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JornaliRmo Corporativo™ – A SÉRIE!

Espanando a poeira do blog, abandonado há meses, retomo o fio da meada iniciada com o GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVANuma espécie de tumblr improvisado, abrigado dentro do TdV, postarei diariamente conteúdos curtinhos – uma foto, um image macro, algumas linhas de texto – sobre as agruras que o profissional da comunicação corporativa enfrenta em sua labuta. Lembrem-se que (praticamente) tudo será extraído de experiências reais, ainda que os nomes e contextos exatos possam diferir um pouco, para proteger inocentes, culpados e, acima de tudo, a mim mesmo.

 

EPISÓDIO III: Habilidades desejáveis: inglês fluente, domínio do MS Office, telepatia

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EPISÓDIO II: Mais uma típica rodada de pedidos de revisão

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EPISÓDIO I: Meu Word está sem corressão hortográfica 

Quem nunca, não é mesmo, minha gente? (Clique na imagem para ver uma versão maior.)

Capítulo I: O GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVA.

Você é jornalista? Está empregado em um veículo de imprensa?  Digo, um veículo DE VERDADE – um jornal, uma revista, um site?  Presta contas sobre seu trabalho ao seu editor, e apenas ao seu editor, e ninguém mais?  Acredita que o seu “compromisso é com a verdade” e que o “leitor deve ser o único a julgar o seu trabalho”? Parabéns!

Ah, sim: você é um animal em extinção.

O conjunto de procedimentos e regras ao qual nos habituamos a chamar de “jornalismo” está mudando. E por “mudando”, eu quero dizer “em vias de acabar”. Vocês têm acompanhado as últimas notícias sobre o mercado brasileiro de comunicação? Ou mesmo as mais recentes conclusões sobre o futuro do jornalismo baseado em anúncios? Pois é, rapaziada, o negóço tá ruço.

Mas ainda que os empregos nas redações estejam desaparecendo (junto com as próprias redações), sempre haverá emprego para quem sabe escrever. Melhor ainda se esse camarada souber escrever de modo claro e conciso; conseguir obedecer a prazos e formatos bem definidos; souber como obter informações de outras pessoas.  Todo mundo tem uma história para contar, e não há profissional mais bem-preparado para conta-las do que os jornalistas. A diferença é que agora vivemos no mundo do conteúdo, e não mais no mundo do jornalismo. Conteúdo é uma espécie de jornalismo denorex: parece, mas não é. Em vez de trabalharmos na velha imprensa, trabalharemos em agências de comunicação, fornecendo palavrinhas, fotinhos e pagininhas para as mais diversas demandas de comunicação das mais diversas empresas. Em vez de termos um compromisso com a verdade (sic!), teremos um compromisso com o cronograma. Em vez de termos o leitor como juiz, teremos os clientes (empresas) nos julgando.

Entender como fazer a transição do jornalismo para o conteudismo é vital para o profissional de comunicação nos dias de hoje, e eu estou aqui para ajudar! Foi pensando nessa transição que resolvi escrever um livro sobre minha incursão no mundo do conteúdo. O Zen e a Arte de Gerenciar Projetos de Comunicação Corporativa é o título provisório da obra, e abaixo segue um trecho inédito: um rápido glossário de termos próprios do universo das agências de comunicação, para ajudar o pobre jornalista recém-chegado ao cenário. A conclusão do livro vai depender do meu tempo livre e, claro, da repercussão obtida por este post. Há algum interessado na plateia?

Conteudista em um raro momento de descontração na agência.

ATENDIMENTO. O setor responsável por fazer a interface entre o CLIENTE e a CRIAÇÃO e a prova viva de que sim, é possível servir a dois senhores. Isso quando o trabalho é bem feito, o que nem sempre acontece. Idealmente, deveria haver um equilíbrio entre a atenção dada ao cliente e o apoio ao trabalho da agência. Na vida real, na maioria das vezes o atendimento acaba pendendo para o lado do cliente (fazendo aquela média bacana com o pessoal da grana),  aceitando prazos impossíveis de cumprir e prometendo mundos & fundos os quais, muitas vezes, a agência não tem condição de executar. Costuma ser a ala mais arrumadinha e cheirosa da agência, composta basicamente por moças elegantes e dadivosas. Elas também detêm o conhecimento dos misteriosos meandros do MICROSOFT OFFICE, e são capazes de produzir apresentações em Power Point, CRONOGRAMAS em Project e tabelas de status em Excel, de modo profissional, clean e incompreensível.

APROVAÇÃO. O ritual místico no qual o CLIENTE dá seu OK ao material entregue pela agência. É um momento ansiosamente aguardado pelo cliente (que afinal vai ter o produto em mãos) e pela agência (que afinal vai poder faturar pelo trabalho). Mas nada é tão simples. As aprovações, via de regra, são feitas em vários níveis, após uma série de mudanças e correções (veja REFAÇÃO). No mínimo, o projeto precisa ser aprovado por um coordenador, um gerente de área e, na maioria dos casos, o diretor de comunicação da empresa-cliente. Esse diretor nunca tem tempo para nada e só vai ver o material às 17h55 de sexta-feira, para aí sim mandar refazer tudo do zero. A lentidão nas aprovações é um fator crítico no descumprimento dos CRONOGRAMAS.

BRIEFING. Todo JOB se inicia com um briefing, que vem a ser um resumo daquilo que o CLIENTE espera que a agência cumpra. Orientações básicas sobre estilo, conteúdo, contatos de pessoas a serem entrevistadas, objetivos principais do material a ser entregue, etc. Um bom briefing é sucinto e objetivo, descrevendo exatamente o que o cliente quer que a agência produza, sem se estender muito. Entretanto, bons briefings são artigos raros no mundo da CC. Em geral, os briefings são A) imprecisos, B) longos e confusos, C) crivados de expectativas irrealistas e/ou D) simplesmente imbecis. Boa parte das vezes, um único briefing se enquadra em todas as categorias descritas abaixo.

  • Exemplo de briefing A): “A reportagem tem que ter declarações das fontes X e Y, mas isso pode mudar. De qualquer maneira, ambos estão de férias agora. Talvez o diretor Z também entre. Mas não dá para confirmar isso agora. Vamos resolver depois de discutirmos internamente. Adiantem o que der enquanto isso.”
  • Exemplo de briefing B): “Temos de usar os recursos de storytelling, com um conteúdo bem em primeira pessoa, reforçando a busca pelo engajamento do usuário…” (seguem-se três páginas de yadayadayada)
  • Exemplo de briefing C): “Reportagem sobre as novas tendências da tecnologia. Entrevistados: Bill Gates, Larry Page, Mark Zuckerberg e Steve Jobs. Sim, sabemos que o Jobs morreu, mas vocês dão um jeito, né?”
  • Exemplo de briefing D): “Tema: o futuro das mídias digitais. Entrevistem dois especialistas, um contra e outro a favor.” (Esse é verdadeiro, eu mesmo fiz a reportagem.)

CLIENTE. A entidade em torno do qual gravitam as agências. Fonte de aporrinhações, noites mal-dormidas, trabalho no fim de semana, choro e ranger de dentes, mas também fonte do todo-poderoso faturamento. A galera do CONTEÚDO e  da CRIAÇÃO tem uma relação de amor e ódio com o cliente. Sem cliente, não há trabalho, nem dinheiro… mas também não há REUNIÕES, CRONOGRAMAS ou REFAÇÕES. Já a turma do ATENDIMENTO se sente muito à vontade com os clientes – claro, precisam fazer aquele social bonito para garantir que tudo saia bem. Nas palavras imortais de uma bela jovem (profissional de atendimento, claro) com quem trabalhei: “Vocês não deveriam reclamar tanto dos clientes. Eles pagam os seus salários.”

CONTEÚDO. Os textos, layouts, websites, fotos, ilustrações, infográficos, vídeos, animações, podcasts, aplicativos etc. que são produzidos pela agência e entregues aos CLIENTES. Acerta-se o JOB, recebe-se o BRIEFING, produz-se o conteúdo, entrega-se ao cliente, faz-se as REFAÇÕES pedidas, devolve-se o material e aguarda-se a APROVAÇÃO. É meio confuso explicar o conceito para os profissionais da velha guarda (especialmente jornalistas). Quanto mais rapidamente o profissional se desapegar do conteúdo que produz, mais tranquila será a sua vida. Ver também CONTEUDISTA.

CONTEUDISTA.  O conteudista é um profissional altamente demandado nas agências de comunicação. Sua função é produzir todo o tipo de textos: revistas, jornais, sites, posts de redes sociais, informes publicitários, slogans, anúncios, legendas para vídeos…  Não me canso de repetir: o jornalismo como o conhecíamos no século passado é uma arte morta. Resta às legiões de jornalistas desempregados realizar o salto definitivo rumo ao conteudismo – ou seja, escrever qualquer tipo de CONTEÚDO que demande texto. Nas agências de publicidade de formato clássico, essa é a seara dos redatores. Com a multiplicação dos projetos de comunicação corporativa e de branded content, mais e mais jornalistas estão se enquadrando no perfil. No começo, a adaptação é difícil. O jornalista que vem de uma redação vai sofrer muito até se encaixar nesse estranho mundo de CRONOGRAMAS, APROVAÇÕES e DUPLIPENSAR CORPORATIVO. Mas não se enganem, coleguinhas: caminhamos rumo a um futuro em que o jornalismo “puro” será algo cada vez mais raro. O conteudismo é única saída.

CRIAÇÃO. A porção da agência que concretamente trabalha no CONTEÚDO a ser entregue ao CLIENTE: (ex-)jornalistas, redatores, designers, consultores de mídias sociais. A CRIAÇÃO vive acossada, lutando contra CRONOGRAMAS pouco realistas, rebatendo os pedidos de REFAÇÃO enviados pelos CLIENTES e as incessantes demandas repassadas pelo ATENDIMENTO, e tentando se esquivar das constantes REUNIÕES.

CRONOGRAMA. Peça ficcional produzida em conjunto pela agência e pelo CLIENTE, fixando datas para a execução das várias etapas de um dado JOB. Funciona assim: depois de estabelecido o escopo do projeto, a agência apresenta o cronograma ao cliente, produzido com o misteriosíssimo e impenetrável Microsoft Project (ver MICROSOFT OFFICE). É um tabelão cheio de datas, linhas e prazos de entregas; o pessoal da CRIAÇÃO dá uma olhada, finge que entendeu e aprova. O cliente olha e diz que X dias devem ser diminuídos do tempo de produção – o que vai obrigar a agência a trabalhar mais rápido. A agência corre atrás, se desdobra e entrega o negócio no prazo menor… apenas para o projeto emperrar no labirinto das REFAÇÕES e das APROVAÇÕES. Não há, nunca houve e nunca haverá um cronograma cumprido à risca. Como costumo dizer, mais inútil que um cronograma, só mesmo o corretor ortográfico do Word. Ou, de acordo com uma das mais exatas leis de Murphy, “Nunca há tempo suficiente para que o trabalho saia perfeito, mas sempre há tempo para refações.”

DUPLIPENSAR CORPORATIVO. O jargão muito específico usado nas agências de conteúdo. Várias palavras aparentemente corriqueiras têm seu sentido modificado, enquanto outras, inventadas, surgem para explicar (ou não) situações inauditas. Seguem alguns exemplos:

  • Alinhamento: tentativa de garantir que todas os profissionais envolvidos em dado projeto estejam trabalhando com os mesmos objetivos, metas e prazos em mente. Nunca dá certo.
  • Demanda: problema.
  • Desafio: problema.
  • Desenvolvimento de competências: o popular desvio de função. “Fulana, do atendimento, saiu? Ah, vamos passar os clientes dela para a Beltrana. Será ótimo para ela desenvolver mais competências.”
  • Em negociação: enrolando.
  • “Estamos muito preocupados”:  prenúncio polido para algum tipo de esporro mais sério. “Estamos muito preocupados com o atraso no CRONOGRAMA…”
  • Oportunidade: problema.
  • Parceiro: profissional ou empresa disposto a trabalhar de graça, já que “vai ser bom para ele aparecer”.
  • Questão: problema.
  • “Vai ser bom pra você aparecer”: argumento principal usado para convencer alguém a se tornar um parceiro. O conceito é intimamente ligado ao de desenvolvimento de competências. Variações: “Vai enriquecer seu currículo” ou “Quebra essa agora, que mais trabalhos virão no futuro”.

JOB. Sinônimo anglicizado para “projeto”. Participar de um job é a garantia certa de encontrar demandas, desafios e oportunidades para desenvolvimento de competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO, acima).

MICROSOFT OFFICE. A fonte de onde emana todo o CONTEÚDO, devidamente formatado e empetecado. Antes de o jornalista aderir às hostes doa jornalismo comunicação corporativoa, é perfeitamente possível que ele tenha passado a vida usando apenas o bom e velho MS Word – e apenas para escrever, e olhe lá. O primeiro choque vem quando ele descobre que é possível deixar comentários (gasp!) em textos do Word. É assim que o CLIENTE sinaliza as REFAÇÕES inevitáveis que precisam ser feitas no texto. Depois, ele vai ter de aprender a usar o Excel, para acompanhar o status do CRONOGRAMA, saber quais pendências precisam ser resolvidas, etc. O próximo passo é compreender os recursos infinitos do Power Point, usado para fazer lindas e convincentes apresentações multimídia para os CLIENTES. Finalmente, quando o cansado ex-jornalista em atividade for um CONTEUDISTA pleno, vai dar o grande salto: aprender a usar o Project, com o qual se constroem os CRONOGRAMAS. Ninguém disse que seria fácil, colega.

REFAÇÃO. Palavra favorita do CLIENTE, aplicada quando surge a necessidade de refazer alguns, vários, ou TODOS os detalhes de algum item de CONTEÚDO. Outro termo exclusivo do universo das agências de comunicação/marketing. Eu mesmo só fui conhecer depois que entrei para o mundo da comunicação corporativa – e franzi a testa ao ouvir pela primeira vez, achando tratar-se de um erro. Para minha surpresa, conferi que a palavra existe no dicionário. Provavelmente vem do inglês remake. Ao menos uma vez, já ouvi a variação “refazimento” sendo usada, mas essa eu tenho certeza que não existe no Aurélio.

REUNIÃO. Ritual em função do qual toda a comunicação corporativa se organiza. Se a CC fosse um religião, a reunião seria a missa. Tudo em um projeto de CC gira em torno de reuniões, que são marcadas para iniciar o processo, para dar continuidade ao processo, para acompanhar o processo, para acompanhar o acompanhamento do processo, para promover o alinhamento, distribuir novos desafios, delimitar novas competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO), rediscutir o CRONOGRAMA, debater as REFAÇÕES a serem feitas, apresentar propostas em ppt (ver MICROSOFT OFFICE)… Entre uma reunião e outra, os CONTEUDISTAS tentam trabalhar. Às vezes, eles até conseguem.

DOSSIÊ: CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE II)

(Publicado originalmente em 04/06/2007).

Eis a segunda parte da série de reportagens que fiz recentemente sobre a crise no mercado fonográfico. São mais dois textos publicados no Jornal Musical, devidamente interligados: a cobertura da Feira Música Brasil, que rolou em março, no Recife, e uma entrevista com Carlos de Andrade, presidente da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), entidade que organizou a Feira.

Feira Música Brasil: talento é tudo, a crise não é nada
12/03/2007

Tantas foram as direções apontadas, perguntas levantadas e conclusões tiradas da Feira Música Brasil (realizada entre os dias 7 e 11 deste mês) que só mesmo uma cidade tão múltipla musicalmente como Recife (PE) poderia ser o habitat natural do evento. “A diversidade foi uma das maiores características da Feira. E quer lugar melhor para reunir tudo isso que Pernambuco, cujo nome tem dez letras e nenhuma se repete?”, gracejou Carlos de Andrade, presidente da ABMI (Associação Brasileira de Música Independente), entidade que coordenou a FMB. A reafirmação da força dos selos independentes no mercado brasileiro; a constatação de que a música brasileira é um produto de potencial comercial imenso, e que precisa ser tratada como tal; sugestões de caminhos alternativos para a crise da indústria fonográfica; uma intensa programação de negócios envolvendo acordos e parcerias entre gravadoras, produtores, artistas e órgãos governamentais; e por fim, mas nunca por último, uma batelada de shows dos mais diversos estilos, pondo em prática o que as dezenas de debates e palestras não cansaram de afirmar: que a nossa música vai muito bem, sim. Mesmo que o mercado, sempre ele, vá mal, muito mal.

A primeira edição da Feira Música Brasil (a segunda já está confirmada, no mesmo Recife, no ano que vem) ofereceu palestras, cursos, mostras de filmes, um espaço com stands de produtos e outro para negócios e parcerias e, como ninguém é de ferro, mais de 60 shows espalhados em diversos palcos. A mira era uma só: despertar a atenção do público e da mídia para a importância da música para a economia brasileira. “A música é o pilar principal da economia da cultura no Brasil e a Feira quer deixar isso claro”, afirmou Andrade. Ao final da FMB, a ABMI distribuiu publicamente um documento intitulado Carta de Recife, no qual resumiu os resultados obtidos na Feira:

“Graças às parcerias, patrocinadores e apoiadores, a Feira Música Brasil 2007 foi um sucesso.
A Feira Música Brasil 2007 foi uma plataforma de estrutura para o setor da música como pilar da economia da cultura.
A Feira Música Brasil concretizou os ideais da ABMI mostrando a importância do associativismo, da diversidade e da descentralização.
Fruto dos debates e discussões, a ABMI propõe as seguintes questões:
- A criação de mecanismos de financiamento para a música independente;
- A equiparação tributária dos bens culturais;
- O cumprimento da legislação que regula as concessões públicas de rádio e TV;
- O aperfeiçoamento do sistema de arrecadação e distribuição de direitos autorais;
- A criação de um órgão nacional para auxiliar na definição de regras de utilização dos direitos autorais, que proporcionem ao Brasil agilidade e competitividade no mercado mundial de música digital.
Recife, 10 de fevereiro de 2007″

Em termos de acordos econômicos, a ABMI considerou a primeira FMB um sucesso. As rodadas de negócios promovidas pelo Sebrae e BNDES geraram perspectivas de acordos comerciais que, confirmados, podem movimentar R$ 8 milhões, entre gravadoras, editoras, produtoras e distribuidoras. Setenta e cinco empresas tiveram seus planos de negócios de avaliados pelos analistas do Sebrae, e oito empresas foram selecionadas pelo BNDES para receber investimento do Fundo de Capitalização de Risco. As estatísticas da Feira Música Brasil apontam quase 2 mil e 100 pessoas que circularam nos auditórios e corredores do evento: 900 inscritos nas conferências e rodadas de negócios, shows que envolveram 270 músicos, 180 profissionais de imprensa em circulação, estandes de 200 expositores, 36 conferencistas, 550 profissionais de produção e apoio. No site www.feiramusicabrasil.com.br, pode-se ver fotos e notícias sobre todos os setores da feira. Na foto acima, a praça do Marco Zero, no bairro do Recife Antigo, que foi o quartel-general da feira. Foi na praça que aconteceu o show em comemoração aos 100 anos do frevo, na última sexta, dia 9.

“A salvação está nos independentes”

Quem se dispôs a acompanhar as 27 conferências oferecidas pela FMB em torno dos rumos do mercado fonográfico precisou não apenas de fôlego; também tinha de se multiplicar, pois várias das palestras tiveram horários conflitantes. As idéias foram muitas e as mais diversas, mas apontaram para direções semelhantes – o modelo de negócios do mercado atual vai desmoronar em um futuro bem próximo e as gravadoras independentes parecem estar mais preparadas para sair na frente quando a poeira baixar. “É mais fácil para as gravadoras pequenas se adaptarem a mudanças. As majors são como grandes navios, é difícil de virá-los rapidamente. Já os independentes são como lanchas, pequenas, mas que acabam indicando o caminho para o barcos maiores”, compara Carlos de Andrade. Um indício revelador é o fato de nenhuma das gravadoras majors (as multinacionais Sony BMG, Universal, Warner e EMI, que controlam mais de 80% do mercado, ter enviado representantes à FMB. “Todas foram convidadas, mas nenhuma foi cortejada para estar aqui. O comportamento do mercado ao longo de 2007 é que vai dizer se as majors estavam certas ou erradas em não vir”, diz Andrade, ressaltando que algumas independentes de renome, como a Trama, também não estiveram presentes.

Segundo César Prado, representante da distribuidora de CDs A Universal (não confundir com a gravadora homônima), o quadro é negro para quem vive da venda de discos. “Em 2002 tínhamos 7.600 lojas de CD cadastradas. Em 2005 o número caiu para 3.300. Só em 2006 mais de 300 lojas fecharam”. Maurício Bussab, da distribuidora Tratore, confirmou. “2006 foi um ano péssimo, 2007 será pior e 2008, ainda mais trágico”. Para João Augusto, dono da Deckdisc, as práticas viciadas das majors contribuem ainda mais para a crise. “O caso da EMI deu uma estragada violenta nos números de 2006″, diz, referindo-se ao escândalo contábil que derrubou a cúpula da administração brasileira do selo.

“A salvação está nos independentes”, afirma João Moreirão, vice-presidente da ABMI e ele mesmo diretor da gravadora CPC-Umes. “Nós (as independentes) somos o reflexo da capacidade do Brasil de produzir música”, diz, batendo forte no que chama de “sistema McDonalds de produção de discos”: “As gravadoras multinacionais trabalham com objetivos deletérios: querem ter apenas um punhado de artistas que vendam muito em todo o mundo. É inconcebível que um selo gigante como a Warner lance exatamente a mesma quantidade de discos brasileiros em um ano – apenas sete – que a minha gravadora, que é minúscula”.

As alternativas estão aí, e várias foram debatidas nas mesas da FMB. Pena Schmidt, veterano produtor (ajudou bandas como Ira!, Titãs e Ultraje a Rigor a decolar) e diretor do selo Tinitus, pintou um cenário caótico mas cheio de oportunidades. “Hoje música e distribuição digital são a mesma coisa. Temos de abrir mão de nossos antigos deuses e entender que a gravadora como era antes – um representante dos artistas para o mercado de música gravada – não existe mais”. Maurício Bussab, pioneiro na distribuição de música online (sua banda, Bojo, lançou em 1999 o primeiro álbum virtual do Brasil), diz que “o CD está deixando de ser um objeto de desejo. Pode ser que no futuro não haja o negócio de venda de música. O artista vai ganhar dinheiro de outras formas, com acordos corporativos com empresas ou licenciamento para filmes e comerciais, mas não com a venda direta para o ouvinte”. Moreirão reivindicou isenção de impostos para o CD de música brasileira, pedido antigo tanto de indies quanto de majors, e propôs: “Os impostos cobrados sobre os discos de artistas estrangeiros deveriam ir para um fundo de iniciativas de educação musical para o povo”.

E dentro da mesma independência, variam muito os caminhos individuais para a sobrevivência. Caso inconteste de sucesso no segmento das independentes, João Augusto apontou as diretrizes que levaram a Deckdisc a abiscoitar 2,24% do mercado em 2005, ficando atrás apenas das majors e da Indie Records. “Você pode ficar reclamando ou entrar na briga. Eu preferi entrar na briga. A gente não faz disco por favor a ninguém, e sim para fazer sucesso. Temos uma liberdade artística que as grandes gravadoras não têm, mas nossa estrutura não é nada inovadora, nossos valores são os mesmos das majors”, confirma João, que já passou por altos cargos em gravadoras como EMI, Abril Music e Polygram (atual Universal). Já o independente radical Fabrício Nobre, dono do selo Monstro e organizador dos festivais Bananada e Goiânia Noise, vai na contramão do capitalismo. “Fazemos música que é uma alternativa ao que está estabelecido aí, usando os princípios do trabalho da economia solidária e autosustentável”, diz Nobre, cujas iniciativas, entre selo e festivais, geram cerca de 100 empregos temporários.

A pirataria, online ou na banquinha do camelô, também esteve em pauta. E não necessariamente vista com maus olhos. “Nunca fomos pirateados. Acho isso uma ofensa”, brincou Bussab, da Tratore, a maior distribuidora de gravadoras independentes do Brasil. Pena Schmidt causou polêmica ao afirmar que “a pirataria é o maior serviço de divulgação que existe”. Mais ponderado e falando em nome da ABMI, Carlos de Andrade (de branco na foto abaixo, junto a Fabrício Nobre) atacou tanto o mercado de CDs piratas quanto os internautas que baixam música de graça. “Isso tudo desvaloriza o sentido da música, o valor do conteúdo daquele produto. O conceito da pirataria é um só: roubo. Precisamos educar, conscientizar o público, reprimir firmemente o pirata e investir em novas estratégias de marketing para convencer o cara que ainda compra CD a continuar comprando – e ampliar essa base”, afirma Andrade, também diretor do selo Visom.

Para além das discussões mercadológicas, ficou clara a fé que os representantes da indústria têm na força da música brasileira. Quem investir nessa força, independentemente do fim do CD ou de sua sobrevida, vai vencer. “Os números pioram a cada ano, mas a música continua”, diz Bussab. “Tudo se resume ao talento. Se a música vai ser paga ou não, isso é uma pequeníssima questão comercial. O que importa é: quantas pessoas querem ouvir aquela determinada canção? Música de graça sempre existiu”, reforça Schmidt. E o presidente da ABMI contou uma historinha que exemplifica o poder supremo do artista. “Certa vez Caetano Veloso discutiu com um diretor da Universal, que veio argumentar com ele dizendo ‘Eu sou o presidente’, e coisa e tal. E o Caetano rebateu: ‘Você é o presidente da Universal. Eu sou a Universal’”. Como redargüir?

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‘Gravadoras precisam ouvir o público’, diz presidente da ABMI
08/04/2007

Haja bola de cristal para tentar prever para onde o mercado fonográfico brasileiro vai. Uma boa bússola pode ser seguir a orientação dada pelos selos independentes. Afinal, enquanto as gigantes do setor – as multinacionais Sony BMG, EMI, Warner e Universal – acusam prejuízos, balanços no vermelho e promovem demissões coletivas, as indies transformam a crise em oportunidade. Olhando tudo disso à distância está a ABMI – Associação Brasileira da Música Independente (www.abmi.com.br), órgão que congrega cerca de 100 gravadoras independentes. Fundada em janeiro de 2002, a associação vem provendo a seus sócios meios de aumentar suas forças na dura batalha por uma fatia maior do mercado (hoje dominado em mais de 80% pelas multinacionais). E, no começo do mês passado, deu sua maior demonstração pública de força ao organizar, com apoio de entidades como Petrobras e BNDES, a Feira Música Brasil (www.feiramusicabrasil.com.br), um dos maiores eventos já realizados no país em torno da indústria musical. Em entrevista ao Jornal Musical, o presidente da ABMI, Carlos Eduardo de Andrade, o popular Carlão, ele mesmo dono do selo Visom (especializado em música instrumental), falou sobre as perspectivas dos independentes em relação ao momento atual do mercado.

Jornal Musical: As gravadoras independentes parecem estar enfrentando a crise do mercado fonográfico de modo mais eficiente do que as multinacionais. Qual é o segredo?
Carlos Eduardo de Andrade: Para um selo independente, é mais fácil tomar iniciativas novas. Somos pequenos e ágeis. Uma comparação boa; as multis são como navios, grandes, poderosos, mas lentos. E nós, os independentes, somos lanchas, pequenas mas rápidas. E podemos indicar a direção aos navios grandes. Sei que isso pode parecer inveja ou despeito – ah, quem sou eu para falar das grandes gravadoras? Elas são gigantes, tem o poder de alavancar o mercado. Mas as multis não acreditaram que pudéssemos levantar uma bola tão grande quanto essa da Feira Música Brasil. A Warner recusou o convite para participar da Feira e, poucos dias depois, anunciou que teve perdas em seu balanço financeiro de 2006. Eles fizeram mal em não participar? Só podermos afirmar isso vendo os rumos que o mercado vai tomar em 2007.

Selos independentes como a Deckdisc, a Trama e a Indie ocupam hoje parcelas do mercado que seriam inatingíveis há 15, 10 anos. Já é possível falar em uma nova divisão do mercado, com os selos independentes oferecendo alternativas reais e acessíveis à música produzida pelas grandes gravadoras?
Sim. Estamos nos sentindo como parte do mercado agora. A representatividade – e a visibilidade – dos independentes só vem crescendo. Eles, os grandes, as majors, podem nos chamar de pequenos. Mas o que importa é o que o público quer. E não podemos desprezar o poder da associação. Organizações como a ABMI, a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) e a Abeart (Associação Brasileira dos Empresários Artísticos) estão se reunindo. E em ações conjuntas, com todo mundo reunido, o Golias do mercado fica parecendo pequenininho. Entre nós, os independentes, não há concorrência; as informações e os projetos são trocados entre os associados. Esses casos que você citou, como a Trama, a Deck e a Atração, por exemplo, são gravadoras muito bem sucedidas na exploração de determinados formatos que elas identificaram e que não estavam sendo atendidos pelas majors.

Queremos provar que, apesar da crise, é viável investir na indústria, pois existe uma demanda popular por música que só cresce. Se você pensar bem, tudo que nos cerca tem música: o carnaval, a televisão, o som ambiente nos restaurantes… Por isso mesmo o nosso nome é Associação Brasileira de Música Independente, e não ABDI – Associação Brasileira do Disco Independente. Porque a música é muito maior que o disco.

Fala-se muito no papel que a pirataria tem na crise do mercado. Os independentes, por apostarem em produtos e estratégias de marketing diferenciadas, sofrem menos com os piratas. Que lições os selos pequenos podem dar às grandes gravadoras? 

Posso falar pela minha gravadora, a Visom. Eu sei que nunca serei pirateado, porque o meu público é bem formado, tem educação suficiente para saber que pirataria é o mesmo que roubo. E além de tudo ele quer o produto, o encarte, o CD legítimo. É como os discos da (gravadora) Biscoito Fino: são lindos, embalagens bacanas, som ótimo. É realmente um biscoito fino, não é rosquinha Mabel (risos). Mas também tem público para a rosquinha, tudo é questão de fazer um marketing inteligente. É possível pensar em lançamentos com preços diferenciados, edições com mais ou menos atrativos para atingir todo os públicos – desde o cara que quer pagar mais para ter o digipack, o encarte especial de fotos, o DVD-bônus, até o outro que só quer o CD mesmo e mais nada, e quer pagar mais barato. Um escalonamento de versões. As gravadoras têm de conversar com o público e saber o que ele quer, para atraí-lo. Por exemplo, acho um erro tratar o camelô como inimigo. Se as majors soubessem lidar com os camelôs, que é o cara que tem acesso direto ao público, poderia colocar na banquinha dele um CD legítimo, com encarte e tudo, a R$ 5. Já pensou?
Se o departamento de marketing servisse ao A&R (artists & repertoire, o setor artístico das gravadoras), estaria tudo resolvido. Mas acontece o contrário. O problema é que, em termos de marketing, gravadora grande é tudo igual. Eles não inventam, não ousam. Nós independentes estamos mais preparados para isso, pois atuamos em nichos de mercado.

E em termos imediatos, qual é o pensamento da ABMI sobre o combate à pirataria e ao download ilegal de MP3?
A pirataria tem um efeito maléfico. É a desvalorização do sentido do conteúdo da obra. Não adianta pensar em combater a pirataria abaixando o preço do CD na loja – não se combate roubo com preço baixo, o pirata sempre vai ser mais barato. O problema é que o público enxerga o artista de cima para baixo. Olha para o cara cantando lá no palco e pensa: “Ele é rico, eu sou pobre. Vou comprar o pirata, o artista não precisa do meu dinheiro”. Isso é errado! Falta é educar esse cara, fazê-lo entender que ele está cometendo um crime. Já para quem baixa música sem pagar, o que falta é repressão, pois ele em geral tem dinheiro e um nível cultural mais alto e sabe que está fazendo algo errado. Cito o exemplo do meu filho adolescente, que baixa música da internet usando Soulseek e outras ferramentas, e me disse: “Não concebo a idéia de pagar por música”. Ora, é o que eu falei sobre a desvalorização da obra. A repressão é antipática? É, mas mais antipático ainda é o cara que rouba.

Outro assunto em pauta é o potencial da música brasileira como produto de exportação. Como a ABMI está se preparando para essa nova realidade?
Precisamos transformar o Brasil em um país completo. Agora somos apenas um agrupamento de sons regionais. A música de Pernambuco, por exemplo, chega mais fácil no mercado exterior do que no Rio de Janeiro! O Silvério Pessoa é rejeitado no Rio e em São Paulo porque é “regional demais” e no entanto é isso que desperta o interesse das pessoas lá fora. Já ouvi gente reclamando do sotaque paulista da Céu, porque foram ouvir o disco dela esperando encontrar uma “nova Maria Rita”, e isso é tudo o que ela não quer ser… A diversidade, e esse é o ponto principal da FMB, é o que tem de ser valorizado. Temos de recuperar a visão mais “européia” de mercado que vigorava há alguns anos, com investimentos a longo prazo nas carreiras dos artistas. De uns anos para cá, as filiais das gravadoras passaram a seguir o modelo norte-americano, imediatista, de retorno a curto prazo. Deu no que deu.

A Feira Música Brasil reuniu representantes de todos os setores da indústria fonográfica para um debate amplo sobre os rumos do mercado. Mas nenhuma das gravadoras multinacionais quis participar do evento. Que conclusões podemos tirar disso?

Todas as gravadoras foram convidadas, mas nenhuma foi cortejada. Veio quem quis. E nem todos os associados da ABMI vieram, tampouco. A Trama, por exemplo, é tão independente que quis ficar sozinha, nem veio (risos). Mas garanto que na próxima Feira eles virão, e pelo menos uma ou duas multinacionais também. Não existe este cabo de guerra, “independentes X majors”; a nossa questão é música brasileira X música estrangeira. Temos uma agenda positiva com relação à crise e o importante é que as multinacionais saibam que já estão todas convidadas para a próxima feira.

DOSSIÊ: CRISE DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA (PARTE I)

( Publicado originalmente em 27/05/2007.)

Acompanho com interesse pessoal e profissional os desdobramentos da crise da indústria fonográfica. Nos últimos meses, tive a oportunidade de cobrir vários eventos dedicados ao tema, e acabei escrevendo algumas reportagens para o Jornal Musical sobre o tópico. Aqui, reúno cinco dessas reportagens. Esses mesmos textos me renderam um convite para uma matéria mais ampla, a ser publicada no Valor Econômico (no dia 4 de maio deste ano, com o títuloDançando conforme a música). Como no jornal o texto saiu bastante modificado, com várias inclusões apuradas pelo editor Robinson Borges, posto aqui a versão original do que eu apurei. Como bônus, postarei também uma matéria que fiz em 2003 sobre o fechamento da Abril Music – prenúncio dos dias sombrios que as gravadoras vivem hoje. Publicado nos sites Jornal Musical e Cliquemusic e no jornal Valor Econômico (trechos).

Na velocidade do som
Trechos publicados no Valor Econômico, 04/05/2007

O ano de 2007 deve passar para a história da indústria fonográfica brasileira como o momento em que as gravadoras, finalmente, caíram na real. A movimentação nas cúpulas dirigentes dos selos multinacionais (que vem sendo acompanhada de perto pela imprensa nas últimas semanas) é apenas a ponta de um iceberg que ainda prevê ajustes ainda mais profundos e mudanças radicais nas estratégias de negócios. Tudo para tentar recuperar o tempo perdido na luta contra os predadores (pirataria, downloads ilegais de música, preços altos) do mercado – um mercado que movimentava R$ 1 bilhão e 200 milhões em 1995 e em 2006, bateu no fundo do poço, chegando a R$ 250 milhões, um retração de quase 80% em uma década. Substituições de executivos em postos-chave, cortes de elenco e de investimentos estão na pauta do dia das gravadoras, que já colocam a venda de música pela internet como prioridade imediata.

Na verdade, a dança das cadeiras nas filiais brasileiras das multinacionais do disco começou ainda no ano passado, com o afastamento de Marcos Maynard da direção da EMI. A própria sede inglesa da gravadora revelou, em outubro último, que a filial brasileira manipulava seus balanços – contabilizando CDs e DVDs passados às lojas como títulos realmente vendidos ao público, ignorando os discos devolvidos ao estoque. A fraude afetou as avaliações do mercado brasileiro em 2005 e teve reflexos nos números de 2006. “Essa brincadeira da EMI deu uma estragada boa no mercado”, confirma o diretor de um importante selo independente, que já passou por várias gravadoras grandes antes de se firmar por conta própria.

Maynard, substituído por Marcelo Castello Branco, foi apenas o primeiro eliminado. A Universal demitiu seu diretor artístico, Max Pierre, no começo do mês, resultado de uma auditoria promovida pela matriz da companhia na filial local. Cláudio Condé, presidente da Warner brasileira, perdeu para Sérgio Affonso o cargo, em meados de março. Apenas a Sony & BMG não mexeu em sua cúpula – em time que está ganhando, não se mexe. Segundo o principal executivo da companhia, Alexandre Schiavo, pelo segundo ano consecutivo a gravadora manteve a posição de primeiro lugar no ranking nacional. “Nosso market share passou de 25,05%, em 2005, para 26,14%. Depois de dez anos seguidos de dominação da Universal, consolidamos nossa posição”, adianta Schiavo, com a confiança de quem está por cima – números como esses são usualmente mantidos a sete chaves pelas gravadoras, especialmente em hora de crise e de troca de comando. A manutenção da Sony & BMG no primeiro lugar do mercado já era prevista desde a divulgação, em março, da lista dos lançamentos mais vendidos em 2006. Oito títulos da gravadora de Schiavo (incluindo o campeão, Minha benção, do Padre Marcelo Rossi) integram a lista dos 20 CDs mais vendidos do ano. A estimativa é que não haja mudanças no ranking em relação a 2005, com a Sony & BMG em primeiro, Universal em segundo, EMI em terceiro e Warner em quarto lugar.

Os números oficiais do mercado no ano passado ainda não foram divulgados pela ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco). Tradicionalmente, a associação (que congrega as cinco maiores gravadoras do país: as multinacionais Sony & BMG, Warner, Universal e EMI e a brasileira Som Livre) segue o calendário da IFPI (International Federation of the Phonograph Industry) para anunciar seu balanço anual. Sabe-se, entretanto, que 2006 representou mais um degrau – para baixo – no agravamento da crise da indústria. “Nosso último ano bom foi mesmo em 2004. A indústria está de ressaca”, analisa Paulo Rosa, diretor geral da ABPD. Ele fala, sem citar números, em “uma redução bastante significativa” no tamanho do mercado em 2006. “Em 2004 não houve queda nas vendas de produtos de áudio. Já em 2005 tivemos uma redução de cerca de 13% em relação a 2004. E em 2006 a queda foi ainda maior”.

Rosa diz que o momento difícil do negócio do disco é mundial. Mas no Brasil a coisa é pior por fatores já bastante conhecidos. “Pirataria existe em qualquer lugar. Mas aqui o negócio é muito acima do tolerável. Houve avanços no combate aos piratas, o índice de mercado dominado pelos piratas vem caindo – de 52% em 2003 para cerca 40% em 2005. Só que esse efeito ainda não foi sentido pela indústria”. O diretor da ABPD também aponta que o número de downloads ilegais de MP3 (via programas de compartilhamento de arquivos como Kazaa e Soulseek) está aumentando, por conta da crescente inclusão digital no país, mas que este potencial mercado para venda legalizada de música ainda não desabrochou. “No exterior a venda de música online já começa a compensar as perdas com a pirataria e o peer-to-peer, o que não acontece no Brasil”.

Para além das conjunturas do mercado, Rosa não deixa de creditar às próprias gravadoras uma boa parcela da culpa pela crise. “No ano passado, tivemos poucos lançamentos importantes, poucos sucessos e poucas novidades. É sintomático: por anos seguidos, as gravadoras só vêm cortando, reduzindo investimentos, funcionários e seus elencos de artistas. Tenho sentido a falta de produtos fortes, que possam resgatar os grandes sucessos de outrora”. Sem citar nomes, o representante da ABPD diz que 2006 foi um ano de balanços “atípicos” por conta do alto número de devoluções de CDs às gravadoras – referência indireta ao escândalo que derrubou Marcos Maynard.

Schiavo classifica 2006 como um ano “complicado e deprimido” para o mercado, mas ressalta que sua gravadora foi “na direção contrária da crise”. “Tivemos um ano excelente, com o primeiro registro de lucro operacional depois de cinco anos no vermelho”, narra o diretor da Sony & BMG. O resultado é fruto de um plano de reestruturação em curso há quatro anos, durante os quais, segundo Schiavo, a companhia tratou de “enxergar a realidade no tamanho certo”. Ainda assim, toda essa antecipação não blindou completamente a gravadora, que detém o passe de grandes vendedores como Roberto Carlos, Ana Carolina, Zezé Di Camargo & Luciano e Bruno & Marrone. “Estamos quase no limite do achatamento de nossa margem de lucro; nos últimos anos, reduzimos o preço do CD em quase 16%. E não temos tido apoio do governo na luta contra a pirataria”, afirma Schiavo.

No meio desse tiroteio, os selos independentes seriam tropas de guerrilha, em comparação à artilharia pesada das multinacionais. Pequenos e sem muitos recursos, compensariam com a agilidade que falta às poderosas multis. Paulo Rosa acha que a crise não escolhe vítimas, grandes ou pequenas: “O mercado é um só. Os independentes têm uma mentalidade diferente, mas acabam enfrentando as mesmas dificuldades”. O presidente da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente), Carlos de Andrade, tem uma visão diferente. “Aumentamos nossa participação no mercado em 2006 e ocupamos mais espaço, principalmente nos nichos onde as grandes gravadoras não entram”, diz Carlos, ele mesmo dono de um selo independente (a Visom). Ele cita casos vitoriosos em que os selos pequenos correram por fora e destronaram as grandes: “O Nordeste, por exemplo, é quase todo independente. A cena musical do Pará também. O caso da Banda Calypso é só um exemplo. No Rio Grande do Sul temos gravadoras gigantes, como a Orbeat ou a Acit”.

O termo “gigantes”, entretanto, deve ser contextualizado no caso das indies. As multinacionais ainda dominam mais de 90% do mercado. “Sabemos que nunca vamos ver a Ivete Sangalo em uma gravadora independente. Mas mais e mais grandes nomes estão saindo dos grandes selos. Com o encolhimento do mercado, gente como Alceu Valença, Chico Buarque, Djavan – ou seja, artistas já preparados para a indústria, que vendem bem e são reconhecidos – foram para a independência”. Quem se destaca no meio das independentes – em particular a Indie Records e a Deckdisc – está tentando o pulo do gato: serem reconhecidas como selos pequenos, mas capazes de abocanhar público das grandes. “A vantagem das independentes é saber que tipo de disco estão fazendo e para quem vão vender, uma noção que as multinacionais às vezes não têm”, diz, reconhecendo que, volta e meia, selos pequenos emplacam grandes sucessos. “A Deck é a major das independentes”, afirma Andrade sobre o selo carioca, que ainda cita como selos representativos a Biscoito Fino, Trama, Atração, MZA, Azul Music, Rob Digital e Dubas, dentro de um universo que abriga mais de 500 selos (cerca de 100 desses associados à ABMI).

A citada Deckdisc merece realmente o crédito do presidente da ABMI. Dominando 3,28% do mercado (números de 2005), o selo carioca tem um catálogo vasto, que vai do pop-rock ao sertanejo, e já emplacou legítimos sucessos populares como os grupos Falamansa (dois milhões de CDs vendidos) e Revelação (cerca de um milhão e meio de CDs). Foi a gravadora que mais cresceu nos últimos dez anos. Ainda assim, o presidente da companhia, João Augusto, adota um discurso cauteloso ao avaliar sua posição atual. “Tivemos um ano muito difícil, talvez o pior de nossa história”, afirma. “Nossa queda foi ainda maior que a da média do mercado, porque ativamos um plano de contingência para baixar os custos e garantir o negócio”. Ao mesmo tempo que enquadra na devida perspectiva a ascensão das independentes (“Hoje em dia não há vencedores, todos perderam alguma coisa, grandes e pequenos”), João não deixa de fazer suas apostas. “Não deixaremos de trazer novos artistas e projetos para o mercado. Temos pelo menos um sentimento de vitória por termos passado pelas tormentas sem mexer na estrutura e sem cancelar projetos”, diz.

Passado o primeiro trimestre, o ano de 2007 configura-se sombrio. “Houve uma queda de 50% nas vendas em comparação com o mesmo período do ano passado”, testemunha Alexandre Schiavo. “Para a venda de CDs, 2007 deverá ser mesmo um ano difícil”, confirma Paulo Rosa. O único consenso a que os figurões do mercado conseguem chegar é que a sobrevivência passa pela internet. “É ilusão achar que a música digital vai repor as perdas que já tivemos. Mas o segmento é importantíssimo”, resume o presidente da Sony & BMG. Em 2006, houve a chegada de duas novas megastores virtuais de música, o UOL Música e o Sonora (do portal Terra), juntando-se à pioneira iMúsica. Em 2007 entrou no ar o BaixaHits (mantido pelo grupo Jovem Pan) e o provedor de internet IG também prepara sua loja de música. Gravadoras independentes como a Deckdisc e a Rob Digital e multinacionais como a Warner também já vendem seu catálogo por meio do download pago.

Neste contexto, seria de se esperar que os principais players de venda de música online estejam animados com a expansão, certo? Mais ou menos. O download pago representa apenas 2% das receitas das gravadoras brasileiras (enquanto nos EUA, Europa e Japão chega a 10% do total). O iMúsica teve em 2006 uma média de 30 mil faixas comercializadas por mês, número irrisório diante do mais de um bilhão de canções que os internautas brasileiros baixaram sem pagar no ano passado (segundo a ABPD). “Nossa perspectiva para 2007 é positiva por um único motivo: nosso mercado ainda não existe, na prática. Então, só podemos olhar para cima”, afirma Felipe Llerena, um dos fundadores do iMúsica, primeiro site a vender (já em 2000) música pela internet no Brasil. No entanto, diferente do resto da indústria, Llerena tem motivos para comemorar pelo ano que passou. “Passamos finalmente, com a adesão da Sony & BMG e da Universal, a oferecer músicas das quatro gravadoras multinacionais. Hoje temos o maior banco digital de música brasileira à venda na internet, o que é interessantíssimo para o mercado exterior”. A animação é ainda maior quando se fala em download para telefones celulares. “Já em 2007 passaremos a vender canções full-track (músicas inteiras, em MP3 estéreo) de várias gravadoras, para todas as operadores de telefonia. Temos 100 milhões de celulares no Brasil, é um mercado que cresce a cada dia e o que é melhor – sem pirataria”, afirma Llerena.

“Estamos, como sempre, otimistas. Esperamos que as gravadoras consigam reagir em 2007”, resume, em nome da ABPD, Paulo Rosa. Multinacionais e independentes preparam suas armas, em movimentos baseados na cautela. A líder do mercado vai batalhar por mais apoio do governo. “Queremos discutir a sério a questão da isenção de impostos para CDs e DVDs, a exemplo do que ocorre com os livros. Isso possibilitaria baixar muito os preços para o consumidor”, diz Alexandre Schiavo, da Sony & BMG, ressaltando que as conversas com o governo nesse sentido ainda não deram em “nada de concreto”. Schiavo também cita a execução, em 2007, de um “plano estratégico” que, segundo ele “vai garantir o futuro da companhia” e que inclui revisão minuciosa de contratos de alto a baixo – e também a dispensa de artistas, que já abateu nomes (outrora) bons de venda como Gabriel o Pensador e o grupo Cidade Negra. João Araújo segue apostando em variados segmentos musicais (punk rock, música eletrônica, MPB instrumental), mas seguirá escorando-se no sucesso de seus nomes mais populares. “Projetávamos um crescimento para 2007. Mas vendo como o ano começou, já considero que se conseguirmos empatar nossos custos ao fim do ano, terá sido uma vitória”, diz o dono da Deckdisc. Representante do futuro do comercio musical, Felipe Llerena joga uma metáfora no debate: “Para a música digital, 2007 será um bom ano. Estamos ainda na infância: jogando bola na rua, levando topada, caindo mas sempre sorrindo, dispostos. As gravadoras tradicionais são como velhinhos que acordam cansados, com artrite, dores nas costas. Mas ainda estão aí, firmes, e ainda estarão por um bom tempo”.

Download ilegal: a vez do contra-ataque

Jornal Musical, 17/10/2006

Em 2005, estima-se que os internautas brasileiros tenham downloadeado cerca de 1,2 bilhão de músicas ilegais, através de sites e programas de compartilhamento de arquivos. Esse número indica que o Brasil é responsável por 5% de toda a movimentação ilegal mundial de música via internet – enquanto que, no mercado fonográfico legalizado, o país está bem atrás, representando apenas 1% das vendas mundiais. Esses e outros espantosos dados levaram a ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos) a anunciar as primeiras 20 ações cíveis contra pessoas físicas que baixam músicas da internet no Brasil. Os processos fazem parte de um conjunto de 8 mil ações semelhantes iniciadas em 17 países, num esforço comandado pela IFPI (International Federation of the Phonograph Industry) – a organização que congrega as gravadoras e selos em nível mundial – para tentar conter a sangria de lucros causada pela troca ilegal de música em MP3.

As medidas foram anunciadas em uma coletiva de imprensa no hotel Copacabana Palace (RJ), na manhã de hoje, comandada pelo inglês John Kennedy (presidente mundial da IFPI, visto na foto acima) e por Paulo Rosa, diretor geral da ABPD – além de representantes de gravadoras, artistas e lojas de venda de música online legalizada. Paulo Rosa disse não ter detalhes específicos sobre os 20 primeiros processados brasileiros, mas traçou um perfil dos acusados: “Estamos atrás dos grandes infratores. Buscamos usuários que tenham um número grande – na casa dos milhares – de arquivos em seus computadores, permitindo que outras pessoas em todo o mundo os acessem. Todos os processados moram nas regiões metropolitanas do país”. Segundo John Kennedy, a onda global de processos cíveis deve ter um efeito educativo sobre o resto dos internautas. “É difícil acabar com o hábito de baixar música nos internautas mais experientes. Estamos fazendo progressos com as pessoas que estão começando a acessar a internet agora. Eles estão vendo os perigos potenciais do download ilegal e se recusam a usá-lo. A combinação de campanhas educativas e ações legais está funcionando”. No mundo todo, desde 2004, cerca de 2.300 pessoas já foram condenadas por download ilegal, pagando indenizações com valor médio de R$ 6.300.

O presidente da IFPI – que representa mais de 1.400 companhias grandes e pequenas – se referiu à situação do Brasil neste campo como “uma história muito, muito triste” e previu, de forma apocalíptica: “Estamos assistindo à derrocada da música brasileira, que já teve talentos tão grandes como Vincius de Morais e Ary Barroso. Quem mais sofre com a pirataria e a ilegalidade são países como o Brasil, pois sempre vai haver mercado para música cantada em inglês”.

Além das medidas júridicas, a Associação dos Produtores de Disco também lançou uma campanha de conscientização do público. Usuários de programas de compartilhamento de arquivos estão recebendo, desde a semana passada, mensagens instantâneas alertando sobre a ilegalidade de suas ações. Além disso, a ABPD anunciou o lançamento do programa Digital File Check, que detecta e desinstala programas de troca de MP3 (o DFC pode ser baixado, numa versão em português, no site www.ifpi.org/dfc/downloads/dfc.html).

As ações movidas pela ABPD se seguem a uma pesquisa encomendada pela associação ao instituto Ipsos, que levantou o perfil do brasileiro que baixa MP3 ilegalmente (veja o resultado abaixo). A pesquisa apontou que podem existir até 3 milhões de brasileiros usando redes como Kazaa, Morpheus e eMule. Esse número ajuda a derrubar ainda mais o combalido mercado fonográfico nativo. Nos primeiros seis meses de 2006, a venda de CDs teve uma queda de 16,65% em comparação com o mesmo período do ano passado, emendando com outro tombo de 20% registrado ao longo de 2005. “Somadas, as músicas baixadas pela internet só em 2005 totalizariam cerca de 75 milhões de CDs. Junto aos 40 milhões de CDs piratas vendidos ano passado, temos um cenário de 115 milhões de CDs ilegais, um número muito superior aos cerca de 55 milhões de discos vendidos legalmente”, lamentou o diretor da ABPD.

Ao mesmo tempo, o download ilegal atrapalha o nascente mercado legalizado de música online por aqui. Portais como iMusica (www.imusica.com.br), Uol (www.uol.com.br) e Terra (www.terra.com.br) e gravadoras como Warner (www.warnermusic.com.br) e Deckdisc (www.deckpod.com.br) já oferecem venda de arquivos digitais. No mundo todo já são cerca de 350 os sites de venda de música online, responsáveis por um nada desprezível total de 5,5% do faturamento da indústria fonográfica em 2005. É esse o público que a ABPD e a IFPI quer manter – e ampliar.

‘Nosso modelo ainda é sustentável’

Paulo Rosa, diretor-geral da Associação Brasileira de Produtores de Discos, defendeu na coletiva de hoje o atual formato do mercado fonográfico brasileiro – que, para muitos observadores, se auto-encurralou em um esquema à base de jabá e preços inflacionados para o consumidor. E agora precisa lutar contra a pirataria e a galopante febre do download ilegal.

Em termos práticos, como os usuários que compartilham MP3 pela internet estão sendo abordados? Existe o risco de violação de privacidade e invasão de computadores alheios? 
Estamos usando as próprias redes de file-sharing para descobrir quem são os maiores uploaders (usuários que oferecem músicas), aqueles que têm mais arquivos. Programas como Kazaa e eMule permitem que descubramos o IP do usuário sem qualquer invasão – e com o IP, junto aos provedores de acesso, podemos obter os dados pessoais do internauta.

Dadas as dificuldades que as gravadoras enfrentam, não seria hora para buscar um novo modelo de venda de música ao grande público?
É claro que é muito difícil competir com a pirataria e o download. Mas nosso modelo atual ainda não ficou obsoleto. Aqui no Brasil a venda de CDs ainda é perfeitamente sustentável. Não é hora de repensar nada, e sim de fazer com que as leis sejam aplicadas.

E os exemplos alternativos? A banda Calypso vende milhões de CDs a um preço bem mais baixo que o das grandes gravadoras e não sofre com a pirataria. Já revistas como a Outracoisa conseguem lançar em bancas de jornal CDs a preços baixos. 
Não sei dizer se essas gravadoras que vendem a preços baixos trabalham como os membros da ABPD – que pagam impostos e agem dentro da lei. Nós arcamos com custos de produção, direitos autorais, divulgação e outros, que encarecem o produto final. Os impostos representam 35% do preço dos CDs. Quanto à venda de CD em banca, não a consideramos uma maneira legítima de distribuir música, porque as publicações são isentas de impostos. Não é justo comparar quem vende em banca com quem vende em loja.

A gravadora Trama já se posicionou favoravelmente à liberação dos direitos autorais de seus discos, através de mecanismos como o Creative Commons. Não seria uma forma de baratear o CD?
Pessoalmente eu não entendo esse tipo de negócio da Trama. Você vai entregar de graça o conteúdo que custou dinheiro para produzir? Esse sistema não funciona. Quer dizer, quem sou eu para criticar, eles podem fazer o que quiserem – opa, já estou criticando (risos).

Qual é o formato musical do futuro? O CD vai mesmo acabar? 
Há dez anos previa-se que hoje não existiria mais o CD. E ainda existe, como se vê; 75% da música mundial é comercializada em CDs. A música digital, seja em computadores, MP3 players e telefones, ainda vai caminhar por um bom tempo ao lado do CD.

Perfil do brasileiro baixador

Eis o internauta brasileiro que baixa MP3 ilegalmente:

Compõe um universo estimado em 2.995.633 pessoas, ou 8% da população maior de 15 anos nas dez principais regiões metropolitanas do país;
Na maioria (55%) é homem;
Tem bom nível sócio-cultural (67% deles estão nas classes A e B, e 69% completou ao menos o ensino secundário);
São jovens (59% têm entre 15 e 24 anos; 39% são estudantes);
O Kazaa (na foto ao lado) é o programa mais usado (63%) para baixar músicas;
Cada um deles baixou uma média de 101,3 músicas nos últimos três meses – o que dá base para o cálculo estimado de 1.187.809.461 arquivos baixados em 2005.

Entrevistas feitas com 1.209 pessoas maiores de 15 anos, das classes A, B, C e D, nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Recife e Brasília.
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Crises e oportunidades no mercado da música
Jornal Musical, 10/11/2006

A ironia no nome do seminário O processo da música, realizado ontem (dia 9) pela Fundação Getúlio Vargas, pode ter passado despercebida para alguns. A idéia era reunir artistas, juristas e gente da mídia para discutir, afinal, como e onde devem se posicionar compositores, gravadoras e ouvintes dentro do furacão que perpassa o mercado fonográfico atualmente – que lida com pirataria rampante, a “ameaça” dos downloads ilegais, o esgotamento de um modelo de negócios que já vem desde os anos 60 e novas propostas para a arrecadação de direitos autorais. Ao final do dia, sobressaíram algumas declarações impactantes, algumas soluções alternativas e muitas dúvidas.

Os artistas ouvidos – Marcelo Camelo (Los Hermanos), BNegão e Lucas Santanna (na foto, falando ao microfone) – demonstraram completa falta de fé no esquema “rédea curta” imposto pelas grandes gravadoras. Os anfitriões da GV, advogados membros do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação, expuseram as mudanças que os novos tempos tecnológicos impõem sobre a música (e a resistência das corporações a se adequar a essas mudanças). E os juristas e especialistas em propriedade intelectual concluiram que as leis relativas ao setor também estão em descompasso com as práticas da sociedade contemporânea.

Mas uma outra questão ainda encasquetava a coordenação do evento: debater a validade das ações cíveis movidas no Brasil contra 20 internautas que fizeram download de músicas usando programas peer-to-peer (como Kazaa, eMule e outros). E daí o porquê do nome – quando a ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Disco) convocou a imprensa para anunciar os processos, no dia 17 de outubro (leia mais aqui), nenhum dos setores que participaram do seminário na FGV foi convidado. Nem sequer um representante do Ministério Público.

“Fomos barrados no evento da ABPD. Em contrapartida, convidamos o Paulo Rosa (diretor da Associação) e o Fernando Brant (presidente da União Brasileira de Compositores) para conversar conosco, mas eles avisaram que não poderiam vir… Coincidentemente, eles tinham compromissos agendados no mesmo horário…” lamentou o advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade e um dos representantes do Creative Commons (www.creativecommons.org.br) no debate.

Músicos adotam o ‘faça-você-mesmo’

Os artistas que participaram do seminário são de estilos distintos e ocupam posições variadas no mercado. Mas todos concordam em um ponto: as gravadoras tradicionais já não atendem mais às suas necessidades. Quanto às do público, nisso nem se fala. Mais bem-sucedido comercialmente dos falantes no seminário, Marcelo Camelo (na foto ao lado) usou sua trajetória para exemplificar a necessidade de mudança do modelo vigente. “O primeiro disco dos Los Hermanos vendeu mais de 300 mil cópias, em 1999. Hoje, com a banda muito mais estabelecida, mais conhecida e com uma base de fãs maior, não passamos dos 40 mil. A pirataria tem seu papel nisso, mas o fato é que o CD não representa mais para o povo o que representava há cinco, dez anos”, considera o compositor de “Anna Júlia”.

Falando na primeira das mesas redondas do dia (sob o tema “Cenários da música em vista das novas mídias”), o baiano Lucas Santanna se colocou como exemplo vivo das tais “novas mídias”. “Comecei em uma gravadora tradicional (a Natasha), depois abri meu próprio selo (Diginóis). Entretanto, só mesmo quando inaugurei meu website (www.diginois.com.br) e pus as músicas de meu terceiro álbum, 3 sessions in a greenhouse, para download gratuito no site, é que meu contato com o público ficou mais instigante – porque passou a ser mais direto”. A quem acha um contrasenso o artista “dar de graça” a música que lhe custou tempo e dinheiro para gravar e produzir, Lucas responde: “3 sessions… está vendendo muito mais rápido que meus outros discos. Em cinco meses, já ultrapassou as 1.500 cópias vendidas, algo que credito à divulgação e à interação com o público através da internet”.

BNegão é outro caso de sucesso – internacional, até – que deve tudo à grande rede mundial. Dois meses depois de lançar Enxugando gelo (2004), seu primeiro disco solo, o rapper aderiu ao esquema copyleft de direitos autorais, liberando suas músicas para quem quiser pegá-las. Desde que não haja fins lucrativos na jogada. “Se o cara baixar o disco todo, gravar mil CDs com as músicas e der para quem ele quiser, tá valendo. Se ele quiser vender um, aí não pode”, narra BNegão. A difusão das canções de Enxugando gelo mundo afora, via internet, levou o cantor e sua banda (Os Seletores de Freqüência) a se apresentarem em vários festivais na Europa – onde, como conta o próprio BNegão (na foto ao lado), “ficamos surpresos ao ver que todo mundo conhecia as músicas. Somos maiores no exterior do que no Brasil”.

Mudança na lei e não à repressão

A flexibilização dos direitos autorais também esteve em pauta no encontro na FGV. Para Carlos Affonso, do Centro de Tecnologia e Sociedade, os tempos mudaram e a legislação ficou para trás. “A lei nº 9.610/98, que rege o direito autoral no Brasil, é estrita demais e se baseia apenas em negativas – ‘não pode isso’, ‘não pode aquilo’… Isso funcionava na época em que as gravadoras centralizavam o poder de produção e distribuição de música. Isso tudo mudou. O público quer acesso amplo e interatividade no conteúdo que recebe, e a legislação não prevê nada disso”. Dênis Borges Barbosa, advogado especialista em propriedade intelectual e membro da Ordem Brasileira dos Músicos, que palestrou sob o tema “Ações judiciais contra usuários de redes P2P”, concordou. “As leis devem proteger o interesse maior do público e devem levar em conta os avanços tecnológicos. Os artistas estão se adaptando aos novos tempos e os ouvintes também. Quem está tendo problemas – e prefere apelar à lei – são os intermediários, ou seja, as gravadoras”.

O patrulhamento sobre as pessoas que baixam músicas da internet foi repudiado por todos os participantes. “A repressão é um equívoco. Não se deve pular na jugular do consumidor, e sim esclarecer a situação a ele”, disse André Barcellos, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Pirataria. “Baixar música e roubar música são coisas diferentes”, afirmou Sérgio Branco, da FGV. “As pessoas baixam MP3 por vários motivos, entre os quais está a cópia única da música para uso pessoal, sem qualquer fim lucrativo. Mas a legislação não permite. Em vários países isso é permitido, mas no Brasil não. Aqui, não é a sociedade que está à margem da lei – e sim o contrário”. O desembargador André Fontes, do Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro, foi ainda mais categórico. “Sou contra botar a polícia para apreender computador na casa dos outros. As gravadoras satanizam os internautas que baixam música; desde o começo dos tempos, tudo o que é diferente, inovador, é combatido por quem está no poder. Mas vai haver polícia para prender todo mundo? Não vai. E o filho do juiz federal, que também baixa suas musiquinhas? A polícia vai à casa dele, pegar seu computador? Isso não vai acontecer”.

Alguns dos petardos ditos no seminário:

“Temos hoje uma relação inócua com nossa gravadora. Elas nos tomam muito dinheiro – uns 80% de cada CD vendido – e não nos dão nada em troca. Essas ações judiciais contra quem baixa MP3 são ações de gente desesperada, de um negócio que está minguando” (Marcelo Camelo)

“Praticamente todos os departamentos das gravadoras foram fechados, menos o de marketing. Elas (as gravadoras) gostam mais de dinheiro do que de música e o errado é o cara que compra disco pirata?” (BNegão)

“Falam que pirataria é crime organizado. Ora, jabá também é crime. E é organizado!” (BNegão)

“No futuro, lançar um CD será uma opção estética de cada artista, para reunir um conjunto de canções que tenham uma afinidade. Mas o CD não será mais o formato padrão para as gravadoras” (Alexandre Matias, da gravadora Trama)

“O combate à pirataria também precisa de apoio do setor fonográfico. A repressão está indo bem, mas as gravadoras precisam conter a demanda do público pelo CD pirata – criando, por exemplo, linhas de lançamentos com preços mais baixos, destinados aos ouvintes de menor poder aquisitivo” (André Barcellos)

“Hoje em dia a música não é mais um bem – o direito sobre a música vale mais que a própria música. Isso é uma patologia” (Desembargador André Fontes)

ANA DE HOLLANDA: BALANÇA… MAS NÃO CAI?


A imagem acima é real. Digite “Ana de Hollanda” na janelinha do Google e as sugestões de “autocompletar” incluem “…caiu”, “…reforma”, “…reforma ministerial” e “…demitida”. Sintomático. Já nas primeiras semanas da gestão da (ex?) cantora e irmã de Chico Buarque no Ministério da Cultura, em 2011, começaram a surgir boatos de que Ana estaria balançando no cargo. Sob intenso escrutínio da imprensa, recebendo críticas de intelectuais e artistas, ela não apenas manteve-se no MinC, mas sobreviveu a 12 (!) trocas de outros ministros do gabinete de Dilma Rousseff. Sempre me pareceu estranha a, digamos, implicância que a mídia e a inteligentzia vêm demonstrando para com a irmã do Chico. Um ministério de orçamento pequeno e influência menor ainda, sempre debatendo-se contra a irrelevância, acabou ocupando páginas e mais páginas e gerando debates muito mais acalorados do que nos tempos em que Gilberto Gil era o titular. Por que será, hein?

Confesso que não sei avaliar se Ana de Hollanda é boa ou má ministra. Os bafafás nos quais a moça esteve envolvida me parecem herméticos, bizantinos. Ao mesmo tempo, ainda que ela esteja permanentemente em evidência na mídia, seu trabalho fica em segundo plano – não consigo me lembrar, de cabeça, de alguma resolução ou programa importantes postos em prática pelo MinC sob seu comando. Só o que me vem à mente é o corte aplicado ao orçamento dos Pontos de Cultura, decisão que muito agastou os defensores da gestão anterior do MinC. Fato é que ela escolheu bandeiras pouco simpáticas para levantar. As ligações perigosas entre o MinC e Ecad vieram à tona (e permaneceram mal explicadas). A batalha da ministra contra o Creative Commons virou um episódio menor diante da aparente desconfiança do Ministério em relação à cultura digital em geralA necessária reforma da lei de direitos autorais não tchuns, nem sai de cima. De um lado, na FolhaJuca Ferreira (de quem Ana herdou o MinC) bate pesado na gestão de sua sucessoracom o sangue nos olhos que só o despeito pode instilar. De outro, o Estadão faz uma defesa desabrida e um tanto bizarra da ministra, citando um suposto pedigree (?!) que o sobrenome Hollanda conferiria. Rolou também o tal domanifesto da intelectuália, pedindo a cabeça de Ana.

A que estamos assistindo? Uma luta de oligarquias entre a linhagem baiano-tropicalista e a linhagem carioca-buarquedehollandiana? A uma conspiração orquestrada pelas grandes companhias de mídia, a quem interessaria manter Ana de Hollanda no MinC? A uma cortina de fumaça alimentada pelo próprio governo, jogando luz sobre um ministério “menor” para disfarçar as crises que pipocam em ministérios “maiores”? A um caso gritante de, como diria o bardo, much ado about nothing? À manutenção de uma ministra “laranja” cuja única qualificação seria ser, como diz o tal do Neumane do Estadão, irmã do “maior ícone vivo da cultura brasileira”? Quantas perguntas, hein?

Toda essa charla aí em cima só serve para introduzir a minha história com Ana de Hollanda. No começo da década passada, eu trabalhava no site Cliquemusic. Uma de minhas atribuições, numa época de escassez total de mão de obra, era a de cadastrar os CDs que recebíamos das gravadoras e dos artistas. Dava um certo trabalho; eu precisava digitar os títulos das músicas e seus respectivos autores, escanear a capa, fazer o upload de 30 segundos de cada faixa, conferir os links de tudo… isso em concomitância com meus afazeres jornalísticos. Como resultado, a pilha de CDs aumentava diariamente, e eu não conseguia dar conta. Entre os discos que ficavam à espera de inclusão no site estava Um Filmelançado em 2001 pela (na época, apenas) cantora Ana de Hollanda. Conforme os dias foram passando e o disco de Ana não surgia na base de dados do site, a artista foi ficando cada vez mais inquieta. Ligou para mim (na época, o Cliquemusic funcionava na base do home office, e o telefone de contato da “redação” era o da minha casa) para perguntar quando o CD seria cadastrado – e consequentemente, quando sairia a resenha do mesmo, já que antes de publicar o texto, o CD precisaria constar da base de dados. Eu, até honrado pela (primeira) ligação, respondi polidamente que Um Filme estava “na fila” para entrar, era só ter um pouco de paciência.

Não foi o suficiente para convencer a futura ministra. Ela ligou mais uma vez, obtendo a mesma resposta (agora um pouco menos) polida. Menos de uma semana depois, Ana ligaria de novo, usando um tom mais exaltado, querendo saber quando é que afinal o CD apareceria no site. “Tem discos que saíram depois do meu e já estão publicados!”, argumentou a Buarque de Hollanda. Aí eu me irritei. Respondi que eu estava sozinho para cuidar de uma pilha enorme de CDs, que não tinha equipe para me ajudar, e que estava perdendo um tempo precioso ali batendo boca. Mas logo em seguida, diante do espanto que minha reação causou, me arrependi e pedi desculpas, prometendo que iria “pular a fila” e publicar logo o CD de Ana. De fato, naquele mesmo dia, parei tudo o que estava fazendo, ouvi o CD, cadastrei-o e subi a crítica. Ela pareceu satisfeita e nunca mais ligou.

Moral da história 1: quando se trata de divulgar seu trabalho musical, a futura ministra não parece ter tantas restrições à internet, né? Moral da história 2: se Ana de Hollanda ainda tiver essa tenacidade (sic) ao empenhar-se em ficar no ministério, vai ser difícil tira-la de lá.