JORNALISMO & MÍDIA

JornaliRmo Corporativo™ – A SÉRIE!

Espanando a poeira do blog, abandonado há meses, retomo o fio da meada iniciada com o GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVANuma espécie de tumblr improvisado, abrigado dentro do TdV, postarei diariamente conteúdos curtinhos – uma foto, um image macro, algumas linhas de texto – sobre as agruras que o profissional da comunicação corporativa enfrenta em sua labuta. Lembrem-se que (praticamente) tudo será extraído de experiências reais, ainda que os nomes e contextos exatos possam diferir um pouco, para proteger inocentes, culpados e, acima de tudo, a mim mesmo.

 

EPISÓDIO III: Habilidades desejáveis: inglês fluente, domínio do MS Office, telepatia

(Clique na imagem para ver uma versão maior.)

EPISÓDIO II: Mais uma típica rodada de pedidos de revisão

(Clique na imagem para ver uma versão maior.)

 

___________________________________________________________________________________________

 

EPISÓDIO I: Meu Word está sem corressão hortográfica 

Quem nunca, não é mesmo, minha gente? (Clique na imagem para ver uma versão maior.)

Capítulo I: O GLOSSÁRIO DA COMUNICAÇÃO CORPORATIVA.

Você é jornalista? Está empregado em um veículo de imprensa?  Digo, um veículo DE VERDADE – um jornal, uma revista, um site?  Presta contas sobre seu trabalho ao seu editor, e apenas ao seu editor, e ninguém mais?  Acredita que o seu “compromisso é com a verdade” e que o “leitor deve ser o único a julgar o seu trabalho”? Parabéns!

Ah, sim: você é um animal em extinção.

O conjunto de procedimentos e regras ao qual nos habituamos a chamar de “jornalismo” está mudando. E por “mudando”, eu quero dizer “em vias de acabar”. Vocês têm acompanhado as últimas notícias sobre o mercado brasileiro de comunicação? Ou mesmo as mais recentes conclusões sobre o futuro do jornalismo baseado em anúncios? Pois é, rapaziada, o negóço tá ruço.

Mas ainda que os empregos nas redações estejam desaparecendo (junto com as próprias redações), sempre haverá emprego para quem sabe escrever. Melhor ainda se esse camarada souber escrever de modo claro e conciso; conseguir obedecer a prazos e formatos bem definidos; souber como obter informações de outras pessoas.  Todo mundo tem uma história para contar, e não há profissional mais bem-preparado para conta-las do que os jornalistas. A diferença é que agora vivemos no mundo do conteúdo, e não mais no mundo do jornalismo. Conteúdo é uma espécie de jornalismo denorex: parece, mas não é. Em vez de trabalharmos na velha imprensa, trabalharemos em agências de comunicação, fornecendo palavrinhas, fotinhos e pagininhas para as mais diversas demandas de comunicação das mais diversas empresas. Em vez de termos um compromisso com a verdade (sic!), teremos um compromisso com o cronograma. Em vez de termos o leitor como juiz, teremos os clientes (empresas) nos julgando.

Entender como fazer a transição do jornalismo para o conteudismo é vital para o profissional de comunicação nos dias de hoje, e eu estou aqui para ajudar! Foi pensando nessa transição que resolvi escrever um livro sobre minha incursão no mundo do conteúdo. O Zen e a Arte de Gerenciar Projetos de Comunicação Corporativa é o título provisório da obra, e abaixo segue um trecho inédito: um rápido glossário de termos próprios do universo das agências de comunicação, para ajudar o pobre jornalista recém-chegado ao cenário. A conclusão do livro vai depender do meu tempo livre e, claro, da repercussão obtida por este post. Há algum interessado na plateia?

Conteudista em um raro momento de descontração na agência.

ATENDIMENTO. O setor responsável por fazer a interface entre o CLIENTE e a CRIAÇÃO e a prova viva de que sim, é possível servir a dois senhores. Isso quando o trabalho é bem feito, o que nem sempre acontece. Idealmente, deveria haver um equilíbrio entre a atenção dada ao cliente e o apoio ao trabalho da agência. Na vida real, na maioria das vezes o atendimento acaba pendendo para o lado do cliente (fazendo aquela média bacana com o pessoal da grana),  aceitando prazos impossíveis de cumprir e prometendo mundos & fundos os quais, muitas vezes, a agência não tem condição de executar. Costuma ser a ala mais arrumadinha e cheirosa da agência, composta basicamente por moças elegantes e dadivosas. Elas também detêm o conhecimento dos misteriosos meandros do MICROSOFT OFFICE, e são capazes de produzir apresentações em Power Point, CRONOGRAMAS em Project e tabelas de status em Excel, de modo profissional, clean e incompreensível.

APROVAÇÃO. O ritual místico no qual o CLIENTE dá seu OK ao material entregue pela agência. É um momento ansiosamente aguardado pelo cliente (que afinal vai ter o produto em mãos) e pela agência (que afinal vai poder faturar pelo trabalho). Mas nada é tão simples. As aprovações, via de regra, são feitas em vários níveis, após uma série de mudanças e correções (veja REFAÇÃO). No mínimo, o projeto precisa ser aprovado por um coordenador, um gerente de área e, na maioria dos casos, o diretor de comunicação da empresa-cliente. Esse diretor nunca tem tempo para nada e só vai ver o material às 17h55 de sexta-feira, para aí sim mandar refazer tudo do zero. A lentidão nas aprovações é um fator crítico no descumprimento dos CRONOGRAMAS.

BRIEFING. Todo JOB se inicia com um briefing, que vem a ser um resumo daquilo que o CLIENTE espera que a agência cumpra. Orientações básicas sobre estilo, conteúdo, contatos de pessoas a serem entrevistadas, objetivos principais do material a ser entregue, etc. Um bom briefing é sucinto e objetivo, descrevendo exatamente o que o cliente quer que a agência produza, sem se estender muito. Entretanto, bons briefings são artigos raros no mundo da CC. Em geral, os briefings são A) imprecisos, B) longos e confusos, C) crivados de expectativas irrealistas e/ou D) simplesmente imbecis. Boa parte das vezes, um único briefing se enquadra em todas as categorias descritas abaixo.

  • Exemplo de briefing A): “A reportagem tem que ter declarações das fontes X e Y, mas isso pode mudar. De qualquer maneira, ambos estão de férias agora. Talvez o diretor Z também entre. Mas não dá para confirmar isso agora. Vamos resolver depois de discutirmos internamente. Adiantem o que der enquanto isso.”
  • Exemplo de briefing B): “Temos de usar os recursos de storytelling, com um conteúdo bem em primeira pessoa, reforçando a busca pelo engajamento do usuário…” (seguem-se três páginas de yadayadayada)
  • Exemplo de briefing C): “Reportagem sobre as novas tendências da tecnologia. Entrevistados: Bill Gates, Larry Page, Mark Zuckerberg e Steve Jobs. Sim, sabemos que o Jobs morreu, mas vocês dão um jeito, né?”
  • Exemplo de briefing D): “Tema: o futuro das mídias digitais. Entrevistem dois especialistas, um contra e outro a favor.” (Esse é verdadeiro, eu mesmo fiz a reportagem.)

CLIENTE. A entidade em torno do qual gravitam as agências. Fonte de aporrinhações, noites mal-dormidas, trabalho no fim de semana, choro e ranger de dentes, mas também fonte do todo-poderoso faturamento. A galera do CONTEÚDO e  da CRIAÇÃO tem uma relação de amor e ódio com o cliente. Sem cliente, não há trabalho, nem dinheiro… mas também não há REUNIÕES, CRONOGRAMAS ou REFAÇÕES. Já a turma do ATENDIMENTO se sente muito à vontade com os clientes – claro, precisam fazer aquele social bonito para garantir que tudo saia bem. Nas palavras imortais de uma bela jovem (profissional de atendimento, claro) com quem trabalhei: “Vocês não deveriam reclamar tanto dos clientes. Eles pagam os seus salários.”

CONTEÚDO. Os textos, layouts, websites, fotos, ilustrações, infográficos, vídeos, animações, podcasts, aplicativos etc. que são produzidos pela agência e entregues aos CLIENTES. Acerta-se o JOB, recebe-se o BRIEFING, produz-se o conteúdo, entrega-se ao cliente, faz-se as REFAÇÕES pedidas, devolve-se o material e aguarda-se a APROVAÇÃO. É meio confuso explicar o conceito para os profissionais da velha guarda (especialmente jornalistas). Quanto mais rapidamente o profissional se desapegar do conteúdo que produz, mais tranquila será a sua vida. Ver também CONTEUDISTA.

CONTEUDISTA.  O conteudista é um profissional altamente demandado nas agências de comunicação. Sua função é produzir todo o tipo de textos: revistas, jornais, sites, posts de redes sociais, informes publicitários, slogans, anúncios, legendas para vídeos…  Não me canso de repetir: o jornalismo como o conhecíamos no século passado é uma arte morta. Resta às legiões de jornalistas desempregados realizar o salto definitivo rumo ao conteudismo – ou seja, escrever qualquer tipo de CONTEÚDO que demande texto. Nas agências de publicidade de formato clássico, essa é a seara dos redatores. Com a multiplicação dos projetos de comunicação corporativa e de branded content, mais e mais jornalistas estão se enquadrando no perfil. No começo, a adaptação é difícil. O jornalista que vem de uma redação vai sofrer muito até se encaixar nesse estranho mundo de CRONOGRAMAS, APROVAÇÕES e DUPLIPENSAR CORPORATIVO. Mas não se enganem, coleguinhas: caminhamos rumo a um futuro em que o jornalismo “puro” será algo cada vez mais raro. O conteudismo é única saída.

CRIAÇÃO. A porção da agência que concretamente trabalha no CONTEÚDO a ser entregue ao CLIENTE: (ex-)jornalistas, redatores, designers, consultores de mídias sociais. A CRIAÇÃO vive acossada, lutando contra CRONOGRAMAS pouco realistas, rebatendo os pedidos de REFAÇÃO enviados pelos CLIENTES e as incessantes demandas repassadas pelo ATENDIMENTO, e tentando se esquivar das constantes REUNIÕES.

CRONOGRAMA. Peça ficcional produzida em conjunto pela agência e pelo CLIENTE, fixando datas para a execução das várias etapas de um dado JOB. Funciona assim: depois de estabelecido o escopo do projeto, a agência apresenta o cronograma ao cliente, produzido com o misteriosíssimo e impenetrável Microsoft Project (ver MICROSOFT OFFICE). É um tabelão cheio de datas, linhas e prazos de entregas; o pessoal da CRIAÇÃO dá uma olhada, finge que entendeu e aprova. O cliente olha e diz que X dias devem ser diminuídos do tempo de produção – o que vai obrigar a agência a trabalhar mais rápido. A agência corre atrás, se desdobra e entrega o negócio no prazo menor… apenas para o projeto emperrar no labirinto das REFAÇÕES e das APROVAÇÕES. Não há, nunca houve e nunca haverá um cronograma cumprido à risca. Como costumo dizer, mais inútil que um cronograma, só mesmo o corretor ortográfico do Word. Ou, de acordo com uma das mais exatas leis de Murphy, “Nunca há tempo suficiente para que o trabalho saia perfeito, mas sempre há tempo para refações.”

DUPLIPENSAR CORPORATIVO. O jargão muito específico usado nas agências de conteúdo. Várias palavras aparentemente corriqueiras têm seu sentido modificado, enquanto outras, inventadas, surgem para explicar (ou não) situações inauditas. Seguem alguns exemplos:

  • Alinhamento: tentativa de garantir que todas os profissionais envolvidos em dado projeto estejam trabalhando com os mesmos objetivos, metas e prazos em mente. Nunca dá certo.
  • Demanda: problema.
  • Desafio: problema.
  • Desenvolvimento de competências: o popular desvio de função. “Fulana, do atendimento, saiu? Ah, vamos passar os clientes dela para a Beltrana. Será ótimo para ela desenvolver mais competências.”
  • Em negociação: enrolando.
  • “Estamos muito preocupados”:  prenúncio polido para algum tipo de esporro mais sério. “Estamos muito preocupados com o atraso no CRONOGRAMA…”
  • Oportunidade: problema.
  • Parceiro: profissional ou empresa disposto a trabalhar de graça, já que “vai ser bom para ele aparecer”.
  • Questão: problema.
  • “Vai ser bom pra você aparecer”: argumento principal usado para convencer alguém a se tornar um parceiro. O conceito é intimamente ligado ao de desenvolvimento de competências. Variações: “Vai enriquecer seu currículo” ou “Quebra essa agora, que mais trabalhos virão no futuro”.

JOB. Sinônimo anglicizado para “projeto”. Participar de um job é a garantia certa de encontrar demandas, desafios e oportunidades para desenvolvimento de competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO, acima).

MICROSOFT OFFICE. A fonte de onde emana todo o CONTEÚDO, devidamente formatado e empetecado. Antes de o jornalista aderir às hostes doa jornalismo comunicação corporativoa, é perfeitamente possível que ele tenha passado a vida usando apenas o bom e velho MS Word – e apenas para escrever, e olhe lá. O primeiro choque vem quando ele descobre que é possível deixar comentários (gasp!) em textos do Word. É assim que o CLIENTE sinaliza as REFAÇÕES inevitáveis que precisam ser feitas no texto. Depois, ele vai ter de aprender a usar o Excel, para acompanhar o status do CRONOGRAMA, saber quais pendências precisam ser resolvidas, etc. O próximo passo é compreender os recursos infinitos do Power Point, usado para fazer lindas e convincentes apresentações multimídia para os CLIENTES. Finalmente, quando o cansado ex-jornalista em atividade for um CONTEUDISTA pleno, vai dar o grande salto: aprender a usar o Project, com o qual se constroem os CRONOGRAMAS. Ninguém disse que seria fácil, colega.

REFAÇÃO. Palavra favorita do CLIENTE, aplicada quando surge a necessidade de refazer alguns, vários, ou TODOS os detalhes de algum item de CONTEÚDO. Outro termo exclusivo do universo das agências de comunicação/marketing. Eu mesmo só fui conhecer depois que entrei para o mundo da comunicação corporativa – e franzi a testa ao ouvir pela primeira vez, achando tratar-se de um erro. Para minha surpresa, conferi que a palavra existe no dicionário. Provavelmente vem do inglês remake. Ao menos uma vez, já ouvi a variação “refazimento” sendo usada, mas essa eu tenho certeza que não existe no Aurélio.

REUNIÃO. Ritual em função do qual toda a comunicação corporativa se organiza. Se a CC fosse um religião, a reunião seria a missa. Tudo em um projeto de CC gira em torno de reuniões, que são marcadas para iniciar o processo, para dar continuidade ao processo, para acompanhar o processo, para acompanhar o acompanhamento do processo, para promover o alinhamento, distribuir novos desafios, delimitar novas competências (ver DUPLIPENSAR CORPORATIVO), rediscutir o CRONOGRAMA, debater as REFAÇÕES a serem feitas, apresentar propostas em ppt (ver MICROSOFT OFFICE)… Entre uma reunião e outra, os CONTEUDISTAS tentam trabalhar. Às vezes, eles até conseguem.

RAFINHA BASTOS NA REDETV!: COMO IR DE 4.518.384 A 0.8 EM ZERO SEGUNDO

Não assisti à estreia do Saturday Night Live brasileiro, transmitido ontem (domingo – não sábado, domingo) pela RedeTV!. Mentira: para não dizer que não assisti, dei uma olhada em dois quadros, um que não entendi (protagonizado por dois caras que se xingavam “amistosamente” e duas mulheres que se autoflagelavam) e outro que entendi, mas que não teve graça alguma (o do casamento no qual a noiva era homem). Sou fã do programa original e tinha curiosidade para ver como o negócio iria ficar, ainda que sem muitas expectativas quanto à qualidade do programa ou mesmo sobre a validade da proposta. Afinal, se um SNL brasileiro fosse realmente uma boa ideia, não teria parado nas mãos da RedeTV!, né?

Mas mesmo sendo ruim, péssima ou pavorosa, a versão brasuca do programa despertou em mim umas ideias. Hoje pela manhã, o Ibope anunciava que a estreia do show fora um fracasso de audiência. Muita polêmica em torno de seu comandante, o comediante Rafinha Bastos, muita expectativa em torno do conteúdo da atração, e no fim deu em quase nada: 0,8 pontos de média na Grande São Paulo, o que, extrapolando para a média nacional, equivaleria a pouco mais de 152 mil domicílios. Até aí, nada de anormal. A RedeTV! sempre capengou na audiência e nem mesmo os mais otimistas esperariam que o SNL pudesse fazer frente a Gugu, Faustão e Silvio Santos.

O “anormal” é que Rafinha Bastos é uma personalidade mundial no tal mundo das redes sociais. Seu twitter é seguido, no momento em que digito, por 4.518.384  outros tuiteiros. Seu perfil para tuites em inglês (!) tem mais de 15 mil seguidores. No ano passado, uma pesquisa publicada no site do The New York Times apontava que o comediante era, então, o tuiteiro mais influente do mundo. Ora… a conta não fecha, né? Desses 4,5 milhões de pessoas que recebem os tuítes de Bastos, seria razoável supor que 99,99% tenham uma TV em casa. Onde estavam todos esses tuiteiros ontem? Por que a personalidade mais influente de uma das redes sociais mais bombadas não conseguiu traduzir esse prestígio internético para o mundo da old media?

Já tinha abordado uma questão semelhante nesse post aqui, publicado originalmente no ano passado. O fato é que todos nós (produtores, difusores e consumidores de conteúdo) ainda estamos tentando entender como funciona a conversão de valores entre a nova e a velha mídia. Milhares de “Likes” no Facebook valem quantos pontos de audiência?  Um vídeo com um milhão de execuções no YouTube foi visto por quem – por um milhão de pessoas ou por mil pessoas que clicaram mil vezes no link? Quanto vale para um patrocinador a presença de um tuiteiro com 4,5 milhões de seguidores? Quanto vale, em dinheiro do mundo real, uma companhia que presta serviços a (e é amada por) centenas de milhares de pessoas, mas que, na prática, não produz nada? 

Quem, como eu e você, passa muito tempo online, pode acabar achando que o mundo todo cabe na internet. Mas não cabe. Se cada um dos seguidores de Rafinha assistisse a seu programa, teríamos aí (considerando um tuiteiro por domicílio) mais de 23 pontos de Ibope nacional. (Humildemente, peço ajuda a qualquer leitor que entenda de estatísticas para corrigir meus cálculos e/ou meu raciocínio.) Mas esse batalhão de gente só segue o cara na web. Na web, o que basta para você dar sua audiência a alguém é um clique. Um retuite, um “Curtir”, uma hashtag. A mesma pessoa que faz isso para o Rafinha também o faz para o Luciano Huck, para o Marcelo Tas, para os caras do Pânico. Ao mesmo tempo, eles comentam posts de blogs e de portais de notícias, repassam memes em redes sociais, adicionam material a seus boards no Pinterest. Tudo junto. Essa é a lógica  - e a graça – da internet: absorver tudo ao mesmo tempo, já que é uma informação que vem de graça, chega rápido e vai rápido. E com a qual as pessoas se relacionam de modo diferente, horizontal e integrado. A fama do Rafinha se deve aos milhares de retuites que seus chistes ganham diariamente. O espectador é, de maneira nem tão indireta assim, um co-produtor do conteúdo que ele solta. Se ninguém o retuitasse, seus 4,5 milhões de seguidores não valeriam nada.

Old media não é assim. Mesmo um programa mambembe como o SNL brasileiro custa caro e precisa se pagar para manter-se no ar. E exige de seus espectadores coisas que, hoje em dia, valem muito mais do que dinheiro: tempo e atenção. Retuitar uma piada do Rafinha leva meio segundo. Daí a presumir que essa mesma pessoa vai plantar-se diante da TV por 90 minutos, aturar intervalos comerciais (e sem o botão “Você pode pular esse anúncio em 5…”) e valores de produção duvidosos, aí é esperar um pouco demais. O tchan da internet é a agilidade e o do-it-yourself, é imaginar que um moleque com um Photoshop e uma sacada boa pode criar um meme, atingindo instantaneamente um público enorme. Mas a midia mainstream não é assim. Há equipes, executivos, decisões, produções… e há a necessidade de retorno, financeiro e/ou de outras formas. E as expectativas do espectador são, naturalmente, mais altas. Na internet, aprovamos um conteúdo quando nos identificamos com o que foi comunicado, ou mesmo quando sacamos que poderíamos fazer igual (ou melhor). Vivemos conectados o tempo todo, consumindo e descartando mídia em alta velocidade – porque ela está ali, também o tempo todo. Se não olhamos agora, olhamos depois. Ou não olhamos, seguimos adiante; tem sempre um link novo à espera. Na TV (ou no cinema, ou no rádio) – com hora marcada para começar e terminar, e o pré-requisito da atenção exclusiva – queremos mais. Ou então ficamos com aquela pulga atrás da orelha. “Ora, se era para ver isso aí, eu ficava no YouTube mesmo.”

Dai o abismo entre o prestígio na web e a audiência de massa. Rafinha surgiu ao fazer um barulhão (na web) participando de um programa que nunca passou de um barulhinho (para o público de massa). A audiência decepcionante do SNL reafirma, mais uma vez, que alguns fenômenos da web nem sempre se traduzem facilmente para a mídia mainstream. E às vezes são intraduzíveis mesmo e pronto. Por isso é que ficou fácil para o Dr. Rey, que estreou ontem na RedeTV! logo depois do Rafinha, ultrapassa-lo no Ibope. O programa do médico (?) lança mão de um meme antiquíssimo, que precede toda a mídia, velha ou nova, de massa ou de nicho, mas que continua infalível: mulher pelada.

 

LOL CATS: O FUTURO DA TV?

(Publicado originalmente em 19/09/2011.)

Domingo à noite, aquela depressão que bate ao pensar na segunda-feira prestes a começar, e você sintoniza no Fantástico. Talvez por inércia, talvez porque não haja mais nada que preste na TV, talvez por gostar de verdade do programa. Aí você nota, entre uma reportagem sobre comportamento de adolescentes e uma entrevista chapa-branca da Patrícia Poeta, uns quadros meio estranhos. Tipo esse aí, do vídeo abaixo.

Ou então esse outro aqui:

Estranho, né? Você pagou uma nota para ter uma TV fininha de LCD, paga outra nota para assinar canais em full HD, e se depara com aquelas imagens em baixa definição, francamente amadoras, registradas com câmeras não-profissionais, e supostamente “divertidas” ou “intrigantes”. Pior: são imagens que você já viu em algum lugar – num linque enviado por email, no YouTube, no seu celular. Pior: você nota que essa, digamos, “opção estética” não se restringe ao Fantástico, mas também está se alastrando para outros programas.

Já percebeu quantas vezes a expressão “fenômeno na internet” tem sido usada na TV brasileira? E que cada vez mais, assuntos, personagens e principalmente imagens que nunca teriam espaço na televisão há 10, 15 anos estão ganhando destaque, apenas porque viraram “fenômenos na internet”? Note que nem me refiro a gente como Felipe Neto, que saltou de um canal do YouTube para o Esporte Espetacular. Falo do deslumbramento que a TV está demonstrando diante de qualquer porcaria que alcança notoriedade na web. Estamos tratando aqui da Globo, uma das maiores redes de televisão do mundo, que tem uma verdadeira indústria state of the art de produção de jornalismo e dramaturgia – e que dedica cada vez tempo a imagens tremidas, de gosto e qualidade dúbios, cujo único mérito foi terem se transformado em… “fenômeno na internet”. Sabe no que eu penso quando ouço essa expressão, “fenômeno na internet”?

Nisso aí. É nisso aí que eu penso quando ouço a expressão "fenômeno na internet".

É compreensível que a TV tenha curiosidade sobre a internet. Ainda é um meio novo, que está ganhando popularidade e influência num ritmo galopante aqui no Brasil, com o (relativo) barateamento das conexões rápidas e dos smartphones. Mas esse fascínio parece contraproducente. Elevar ao nível de “notícia” um meme ou um vídeo viral – coisas que nasceram para ser compartilhadas e descartadas imediatamente – é, na melhor das hipóteses, sinal de que os manda-chuvas da TV não entendem a lógica do fluxo de conteúdo na web. Na pior, significa que a preguiça e o descaso com o telespectador chegou a um nível assombroso. “Ei, tem esse vídeo aqui do gatinho! Milhões de views! Vamos repeti-lo no Fantástico, é sucesso certo!” E aí ficamos todos com nossas telas de LCD, revendo bobeiras registradas em péssima qualidade – e que provavelmente já assistimos na internet mesmo.

Vale fazer uma comparação com a reação que o cinema americano exibiu diante do avanço da TV, há cerca de 60 anos. No começo da década de 1950, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) começou a regulamentar o serviço das redes de televisão no país, o que coincidiu com a primeira explosão nas vendas dos aparelhos de TV domésticos. Já havia transmissões por lá desde 1928, a princípio experimentais, e a partir de 1946, regulares, com grade de programação e tudo o mais. A TV popularizou-se inicialmente na costa leste dos EUA: em 1947, dos estimados 44 mil aparelhos domésticos existentes no país, 30 mil estavam na região metropolitana de Nova York. Enquanto isso, na costa oeste, o cenário em Hollywood não parecia tão promissor. Em 1948, um processo federal contra os estúdios Paramount abriria o precedente para que, para combater a formação de cartel, a estrutura que permitia a existência do studio system fosse desmontada – o poder dos grandes estúdios de Hollywood provinha da verticalização da atividade cinematográfica, controlando a produção, distribuição e exibição dos filmes. Obrigados por lei a dissolver o esquema, os estúdios major (MGM, RKO, Columbia, Warner e a citada Paramount) perderam grande parte de sua capacidade de dominação dos meios de comunicação. Essa derrota, combinada com a ascensão da televisão – gratuita e conveniente, instalada nas salas de estar de cada família – fez com que os peixes graúdos de Hollywood balançassem. A quantidade de filmes produzidos caiu drasticamente a cada ano, acompanhando a queda nas bilheterias a partir de 1950 (tido como o último ano da era dourada do cinema americano).

Os estúdios, entretanto, contratacaram. E contratacaram fazendo o que sabiam fazer melhor. A TV era de graça e estava na casa de todos? OK, vamos provar que vale a pena pagar o ingresso e ir ao cinema. Vamos fazer filmes maiores, mais elaborados, mais portentosos. Vamos intensificar o uso da cor (afinal, a TV ainda era P&B). Contra a telinha pequena dos aparelhos da época, dá-lhe Vistavision, Cinemascope, filmes rodados em 70mm, em 3-D, exibidos em telas ultrapanorâmicas. Ou seja, o cinema tentou provar seu valor e suas vantagens, diante do novo e rapidamente massificado meio de comunicação. A reação de Hollywood não impediu que a TV dividisse, na segunda metade do século 20, o espaço que antes cabia apenas aos filmes no imaginário popular. Mas ao menos eles tentaram. E tentaram da maneira certa: reforçando aquilo que eles sabiam fazer de melhor.

Corta para a segunda década do século 21. A internet é, para a old media, o que a TV representava para o cinema nos anos 50. Algo novo, acessível, (mais) barato, abrindo várias possibilidades para distribuição de áudio & vídeo & jogos & textos & etc. De repente, a TV não é mais o modo preferencial e default pelo qual as pessoas acessam seus interesses (jornalismo, entretenimento, esportes, etc.). Assim como, no começo dos anos 1950, o cinema começou a perder sua primazia como principal canal de conteúdo audiovisual. E o que a TV faz, diante desse desafio? Contra-ataca como o cinema o fez, demonstrando aos espectadores que ainda há coisas que só a TV pode fazer? Não. Adere, embasbacada, ao festival de bobeiras que a internet pode produzir. E que deveria continuar restrito aos domínios da internet. Uma coisa é você interromper seu trabalho por 30 segundos para assistir a um linque no YouTube. A outra é uma rede de TV gastar neurônios (de seus profissionais) e tempo (de seu espectador) para exibir isso em horário nobre. A relação que o espectador tem com TV é completamente distinta daquela que ele mantém com a internet (mesmo porque na internet não somos meros espectadores.) Invoco Kurt Cobain e clamo: “Here we are now, entertain us!”… e vocês nos dão isso?!

Na batalha travada contra a TV, o cinema tinha uma vantagem crucial, que a caixinha da sala de estar nunca poderia ter: era uma experiência social, e ainda é. Ir ao cinema, por si só, é um programa com “valor agregado” – mais ainda nessa era de projeções 3-D, som THX, telões IMAX e sacos de pipoca XXL. A TV tem a favor de si apenas a comodidade. E mesmo nesse aspecto vem perdendo terreno para a internet, que está em todo o lugar – no celular, no relógio, na geladeira. E tudo o que a TV tem a oferecer são… “fenômenos da internet”, ocupando o espaço que deveria ser de produções e conteúdos originais?

Não sei não.

O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE JORNALISMO!

Inédito, exclusivo para o t.d.v (27/05/2007)

Certas frases que leio por aí, mesmo não sendo originalmente humorísticas, causam-me frouxos de riso. Gosto, por exemplo, de ler entrevistas com jornalistões velhos, veteranos. Percorro o texto com minha técnica improvisada de leitura dinâmica e, batata, lá está a bendita frase: “Um dia, bati à porta do jornal tal, pedi um emprego de repórter e consegui”. Uma pândega! Outro tipo de texto que sempre me diverte são reportagens sobre os vestibulares para comunicação social. Vejam só: este ano, na prova para a Unicamp, a relação candidato-vaga bateu nos 37 (candidatos) para uma (vaga). Na Universidade Federal Fluminense, a coisa chegou a 26/1 (quando ingressei na mesma instituição, há distantes 16 anos, era 16/1). Hilário!

Divirto-me lendo essas coisas ao constatar que tanto os veteranos do jornalismo quanto os aspirantes à mesma carreira se irmanam num ponto – eles não têm a mínima noção do que se passa nas redações hoje em dia. Vá você, meu caro estudante de comunicação, bater à porta de um grande jornal, em 2007 (ou em 2000, ou 1996, ou 1990…) para “pedir um emprego de repórter”. O mais provável é que você não ultrapasse a portaria. Se ultrapassasse (e vamos supor também que você saiba a quem pedir o tal emprego) verificaria que não há emprego. Há, no máximo, TRABALHO para repórter, o que é uma coisa bem diferente. Pergunte aos coleguinhas que têm de emitir nota fiscal para receber seus salários, quer dizer, seus pró-labores mensais, e eles te explicarão as diferenças.

Igualmente sem noção são o mancebo ou a moçoila que, sofregamente, enfiam a cara nos livros para vencer a dura corrida por uma vaga num curso de comunicação. Porque, meu filho, 37 para 1 não é bolinho não. O cara não pode brincar de estudar; tem que comer os livros mesmo. E pra quê? Para, ao final de quatro ou cinco anos, ser jogado na rua da amargura com um diploma de bacharel em comunicação social, tendo de enfrentar uma relação candidato/vaga (de emprego) mil vezes pior. A cada semestre, sei lá eu quantas centenas (milhares?) de bacharéis caem na vida, disputando encarniçadamente o direito a um posto de trabalho que, 99% das vezes, não existe. (Pausa para uma recomendação de leitura: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=359ENO001)

Porque, meu caro jornalistão velho, minha cara caloura do primeiro período, arrumar emprego em jornalismo não depende de preparação, de destemor ou de capacidade intelectual. Depende de uma série de fatores que não se apreendem na faculdade, nem no exercício da profissão. Jornalismo é oligarquia – às vezes, monarquia, aquela de direito divino, mesmo. Em oligarquia não existe espaço para edificantes historinhas de ascensão-pelos-próprios-méritos. E no mundo do jornalismo, fundamentado em uma oligarquia das mais estanques e impermeáveis, não é diferente.

Não seria bom se alguém avisasse isso aos incautos, na hora em que eles marcam a opção “Comunicação Social – Habilitação: Jornalismo” no formulário de inscrição no vestibular? Como saber as chances reais que esse mesmo incauto acima tem de vencer na selva das redações? Quais são as habilidades que ele deve desenvolver? Quais características ele deve procurar cultivar?

Pois é disso que este texto trata. Com vocês, sem mais delongas, segue…

O VERDADEIRO MANUAL DO CANDIDATO AO VESTIBULAR DE COMUNICAÇÃO

A seguir, deslindarei os talentos fundamentais que um aspirante a jornalista deve possuir para ir adiante na carreira. A apresentação das mesmas virá em ordem decrescente, da mais importante para a mais dispensável. Junto a cada descrição, aponto duas estimativas porcentuais sobre o futuro profissional do homem (ou mulher) de imprensa que possuir a tal característica: a primeira relativa à chance dele (dela) arrumar o primeiro emprego, a segunda sobre a capacidade que ele (ela) terá de se dar bem no ofício.

Desnecessário dizer que todos os exemplos que citarei nos tópicos a seguir são fictícios e postos no texto para mera ilustração de caráter humorístico. E não têm, em hipótese alguma, ligação com pessoas vivas, ou mortas, ou por nascer.

Lembre-se, o fato de não possuir uma, duas ou todas as características listadas abaixo não significa, necessariamente, que você não vai conseguir vencer no jornalismo. Vai ser mais difícil, diria eu quase impossível; as coisas vão andar muito mais lentamente para você do que para os outros. Mas, como eu aponto lá no final, perseverança também conta. Pouco, mas conta.

Para se dar bem no jornalismo, você deve ter os seguintes talentos (de preferência nesta ordem):

1. SER PARENTE DE ALGUM JORNALISTA CONSAGRADO
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: variável, mas em geral a partir de 90%

Em uma oligarquia, nada supera os laços sanguíneos. Capacidade, formação, experiência, preparo, pau grande; tudo isso fica em segundo plano, se você tiver que disputar uma vaga com o parente de algum figurão. Quanto mais proeminente na profissão (dono de jornal, bingo!; editor, editor-executivo, diretor de redação, OK; seu primo que acabou de virar estagiário, não OK) for seu ancestral, melhor. Quanto mais direto for o parentesco, melhor. Filho? Perfeito. Neto? Bom também. Sobrinho? Tá valendo, tá valendo. Aquele primo seu que você só conhece de ler o nome dele no jornal? Hmmmm, acho que não. Ser parente de um jornalista bem-posto na carreira é garantia certa de arrumar o primeiro emprego. Geralmente se começa por baixo – um estágio, uma vaguinha temporária, um frila meia-boca. Mas dado o impulso inicial, a bola passa a rolar rápida. Seu primeiro emprego pode não ser na mesma empresa em que seu parente importante trabalha. Na verdade isso é até comum, propositalmente comum; como em jornalismo todo mundo conhece todo mundo (veja o talento n°3), o que não falta é oportunidade para aquele parente-de-figurão. “Ô, fulano, quebra essa pra mim, arruma uma coisinha aí pro meu sobrinho. Ele tá começando agora, pode ser qualquer coisa…” Colocando você em outra empresa, seu ancestral influente não vai precisar se preocupar com as fofocas sobre nepotismo. Não se preocupe: sabendo quem é seu padrinho, as pessoas vão tratá-lo bem, não importa onde for. Faça o arroz-com-feijão, mantenha-se marginalmente acima do medíocre e relaxe. Cedo ou tarde seu nome será lembrado para cargos melhores. Geralmente os mais cobiçados, tipo colunista ou correspondente internacional (às vezes ambos ao mesmo tempo). Em caso eventual de desemprego, há a garantia de uma rápida recolocação. Vacilos pequenos ou até médios serão relevados, dependendo da importância de seu parente. Apenas evite as cagadas de grande porte – a menos que você seja filho único do dono de algum grande conglomerado de comunicação, aí vale tudo. O lado ruim dessa moleza é a já citada fofoca. Invariavelmente, você será alvo de comentários maldosos, que atribuirão sua posição profissional não à sua capacidade, mas à influência de seu padrinho (no sentido Mario Puzo do termo). Você, claro, deve cagar para os comentários e seguir impávido adiante.
Os casos práticos de aplicação deste talento são tantos que é difícil escolher um exemplo só. Lembre-se que boa parte das corporações de comunicação no Brasil são empresas familiares, nas quais há todo um incentivo para que as novas gerações substituam as antigas.

2. SE CASAR (OU NAMORAR, OU APENAS… VOCÊ SABE) COM ALGUM JORNALISTA INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100%
Chance de se dar bem na carreira: muito instável, mas em geral alta.

Se você não nasceu nobre, sempre resta o recurso de atrair a nobreza para sua cama. Conseguir uma ligação amorosa, mesmo que efêmera e de caráter meramente carnal (A.K.A. “teste do sofá”) com um nome importante no jornalismo tem um poder incontestável de abrir portas. Quer subir rápido na carreira? Escolha um alvo, naturalmente alguém bem importante, e invista sem trégua. Uma vez conquistado o coração do(a) big shot, faça de tudo para agradá-lo(a) e prolongar a vida do relacionamento. Vale tudo: flores, bombons, pompoarismo, aquela gravidez não-planejada (me engana que eu gosto!)… Você verá como as coisas vão melhorar pro seu lado, de modo bem rápido. Em geral, à medida em que seu ente amado for ascendendo, você tende a ir no vácuo. São conhecidos casos de repórteres inexperientes que, depois de cederem aos encantos de seus chefes, ganharam promoções, postos de trabalho no exterior e até, vejam vocês, polpudas pensões alimentícias. Uma dica para quem demonstra vocação nesta área: não perca tempo com redações de veículos impressos. Parta logo para as emissoras de TV, onde o toma-lá-dá-cá carnal é mais franco e direto (e os salários são melhores). Este talento é mais disseminado entre as aspirantes do sexo feminino, uma vez que a maioria dos postos de direção nas empresas de comunicação é ocupado por homens. O que não quer dizer que os mancebos não devam arriscar seus galanteios pra riba das superiores. (E dos superiores também, por que não?) Claro que no caso da investida homem-contra-mulher, a coisa deve ser levada com um pouco mais de tato e delicadeza. Um flerte feminino pode ser interpretado como uma brincadeira charmosa. Um flerte masculino costuma dar em processo por assédio.
As vantagens e desvantagens deste talento são mais ou menos os mesmos do talento n°1. Quem trepa – perdão – sobe na carreira por conta da influência de seu cônjuge tem de aturar uma dose ainda maior de fofoca, o que pode ser especialmente cruel para com as mulheres. É preciso redobrar o cuidado com seu desempenho profissional, depois de arranjar o tão sonhado primeiro emprego. Lembre-se que se você for um jornalista medíocre, seu status vai durar apenas enquanto seu love affair estiver em vigência. Trabalhe direitinho, esforce-se, puxe os sacos certos, cumpra seus horários; assim, se o romance acabar de uma hora para a outra, você será lembrado por seus próprios méritos, e não apenas por ser a(o)-fulaninha(o)-que-deu(comeu)-pro-editor(a). Outra desvantagem radical é a possibilidade de você se enrabichar por um psicopata travestido de diretor de redação. É raro, mas já aconteceu e está documentado (http://multimidia.terra.com.br/jornaldoterra/interna/0,,OI69142-EI1038,00.html).

3. SABER COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: fazendo o jogo direitinho, com paciência, 100%.

Num ramo profissional no qual as vagas rareiam e os candidatos abundam, a capacidade de criar um personal social networking é crucial. No jornalismo, mais que isso: se você não deu a sorte de nascer parente de algum figurão, ou não tem suficiente sangue-frio (ou os predicados físicos) para seduzir seus superiores, é IMPERATIVO que você faça o maior número possível de amigos. Não importam suas opiniões e preferências pessoais, sua personalidade ou seu temperamento. Você DEVE, repito, em maiúsculas novamente, DEVE ser tão cativante, confiável, simpático, agradável, espirituoso e gente-fina quanto possível. O objetivo é criar uma ampla rede de amizades que possam te levar adiante na profissão. Sem amigos, um jornalista não chupa nem um Chicabom. Subir na carreira então, nem pensar. Quanto mais amigos você tiver, de preferência em várias redações, maior é sua chance de conseguir o primeiro emprego e também de manter-se empregado. Porque, conforme já demonstrado na descrição dos dois primeiros talentos, não importa o que você sabe ou pode fazer e sim quem você conhece. Raciocine comigo: há uma vaga no jornal X, que tem de ser preenchida pela indicação do editor Y. Se Y não tiver algum parente (talento n°1) que se encaixe na vaga, nem um(a) namorada(o) aproveitável (talento n°2), vai sobrar quem para indicar? Os amigos, ora! E é aí que você entra.
Esse talento, diferente do primeiro (que envolve laços sanguíneos) e do segundo (que, sejamos claros, envolve beleza física), pode ser aprendido e desenvolvido por qualquer um. Mas a fina arte da brodagem tem meandros e sutilezas infindas. É preciso saber de quem se aproximar; evitar a fama de puxa-saco; avaliar quais amizades valem a pena cultivar e as dignas de dispensa; entender que é razoável passar por antipático diante de 20 colegas, se isso render a cumplicidade de um chefe; desviar da síndrome de arroz de festa, aquele chato que tenta desesperadamente ser amigo de todo mundo. É importante resistir à tentação de ficar “metido” assim que assumir um cargo importante. Eu sei, é irresistível assumir uma postura arrogante uma vez estando por cima da carne-seca. É a vingança, o desconto por anos de humilhação. Conselho de amigo: mantenha-se o mesmo camarada simpático de antes. Nunca se sabe o dia de amanhã. (Como era aquele ditado mesmo? “Seja legal com as pessoas que você encontra na subida, pois você as encontrará de novo na descida”. Ou algo assim.) Sua ascensão vai depender da solidez de suas amizades, da posição que seus amigos ocupam e, por último mas não menos importante, de sorte. Portanto, espere uma caminhada mais lenta e penosa rumo ao topo, em comparação com os coleguinhas que dispoêm dos talentos n°1 e/ou n°2. Mas a longo prazo, este talento pode ser mais vantajoso que o n°2. Se você mantiver a fama de cara maneiro, tenderá a manter os amigos para sempre (e ganhar outros com o tempo). Já os romances costumam ser muito mais instáveis que as amizades…

4. SER MEMBRO DE ALGUMA FAMÍLIA RICA E/OU INFLUENTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 80%
Chance de se dar bem na carreira: 75%

Grana & poder nunca atrapalharam ninguém. Qualquer que seja seu projeto de vida, com dinheiro no bolso e/ou parentes influentes tudo se torna mais fácil. Dentro do jornalismo não é diferente. Um sobrenome bacanudo pode garantir uma vaga em redação, desde que você saiba onde procurar. O fato é que jornalista é uma raça bajuladora e interesseira por natureza; muitas vezes, filhos de famílias importantes têm precedência na hora de conseguir o primeiro emprego, porque a coisa vira um “favor pessoal” ao chefe do tal clã influente. Exemplo: um outrora importante (mas hoje um tanto caidaço) diário carioca é um verdadeiro cabide de empregos para os herdeiros da sociedade local. Não se trata de questionar os méritos dos moços e moças de origem chique que trabalham lá. Até porque, por serem ricos, eles tiveram chance de estudar em bons colégios, viajaram ao exterior, enfim, estão razoavelmente bem preparados. Mas a quantidade de filhos, netos e sobrinhos de granfinos realmente impressiona. Muitas das vantagens do talento n°1 são aplicáveis ao talento n°4. Você será bem-tratado e, de maneira geral, popular na redação. Uma vez empregado, suas chances de prosseguir bem na carreira são altas. Entretanto, sua fortuna pode ser uma faca de dois gumes. O repórter de família rica que exerce a profissão só por diletantismo, pelo mero prazer de ver seu nominho escrito no jornal, tem maiores possibilidades de prosseguir. Ele sabe que o trabalho em geral é pesado e estressante e que o salário nunca é condizente com a aporrinhação. Mas é o preço que se paga por um hobby não-convencional. Por outro lado, o jovem mais ambicioso logo ficará frustrado, ao perceber que em qualquer outra carreira ele estaria ganhando mais e trabalhando menos. Aí é só chamar papai/vovô/titio ao telefone que ele te arruma outro emprego, em alguma outra área.

5. SABER COMO INVENTAR PAUTAS MIRABOLANTES
Chance de arrumar o 1° emprego: N/A (só é aplicável por quem já está empregado)
Chance de se dar bem na carreira: 100%

Finalmente entramos na relação de talentos ligados especificamente ao exercício da profissão. Você, ingênuo aspirante, já deve ter constatado, estarrecido, que abstrações como “escrever bem” ou “estar sempre bem informado” são questões periféricas, secundárias, na carreira de um jornalista. Então vamos lá: se você não é filho de jornalista, não casou com jornalista, não é de família rica e ainda não formou sua network pessoal, o talento mais imporante a desenvolver é o de criar pautas interessantes. “Pauta”, não sei se você já sabe, é a idéia básica a partir da qual as reportagens são apuradas e escritas. Em todas as redações existe um sinistro ritual conhecido como “reunião de pauta”, no qual os amedrontados repórteres “cantam” (anunciam) suas sugestões de pauta para os editores. As sugestões que mais encantarem os chefes vão virar matérias reais, em geral apuradas e escritas pelo mesmo sujeito que anunciou a idéia. Mas quem não sugeriu nada – ou cantou alguma pauta que não tenha agradado – não vai ficar de braços cruzados; esses vão fazer as pautas impostas pelos próprios editores. Aprenda comigo: editores valorizam muito mais o repórter que cria a pauta do que o repórter que só a executa. Então não marque bobeira. Qualquer idéia que você tiver para uma matéria – QUALQUER uma, não importa o quão idiota ela soe – está valendo. Editores adoram repórteres que sugerem cinco, seis pautas por reunião. Mesmo que as matérias sejam impossíveis de se fazer ou simplesmente ridículas. Em alguns casos (principalmente nos jornais ditos “populares”), quanto mais ridícula, melhor! Esse talento é vital para os jornalistas free-lancers. O interessante é que, muitas vezes, dá para ganhar cartaz com os chefes só sugerindo as reportagens, sem sequer chegar a executá-las. Pautas são “derrubadas” o tempo todo no dia-a-dia das redações – faltou foto, Beltrano de Tal não falou, o evento X foi cancelado em cima da hora. Aí você, que sugeriu a matéria derrubada, não vai precisar fazê-la… mas não perde o crédito que ganhou por tê-la sugerido. Claro que é necessário um equilíbrio aqui. Tente sugerir apenas pautas que você seja capaz de apurar. Nada é pior que inventar uma idéia tresloucada, simplesmente não-factível, e se ver obrigado a apurar a matéria porque o editor adorou a sugestão. Seja criativo, mas mantenha o pé no chão.

6. SER (OU TER) CARA-DE-PAU
Chance de arrumar o 1° emprego: 75%
Chance de se dar bem na carreira: 50%

Este talento funciona muito bem em conjunto com os talentos n°3 e n°5 – na verdade, a cara-de-pau os potencializa. Manter a expressão séria enquanto se tenta convencer o editor de uma pauta totalmente idiota (mas chamativa) é fundamental em vários momentos na carreira de um repórter. E a a cara dura nunca atrapalhou ninguém a arrumar novos amigos e/ou contatos profissionais, muito pelo contrário. É necessário entender também que a cara-de-pau é básica para a função primordial do jornalista: abordar pessoas desconhecidas e chateá-las com perguntas. A cara-de-pau é fundamental para os repórteres de Geral (a editoria que cuida das notícias metropolitanas), pois são eles quem mais precisam manter contato com o povão na rua. Em Política e Esportes este talento é desejável, mas não tão necessário. Jornalistas de áreas como Economia, Cultura e Informática até podem se dar bem sem precisar da cara-de-pau (visto que a maioria das pautas chega via assessoria de imprensa, que arruma as fontes para o repórter na tranqüilidade). Mas ainda assim não deixa de ser recomendável. Ter esse talento também significa ser capaz de improvisar, “virar” uma pauta para outro lado se o resultado previsto anteriormente não foi confirmado pela apuração, enrolar o chefe quando a matéria está engasgada, convencer o entrevistado a soltar aquela frasesinha que apimenta a matéria… Este talento é ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL, repito, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEL a qualquer um que queira seguir carreira em fotografia. Sem cara-de-pau, um fotógrafo não chupa nem um Chicabom.

7. ESCREVER BEM
Chance de arrumar o 1° emprego: 0%
Chance de se dar bem na carreira: 50%, ou maior, se combinado com outros talentos acima

Quem não está por dentro das mumunhas da carreira pode se espantar com a baixa colocação deste talento nesta lista. Ora, mas escrever bem – saber passar uma idéia com clareza, elegância e concisão usando a escrita – não é, afinal de contas, o requisito primordial a qualquer um que deseje ser jornalista? Nem tanto, mestre, nem tanto. Primeiramente, “escrever bem”, em jornalismo, é um conceito bastante relativo. As cabriolas estilísticas de um Machado de Assis não cabem num colunão de polícia. Por outro lado, “Os sertões” foi concebido como uma reportagem, mas vá publicar aquilo num jornal hoje em dia! A internet liberou a criatividade de um porrilhão de escritores diletantes, uns com mais talento, outros com menos (e a grande maioria, com talento nenhum). Entretanto, caros blogueiros, o escrever jornalístico depende muito menos de inspiração e criatividade e muito mais da adequação do escritor ao formato do veículo e – principalmente – de agilidade, muita agilidade. Se a hora do fechamento não perdoou Hemingway, não é contigo que ela vai arregar.
Segundamente, o escrever de maneira correta em jornalismo é um ofício perfeitamente apreensível em faculdades e/ou cursos técnicos. Não tem mistério algum: lead, pirâmide invertida, ouvir os dois lados da questão, etc. Isso aí se aprende em seis meses. (Note bem, me refiro à maneira correta. Ninguém vai sair da aulinha de Técnica de Redação II, lá pelo quinto período da faculdade, pra escrever um “A sangue frio”. Aí sim entra em cena o tal do dom – e isso não se aprende na escola.) Portanto, neste quesito, estamos todos mais ou menos nivelados. Se o cara não é uma besta completa, ele sai da faculdade sabendo bater uma materinha de jornal.
Terceiramente, escrever bem hoje em dia não importa muito – pois não há muito o que escrever, de qualquer maneira. Os espaços para texto estão cada vez menores, subordinados primeiro à quantidade de anúncios e segundo ao tamanho das fotos da reportagem. Nos jornais diários, então, a centimetragem só encolhe, a olhos vistos. O melhor exemplo é o padrão telegráfico dos jornais populares do Rio, nos quais o que vale mesmo é um título bacana e um fotão estourado. Sendo assim, quem vai precisar de gênios da escrita na redação?
Mas calma, não se desespere. Saber escrever nunca atrapalhou jornalista algum. Na verdade, este talento é altamente desejável. A questão é que APENAS saber escrever não vai levá-lo muito longe. Muitos dos luminares da profissão, de hoje e de ontem, alcançaram os píncaros da glória sem saber posicionar uma vírgula corretamente. Mas eles sabiam o bê-a-bá (alguns, apenas isso) e, combinando um razoável dom com as palavras a um ou mais talentos mais importantes, progrediram na vida. Individualmente, este é o talento menos valorizado, mas talvez seja o melhor “talento secundário” para se ter. Conselho: se você já escreve direitinho, não perca tempo na faculdade prestando atenção nas bobagens dos professores. Tente fazer o máximo possível de amigos e vá lendo e escrevendo pra cacete nas horas vagas. Assim, quando um de seus muitos amigos te indicar para alguma vaga (lembre-se, só arruma emprego quem tem amigo/parente/conjuge no lugar certo), você vai fazer bonito e impressionar não apenas o camarada que te indicou, mas também seus superiores.

8.SER PERSEVERANTE
Chance de arrumar o 1° emprego: 100% (mas pode demorar um bocado)
Chance de se dar bem na carreira: variável. A longuíssimo prazo, tende a crescer, especialmente se combinado com outros talentos.

Quem espera sempre alcança. Será? Bem, no jornalismo essa é uma meia verdade, ou talvez 1/5 de verdade. Mesmo que você não disponha de ao menos um dos talentos descritos acima, a paciência, a insistência e o sangue de barata podem levá-lo longe na carreira. Comece já na faculdade fazendo todas as provas de estágio que pintarem. Provavelmente não vai passar de primeira. Nem de segunda… Mas aí o talento n°8 entra em cena. Não desista! Alguma hora você pega a manha da dinâmica de grupo. Ou saca o que exatamente deve colocar na prova escrita. Ou apenas dá a sorte de encontrar competidores (ainda) menos aptos que você mesmo. Se a faculdade acabou e você ainda não arrumou estágio, persevere mais. Mostre a cara, tente fazer amizades, fique moscando em volta de seus colegas que já decolaram na profissão. Mais cedo ou mais tarde (geralmente mais tarde) alguém vai te indicar pra alguma porra, nem que seja por pena.
Uma vez empregado, redobre seu estoicismo. Na certa você vai começar por baixo, num trabalho que será a) mal-remunerado, b) extenuante ou c) sem visibilidade alguma. Provavelmente, os três ao mesmo tempo. Mas sempre tenha em mente que jornalismo, especialmente nas redações, é um ramo de altíssima rotatividade empregatícia. A inércia está a seu favor, mesmo se você não for brilhante nem tiver algum dos talentos mais importantes acima descritos. Basta manter-se no mesmo lugar, suportando os baixos salários e as potenciais humilhações, que um dia só vai sobrar você como rosto conhecido na redação. Aí sim, podem pintar as promoções, os jabás, os aumentos… Lembre-se: se a perseverança é seu único talento, em alguns momentos a coisa parecerá preta. Vai testemunhar coleguinhas mais bem-relacionados e/ou apadrinhados e/ou mais safos subindo, enquanto você continua ali, marcando passo. Morda os lábios e siga em frente, impávido. À medida em que for desenvolvendo os talentos “adquiríveis” da lista (os de número 3, 5, 6 e 7), sua situação tende a melhorar. A grande, e talvez única vantagem deste talento é que todo mundo nasce com ele, em maior ou menor grau. Aproveite ao máximo – tirando a eventual boca-livre em coletivas de imprensa, pra jornalista nada costuma ser de graça.