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ANA DE HOLLANDA: BALANÇA… MAS NÃO CAI?


A imagem acima é real. Digite “Ana de Hollanda” na janelinha do Google e as sugestões de “autocompletar” incluem “…caiu”, “…reforma”, “…reforma ministerial” e “…demitida”. Sintomático. Já nas primeiras semanas da gestão da (ex?) cantora e irmã de Chico Buarque no Ministério da Cultura, em 2011, começaram a surgir boatos de que Ana estaria balançando no cargo. Sob intenso escrutínio da imprensa, recebendo críticas de intelectuais e artistas, ela não apenas manteve-se no MinC, mas sobreviveu a 12 (!) trocas de outros ministros do gabinete de Dilma Rousseff. Sempre me pareceu estranha a, digamos, implicância que a mídia e a inteligentzia vêm demonstrando para com a irmã do Chico. Um ministério de orçamento pequeno e influência menor ainda, sempre debatendo-se contra a irrelevância, acabou ocupando páginas e mais páginas e gerando debates muito mais acalorados do que nos tempos em que Gilberto Gil era o titular. Por que será, hein?

Confesso que não sei avaliar se Ana de Hollanda é boa ou má ministra. Os bafafás nos quais a moça esteve envolvida me parecem herméticos, bizantinos. Ao mesmo tempo, ainda que ela esteja permanentemente em evidência na mídia, seu trabalho fica em segundo plano – não consigo me lembrar, de cabeça, de alguma resolução ou programa importantes postos em prática pelo MinC sob seu comando. Só o que me vem à mente é o corte aplicado ao orçamento dos Pontos de Cultura, decisão que muito agastou os defensores da gestão anterior do MinC. Fato é que ela escolheu bandeiras pouco simpáticas para levantar. As ligações perigosas entre o MinC e Ecad vieram à tona (e permaneceram mal explicadas). A batalha da ministra contra o Creative Commons virou um episódio menor diante da aparente desconfiança do Ministério em relação à cultura digital em geralA necessária reforma da lei de direitos autorais não tchuns, nem sai de cima. De um lado, na FolhaJuca Ferreira (de quem Ana herdou o MinC) bate pesado na gestão de sua sucessoracom o sangue nos olhos que só o despeito pode instilar. De outro, o Estadão faz uma defesa desabrida e um tanto bizarra da ministra, citando um suposto pedigree (?!) que o sobrenome Hollanda conferiria. Rolou também o tal domanifesto da intelectuália, pedindo a cabeça de Ana.

A que estamos assistindo? Uma luta de oligarquias entre a linhagem baiano-tropicalista e a linhagem carioca-buarquedehollandiana? A uma conspiração orquestrada pelas grandes companhias de mídia, a quem interessaria manter Ana de Hollanda no MinC? A uma cortina de fumaça alimentada pelo próprio governo, jogando luz sobre um ministério “menor” para disfarçar as crises que pipocam em ministérios “maiores”? A um caso gritante de, como diria o bardo, much ado about nothing? À manutenção de uma ministra “laranja” cuja única qualificação seria ser, como diz o tal do Neumane do Estadão, irmã do “maior ícone vivo da cultura brasileira”? Quantas perguntas, hein?

Toda essa charla aí em cima só serve para introduzir a minha história com Ana de Hollanda. No começo da década passada, eu trabalhava no site Cliquemusic. Uma de minhas atribuições, numa época de escassez total de mão de obra, era a de cadastrar os CDs que recebíamos das gravadoras e dos artistas. Dava um certo trabalho; eu precisava digitar os títulos das músicas e seus respectivos autores, escanear a capa, fazer o upload de 30 segundos de cada faixa, conferir os links de tudo… isso em concomitância com meus afazeres jornalísticos. Como resultado, a pilha de CDs aumentava diariamente, e eu não conseguia dar conta. Entre os discos que ficavam à espera de inclusão no site estava Um Filmelançado em 2001 pela (na época, apenas) cantora Ana de Hollanda. Conforme os dias foram passando e o disco de Ana não surgia na base de dados do site, a artista foi ficando cada vez mais inquieta. Ligou para mim (na época, o Cliquemusic funcionava na base do home office, e o telefone de contato da “redação” era o da minha casa) para perguntar quando o CD seria cadastrado – e consequentemente, quando sairia a resenha do mesmo, já que antes de publicar o texto, o CD precisaria constar da base de dados. Eu, até honrado pela (primeira) ligação, respondi polidamente que Um Filme estava “na fila” para entrar, era só ter um pouco de paciência.

Não foi o suficiente para convencer a futura ministra. Ela ligou mais uma vez, obtendo a mesma resposta (agora um pouco menos) polida. Menos de uma semana depois, Ana ligaria de novo, usando um tom mais exaltado, querendo saber quando é que afinal o CD apareceria no site. “Tem discos que saíram depois do meu e já estão publicados!”, argumentou a Buarque de Hollanda. Aí eu me irritei. Respondi que eu estava sozinho para cuidar de uma pilha enorme de CDs, que não tinha equipe para me ajudar, e que estava perdendo um tempo precioso ali batendo boca. Mas logo em seguida, diante do espanto que minha reação causou, me arrependi e pedi desculpas, prometendo que iria “pular a fila” e publicar logo o CD de Ana. De fato, naquele mesmo dia, parei tudo o que estava fazendo, ouvi o CD, cadastrei-o e subi a crítica. Ela pareceu satisfeita e nunca mais ligou.

Moral da história 1: quando se trata de divulgar seu trabalho musical, a futura ministra não parece ter tantas restrições à internet, né? Moral da história 2: se Ana de Hollanda ainda tiver essa tenacidade (sic) ao empenhar-se em ficar no ministério, vai ser difícil tira-la de lá.