instrumentação?
A partir do mesmo espírito que guiou o álbum, que é o de estar musicalmente aberto, não se deixar prender em armadilhas na hora de recriar as canções. Apenas tentamos não soar chatos.
Como é ter músicos convidados tocando com você, D’Arcy e James no palco?
Tem sido muito divertido, muito interessante. Muito ritmo, muito som, muitas idéias. Toda a turnê tem se baseado nessa idéia de reinterpretação das canções. Não estamos tentando tocar Adorede uma maneira certinha, nota por nota. Nós nem nos importamos com isso.
Você poderia comentar um pouco sobre seu trabalho como produtor, em discos de artistas como Marilyn Manson ou Hole?
Oh, sei lá. Não me considero um produtor. Não é minha carreira. Acho que provavelmente sou melhor compositor do que produtor.
Qual é a atual situação do grupo em relação à gravadora Virgin?
Não posso comentar sobre isso.
E as vendas deAdore? Tinham atingido cerca de meio milhão de cópias nos EUA, pouco antes de vocês virem para cá…
(Interrompendo) Já vendeu bem mais que isso, até agora.
Mas aqui chegaram notícias sobre um certo desapontamento em relação às vendas do disco…
Nos Estados Unidos. Em todo o resto do mundo está indo tão bem quanto nossos outros discos.
E o desapontamento é da parte de quem? Da banda, da gravadora…?
Oh, tudo mundo está desapontado. Eu mesmo inclusive, é claro. (Pausa. Corgan sorri.) Mas você quer saber por que, ou apenas se estou desapontado ou não?
(Riso nervoso e irônico de minha parte.) É, eu gostaria de saber por quê. Se você puder me contar, é claro.
Porque eu acho que nossos fãs não nos apoiaram. Sabe como é, as pessoas jogam muita conversa fora. Querem que as bandas continuem a fazer a melhor música do mundo, cobram mudanças constantes no som das bandas. E na hora do vamos ver, ninguém aceita isso. No fundo, ninguém quer que você mude. Querem que tudo fique como está, sem mudanças.
Foi por isso que mencionei o risco que os Pumpkins correram ao lançar um disco tão diferente quantoAdore…
É claro. E eu fico especialmente desapontado com a mídia, porque os jornais e revistas deveriam nos dar o crédito por termos arriscado, ao menos. Corremos um risco muito grande por querer fazer a coisa certa, musicalmente falando – mesmo que tenha sido a decisão errada em termos de carreira. A mídia deveria ao menos reconhecer – mesmo achando que fomos estúpidos em mudar – que estávamos realmente dispostos a correr riscos, que apostamos nossa carreira nessa virada, e que fizemos a coisa certa em termos musicais,. Fizemos a coisa certa para o bem da banda, e que foi o oposto do que todo mundo faz: lançar a mesma merda de disco de novo e de novo.
Então, para você, esta reação do público se deve ao que tem se lido ou visto na TV sobre o disco?
Sim, absolutamente. Porque quando as pessoas escutam Adore, ninguém acha que é um disco ruim.
Mas se as pessoas nem têm a chance de escutá-lo…
Bem, se ninguém compra o disco, então ninguém pode escutar. Aí você pode ver porque estou decepcionado. Se alguém se diz fã dos Pumpkins mas prefere acreditar no que lê em uma revista, em vez de confiar na palavra da banda – depois de dez anos de carreira – bem, então essa pessoa não é realmente fã.
No entanto, você parece realmente satisfeito com a posição dos Smashing Pumpkins no atual cenário mundial do rock.
Oh, sem dúvida. Eu ainda acredito que somos uma das melhores bandas do mundo, não importa o que qualquer pessoa diga a respeito disso. Não restam muitas bandas de rock de verdade no mundo, hoje em dia. Há um monte de gente imitando as bandas de verdade (risos).
Então você se acha capaz de “segurar a tocha” do rock’n’roll.
Oh, sim. Até que eu decida atear fogo em mim mesmo com ela (risos).
Quando vocês lançaramMellon collie…você tinha dito que o disco representava o fim da banda…
(Interrompendo) Bem, eu não menti. Metaforicamente falando, claro. E daí?
EntãoAdoreseria um “renascimento”…
Eu acredito que sim.
Mas exatamente de que forma? Estruturalmente, ou no modo de pensar a trajetória do grupo?
Ambos. Acho que gostamos de mudanças, e estamos ficando cada vez mais velhos. Não se pode fingir que se tem 24 anos para sempre. E acho que é muito triste quando as pessoas ficam presas ao passado, de uma forma que não é adequada a ninguém, nem a elas mesmas.
(Outra pausa. Mais longa, dessa vez.)
Vocês estão tocando muito pouca coisa dos outros álbuns nessa turnê…
Só material do Mellon collie.
E por que?
Porque sim… porque sim… porque sim. (Pausa. Corgan ri. Não entendo nada. Me sinto um idiota outra vez.) Acho que já respondi a essa pergunta, quando disse que que estava tentando me mover em direção ao futuro. Não se pode continuar vivendo no passado, se você está se mexendo para o futuro.
E quanto às pessoas que ficam pedindo coisas como “Cherub rock”?
Bem, se os fãs não compram o disco novo, é porque eles não são fãs, certo? Então, quem é que vem nos ver tocar, afinal? Como vai saber se as pessoas que virão ao show não vêm por causa das músicas de Adore? Não se pode continuar fazendo sempre as mesmas coisas só por causa dos fãs.
Indignado com a recepção que o carecão me deu, escrevi (na mesma edição da RP) uma coluna cheia de expletivas e interjeições. Teve gente que não gostou…
Algumas considerações sobre estrelismo & estrelato. Nesse mês de agosto, tive a oportunidade de conversar com duas figuras que admiro, em níveis diferentes: Billy Corgan (Smashing Pumpkins) e Mac McCaughan (Superchunk) – o primeiro em exclusiva cara-a-cara, o segundo por telefone. E pude comprovar que, quanto mais alto, maior o tombo ou… quanto mais o camarada se acha fodão (por conta de ter um bando de gente repetindo isso para ele todo o tempo), mais ele acha que pode dispensar fãs, jornalistas e todo mundo mais.
Me fiz entender? Bom, Billy Corgan foi certamente o entrevistado mais nojento e duro de encarar em minha curta carreira. Mac, por outro lado, é um camarada super gente fina e atencioso. Por acaso, Corgan é um astro mundial do rock e Mac é um “pobre” independente americano. Agora, o que será que a diferença de status entre os dois tem a ver com a diferença de comportamento? Pode até ser chato ficar sentado recebendo jornalistas um atrás do outro, respondendo basicamente às mesmas perguntas de novo e de novo. Mas não vejo justificativa para a maneira fria, lacônica e irônica com que Corgan se comportou na entrevista. Afinal, se o cara ganha uma fortuna fazendo o que gosta, estava hospedado num hotel 5 estrelas (com praia particular!), é admirado pela crítica e adorado por milhões de pessoas… então, por que o mau humor e a frescura? Não por acaso, ele só se soltou na conversa na hora de reclamar da imprensa e dos fãs (sem os quais ele não seria nada). Dois dias depois, no show no Metropolitan, Corgan repetiu a dose e não deu bis. Depois, deu uma entrevista em SP dizendo que “não gostou do público…”
Que diferença para a entrevista com Mac! O líder do Superchunk não se incomodou em falar por telefone (geralmente é um saco), respondeu a todas as perguntas com a maior disposição e estava superanimado para vir ao Brasil. O Superchunk não vende milhões de discos, não toca na MTV e nem se hospeda em hotéis cinco estrelas. E não se incomoda nem um pouco com isso – daí a postura relax e simoática. Mac sabe muito bem que ter respeito (aos fãs e à imprensa) também ajuda a fazer uma grande banda. O comportamento dele deveria servir de exemplo para certos popstar zilionários que ganham dinheiro se fazendo de coitados, mas que na verdade se acham os reis do mundo. Coube a carapuça?
_________________ Corgan X Bart X Fãs
Conforme disse lá em cima, algumas cartas e emails (todas de garotas) foram publicadas na edição seguinte da RP, me detonando pela sinceridade que apliquei ao retrato que tracei de Corgan. Aqui, trechos de duas das cartas mais explícitas.
“Alô, Rock Press!
Antes de tudo, quero parabenizar a revista pela melhor publicação de rock do Brasil.
Agora vou direto ao assunto: sou fã louca, desesperada, descabelada e desequilibrada do Smashing Pumpkins (…) Será que o Marco Antonio poderia ser um pouco mais delicado ao se tratar de nossos ídolos? Tá certo, o Billy sempre foi e será super perfeccionista, arrogante, metido… mas pô, ele não tem seus motivos? (…) Não é fácil (…) ler uma crítica tão dura e infantil na seção Telhado de Vidro. Se o cara é fã do Superchunk e odeia o Corgan, ele que se cadastre num fã-clube e deixe as fãs do Pumpkins em paz, sem suas críticas absurdas!
(…) Marco Antonio, não tenho nada contra a sua pessoa, mas (…) você pisou na bola puxando tanto o saco de uma banda como o Superchunk, que eu nunca ouvi falar (sic) e que não tenho nada contra (sic) e chutando tanto um cara que merece o seu respeito.(…)”
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“Caro amigo Marco Antonio…(…)
É claro que a minha opinião não significa nada para você, assim como a sua também significa um nada para Billy Corgan (…) Acho que só porque o Billy não falou o que você queria ouvir, não precisaria se referir a ele dessa maneira tão grossa, dizer que o cara é um nojento, uma abóbora de mau humor… Você deveria ter mudado o título da matéria para ‘Um repórter de mau humor’… Ou você queria ser o único repórter do mundo a descobrir confissões sobre os Smashing Pumpkins? (…)
Também achei uma tremenda babaquice (…) compará-lo ao Mac. (…) É claro que sou fã, mas se achasse que estaria sem razão não me manifestaria. E como sou fã, também não me coloco no seu lugar, pois teria coisas mais interessantes a fazer com Billy Corgan do que interrogá-lo…(…)
Este blog é um repositório atualizável dos textos que eu, MARCO ANTONIO BARBOSA, ou Marco Antonio Bart, ou Bart, escrevi e publiquei (ou não) como jornalista profissional desde 1996. O antigo http://fubap.org/telhadodevidro pifou sem dó nem piedade. O renascido TdV 2.0.1 está sendo montado aos poucos, inicialmente com os arquivos do antigo. Stay tuned!
Não me pronunciar sobre o tema. Mas deixar a Nigella dar RECEITA de coxinha, na nossa cara, já é esculhambação demais nigella.com/recipes/view/c…1 day ago