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DISCOGRAFIA COMENTADA: TEENAGE FANCLUB.

(Publicado originalmente em 05/05/2011) 

Conforme teorizamos em outro post, o rock tenta arrebatar pelo impacto e o pop tenta agradar pela sedução. Bem no meio dessa dualidade, estaria o power pop, que, no melhor dos mundos, uniria o punch do rock e a melodia do pop. Ainda que não tenha sido a banda precursora do estilo e que nem sempre tenha seguido à risca seus preceitos, o Teenage Fanclub é considerado, de modo muito justo, um dos principais nomes contemporâneos do gênero. Só que  confinar o grupo escocês aos limites do power pop é reduzir sua importância. Com suas melodias cristalinas, arranjos vocais na melhor tradição sixties e guitarradas na medida certa, tornou-se um dos mais amados nomes do cenário indie em todo o mundo.  A banda liderada por Norman Blake (guitarra, voz),  Gerard Love (baixo, voz) e Raymond McGinley (guitarra, voz) também resolveu, com galhardia, uma dúvida que sempre dividiu crítica e público: o que vale mais, originalidade ou qualidade? Praticamente nada nos nove discos de estúdio do TFC pode ser considerado “original”, na medida em que canções e sonoridade bebem na fonte do que há de mais tradicional. Mas o que isso importa, se a excelência das composições – dignas do melhor songbook do pop – supera qualquer necessidade de vanguardismo vazio? Outra peculiaridade que garante a importância histórica dos escoceses é a reunião de três compositores de grande talento, que repartem de forma salomônica o espaço nos discos e nos shows. Nos primeiros anos, Blake dominava o repertório, e depois abriu espaço para Love e McGinley. Os três assinam suas canções individualmente (ainda que colaborem entre si de vez em quando)  e hoje dividem, sem guerra de egos, os holofotes. Não lembro de outro grupo que tenha sobrevivido tantos anos num esquema tão democrático.

Ao longo de sua discografia esparsa (nove LPs em 22 anos, mais um disco em conjunto com Jad Fair) há, decerto, altos e baixos. Tendo achado uma “zona de conforto” já nos primeiros anos de sua carreira, o grupo não se preocupou com “bobeiras” (sic) como experimentalismos ou fusões.  Com dedicação, afinaram sua fórmula básica rumo a um ápice atingido no quinto trabalho (Grand Prix).  Daí em diante, o quarteto acomodou-se num conservadorismo que gera discos melhores ou piores de acordo com a fase de inspiração dos compositores. Ainda assim, o padrão de qualidade adquirido pelo aperfeiçoamento estilístico está sempre garantido.

A CATHOLIC EDUCATION (1990) - Não querendo usar um clichê mas já usando, a estreia do TFC hoje pode ser vista como um diamante bruto à espera de lapidação.  Corretamente, a crítica da época associou-o ao emergente novo rock americano, por conta de sua tosqueira ruidosa. Os fãs dos discos posteriores podem até estranhar a ausência dos refrões cristalinos e das belas harmonias vocais;  Blake desafina adoidado. A peça de resistência “Everything Flows” é a ponte perfeita. Une a sujeira herdada dos ianques (e dos interlúdios guitarreirros de Neil Young), a influência menor, mas inescapável, do shoegazing (a distorção e o reverb estão lá) e a vocação inegável para a melodia pop.  Não a toa, tornou-se um clássico e é a única canção dessa fase a permanecer até hoje nos setlists.  No resto, a banda parecia dever tudo ao underground americano. “Critical Mass”, “Every Picture I Paint” e “Everybody’s Fool”  soam como decalques do Dinosaur Jr.  ”Eternal Light” e “Don’t Need a Drum” são power pop sob efeito de sedativos. E a arrastada “Heavy Metal” (em duas versões) emulava o primitivismo grunge. Mas a faísca já estava lá.

Melhores músicas: “Everything Flows”, “Critical Mass”, “Eternal Light”, “Everybody’s Fool”.

Melhor momento: “Everything Flows”, inteira.

THE KING (1991)  Num disco batizado de “O Rei”, o quarteto resolveu tirar onda de bobo da corte. A história por trás do lançamento é enrolada. Gravado após Bandwagonesque, acabou saindo antes para cumprir obrigações contratuais. Prestes a assinar com a major Geffen, o TFC ainda devia um álbum ao selo indie Matador. Isso explicaria o caráter mal-acabado do resultado final. Hoje é uma raridade:  a Creation só lançou 20 mil cópias do disco. Em tom de brincadeira improvisada, a turma se limitou a gravar covers ruidosos (“Like a Virgin” e “Interestellar Overdrive”) e reciclar ideias velhas (há mais duas versões de “Heavy Metal”). “Mudhoney” era uma óbvia homenagem aos brothers de Seattle, enquanto “The Ballad of Bow Evil” recriava, com doses extras de microfonia, as passagens mais pantanosas de A Catholic Education.

Melhores músicas: “Like a Virgin”, “Interestellar Overdrive”… e só.

Melhor momento: a zoeira que domina a versão de “Interstellar Overdrive”, a partir de 1:30.

BANDWAGONESQUE (1991) – Disco do ano para a revista Spin, justamente no momento em que o Nirvana despontou, este ainda permanece para a maioria dos fãs e críticos como o mais querido trabalho do TFC. É também o único da banda citado no 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer. Na verdade, Bandwagonesquenão deixa de ser um complemento bem adequado à atitude destroy da banda de Cobain. Tão molambentos e antiintelectuais quanto os rapazes de Seattle, o TFC apenas preferiu restabelecer a energia e a simplicidade que faltavam no rock do período usando de simpatia, e não de agressão. A transformação operada desde A Catholic Education fora tremenda. Como matriz sonora, o noise  made in USA fora substituído; sem abdicar da distorção, Blake, Love e McGinley voltaram sua atenção para a sacrossanta trindade BBB (Beatles, Byrds & Big Star), cartilha básica de todo o power pop. O esporro através do qual “tudo fluía” foi trocado por melodias de talhe clássico, de refrões doces e memoráveis. A dissonância foi mantida sob controle, à exceção da longa intro de “Star Sign”.  Sim, as guitarras em faixas como “What You Do to Me”, “I Don’t Know”, “Alcholiday” e “December” ainda roncam alto. Mas o que permanecia mesmo era a perene qualidade das canções. Especialmente quando os três cantavam em harmonia, rendendo momentos lindos como o refrão da música que segue abaixo:

Melhores músicas: “The Concept”, “What You Do to Me”, “Star Sign”, “Alcholiday”.

Melhor momento: O solinho de “The Concept” (2:01 a 2:46).

THIRTEEN (1992) – Não querendo usar um clichê, mas… A partir da fórmula cristalizada no terceiro disco, Norm, Ray & Gerry resolveram não mexer no time que estava ganhando. Thirteen, título que fazia homenagem descarada ao Big Star, era mais do mesmo – só que com menos foco e brilhantismo.  Em uma safra irregular, sobressaiam canções excelentes, dignas do melhor que o grupo já fez, convivendo com momentos mais fracos (como “120 Minutes”, de McGinley, pobre de letra e de melodia). Outras (“The Cabbage”, “Escher”) soavam quase genéricas. Ao mesmo tempo em que  acrescentavam novas ideias aos arranjos (como a flautinha e as cordas de “Hang On”), recuavam à sonoridade do primeiro disco (“Gene Clark”, “Song to the Cynic”). E ainda encontraram tempo para piadinhas (“Get Funky”). Muito malhado pela crítica quando de seu lançamento, o álbum vem passando por uma merecida reavaliação.

Melhores músicas: “Hang On”, “Fear of Flying”, “Radio”, “Song to the Cynic”.

Melhor momento: “This is your one-way ticket / so don’t fuck it up” (“Fear of Flying”)

GRAND PRIX (1995) – O zênite de inspiração do grupo, e único capaz de rivalizar com Bandwagonesque pelo posto de favorito no coração dos fãs. Lançado no auge do britpop, representava uma “terceira via” para a dualidade proposta entre o “art-pop” do Blur e o revivalismo ruidoso do Oasis. O termo “evolução” não é adequado para falar do som do TFC, já que a banda se limita, desde 1991, a aperfeiçoar um único formato bem definido. Mas é possível perceber que, a partir deste quinto álbum, o grupo suavizou ainda mais suas canções, tornando-se menos “power” e mais “pop” – não que haja algo errado com isso! A zoeira trôpega de Thirteenficou para trás e Ray, Norm & Gerry se concentraram apenas em fazer as melhores e mais grudentas canções de suas vidas. Reconciliaram-se com suas influências ancestrais, sem perder o humor (“Neil Jung”), capricharam nos arranjos vocais (“About You”, “Don’t Look Back”) e desvendaram a clonagem do DNA dos Beatles (“Tears”). Até mesmo Ray, o mais “modesto” dos compositores da banda, acerta a mão em todas as suas contribuições: “About You”, “Verisimilitude”, “Say No” e “I Gotta Know”. Clássico instantâneo e eterno.

Melhores músicas: “Sparky’s Dream”, “Don’t Look Back”, “Neil Jung”, “Discolite”.

Melhor momento: A terceira estrofe de “Discolite”.

SONGS FROM NORTHERN BRITAIN (1997) – “Canções do Norte da Grã-Bretanha”. Admitindo que seu forte era apenas isso – trazer boas canções da Escócia para o mundo – o TFC seguiu em agradável velocidade de cruzeiro num trabalho que prosseguia com o clima instaurado por Grand Prix. Como recompensa, o sexto LP tornou-se o maior sucesso da banda até hoje nas paradas britânicas. Exibindo um pendor acústico acentuado e arranjos ainda mais elaborados (teclados, cordas, metais), aprofundava o lado “fofo” e bucólico do grupo. A superposição de vocais adocicava até mesmo as músicas mais animadas, como “I Don’t Care” ou “Start Again”. Apenas a lenta “Mount Everest” recuperava um pouco do espírito letárgico dos primeiros anos,  e mesmo assim com as guitarras sob controle. Depois de todo o brilhantismo do disco anterior, o resultado era inegavelmente belo… e um tanto previsível. A sequência matadora das quatro faixas que abria o disco compensava.

Melhores músicas: “Start Again”, “Ain’t That Enough”, “Can’t Feel My Soul” e “I Don’t Want Control of You”.

Melhor momento: A ponte de “Ain’t That Enough”.

HOWDY! (2000) – Quem achava que o TFC já havia chegado ao ápice da fofura teve que rever seus conceitos. Ainda mais pacato que seu antecessor, Howdy! extirpava qualquer resquício de vigor, distorção ou ruído que ainda poderia ter sobrado. Não deixou de ser decepcionante, após um hiato de quase três anos. OK, a banda venceu o desafio de persistir na fórmula vitoriosa sem se repetir (exemplo clássico de banda que caiu na armadilha: Ramones). Entretanto, o polimento incessante do estilo acabou os deixando perto da caricatura.  A impressão se estende à arte do álbum, que usa as silhuetas de Norm, Ray e Gerry como ícones para indicar quem compôs qual canção.  É impossível, aos fãs verdadeiros, desprezar faixas como “I Need Direction”, “Dumb Dumb Dumb” ou “Accidental Life”. Igualmente impossível, no entanto, é negar que o grupo já havia feito tudo aquilo antes. E melhor.  No cômputo geral, Gerry se sai melhor que seus companheiros; seu estilo mais naïvede composição é o mais adequado ao climão adocicado sugerido pelo disco.

Melhores músicas: “I Need Direction”, “Near You”, “The Town & The City” e “My Uptight Life”.

Melhor momento:  Os metais de “The Town & the City”.

MAN-MADE (2005) - Cinco anos separariam o sétimo disco do TFC do oitavo. Nesse meio tempo, a banda veio ao Brasil pela primeira vez (tocando em SP e Curitiba em 2004). Para Man-Made, eles resolveram – acredite! – apostar na mudança. Partiram para os EUA, onde seriam produzidos por John McEntire. Uma associação a princípio surpreendente, dado o background vanguardista/post-roqueiro do músico e produtor. O disco que veio a tona não chegou a arrepiar os fãs mais conservadores. A delicadeza das melodias e dos vocais prevaleceu sobre qualquer invencionice que McEntire pudesse aplicar.  Ainda assim, nota-se  nas entrelinhas uma mudança de approach. A influência do produtor deve ter amenizado a sacarina dos dois últimos discos, simplificando os fru-frus. Acabou resgatando canções como “Flowing”, “Time Stops” e “Save” da overdose de fofura. Os arranjos são mais esparsos, angulosos – como pode ser ouvido em  ”Don’t Hide”, “Only With You” ou “It’s All in my Mind”. A alegrinha “Slow Fade” até poderia caber em Bandwagonesque (fosse um pouquinho mais suja).

Melhores músicas: “Save”, “Slow Fade”, “Only With You” e “Falling Leaves”.

Melhor momento:  As guitarras de “Slow Fade”.

SHADOWS (2010) – E lá se foram mais cinco anos sem disco novo. Duas décadas depois de A Catholic Education, Norm, Ray & Gerry apontam a bússola para o soft-rock; a ortodoxia power pop ficou pelo caminho.  É preciso entender que o termo “soft-rock” aqui não é ofensivo. Apenas descreve um estilo despido de agressividade; uma, digamos, “meiguice” que a banda persegue há anos.  O dilema apresentado em Howdy! – o perigo da autocaricatura – ainda paira. Mas as composições parecem ter um ânimo renovado, mesmo em seus momentos mais suaves. Cheque, por exemplo, as duas melhores contribuições de Love, “Sometimes I Don’t Need to Believe in Anything” e “Into the City”. Ou o single de apresentação, “Baby Lee”, de Blake. Resta muito espaço para a delicadeza, como na ambiência acústica de “Today Never Ends” – que remete, estranhamente, ao Pink Floyd (!) – e na levada setentista de “The Past”.

Melhores músicas: “Baby Lee”, “Into the City”, “Sometimes I Don’t Need to Believe in Anything” e ”The Fall”.

Melhor momento:  A sensação de reencontro que permeia todo o disco.

LOVELESS, BANDWAGONESQUE, SCREAMADELICA: 1991, THE YEAR CREATION RECORDS BROKE

(Publicado originalmente em 31/03/2011.)  

1991: o ano em que o punk rock estourou. Em todo o lugar, só se falava/via/imitava o que vinha de Seattle. Camisas de flanela, o clipe de “Smells Like Teen Spirit” tornando-se um evento em si mesmo, o underground ianque finalmente emergindo, aquele espírito de “agora vai!” capitaneado por Kurt Cobain & Cia. E aí, quando sai a lista de melhores do ano de 91 da revista Spin, a mesma que tinha trombeteado o ano todo a revolução grunge, tá lá, em número 1… Bandwagonesque, do Teenage Fanclub, uma banda escocesa que professava um power pop barulhento mas acima de tudo doce. WTF?

WTF também para quem esperou por três anos o segundo álbum do My Bloody Valentine, salivando por conta dos sons esquisitos e hipnóticos contidos em Isn’t Anything (1988), dando cambalhotas com o interlúdio ruidoso do single “You Made Me Realise” e franzindo as sobrancelhas com os EPs Glider (1989) e  Tremolo (1990). Loveless, o disco que finalmente saiu depois de um entra-e-sai interminável entre 19 estúdios diferentes, abria com quatro batidas secas de caixa e um som que, bem… descrever com palavras, como?

Mais WTF? Bem, na mesma época os fãs do Primal Scream já deviam estar tão bolados quanto, ou mais. Afinal, em menos de dois anos eles sairam disso aqui…

…para isso aqui…

…transformando-se de uma (entre milhares) de bandas indies revisionistas  para uma das principais forças (se não a principal) da nova onda psicodélica-dançante que revirou o cenário britânico no fim dos anos 80/começo dos 90.  ”Better music, better sex, better drugs”, dizia Bobby Gillespie sobre a virada concretizada no LP (duplo!)Screamadelica.

Cada um desses discos foi uma revolução em seus respectivos estilos. Screamadelica, lançado em 23 de setembro de 1991, encapsulou perfeitamente o clima neolisérgico do segundo Summer of Love: guitarras, synths & loops, ecstasy, black music, indie rock, um olho no futuro e outro no passado, um pé no show de rock e outro na pista de dança.  Loveless, lançado em 4 de novembro, representou o píncaro de uma “linha evolutiva” da combinação entre ruído e melodia – uma estética herdada do Velvet Underground e escancarada pelo Jesus & Mary Chain. Bandwagonesque, que saiu no mesmo dia de Loveless, revitalizou o já cansado power pop à base de melodias cristalinas e do equilíbrio exato de doçura e sujeira. Cada um desses discos foi imitado à exaustão, mas nunca igualado por seus emuladores. E cada um desses discos, que neste 2011 completam 20 anos de lançamento, foram lançados por uma mesma gravadora: a Creation Records.

Paulatinamente, Alan McGee, o dono da Creation, vinha acertando uma série de home-runs no cenário indie britânico desde a segunda medida dos anos 80. Ele botou o Mary Chain no mapa (OK, os irmãos Reid só lançaram um single pelo selo, mas…). Ajudou a emplacar a Class of 86 lançando bandas como The Weather Prophets, The Pastels e The Bodines. E preconizou o shoegazing com discos como o já citado Isn’t Anything eNowhere, do Ride (que aliás ganhou uma linda reedição há pouco). Essa escalada culminou em 1991, o annus mirabilis da gravadora, com o lançamento dos três discos dos quais este post trata. Ainda que McGee tenha atingido, posteriormente, um sucesso comercial maior ao revelar o Oasis – quando o selo já pertencia à Sony Music – essa trinca sagrada uniu corações & mentes (e crítica & público) de uma forma insuperável. Loveless, Bandwagonesque e Screamadelica não são apenas três dos melhores discos da década de 90; são marcos que encerram uma era do pop britânico diante da “terra arrasada” deixada pelo grunge. O próximo suspiro só viria com a geração Britpop,  reação sintomática à tosqueira importada de Seattle, mas que – sendo um movimento essencialmente revivalista – não seguiu o pensamento prafrentex da Class of ’91. Aliás, nem os próprios baluartes da Creation conseguiram seguir a linha que eles mesmos traçaram. O Teenage Fanclub faria, eventualmente, canções melhores do que as de Bandwagonesque. Mas iriam perdendo a faísca ao longo dos anos com o polimento incessante de sua fórmula. O Primal Scream, graças a Deus, não cabia em linha alguma, seguia num zigue-zague iconoclasta impossível de ser replicado. E o MBV… Bem, depois do bem documentado colapso físico e mental de Kevin Shields, a banda entrou em coma por quase 20 anos, enquanto dezenas de imitadores tentavam, sem sucesso, copiar seus timbres e climas.

Loveless é o manifesto definitivo do chamado (às vezes pejorativamente) indie guitar rock. A obsessão de Shields, que queria a qualquer custo registrar “os sons que ouvia em sua cabeça”, rendeu uma obra na qual esporro guitarrístico se convertia em beleza sinestésica. É quase possível “ver”, ou melhor, “ofuscar-se” com o “brilho” emanado pelas ondas de feedback de “Loomer”, “I Only Said”, “What You Want” e “Sometimes”. Por outro lado, o impacto da supracitada “Only Shallow” é literalmente físico (algo que, ao vivo, a banda levaria a extremos com sua versão rompe-tímpanos de “You Made me Realise”). A simplicidade das melodias e a impenetrabilidade dos vocais ampliavam o potencial de transe das canções: é fácil perder-se na hipnose induzida por “Soon”, “I Only Said” e – a mais radical de todas – “To Here Knows When”. Todas as guitarras do mundo parecem caber na barragem sonora de “Loomer”; não há ponteiro de V.U. que resista ao overdrive de “What You Want”; “Only Shallow” traz um ruído que já foi descrito pela revista Guitar World como “elefantino” . E apesar desses excessos, nada disso soa agressivo, e sim sedutor.  Faça o teste: pegue uma canção, digamos,“I Only Said”, e concentre sua atenção apenas no melodioso assobio em loop que serve de “refrão” para a música. Aos poucos, o ruído guitarrístico perde o foco, se dissolve, e você mal consegue notar os decibéis e a dissonância. (Funciona melhor com bons fones.) Noise esculpido cuidadosamente para gerar encantamento… e dor de ouvido.

Também ruidoso e também encantador era Bandwagonesque, que, se não me falha a memória, foi o primeiro CD que comprei na vida, em 1994. (O original foi roubado e já substituído.) Só que enquanto o objetivo do MBV era a transcendência, não poderia haver banda mais pé-no-chão que o Teenage Fanclub. O segundo álbum do grupo (e, a rigor, toda a sua discografia) é a evidência de que, no rock, muitas vezes a qualidade (e a sinceridade) têm primazia sobre a originalidade. Não há coisa alguma no disco que não tenha saído diretamente da escola BBB (Beatles + Byrds + Big Star) de power pop. Mas todo o vanguardismo do mundo derrete-se diante do talento inegável dos três, eu disse três, compositores da banda. Norman Blake, Gerard Love e Raymond McGinley nasceram com O DOM. A equação é aparentemente simples: pegue canções pop perfeitas, gire o botão dos amplificadores até 11 e vambora. “The Concept”, “What You Do to Me”, “Alcoholiday”, “Starsign”, “Metal Baby”; não tem segredo nem na doçura das melodias, nem na sujeira das guitarras. Mas vai tentar fazer igual, pra tu ver. Os longos interlúdios instrumentais, recheados de solos qualquer-nota (influenciados por Neil Young, sem dúvida), complementavam a beleza dos refrões. Grand Prix, de 1995, é para mim o disco no qual o TF atingiu a perfeição. Mas o charme rústico de Bandwagonesque já havia esmaecido.

Já o Primal Scream vinha de um ponto de partida parecido com o do TF… e decolava rumo ao espaço. A banda de Bobby Gillespie, projetada no boom do rock regressivo, mirava vários alvos (jangle pop, riffões stonianos, garage rock sessentista) sem acertar em quase nada. Até que, em 1990, começaram a frequentar raves – e a colaborar com o produtor Andy Weatherall, que na base do corta-copia-cola-embaralha transformou a canção“I’m Losing More Than I’ll Ever Have”

em “Loaded”.

 

Screamadelica é o documentário aural do verdadeiro warp temporal que o grupo protagonizou naqueles anos. O PS modernizou seu som de forma radical, mas sem deixar de lado a obsessão com os anos 60. Há samples de Peter Fonda discursando, cover do 13th Floor Elevators, uma cítara riponga na foto principal do vinil. E tacou mais um monte de referências no caldeirão: kraut, dub, gospel, blues, Stones fase Exile, muuuuuuuita música eletrônica. Além de psicodelia de verdade, inspirada não mais pelo ácido lisérgico, mas pelos eflúvios da metilenedioximetanfetamina. Títulos como “Higher than the Sun”, “Inner Flight”, “I’m Comin’ Down” e “Loaded” não poderiam ser mais bandeirosos. Uma brigada de produtores (Weatherall, o duo The Orb, o stoniano Jimmy Miller, Hypnotone, Hugo Nicholson), mais uma brigada de convidados (incluindo o baixista Jah Wooble, de quem trato em outro post deste mesmo blog) ajudaram a dar o(s) tom(ns). O terceiro disco do Primal Scream é daqueles raríssimos trabalhos que conseguem retratar todo o espírito e a cultura de uma época e, duas décadas depois, não soar nem um pouco datado.

File:MDMA animation.gif

No gif: a maior influência de 'Screamadelica'

Cada single era uma surpresa. O balanço chupado dos Stones que move “Movin’ on up” não se repete no space lounge de “Higher than the Sun”;  o groove chapado de “Loaded” não escorre para a beatitude radiante de “Come Together” (que só comparece no disco em sua versão mais longa, sem o vocal de Gillespie). Mesmo assim, há uma coerência interna que une não só essas canções, mas também serve de fio para outras viagens como a recriação ultradançante de “Step Inside this House” (do 13th Floor Elevators), a balada “Damaged” e a mastodôntica “Higher than the Sun (A Dub Symphony in Two Parts)”.

O paroxismo de inspiração que a Creation atingiu há duas décadas também deflagrou o processo de desmanche da gravadora. As cabriolas sonoras registradas em Loveless e Screamadelica custaram caro, a ponto de levar McGee perigosamente perto da falência. Sucessos no circuito indie, nenhum dos três álbuns citados neste post chegou a ser um campeão de vendas. As brigas constantes com Kevin Shields (que não entregava o disco nunca), os excessos químicos e a egotrip foram demais para a cabeça do chefe do selo, que se viu obrigado, em1992, a vender o selo para a major Sony.  A ironia das ironias é que McGee seria salvo pelo britpop.  E logo pelo Oasis, que, de toda aquela geração, era justamente a banda que mais reverenciava o passado, contrariando o legado deixado por estes três discos.

O Teenage Fanclub tornou-se uma das mais amadas bandas indie do mundo. Mesmo fazendo discos cada vez menos marcantes. E eu deixei cair uma lagriminha furtiva quando eles tocaram “Ain’t that Enough” no Sesc Pompéia, em 2004. Kevin Shields conseguiu catar os pedaços de sua sanidade e levar o My Bloody Valentine a uma esporrenta turnê de comeback em 2008, depois de passar 13 anos longe dos palcos.  Bobby Gillespie seguiu inquieto como sempre, pulando de rock retrô para o funk para a eletrônica para o blues…  E quando menos se esperava, o filme sobre a história da Creation ganha uma exibição no Brasil, nesse festival aqui.

Foram 20 anos que passaram voando, né?