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DA AMAZÔNIA À URCA, VIA CALIFÓRNIA: AS AVENTURAS DE JOÃO DONATO

(Republicado originalmente em 27/05/2007, publicado no Jornal Musical (03/04/2007).

 

É tempo de João Donato, mais uma vez. Aliás, é tempo de Donato há quase 60 anos, se pensarmos que o compositor, cantor, arranjador e multiinstrumentista tem como marco inicial de sua carreira profissional o ano de 1949. Ou antes ainda, se navegarmos mais longe no tempo, voltando à época em que, garoto em Rio Branco (AC), já arriscava os primeiros precoces dedilhados no acordeon. E também agora. Comprovando sua proverbial capacidade produtiva, Donato acaba de lançar simultaneamente dois discos bem diferentes. Uma tarde com Bud Shank & João Donato (Biscoito Fino) promove o reencontro do brasileiro com o saxofonista norte-americano Shank, 42 anos depois do lançamento de Bud Shank & his Brazilian friends (1965). E O piano de João Donato (Deckdisc) marca a estréia do músico no formato de piano solo, reinterpretando músicas que marcaram sua trajetória. Em um agradável fim de tarde, João abriu sua casa na Urca (Zona Sul do Rio de Janeiro) para falar do presente e do passado de sua carreira. E também para explicar como os dois novos discos se encaixam dentro de sua visão pessoal sobre a música – a qual, passados tantos anos, segue a mesma.

“Nesses anos todos meu método não mudou muito. Todas as músicas, na verdade, se parecem umas com as outras. Tem as sutilezas do desenho, os traços individuais de cada um, mas não saem muito desse esquema. Se ficar muito diferente, ninguém entende”, explica Donato, 72 anos. Tanto o disco de jazz que gravou com Bud Shank quanto o álbum de piano solo seguiram a lógica descontraída e improvisada que marca o trabalho do compositor. “Em 2004 reencontrei o Bud no festival Chivas Jazz, aqui no Rio. Desde os anos 60 nós só nos víamos esporadicamente. Perguntei na cara: ‘quer gravar um disco?’ Então tá, fomos lá. Ficamos um sábado e um domingo gravando, às pressas, de uma hora para outra. Tem faixas que não têm baixo nem bateria, porque não deu tempo de achar gente para nos acompanhar. Bud declarou que rememorou vários episódios de sua vida, fez umas viagens durante as gravações. Ele disse que nunca tinha ido tão longe. Foi muito animador”, narra Donato.

O piano… é um disco de memórias musicais, mas nem por isso Donato abdicou de seu approach espontâneo. “São músicas que eu gosto de ouvir, que acho bonitas. Há muito tempo, desde quando era adolescente, essas músicas me chamavam a atenção”, diz o compositor, referindo-se aos temas de autores como Stan Kenton, Neil Hefti e Horace Silver que estão no CD. “Eu chegava no estúdio e tocava o que me desse na telha. E depois não me lembro o que entrou e o que ficou de fora. Não foi um disco planejado. Não pensei ‘Ah, o que eu devo tocar?’ Eu dizia: ‘Vamos gravar ‘Manhã de carnaval’ e gravava. Tinha um cardápio de umas 20 canções, mas acabam entrando outras, algumas até que não existiam… Sempre gravei assim. Já no Muito à vontade (de 1963) tem várias músicas que eu fiz na hora no estúdio”.

A figura de Donato é tão associada ao piano que é difícil acreditar que só agora ele gravou um disco solo ao instrumento. Sucessos como “A rã” (com Caetano Veloso), “Bananeira” ou “Amazonas” (com o irmão Lysias Ênio) são tão conhecidos pela batida inconfundível do pianista quanto pela melodia vocal. Mais surpreendente é relembrar que, nos primeiros anos de sua carreira, Donato era especialista em acordeon. Mas, segundo ele mesmo lembra, o piano sempre esteve por ali, rondando. “Quando eu acordava de manhã – eu dormia em rede, no Acre, não tinha cama – ouvia minha irmã Eneyda tocando escalas no piano. E eu passava por ali e ficava brincando, passando a mão nas teclas”.

Além dos estudos da irmã, as possibilidades musicais eram rarefeitas – lembrem-se que estávamos nos confins da Amazônia, na década de 30 do século passado. “Eu comecei a tocar o acordeon porque era o que havia. No Acre a única referência era a banda do Exército, que tocava marchas militares, aos domingos, na praça. Eu ganhei de Papai Noel uma sanfoninha de brinquedo. Meu irmão (Lysias Ênio) também ganhou uma. Só que ele pegou a dele e abriu para ver de onde saia o som. E eu saí tocando. Tocava ‘Tatu subiu no pau’, ‘Ciranda cirandinha’. Se impressionaram com aquilo e foram me dando acordeons melhores”. Antes disso, Joãozinho brincava com flautas de bambu e batucava em panelas. Aos 11 anos, quando chegou ao Rio de Janeiro, já manejava um instrumento profissional, de 120 baixos, com o qual começou a tocar em festas da turma do colégio.

De acordeon em punho, mas cada vez mais interessado no piano (“O piano te dá a liberdade. Não é aquele trambolho pendurado no pescoço”, compara), Donato compatibilizava o amor por Luiz Gonzaga (“Meu maior ídolo, sempre foi e sempre será”) com as descobertas no campo do jazz e das big bands americanas, absorvidas no contato com as novas amizades cariocas. Entronizou-se no Sinatra-Farney Fan Club, núcleo proto-bossanovístico por onde passaram Johnny Alf, Paulo Moura, Dóris Monteiro e Nora Ney. Nessa época, virada dos anos 40 para os 50, abandonara os estudos (para horror do pai, major da Aeronaútica) e alternava a carreira de instrumentista profissional, na Rádio Guanabara, com uma incipiente boemia musical – formando os grupos Os Modernistas e, depois, os Namorados.

“Isso tudo foi antes da televisão…” lembra Donato. Em 1949, participa de sua primeira gravação. “O Altamiro Carrilho ia gravar seu primeiro 78 RPM. Nós eramos colegas, assistíamos os ensaios um do outro. Demos uma ensaiadinha e gravamos ‘Brejeiro’. É bonito até hoje. Tinha também o César (Faria) – o pai do Paulinho da Viola – no violão”. No começo da década de 50, já assinando como Donato & Seu Conjunto, mas sem deixar os Namorados, lançaria mais discos de 78 RPM; gravaria o primeiro álbum, Chá dançante, produzido por Tom Jobim, em 1956; e teria em “Minha saudade” a primeira composição sua a ser gravada, por Luís Bonfá.

Enquanto isso, sua reputação de inconformista (musicalmente e no comportamento) crescia no Rio. As noitadas que ele comandava na boate do Hotel Plaza, a partir de 1957, ficaram famosas. Mas a indisciplina de Donato e sua iconoclastia como músico – incorporando harmonias novas, dissonantes e síncopes que entortavam todos os gêneros, do baião ao samba – o tornaram um estranho no ninho, “Eu sempre gostei de música mais dissonante, mais exótica, sofisticada, sei lá como se qualifica. Aqui eu estava travado. Teve uma momento em que eu não conseguia mais nem dar canja em boate. Os gerentes diziam que minha música era anti-comercial. Mesmo depois do sucesso da bossa nova, o horizonte estava muito fechado”, considera.

Foi quando transferiu-se para a América do Norte. Em 1959, viajou para o México acompanhando o amigo Nanai (ex-Namorados) e de lá partiu para Los Angeles (EUA). Em três anos, correu o circuito das orquestras de música latina, onde trocou o acordeon e o piano pelo trombone. “Tinha ido para tocar jazz, melhorar minha técnica. Cheguei lá e procurei o jazz e cadê? Não tinha. Lugares para tocar jazz eram um ou dois, com centenas de músicos querendo um espaço… Então cada um tocava em uma orquestra latina, pra trabalhar. Não faltava emprego. O que eu ia fazer? Fui tocar com eles. Quando em Roma… (risos)” A temporada foi proveitosa, pois Donato incluiu mais uma influência – a dos sons afro-caribenhos – à sua musicalidade. “Fui para melhorar e melhorei, mas não do jeito que eu esperava. Eu já levava uma simpatia pela música cubana, quando eu a encontrei pessoalmente (risos) foi sopa no mel. Toquei com Mongo Santamaria, Tito Puente…”.

Nos anos 60, Donato viu a turma da bossa ganhar o mundo. Mas seu caminho era outro, sempre perseguindo suas revoluções pessoais. Gravou dois discos no Brasil (Muito à vontade e A bossa muito moderna de João Donato & seu trio) que ajudaram a definir o samba-jazz. De volta aos EUA, onde ficaria entre 1963 e 1972, finalmente seria aceito pela elite jazzística. “Corri várias companhias com o acetato do Muito à vontade, para ver se interessava a alguém. Ninguém queria meu disco, ninguém estava interessado naquele assunto – piano, baixo e bateria tocando coisas minhas, um brasileiro desconhecido. Até que fui à Pacific Jazz, por onde gravavam Chet Baker, Gerry Mulligan, Laurindo de Almeida. Lá houve empatia maior e o diretor da gravadora disse: ‘Gostei do seu trabalho, mas vai depender dos outros músicos te aceitarem. Não dá para ir lançando seu disco assim direto, do nada. E por acaso vou me encontrar com Bud Shank amanhã. Se ele gostar…” E o Bud gostou ele me aceitou e então gravei com ele meu primeiro disco nos EUA”.

Nos EUA e Europa, acompanhou os amigos João Gilberto, Tom Jobim, Sergio Mendes e Astrud Gilberto, e os ídolos Dorival Caymmi e Stan Kenton, entre muitos outros. Da nova aventura americana, sobraram os hoje cultDeodato Donato (unindo o piano do compositor aos arranjos de Eumir Deodato, em 1969) e A bad Donato(registrado com feras da vanguarda do jazz ianque, em 1970). O reecontro com o Brasil, em 1973, se deu com o primeiro álbum no qual Donato assumia os vocais, Quem é quem. “Eu fazia os meus teminhas, como sempre fiz. Mas nada de pensar em letra. Música para mim era o que eu gostava de ouvir, jazz instrumental, raramente tem cantor. Quando voltei ao Brasil o Agostinho (dos Santos, produtor) falou: ‘Cadê as letras? Sem letra ninguém canta’. Ai eu comecei a me preocupar com a canção propriamente dita. A gente pode fazer dezenas de temas em minutos, mas não quer dizer que são canções. Tem de ter uma bela letra e uma bela melodia, aí sim. Tem de ter uma certa capacidade de comunicação universal”, acredita o compositor.

“Quando comecei a cantar, foi um certo drama para mim. Mas segui o exemplo de Tom Jobim, Vinicius, Nelson Cavaquinho. cada um canta sua própria música com a voz que Deus lhe deu. Gente sem grande material vocal, mas com uma grande emoção. Foi um momento de mudança nos rumos da música, quando todo compositor passou a ser cantor também”, diz.

A experiência de Quem é quem se provou tão positiva que hoje Donato é um dos campeões absolutos em número de parceiros na história da MPB. “Comecei a fazer música com mais e mais gente. Um dos primeiros foi o Martinho da Vila. Aí vieram Gil, Caetano, Moraes Moreira, Abel Silva… até Baby Consuelo! Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Cacaso, Marcos Valle, Ronaldo Bastos, Lô Borges, Aldir Blanc, João Bosco, Geraldo Carneiro e até o arisco João Gilberto estão entre as dezenas de figurões que já racharam canções com Donato, que prefere oferecer as melodias aos poetas a fazer o processo inverso. “É complicado botar música em letra. É mais fácil a música ficar passeando sozinha, tentando encontrar uma letra, deixar as palavras sairem da melodia”.

As décadas de 70 e 80 exibem um Donato de ímpeto mais domado. Entre 1975 e 1996, grava apenas três LPs. Um contraste tremendo com a explosão de sua produção de lá para cá: nos últimos 11 anos, o compositor lançou nada menos que 15 álbuns (cinco deles no mesmo ano, 2002) e seu primeiro DVD, Donatural (2005). “Tenho tido momentos de silêncio também – já passei, por duas vezes diferentes, dez anos sem gravar nada e já tive anos que lancei seis discos de uma vez. Não é plano, é coincidência, vou aceitando vários convites de vários lugares, já que não tenho contrato com uma gravadora só”, diz o músico, que congrega gerações em seus discos mais recentes – dividindo espaço com nomes como Marisa Monte, Marcelo D2, Davi Moraes e Arnaldo Antunes, todos fãs confessos. Além de fazer discos também com veteranos como Paulo Moura e Emílio Santiago.

Desses anos todos, Donato afirma não ter extraído filosofia alguma, a não ser um amor incondicional pela música. E conta mais uma historinha: “Sempre me perguntam se eu tenho uma fórmula, um método para fazer música. E eu não consigo entender quem pensa que é assim que a coisa funciona. Certa vez, nos EUA, comprei um livro – por 99 cents, num supermercado 24h – chamado How to write a song. Uma duzia de grandes autores dando conselhos sobre composição. Gente de categoria, Hoagy Carmichael, Johnny Mercer… Li aquilo tudo e não gravei nada. Só lembro do conselho do Duke Ellington. Ele disse: Quando tiver uma idéia interessante, grave ou anote na hora. Pode ser um verso, uma melodia… Se deixar pra depois, você esquece e some. E aquela poderia ter sido a melhor música que você iria fazer na vida”.

ARQUIVO: JOÃO GILBERTO, 80 ANOS

(Publicado originalmente em 08/06/2011.) 

João Gilberto surgiu na minha vida antes do rock. Influência de minha mãe, que me pôs para assistir, ainda moleque, ao clássico especial Grandes Nomes, da Globo – aquele no qual João cantava com Rita Lee e o escambau. Depois, as repetidas audições de “Estate”, “Wave” e “S’wonderful” nas ondas da Rádio JB AM me tornaram ainda mais fã do cantor, isso anos antes de eu começar a comprar meus próprios discos. No dia 10 deste mês, João chega aos 80 anos, numa maré meio baixa. Comentou-se muito sobre seu iminente despejolembraram que seus três primeiros discos – régua & compasso da bossa nova – continuam sem previsão de relançamento, sua proverbial reclusão segue inquebrantável. Marco a efeméride resgatando materinha que fiz para o Cliquemusic quando dos 70 anos do baiano, que  já apontava, há uma década, a pendenga judicial que impede o relançamento de seus primeiros trabalhos.  Enquanto isso, no Mercado Livre…

Não é todo dia que uma lenda viva faz aniversário – especialmente o 70º 80° aniversário. João Gilberto Prado Pereira de Oliveira completa neste dia 10 de junho 70 80 anos: sete décadas do músico que cristalizou, na batida de seu violão e em seu canto gentil, o paradigma da bossa nova. E que, por tabela, mudou os rumos da música popular brasileira na segunda metade do século XX, transformando o samba, influenciando sucessivas gerações posteriores, popularizando a bossa nova pelo mundo, sendo copiado, e enfim tornando-se… uma lenda viva.

Se a bossa nova virou plataforma de toda uma linha evolutiva da MPB a partir do final dos anos 50, então João Gilberto é o símbolo vivo dessa evolução. Desconstruindo o samba tradicional e escapando do clichê do “cantor gutural” (e principalmente atingindo uma simbiose perfeita entre seu violão sincopado e sua voz), João deu vida às idéias do jovem Tom Jobim – transformando suas canções em algo que ainda não se tinha ouvido. A pedra filosofal da bossa nova (o álbum Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, 1958) entrou para a história por trazer os primeiros registros da revolucionária junção violão/voz de João – em Chega de Saudade e Outra Vez. E nos três LPs que gravaria em 59, 60 e 61, o cantor (um “baiano bossa nova”, como o definiu Tom Jobim) dava o formato definitivo à bossa, fazendo um “estrago” sem par na formação musical de gente como Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo e Tom Zé. “João Gilberto já estreava mestre e líder de um movimento que viraria de pernas para o ar as questões harmônica, rítmica, melódica e poética da chamada linha evolutiva da MPB”, como definiu Tárik de Souza, editor de Cliquemusic.

Lançou a música brasileira ao mundo, com seus trabalhos com Stan Getz nos anos 60. Irmanou-se à turma dos Novos Baianos, assumindo a “paternidade espiritual” de sua geração. Tocou no mundo inteiro, e depois retornou ao Brasil para mais uma vez congregar-se com seus discípulos – Caetano, Gil, Bethânia. Deixou sua marca tanto no samba-canção da era do rádio quanto na canção pop de Lobão. Ultrapassou em muito as limitações da bossa nova, chegando mesmo a renegar o estilo (“O que eu canto é samba”, disse mais de uma vez). E mesmo com toda sua fama de “difícil”, implicante, arredio, é com certeza o nome mais cultuado da história de nossa música popular.

Em 2001, 42 anos depois de ter inventado a bossa nova, João Gilberto ainda está na moda. Venceu em fevereiro um Grammy (o prêmio máximo da indústria musical dos EUA) na categoria “melhor álbum de world music” por seu último álbum, João Voz e Violão. Vai se apresentar no Festival de Jazz de Montreux, Suíça (em uma das vezes em que participou do evento, em 1985, deixou um impecável álbum ao vivo, Live at the 19th Montreux Jazz Festival). Pelo menos dois livros sobre o cantor estão para ser lançados: A Poética do Som, de Edinha Diniz, e outro, ainda sem título, preparado por Luiz Galvão (ex-Novos Baianos).

O que ouvir de João
Por incrível que pareça, a trilogia básica de álbuns nos quais João Gilberto definiu a bossa nova não está disponível em CD. Chega de Saudade (59), O Amor, o Sorriso e a Flor (60) e João Gilberto (61) foram compilados em um único CD (intitulado O Mito) em 1992 pela gravadora EMI – detentora do catálogo da antiga Odeon, que lançou as edições originais dos LPs. O Mito acabou justificando o próprio título, visto que tornou-se um disco-lenda: o próprio João Gilberto entrou na justiça contra a EMI, obrigando a gravadora a retirar os CDs das lojas. Motivo: a ordem original das faixas foi mexida, as músicas foram remixadas e ainda inventou-se um medley (juntando as metades A Felicidade e O Nosso Amor em uma só faixa), tudo isso sem sequer consultar o cantor. A EMI, que posteriormente pretendia relançar os três álbuns em seus formatos originais, está impedida de mexer no material.

(N. do. E.: João chegou a aventar a possibilidade de uma conspiração movida pelos Rolling Stones – ! – para prejudica-lo na questão com a EMI. O próprio explica – ? – nesta rara entrevista aqui.)

É pena, pois se há um CD que pode se chamar de “seminal” é O Mito. Todo o refinamento estético que JG trouxe ao samba está contido nas 38 faixas do álbum. Dos primeiros clássicos de Tom Jobim (Desafinado, Chega de Saudade, Samba de Uma Nota Só, Corcovado, Insensatez, Amor em Paz) a acenos gentis à MPB pré-bossanovística (Trem de Ferro, de Lauro Maia, É Luxo Só, de Ary Barroso e Luiz Peixoto, ou Morena Boca de Ouro, também de Barroso), passando por suas raras composições próprias (Oba-la-la, Bim-bom), João imprimia sua elegância em três álbuns que hoje têm o status de um verdadeiro manifesto sonoro.

Quem deseja conhecer a simbiose entre a MPB e o jazz tramada por João nos anos 60 deve procurar Getz/Gilberto (1964), mega-sucesso de vendas só batido pelos Beatles. O disco trazia a primeira versão em inglês para Garota de Ipanema – que, como The Girl From Ipanema, transformou-se numa das canções mais executadas da história. A mescla do saxofone de Getz (da escola cool jazz fundada por Miles Davis) com a batida do violão de João marcou época e apresentou a moderna música brasileira ao mundo (aposentando Carmem Miranda e seus cachos de banana).

Registro da maturidade iluminada do cantor, Amoroso, de 1976, é um dos discos favoritos de muita gente. No álbum, João mostra sua universalidade ao recriar do bolerão clássico (Besame Mucho) à canção romântica italiana (Estate) sem perder a pose. Releituras de Tom Jobim (Triste, Zingaro, Caminhos Cruzados, Wave) e até dos irmãos Gershwin (S’Wonderful) completam o panorama, no qual voz e violão de JG se casam com os arranjos de cordas de Claus Ogerman.

Para se ter idéia da “suave potência” da performance de João no palco, o melhor é partir para o já citado Live at the 19th Montreux Jazz Festival, registrado só na voz e violão. Clássicos da bossa nova e relíquias sambísticas (Pra Que Discutir Com Madame?, Adeus América, Preconceito) estão no repertório do disco, lançcado originalmente em 1986 como um LP duplo e transposto para CD (também duplo) em 1993.