PENSATA

FLAMENGO: CRISE NA GÁVEA, CRISE DO BRASIL.

Vocês sabem (ou não) que eu nunca fui do futebol. Nunca fui peladeiro, só fui ao Maracanã para ver show (e o Papai Noel), não encosto numa bola desde que terminei o ensino secundário. Costumo dizer que futebol para mim é esporte, e não essa coisa louca que transtorna as pessoas, arruína amizades, desfaz casamentos, mata uns e faz de outros assassinos. Contudo, entendo perfeitamente porque o futebol é tão apaixonante para todo mundo. É porque o nobre esporte bretão é um simulacro quase perfeito da vida, no qual os poderosos são sempre poderosos e os pequenos, sempre pequenos – até o dia em que, por sorte, azar ou pelo tal do destino, a situação se inverte. Nenhum outro esporte se presta tanto ao sabor do acaso, às reviravoltas que permitem que a esperança seja, enfim, a última que morre. É isso que enlouquece os torcedores: a certeza de que ali, durante aqueles 90 minutos, tudo pode acontecer. E às vezes acontece.

Por osmose (minha mulher é torcedora, daquelas chatas), acabo acompanhando com interesse antropológico as idas e vindas do Flamengo.  Por curiosidade profissional, acompanho também o noticiário sobre o clube, sempre eivado de especulações, recadinhos cifrados, espetadelas e indiretas. E depois de concluir que o futebol é um resumo da vida, arrisco afirmar que o Flamengo é um resumo do Brasil.

Como o Brasil, o Flamengo também sofre de um agudo sebastianismo. A cada temporada, anuncia-se um novo salvador para o time, um supercraque contratado a peso de ouro que vai, enfim, levar o clube de volta aos tempos áureos da geração Tóquio. Apenas nos últimos quatro anos, falou-se em Ronaldo Fenômeno, o que não deu em nada; trouxeram Adriano, ele veio, viu e venceu, mas acabou derrotado pela má disciplina e hábitos ainda piores. Ronaldinho Gaúcho, o último candidato a ungido, chegou com muita fanfarra, mas conseguiu fazer um papelão ainda maior que o de Adriano. Acabou de deixar o clube, sem rumo certo, depois de derrubar um treinador (Luxemburgo), faltar a concentrações e jogos e – dizem – ter se apresentado bêbado para treinar. Não há de ser nada, Adriano, ele mesmo, está se recuperando para voltar ao Mengão…

O sebastianismo que herdamos dos portugueses ajuda a explicar a necessidade que o brasileiro tem de achar um “pai”, um guia, um responsável por essa porra toda que está aí. O cara que vai resolver. Gente esperta e não muito bem intencionada já se deu muito bem apresentando-se como esse salvador; acreditamos e, invariavelmente, nos decepcionamos. Até vir a próxima promessa. E fechamos os olhos, acreditando que dessa vez vai ser diferente. (Estamos em ano eleitoral, não esqueçam.) Se, por aqui, essa regra vale para a política, para a economia, para o showbiz, por que não valeria para o futebol? Especialmente para o futebol, que nutre-se da fé do torcedor para continuar existindo. O torcedor abraça ansiosamente o candidato a ídolo na chegada, mas joga ovos no craque quando os gols não vêm, já de olho no próximo artilheiro – esse sim vai salvar a pátria!

Assim como os empresários, empreiteiros e demais lobistas da vida real, quem dá as cartas nos bastidores do futebol já sacou que, no caso do Flamengo, explorar a expectativa por um salvador  pode ser uma fonte inesgotável de lucros. E isso não se restringe a craques: pode ser um novo técnico, um novo patrocinador, um novo dirigente. Muito parecido com o povo que esquece das mamatas e das ligações perigosas, na hora de apertar o botão da urna eletrônica. Reportando tudo com uma avidez quase canibal, está o jornalismo (sic) esportivo carioca, um caldeirão de notícias plantadas, boatos tornados verdade e balões de ensaio – no qual o Flamengo, como time de maior torcida, está sempre sob os holofotes. (É um fenômeno conhecido nas internas como Flapress.) Não muito diferente da cobertura política, verdadeiro Fla-Flu no qual as torcidas estão cada vez menos dissimuladas.

E, óbvio, não há terra melhor para um clube como o Flamengo do que o Rio de Janeiro. O sebastianismo também ajuda a entender a blindagem que protege os ricos e poderosos no Brasil. Aqui, os ungidos podem tudo, sem se preocupar com as consequências. No Rio, isso é uma verdade ainda mais incontestável. Na Gávea, essa invulnerabilidade é levada ao pé da letra, com o resultado de sempre: o ungido pode faltar treino, criticar o clube em público, arrastar-se em campo, e ainda assim mantém o status de intocável. Em Brasília, guardadas as devidas proporções, também é por aí.

O brasileiro, mesmo que seja vascaíno, corintiano ou colorado, é  flamenguista no âmago. Flamenguista na crença irracional que vai chegar alguém para resolver todos os problemas, flamenguista no oba-oba cego com que recebe o candidato a salvador da vez, flamenguista na decepção e no jeito com que se deixa manipular e ter sua paciência abusada. E flamenguista na disposição para, no dia seguinte, esquecer tudo e rezar pela chegada do próximo Sebastião.

DEMÓSTENES TORRES: ALTA (IN)FIDELIDADE


Assim como não se pode julgar um livro por sua capa, também não é recomendável julgar um senador da República por sua coleção de discos.  Demóstenes Cachoeira, quer dizer, Torres, aqui fez e aqui pagou. Suas ligações mais-do-que-perigosas com as manobras do bicheiro Carlinhos Cachoeira caíram na boca do povo. Perdeu o partido (imagine só, ser chutado do DEM!), viu suas pretensões de eleger-se prefeito de Goiânia virarem pó e provavelmente será espancado na vindoura CPI que vai investigar suas más práticas. O que se perde com a desgraça de Demóstenes?  De acordo com uma inspiradíssima coluna dominical do Gaspari, o Brasil escapou de mais um falso profeta do moralismo a caminho do Palácio do Planalto. Eu enxergo outro ângulo nessa reviravolta toda. Se tudo o que o nobre Demóstenes planejava desse certo, o país poderia ter um presidente com um gosto musical acima da média.

Explico: Demóstenes Torres é um ávido colecionador de discos (extraído do Twitter do senador: “Na verdade, eu ouço todos os estilos, menos esses antecipadamente ruins demais. Coleciono LP, compacto, CD, DVD”). Na edição de 14 de abril, a revista Época apontou que “O senador (…) é um apreciador refinado de música – especialmente MPB e jazz -, orgulhoso de sua coleção de discos de vinil e organizador de saraus. O sisudo Demóstenes também organizava karaokês para parlamentares em sua casa.” Antes dessa lambança toda, imaginei várias vezes fazer uma reportagem sobre a coleção de discos do político, entrevistando-o sobre suas preferências e títulos favoritos. Soava-me muito exótico: um senador do DEM, cuja plataforma era toda em cima de valores morais linha-dura, e que ao mesmo tempo discorria com exuberância sobre variados estilos musicais. Mas agora, acho difícil ele topar dar entrevista para quem quer que seja…

O careca anda meio arredio das redes sociais – também, né, não é pra menos. Entretanto, fuçando sua timeline do Twitter, deu para ter uma amostra do eclético e apurado hit parade do senador. Vai do jazz ao novo pop indie brasileiro, de Carlos Gardel a… Bon Iver?!  Fiquei lembrando da época em que o Collor, outro símbolo do fisiologismo e do conservadorismo tosco, foi eleito. O breganejo de Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo foi adotado como trilha sonora informal da “nova era da democracia”. Antes, Francisco Alves tinha colocado sua voz maviosa a serviço de Getúlio Vargas e o governo militar apertara o arrocho ao som de Dom & Ravel. Maus passos, prevaricações e más companhias à parte, ao menos com Demóstenes na presidência nossos ouvidos teriam uma vida melhor. Eu acho.

8 Jan  ”@demostenes_go: Há 77 anos nascia Elvis Presley:”

6 Jan: “@demostenes_go: 19 anos sem Dizzy Gillespie”

16 Jan:  ”@demostenes_go: Louis Armstrong: When The Saints Go Marching In:”

21 Jan “@demostenes_go: Uma das revelações da nova música brasileira, Pélico (@pelicomusica), interpretando Tenha Fé, Meu Bem:”

24 Jan ‏ “@demostenes_go: Uma música: Bon Iver: Holocene”

26 Jan  ”@demostenes_go: George Harrison: My Sweet Lord:”

28 Jan ‏ “@demostenes_go: Um clássico de Carlos Gardel e do brasileiro Alfredo Le Pera:”

31 Jan “@demostenes_go: Pixinguinha: Rosa”

22 Fev “@demostenes_go: Adagio do Concerto Nº 23 para Piano e Orquestra de Mozart. Interpretado por Hélène Grimaud:”

26 Fev  ”@demostenes_go: Para inspirar a tarde: J.S. Bach: arranjo livre para violoncelo, suite nº 1″

2 Mar “@demostenes_go: Para inspirar a sexta-feira: Somewhere Over The Rainbow: arranjo livre para violoncelo e piano:”

VAMOS BOTAR DESORDEM NESSA P#$@&?

(Publicado originalmente em 29/01/2012.)

Quanto à parte da beleza, pode haver controvérsia. Mas que o Rio de Janeiro é o purgatório do caos, disso não há como duvidar. Nos últimos dias, a vocação da cidade para a falta de controle tem sido testada e aprovada com louvor. O desastre ocorrido com os prédios na 13 de Maio nem precisa de maiores comentários, certo? Mas também rolou a árvore que demoliu o bar Planalto do Chopp, ali no Flamengopertinho de onde, há algumas semanas, a tradicional churrascaria Majórica virou… carvão. E isso é só o que tem rolado recentemente, sem contar a expectativa da tragédia-anunciada-anual das chuvas de verão, o bonde sem freio de Santa Teresa, os bueiros explosivos. Isso tudo é normal?

Isso tudo é normal. O Rio sempre foi assim, desde 1565. A propensão típica do carioca/fluminense para a bagunça, somada ao desinteresse do poder público, gera esse estado de caos permanente, ao qual os habitantes vão se acostumando e com o qual vão convivendo. Faz parte do espírito da cidade – essa guerra cordial de todos contra todos, esse embaralhamento de ricos & pobres, de montanha & praia, de precariedade humana & natureza superlativa. Se, no Rio, o Brasil é mais brasileiro, aqui também se exacerbam as mazelas e as belezas do nosso contraditório povo.

Só que de um tempo para cá, tem gente querendo mudar essa história secular. O assunto já foi comentado aqui mesmo. Há uma nova estirpe de carioca à solta, e a nova guarda não quer saber de bagunça. Por isso mesmo, tratou de escolher como seus representantes no Poder Executivo essa GENTE QUE FAZ (mas faz mesmo?), que se preocupa com o verniz da eficiência e da gestão eficaz. Afinal, estamos a dois anos de receber uma Copa do Mundo, e a quatro de recebermos uma Olimpíada. A cidade precisa estar impecável, funcional, bonita e acima de tudo ORDENADA, para podermos fazer bonito diante dos olhos do mundo. Por isso é que o Rio está TODO em obras – quer dizer, não todo, só do Centro à Barra, é o trecho que interessa, né? Há tapumes, andaimes e placas “Homens trabalhando” em todos os cantos, num afã de ajeitar, em alguns anos, todas as gambiarras e defeitos estruturais que se acumularam ao longo de quatro séculos e meio.

Mas a vocação do Rio para a bagunça é maior que isso tudo. Somos, na feliz definição do colega Márvio dos Anjos, a capital mundial do terrorismo acidental: não precisamos de aviões batendo em torres gêmeas, aqui as torres caem por conta própria, por descaso, por jeitinho, por falta de fiscalização. E a cidade reage contra essa tentativa frenética de “arrumar a casa” acelerando a frequência de suas catástrofes. As árvores, os bueiros, os prédios desabando, tudo isso são as entranhas do Rio de Janeiro reagindo contra essa megaoperação de maquiagem que quer forçar a cidade a ser o que não é: uma metrópole arrumadinha e funcional. Não adianta: o “não funcionar” é intrínseco ao Rio. Não é agradável, cansa, irrita às vezes, mas lembrem-se que existem alternativas bem pioresA cidade está dizendo a seus governantes: “Querem trazer Copa, Olimpíada, o escambau, tragam. Mas não queiram mudar o mudar o meu jeito de ser. Não vai dar certo.”

Parafraseando o tal do Peter Kellemenque teria dito que “O Brasil não é para amadores”, eu riposto: o Rio de Janeiro não é para coxinhas.

(ÂPIDAITES RELEVANTES:
http://oglobo.globo.com/rio/presidente-do-crea-diz-que-ao-menos-cem-predios-no-rio-correm-risco-de-desabar-4900313

http://oglobo.globo.com/rio/explosao-no-cais-do-porto-deixa-um-morto-dois-feridos-3792854)

Leia também:

VÃO DEIXAR CABRAL DESCOBRIR O BRASIL?

VÃO DEIXAR CABRAL DESCOBRIR O BRASIL?

(...)

(Publicado originalmente em 22/12/2011.)

O Rio de Janeiro não é mais aquele. Lembra do Rio malandro, cheio de ginga, território privilegiado para a prática do jeitinho brasileiro? Acabou. O Rio bossa nova, da orla, dos favelados sorridentes e dos ricos benevolentes, se esfumaçou. A barra tem estado pesada demais, a um ponto tal que não dá mais pra neguinho continuar rindo e achando graça de todas as merdas que rolam na cidade e no estado, só porque deu praia no fim de semana. Espremido, de um lado, pela violência patrocinada pelo tráfico e, de outro, por décadas de ausência completa do poder público, o élan carioca sucumbiu. Não há manemolência que resista a décadas de tiroteios, sequestros-relâmpagos, enfermarias lotadas, transportes públicos em colapso, polícia/políticos corruptos. E o pior: a sensação de estarmos desamparados, literal e figurativamente desgovernados. Isso tudo minou a paciência do cidadão médio, que hoje pende muito mais para o pragmatismo conservador da Zona Norte do que para a joie de vivre prafrentex da Zona Sul. Isso sem demérito de tijucanos nem glorificação dos ipanemenses. O morador do Rio hoje quer competência, eficácia, ordem, arrumação. Ou, ao menos, a aparência desses predicados.

Mas não se esqueçam que o Rio, desde sempre, é uma caixa de ressonância para o Brasil, amplificando (quase às raias da caricatura) os pontos mais marcantes da fisionomia nacional. Assim como no resto do Brasil, no RJ a tal da nova classe média concentra cada vez mais poder – e é dela que emana esse desejo de arrumação, de ordem, algo que, historicamente, nunca fez parte das prioridades do carioca. Vendo-se, finalmente, com um dinheirinho a mais no bolso, o sujeito que acaba de desembarcar nas classes C e D quer ter seu carrinho 1.0, sua tevêzinha de LED e sua viagenzinha para o Nordeste. Mas quer também que o mundo à sua volta – segurança, saúde, infraestrutura – funcione direito, para que ele possa aproveitar ao máximo suas aquisições materiais, sem preocupações. E pouco além disso. O debate político, neste panorama, começa e acaba no mito da administração “eficiente”. O cara com mais pinta de gerentão, de síndico, que conseguir convencer que ele é capaz de arrumar a casa, esse sim é o homem da hora.

Vejam bem, não estou criticando a nova classe média. Pessoal trabalhou por anos, deu duro, pastou por muito tempo sem ter oportunidades. Agora é a hora de aproveitar. O problema é que, com sua capacidade de caricaturar, sintetizar e microcosmicizar (inventei agora) a realidade brasileira, a nova classe média fluminense está cantando a bola dos rumos futuros do país. E é aí que nosso governador, Sergio Cabral, terá a chance de dar seu pulo do gato.

Cabral é o político ideal para o Brasil da nova classe média, para o Brasil coxinha que tem Luciano Huck, Luan Santana e Tiago Leifert como ícones midiáticos e figuras reverenciadas. Todos gente fina, clean, amigos dos amigos, engajados (no quê, exatamente?), cheios de simpatia, bom-mocismo e correção, exsudando uma aura de eficiência e proatividade, que agradam a uma galera enooooooooorme que quer se enxergar também assim – clean, gente fina, engajada. Cabral é o homem certo para esse contingente que se contenta com o superficial, com as aparências – afinal, trata-se de uma turma que só conhece a vida através da tela da TV. O governador sabe disso. Sabe-se de seu marketing, de sua imagem de administrador competente, de “síndico” capaz de resolver as angústias da nova classe média para que esta possa, enfim, gastar sua graninha em paz.

Cabral é certinho, arrumadinho, fala bem. É do PMDB, o que garante berço esplêndido e eterno à sombra do Palácio do Planalto, não importando o titular da casa. O governador do Rio é de direita ou de esquerda? Como saber? Não há como interpretar seu discurso. Ele é o governador do carioca careta, do fluminense coxinha, que não quer sobressaltos comportamentais nem se interessa por polêmicas ideológicas. Do carioca que admite para si mesmo: já que não dá para resolver de vez os problemas da cidade/estado, que ao menos eles não me afetem. E que fiquem longe da TV e dos jornais. Resta agora convencer o país de que ele, Cabral, também pode ser o presidente do brasileiro careta.

No mundo ideal que Cabral traçou, as UPPs darão (aparentemente) certo, deixando que os eventos da Copa do Mundo sejam realizados sem sobressaltos (aparentes) no quesito segurança. Em 2014, ungido como o homem que derrotou os traficantes no Rio, ele lança-se como vice peemedebista na chapa petista à presidência. Não havendo nada de extraordinário que impeça a vitória do PT (Lula? Dilma?), Cabral em 2016 deixa a vice-presidência para lançar-se à prefeitura do Rio, navegando na publicidade dos Jogos Olímpicos. Ganhando a prefeitura (e mais espaço na mídia), aí sim ele enfrentaria um real problema: precisaria sair do PMDB, que não vai lançar candidato próprio à presidência nem fudendo (lembram do último que tentou? ). A nova casa de Cabral bem poderia ser o PSD de Kassab, o partido que não é “nem de direita, nem de centro, nem de esquerda”.  Mais Cabral que isso, impossível. Nos braços do povo (e da mídia), une-se ao PFL DEM, que terá moderado seu discurso, e parte para as eleições presidenciais de 2018 com a certeza da vitória.

Não digam que não avisei.

Leia também: VAMOS BOTAR DESORDEM NESSA P#$@&?

O IPISBD (ÍNDICE DO PREÇO DO INGRESSO PARA O SHOW DO BOB DYLAN) E A INFLAÇÃO

(Publicado originalmente em 24/02/2012)

Alguns rudimentos de economia para vocês, crianças. Entre março de 2008 e janeiro de 2012, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, atingiu uma variação acumulada de 16,33%. Também em março de 2008, um dólar valia R$ 1,74;  hoje, última semana de fevereiro, está saindo a R$ 1,70. Esses são bons indicadores para medir a variação de preços no país. Outro indicador interessante é o IPISBD – Índice do Preço do Ingresso para o Show do Bob Dylan, criado por este jornalista que vos digita. Como vocês, sagazes leitores do TdV devem saber, o véio Zimmerman já marcou as datas para sua quarta turnê pelo Brasil. Nesta sexta-feira, dia 24 de fevereiro, foram divulgados os preços para os shows do cantor. Aqui no Rio de Janeiro, o tíquete mais em conta para assistir a Dylan (no Citibank Hall, 15/04) sai por R$ 500 – cadeira lateral. O mais caro chega a R$ 800 (cadeira vip). Uma olhada nos preços do último show que Bob fez no Rio permite constatar que a inflação medida pelo IPISBD pode chegar a estonteantes 233,33%. Isso se compararmos o ingresso mais barato de 2008 (R$ 150) com o atual. Comparando o preço mais caro de 2008 (R$ 360) com o mais caro de 2012 (R$ 800), chegamos uma variação de 122,22%. O aumento percentual médio foi de 177,77%.  Conforme visto acima, a inflação oficial desde 2008 foi de 16,33%, ou seja, a inflação no ingresso do Bob Dylan foi, no mínimo, ONZE VEZES maior que a inflação brasileira no mesmo período. (Se alguém mais entendido nesse tipo de cálculo puder corroborar ou retificar os dados, please do.) Eu fiz uns graficozinhos para vocês entenderem direito o drama. Nada muito complexo.

 

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Os números deveriam falar por si, né? Já não bastou a indignidade dos preços para o show do Morrissey – área vip a R$ 520, num lugar sem infraestrutura, conforto ou sequer uma acústica decente. Nem comecem, então, a falar nos ingressos para o Ringo Starr (R$ 900) ou para o Clapton (R$ 1000). Sentiram um padrão se formando aí, gerado pelos piores aspectos do capitalismo brasileiro? O Dylan que vem agora é o mesmo Dylan que veio em 2008 e vai apresentar rigorosamente o mesmo show de 2008 – e no entanto, os preços estão ridiculamente mais caros. Teria Dylan majorado o valor do seu cachê de forma tão drástica? Acredito que não. O poder aquisitivo de seus fãs, definitivamente, não aumentou tanto assim. O Credicard Hall nãochega a ser tão suntuoso, em comparação com a Arena HSBC (local do show de 2008), para justificar tal aumento. Qual seria a razão? Vamos lá, atirem os suspeitos habituais. A meia-entrada, da qual todo mundo tira proveito mesmo. A nova classe média está com dinheiro pra torrar. O custo Brasil, sempre relevante. Etc. E como as pessoas como eu ficam nessa história? Não posso falar pelo resto dos fãs de Dylan. Sei que EU não tenho carteirinha para pagar meia entrada, nem falsa, nem verdadeira. (Mesmo que tivesse, vale dar R$ 250 por um ingresso nas “cadeiras laterais”, as quais, pelo nome, devem ficar viradas para as paredes e não para o palco?) Também não faço parte da nova classe média, a qual parece apreciar a ostentação (ainda que nem sempre tenha meios para tanto) – se tanto, luto para ficar pendurado na rabeira da antiga classe média. O custo Brasil, bem, desse eu não escapo. Mas nesse caso, ele se deve à ganância e à certeza de que sim, VAI HAVER GENTE disposta a pagar esse preço. Esse sim é o verdadeiro custo Brasil: a vocação para a malandragem (do lado de quem produz o evento) e a vocação para ser otário (do lado de quem paga caro). Então, para essa galera, lá vai uma musiquinha do bardo, feita de encomenda para eles:

ANA DE HOLLANDA: BALANÇA… MAS NÃO CAI?


A imagem acima é real. Digite “Ana de Hollanda” na janelinha do Google e as sugestões de “autocompletar” incluem “…caiu”, “…reforma”, “…reforma ministerial” e “…demitida”. Sintomático. Já nas primeiras semanas da gestão da (ex?) cantora e irmã de Chico Buarque no Ministério da Cultura, em 2011, começaram a surgir boatos de que Ana estaria balançando no cargo. Sob intenso escrutínio da imprensa, recebendo críticas de intelectuais e artistas, ela não apenas manteve-se no MinC, mas sobreviveu a 12 (!) trocas de outros ministros do gabinete de Dilma Rousseff. Sempre me pareceu estranha a, digamos, implicância que a mídia e a inteligentzia vêm demonstrando para com a irmã do Chico. Um ministério de orçamento pequeno e influência menor ainda, sempre debatendo-se contra a irrelevância, acabou ocupando páginas e mais páginas e gerando debates muito mais acalorados do que nos tempos em que Gilberto Gil era o titular. Por que será, hein?

Confesso que não sei avaliar se Ana de Hollanda é boa ou má ministra. Os bafafás nos quais a moça esteve envolvida me parecem herméticos, bizantinos. Ao mesmo tempo, ainda que ela esteja permanentemente em evidência na mídia, seu trabalho fica em segundo plano – não consigo me lembrar, de cabeça, de alguma resolução ou programa importantes postos em prática pelo MinC sob seu comando. Só o que me vem à mente é o corte aplicado ao orçamento dos Pontos de Cultura, decisão que muito agastou os defensores da gestão anterior do MinC. Fato é que ela escolheu bandeiras pouco simpáticas para levantar. As ligações perigosas entre o MinC e Ecad vieram à tona (e permaneceram mal explicadas). A batalha da ministra contra o Creative Commons virou um episódio menor diante da aparente desconfiança do Ministério em relação à cultura digital em geralA necessária reforma da lei de direitos autorais não tchuns, nem sai de cima. De um lado, na FolhaJuca Ferreira (de quem Ana herdou o MinC) bate pesado na gestão de sua sucessoracom o sangue nos olhos que só o despeito pode instilar. De outro, o Estadão faz uma defesa desabrida e um tanto bizarra da ministra, citando um suposto pedigree (?!) que o sobrenome Hollanda conferiria. Rolou também o tal domanifesto da intelectuália, pedindo a cabeça de Ana.

A que estamos assistindo? Uma luta de oligarquias entre a linhagem baiano-tropicalista e a linhagem carioca-buarquedehollandiana? A uma conspiração orquestrada pelas grandes companhias de mídia, a quem interessaria manter Ana de Hollanda no MinC? A uma cortina de fumaça alimentada pelo próprio governo, jogando luz sobre um ministério “menor” para disfarçar as crises que pipocam em ministérios “maiores”? A um caso gritante de, como diria o bardo, much ado about nothing? À manutenção de uma ministra “laranja” cuja única qualificação seria ser, como diz o tal do Neumane do Estadão, irmã do “maior ícone vivo da cultura brasileira”? Quantas perguntas, hein?

Toda essa charla aí em cima só serve para introduzir a minha história com Ana de Hollanda. No começo da década passada, eu trabalhava no site Cliquemusic. Uma de minhas atribuições, numa época de escassez total de mão de obra, era a de cadastrar os CDs que recebíamos das gravadoras e dos artistas. Dava um certo trabalho; eu precisava digitar os títulos das músicas e seus respectivos autores, escanear a capa, fazer o upload de 30 segundos de cada faixa, conferir os links de tudo… isso em concomitância com meus afazeres jornalísticos. Como resultado, a pilha de CDs aumentava diariamente, e eu não conseguia dar conta. Entre os discos que ficavam à espera de inclusão no site estava Um Filmelançado em 2001 pela (na época, apenas) cantora Ana de Hollanda. Conforme os dias foram passando e o disco de Ana não surgia na base de dados do site, a artista foi ficando cada vez mais inquieta. Ligou para mim (na época, o Cliquemusic funcionava na base do home office, e o telefone de contato da “redação” era o da minha casa) para perguntar quando o CD seria cadastrado – e consequentemente, quando sairia a resenha do mesmo, já que antes de publicar o texto, o CD precisaria constar da base de dados. Eu, até honrado pela (primeira) ligação, respondi polidamente que Um Filme estava “na fila” para entrar, era só ter um pouco de paciência.

Não foi o suficiente para convencer a futura ministra. Ela ligou mais uma vez, obtendo a mesma resposta (agora um pouco menos) polida. Menos de uma semana depois, Ana ligaria de novo, usando um tom mais exaltado, querendo saber quando é que afinal o CD apareceria no site. “Tem discos que saíram depois do meu e já estão publicados!”, argumentou a Buarque de Hollanda. Aí eu me irritei. Respondi que eu estava sozinho para cuidar de uma pilha enorme de CDs, que não tinha equipe para me ajudar, e que estava perdendo um tempo precioso ali batendo boca. Mas logo em seguida, diante do espanto que minha reação causou, me arrependi e pedi desculpas, prometendo que iria “pular a fila” e publicar logo o CD de Ana. De fato, naquele mesmo dia, parei tudo o que estava fazendo, ouvi o CD, cadastrei-o e subi a crítica. Ela pareceu satisfeita e nunca mais ligou.

Moral da história 1: quando se trata de divulgar seu trabalho musical, a futura ministra não parece ter tantas restrições à internet, né? Moral da história 2: se Ana de Hollanda ainda tiver essa tenacidade (sic) ao empenhar-se em ficar no ministério, vai ser difícil tira-la de lá.