(Publicado originalmente em 05/05/2011)
Conforme teorizamos em outro post, o rock tenta arrebatar pelo impacto e o pop tenta agradar pela sedução. Bem no meio dessa dualidade, estaria o power pop, que, no melhor dos mundos, uniria o punch do rock e a melodia do pop. Ainda que não tenha sido a banda precursora do estilo e que nem sempre tenha seguido à risca seus preceitos, o Teenage Fanclub é considerado, de modo muito justo, um dos principais nomes contemporâneos do gênero. Só que confinar o grupo escocês aos limites do power pop é reduzir sua importância. Com suas melodias cristalinas, arranjos vocais na melhor tradição sixties e guitarradas na medida certa, tornou-se um dos mais amados nomes do cenário indie em todo o mundo. A banda liderada por Norman Blake (guitarra, voz), Gerard Love (baixo, voz) e Raymond McGinley (guitarra, voz) também resolveu, com galhardia, uma dúvida que sempre dividiu crítica e público: o que vale mais, originalidade ou qualidade? Praticamente nada nos nove discos de estúdio do TFC pode ser considerado “original”, na medida em que canções e sonoridade bebem na fonte do que há de mais tradicional. Mas o que isso importa, se a excelência das composições – dignas do melhor songbook do pop – supera qualquer necessidade de vanguardismo vazio? Outra peculiaridade que garante a importância histórica dos escoceses é a reunião de três compositores de grande talento, que repartem de forma salomônica o espaço nos discos e nos shows. Nos primeiros anos, Blake dominava o repertório, e depois abriu espaço para Love e McGinley. Os três assinam suas canções individualmente (ainda que colaborem entre si de vez em quando) e hoje dividem, sem guerra de egos, os holofotes. Não lembro de outro grupo que tenha sobrevivido tantos anos num esquema tão democrático.
Ao longo de sua discografia esparsa (nove LPs em 22 anos, mais um disco em conjunto com Jad Fair) há, decerto, altos e baixos. Tendo achado uma “zona de conforto” já nos primeiros anos de sua carreira, o grupo não se preocupou com “bobeiras” (sic) como experimentalismos ou fusões. Com dedicação, afinaram sua fórmula básica rumo a um ápice atingido no quinto trabalho (Grand Prix). Daí em diante, o quarteto acomodou-se num conservadorismo que gera discos melhores ou piores de acordo com a fase de inspiração dos compositores. Ainda assim, o padrão de qualidade adquirido pelo aperfeiçoamento estilístico está sempre garantido.
A CATHOLIC EDUCATION (1990) - Não querendo usar um clichê mas já usando, a estreia do TFC hoje pode ser vista como um diamante bruto à espera de lapidação. Corretamente, a crítica da época associou-o ao emergente novo rock americano, por conta de sua tosqueira ruidosa. Os fãs dos discos posteriores podem até estranhar a ausência dos refrões cristalinos e das belas harmonias vocais; Blake desafina adoidado. A peça de resistência “Everything Flows” é a ponte perfeita. Une a sujeira herdada dos ianques (e dos interlúdios guitarreirros de Neil Young), a influência menor, mas inescapável, do shoegazing (a distorção e o reverb estão lá) e a vocação inegável para a melodia pop. Não a toa, tornou-se um clássico e é a única canção dessa fase a permanecer até hoje nos setlists. No resto, a banda parecia dever tudo ao underground americano. “Critical Mass”, “Every Picture I Paint” e “Everybody’s Fool” soam como decalques do Dinosaur Jr. ”Eternal Light” e “Don’t Need a Drum” são power pop sob efeito de sedativos. E a arrastada “Heavy Metal” (em duas versões) emulava o primitivismo grunge. Mas a faísca já estava lá.
Melhores músicas: “Everything Flows”, “Critical Mass”, “Eternal Light”, “Everybody’s Fool”.
Melhor momento: “Everything Flows”, inteira.
THE KING (1991) – Num disco batizado de “O Rei”, o quarteto resolveu tirar onda de bobo da corte. A história por trás do lançamento é enrolada. Gravado após Bandwagonesque, acabou saindo antes para cumprir obrigações contratuais. Prestes a assinar com a major Geffen, o TFC ainda devia um álbum ao selo indie Matador. Isso explicaria o caráter mal-acabado do resultado final. Hoje é uma raridade: a Creation só lançou 20 mil cópias do disco. Em tom de brincadeira improvisada, a turma se limitou a gravar covers ruidosos (“Like a Virgin” e “Interestellar Overdrive”) e reciclar ideias velhas (há mais duas versões de “Heavy Metal”). “Mudhoney” era uma óbvia homenagem aos brothers de Seattle, enquanto “The Ballad of Bow Evil” recriava, com doses extras de microfonia, as passagens mais pantanosas de A Catholic Education.
Melhores músicas: “Like a Virgin”, “Interestellar Overdrive”… e só.
Melhor momento: a zoeira que domina a versão de “Interstellar Overdrive”, a partir de 1:30.
BANDWAGONESQUE (1991) – Disco do ano para a revista Spin, justamente no momento em que o Nirvana despontou, este ainda permanece para a maioria dos fãs e críticos como o mais querido trabalho do TFC. É também o único da banda citado no 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer. Na verdade, Bandwagonesquenão deixa de ser um complemento bem adequado à atitude destroy da banda de Cobain. Tão molambentos e antiintelectuais quanto os rapazes de Seattle, o TFC apenas preferiu restabelecer a energia e a simplicidade que faltavam no rock do período usando de simpatia, e não de agressão. A transformação operada desde A Catholic Education fora tremenda. Como matriz sonora, o noise made in USA fora substituído; sem abdicar da distorção, Blake, Love e McGinley voltaram sua atenção para a sacrossanta trindade BBB (Beatles, Byrds & Big Star), cartilha básica de todo o power pop. O esporro através do qual “tudo fluía” foi trocado por melodias de talhe clássico, de refrões doces e memoráveis. A dissonância foi mantida sob controle, à exceção da longa intro de “Star Sign”. Sim, as guitarras em faixas como “What You Do to Me”, “I Don’t Know”, “Alcholiday” e “December” ainda roncam alto. Mas o que permanecia mesmo era a perene qualidade das canções. Especialmente quando os três cantavam em harmonia, rendendo momentos lindos como o refrão da música que segue abaixo:
Melhores músicas: “The Concept”, “What You Do to Me”, “Star Sign”, “Alcholiday”.
Melhor momento: O solinho de “The Concept” (2:01 a 2:46).
THIRTEEN (1992) – Não querendo usar um clichê, mas… A partir da fórmula cristalizada no terceiro disco, Norm, Ray & Gerry resolveram não mexer no time que estava ganhando. Thirteen, título que fazia homenagem descarada ao Big Star, era mais do mesmo – só que com menos foco e brilhantismo. Em uma safra irregular, sobressaiam canções excelentes, dignas do melhor que o grupo já fez, convivendo com momentos mais fracos (como “120 Minutes”, de McGinley, pobre de letra e de melodia). Outras (“The Cabbage”, “Escher”) soavam quase genéricas. Ao mesmo tempo em que acrescentavam novas ideias aos arranjos (como a flautinha e as cordas de “Hang On”), recuavam à sonoridade do primeiro disco (“Gene Clark”, “Song to the Cynic”). E ainda encontraram tempo para piadinhas (“Get Funky”). Muito malhado pela crítica quando de seu lançamento, o álbum vem passando por uma merecida reavaliação.
Melhores músicas: “Hang On”, “Fear of Flying”, “Radio”, “Song to the Cynic”.
Melhor momento: “This is your one-way ticket / so don’t fuck it up” (“Fear of Flying”)
GRAND PRIX (1995) – O zênite de inspiração do grupo, e único capaz de rivalizar com Bandwagonesque pelo posto de favorito no coração dos fãs. Lançado no auge do britpop, representava uma “terceira via” para a dualidade proposta entre o “art-pop” do Blur e o revivalismo ruidoso do Oasis. O termo “evolução” não é adequado para falar do som do TFC, já que a banda se limita, desde 1991, a aperfeiçoar um único formato bem definido. Mas é possível perceber que, a partir deste quinto álbum, o grupo suavizou ainda mais suas canções, tornando-se menos “power” e mais “pop” – não que haja algo errado com isso! A zoeira trôpega de Thirteenficou para trás e Ray, Norm & Gerry se concentraram apenas em fazer as melhores e mais grudentas canções de suas vidas. Reconciliaram-se com suas influências ancestrais, sem perder o humor (“Neil Jung”), capricharam nos arranjos vocais (“About You”, “Don’t Look Back”) e desvendaram a clonagem do DNA dos Beatles (“Tears”). Até mesmo Ray, o mais “modesto” dos compositores da banda, acerta a mão em todas as suas contribuições: “About You”, “Verisimilitude”, “Say No” e “I Gotta Know”. Clássico instantâneo e eterno.
Melhores músicas: “Sparky’s Dream”, “Don’t Look Back”, “Neil Jung”, “Discolite”.
Melhor momento: A terceira estrofe de “Discolite”.
SONGS FROM NORTHERN BRITAIN (1997) – “Canções do Norte da Grã-Bretanha”. Admitindo que seu forte era apenas isso – trazer boas canções da Escócia para o mundo – o TFC seguiu em agradável velocidade de cruzeiro num trabalho que prosseguia com o clima instaurado por Grand Prix. Como recompensa, o sexto LP tornou-se o maior sucesso da banda até hoje nas paradas britânicas. Exibindo um pendor acústico acentuado e arranjos ainda mais elaborados (teclados, cordas, metais), aprofundava o lado “fofo” e bucólico do grupo. A superposição de vocais adocicava até mesmo as músicas mais animadas, como “I Don’t Care” ou “Start Again”. Apenas a lenta “Mount Everest” recuperava um pouco do espírito letárgico dos primeiros anos, e mesmo assim com as guitarras sob controle. Depois de todo o brilhantismo do disco anterior, o resultado era inegavelmente belo… e um tanto previsível. A sequência matadora das quatro faixas que abria o disco compensava.
Melhores músicas: “Start Again”, “Ain’t That Enough”, “Can’t Feel My Soul” e “I Don’t Want Control of You”.
Melhor momento: A ponte de “Ain’t That Enough”.
HOWDY! (2000) – Quem achava que o TFC já havia chegado ao ápice da fofura teve que rever seus conceitos. Ainda mais pacato que seu antecessor, Howdy! extirpava qualquer resquício de vigor, distorção ou ruído que ainda poderia ter sobrado. Não deixou de ser decepcionante, após um hiato de quase três anos. OK, a banda venceu o desafio de persistir na fórmula vitoriosa sem se repetir (exemplo clássico de banda que caiu na armadilha: Ramones). Entretanto, o polimento incessante do estilo acabou os deixando perto da caricatura. A impressão se estende à arte do álbum, que usa as silhuetas de Norm, Ray e Gerry como ícones para indicar quem compôs qual canção. É impossível, aos fãs verdadeiros, desprezar faixas como “I Need Direction”, “Dumb Dumb Dumb” ou “Accidental Life”. Igualmente impossível, no entanto, é negar que o grupo já havia feito tudo aquilo antes. E melhor. No cômputo geral, Gerry se sai melhor que seus companheiros; seu estilo mais naïvede composição é o mais adequado ao climão adocicado sugerido pelo disco.
Melhores músicas: “I Need Direction”, “Near You”, “The Town & The City” e “My Uptight Life”.
Melhor momento: Os metais de “The Town & the City”.
MAN-MADE (2005) - Cinco anos separariam o sétimo disco do TFC do oitavo. Nesse meio tempo, a banda veio ao Brasil pela primeira vez (tocando em SP e Curitiba em 2004). Para Man-Made, eles resolveram – acredite! – apostar na mudança. Partiram para os EUA, onde seriam produzidos por John McEntire. Uma associação a princípio surpreendente, dado o background vanguardista/post-roqueiro do músico e produtor. O disco que veio a tona não chegou a arrepiar os fãs mais conservadores. A delicadeza das melodias e dos vocais prevaleceu sobre qualquer invencionice que McEntire pudesse aplicar. Ainda assim, nota-se nas entrelinhas uma mudança de approach. A influência do produtor deve ter amenizado a sacarina dos dois últimos discos, simplificando os fru-frus. Acabou resgatando canções como “Flowing”, “Time Stops” e “Save” da overdose de fofura. Os arranjos são mais esparsos, angulosos – como pode ser ouvido em ”Don’t Hide”, “Only With You” ou “It’s All in my Mind”. A alegrinha “Slow Fade” até poderia caber em Bandwagonesque (fosse um pouquinho mais suja).
Melhores músicas: “Save”, “Slow Fade”, “Only With You” e “Falling Leaves”.
Melhor momento: As guitarras de “Slow Fade”.
SHADOWS (2010) – E lá se foram mais cinco anos sem disco novo. Duas décadas depois de A Catholic Education, Norm, Ray & Gerry apontam a bússola para o soft-rock; a ortodoxia power pop ficou pelo caminho. É preciso entender que o termo “soft-rock” aqui não é ofensivo. Apenas descreve um estilo despido de agressividade; uma, digamos, “meiguice” que a banda persegue há anos. O dilema apresentado em Howdy! – o perigo da autocaricatura – ainda paira. Mas as composições parecem ter um ânimo renovado, mesmo em seus momentos mais suaves. Cheque, por exemplo, as duas melhores contribuições de Love, “Sometimes I Don’t Need to Believe in Anything” e “Into the City”. Ou o single de apresentação, “Baby Lee”, de Blake. Resta muito espaço para a delicadeza, como na ambiência acústica de “Today Never Ends” – que remete, estranhamente, ao Pink Floyd (!) – e na levada setentista de “The Past”.
Melhores músicas: “Baby Lee”, “Into the City”, “Sometimes I Don’t Need to Believe in Anything” e ”The Fall”.
Melhor momento: A sensação de reencontro que permeia todo o disco.





