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PETER HOOK NO CIRCO VOADOR: PRAZERES BEM CONHECIDOS.

 

Sempre tive a impressão de que, se havia alguém deslocado no Joy Division/New Order, esse alguém era Peter Hook. Pegue as fotos das bandas. Quem era o único barbado, de jaqueta de couro, olhar de bad boy? O baixista. Sua postura no palco – curvado, pernas abertas – contrastava com a tímida  imobilidade do frontman Barney Sumner. Seria Hook um “traidor do movimento” pós-punk? Onde estavam a austeridade, a contenção, a atitude soturna?

O show que Hook e sua nova banda, The Light, fizeram no Circo Voador neste sábado, confirmou minhas décadas de suspeitas. O baixista que integrou duas das mais importantes bandas indies da história é, na verdade, um populista de marca maior, que ficaria perfeitamente à vontade num grupo de rock de arena. Mas que, por artimanhas do destino, viu-se integrado a duas bandas radicalmente anti-populistas, para as quais o conteúdo era tudo – e a forma, na melhor das hipóteses, algo secundário. Liberto das enormes sombras do JD e do NO (mas apelando para o repertório da banda liderada por Ian Curtis), Hook finalmente pôde deixar o farofeiro que existia dentro de si sair com tudo.

A expectativa para a apresentação era  grande. Poderia ser histórico: o músico que criou aquelas linhas de baixo inesquecíveis, relembrando um repertório impecável, baseado no disco de estreia do JD, Unknown Pleasures. Ele tem o direito de (e total propriedade para) recriar aquelas canções. Poderia também ser um mico do cacete. Hook tem um retrospecto de projetos paralelos fajutos: como frontman, tentou com o Revenge, com o Monaco e até com o bizarro Freebass, sem sucesso. Agora, tendo o New Order ido para o saco de vez, apela para uma banda cover descarada, sugando o fantasma do Joy Division. No fim, felizmente, não foi nem histórico nem um mico. Além da surpresa de ver a, digamos, desenvoltura de Hook como líder, tivemos releituras bastante fiéis (em especial nos timbres) de vários clássicos do Joy tocados com garra. Bastou isso para garantir a emoção, que já atinge um pico logo no começo do show – que encadeia a instrumental “Inccubation”, “No Love Lost”, “Digital”, “Leaders of Men” e, abrindo a sequência original deUnknown Pleasures, “Disorder”.  A tchurma (na plateia tinha gente se reencontrando depois de anos) pulou e berrou pacas.

E aí vem a segunda surpresa em relação à performance de Hook. Ele não consegue cantar e tocar ao mesmo tempo (ainda que fique com o baixão vermelho pendurado o tempo todo no pescoço). Toca só nas introduções e nos interlúdios instrumentais. Mais: precisa apelar a todo o momento para um caderno com a “cola” das letras das músicas, passando as páginas freneticamente. (Quando um roadie surgiu para retirar a estantezinha com o caderno, aí tive a certeza de que era hora do show acabar. Não deu outra. Sem o caderno, Hook não é ninguém.) Com isso, quem emula com devoção canina os baixões clássicos é Jack, o próprio filho de Hook. A voz também não ajuda muito. Ele clona o estilo de Ian Curtis e seus graves sinistros, mas lá pela metade do show a goela já pede arrego. Talvez para compensar essas limitações, o cara abusa das presepadas. “Sola” o baixo na beira do palco, como se fosse um Slash manchesteriano. Levanta o braço direito e congrega a plateia a soltar a voz. Joga beijinhos para as garotas do gargarejo. E arremata tudo voltando para o bis com uma camisa da Seleção brasileira, com direito ao seu nome bordado nas costas.

A decisão de seguir estritamente o set list de Unknown Pleasures deu uma esfriada no show. A primeira metade do disco, com canções lentas e arrastadas (“Candidate”, “Insight”, “New Dawn Fades”), derrubou a empolgação da abertura. A coisa re-engrena quando entra o lado B, aberto com a eterna “She’s Lost Control”, progride com “Shadowplay” (que muita gente, aposto, achava que era do The Killers), segue com “Wilderness” (uma das minhas favoritas do JD), a pesada “Interzone” e termina na soturna “I Remember Nothing”.  O bis, esgotado o repertório “oficial”, começa com uma vigorosa versão de “Atmosphere”, saca as menos conhecidas “These Days” e “Novelty”, e faz um agrado à galera que berrava “Dance-dance-dance-dance-dance-t0 the radio”,  tocando “Transmission”. “Ceremony” – uma das canções da minha vida – é resgatada com muito gosto. E, claro, “Love Will Tear Us Apart” encerra, para deixar os hipsters novinhos e os darks velhuscos se irmanarem numa sessão de pula-pula digna das melhores (piores) micaretas indies.

Ou seja: o tempo passa, perde-se o contexto e fica a música. A aura sombria do JD hoje é menor que a força de suas canções, que sobrevivem mesmo sem a lembrança da “intensidade” e da “depressão” tantas vezes usadas para rotular o grupo. E Peter Hook parece estar se divertindo horrores, mesmo entoando versos como “Um gosto amargo na minha boca / Enquanto o desespero me domina”. Ritmo de festa!

 

TEENAGE FANCLUB NO CIRCO VOADOR: BAILE DA SAUDADE INDIE.

Eu percebi  na hora em que eles começaram a tocar “Star Sign”. A galera começou a pular junto, berrar, cantar… mas teve uma hora em que virei para o lado e comentei com meu irmão:

- Tá meio devagar, né?

- É… – concordou ele.

Era inevitável. Com mais de 20 anos de carreira nas costas e sete anos depois de sua primeira vinda ao Brasil, o Teenage Fanclub está, realmente, mais devagar. Não que falte ânimo à banda, ou empolgação. Só que o tempo mostra seu peso.  O grupo agora se reúne apenas para gravar discos (cada vez mais esporádicos) e fazer turnês curtas. A orientação sonora cada vez mais “fofa” e doce, pendendo a um pop cada vez menos power, também se reflete  na performance. O público que foi ao Circo Voador na quinta-feira conferir o primeiro show do TFC no Rio de Janeiro não saiu desapontado, de modo algum. Entretanto, havia um descompasso entre a banda que os fãs traziam na lembrança – seja ela a da ruidosa “Everything Flows” ou a da fofa “I Need Direction” – e o grupo de jovens senhores escoceses que subiu ao palco. O Tinejão de ontem, hoje, é o Roupa Nova do indie – mas, graças a Deus, cada público tem o Roupa Nova que merece.

Norman, Gerry e Ray vestem-se como bancários, não pulam no palco, praticamente não pisam no pedal de distorção. Em 2004, bebiam cerveja no palco; agora se limitam à água mineral. A vibração emitida no show de sete anos atrás foi substituída por uma atitude pacata, comportada. Eles só têm só a seu “favor” o arsenal fabuloso de canções que compuseram nos anos 90 (e mesmo o mais recente disco, Shadows, tem lá sua cota de belezas). E o set foi generoso.  As eternas favoritas de Bandwagonesque (“What You Do To Me”, “Alcoholiday”, “The Concept”, “Star Sign”), Grand Prix (“Don’t Look Back”, “Sparky’s Dream”, “About You”) e Songs from Northern Britain (“Start Again”, “I Don’t Want Control Of You”, “Ain’t That Enough”) disseram “presente”, deixando Thirteen (“Radio”) e Howdy! (“I Need Direction”) menos prestigiados.  (Poxa, mas sem “Neil Jung” nem “Discolite”? Pedir por “Fear of Flying”, então, nem pensar, né?) O tom contemplativo das músicas de Shadows acabou reduzindo a marcha do set todo, deixando até mesmo os momentos que deveriam ser barulhentos (“Star Sign” contou até com uma terceira guitarra) com cara de baile da saudade. O tradicional final apoteótico com “Everything Flows” foi breve e menos barulhento do que se podia esperar.

Mas tudo bem, né?  O público, que compareceu em bom número (mas não lotou o Circo) concordou: muita gente saiu extasiada, especialmente aqueles que não tiveram chance de ver a banda da primeira vez.   O tempo passa e o TFC, banda que já nasceu nostálgica, hoje converteu-se na própria nostalgia. Daquelas boas, que deixa os órfãos do anos 90 (e eu sou um deles) com um sorriso no rosto.

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