LOU REED x PAUL McCARTNEY: METAL MACHINE VS. MAGICAL MYSTERY

(Publicado originalmente em 25/11/2010.)

Um deles foi capaz de, no distante ano de 1968, cometer uma torrente de barulho tão agressiva que muitos a creditam como precursora do punk e do heavy metal. O outro tem talento para destilar algumas das mais delicadas e sutis melodias da história da música pop, construindo uma fieira de clássicos imorredouros.

O primeiro é Paul McCartney.

O segundo é Lou Reed.

Claro que a história não é tão simples assim. Paul, quando queria, sabia como fazer barulho, mas entrou para a história como o maior entertainer do rock – jovial, melódico, cativante, simpático, sedutor, romântico. Lou, quando queria, compunha belezas comoventes como a exibida acima, mas entrou para a história como o grande contestador do rock – agressivo, sombrio, imprevisível, sardônico, incômodo. Quis o destino que os dois se apresentassem no mesmo dia, na mesma cidade do nosso Brasilzão, para que pudéssemos entender exatamente a distância que os separa e porque eles são, juntos, a personificação do que pode haver de mais antipodal na história da música pop. (Conforme bem observou o sempre vigilante Tiago Agostini, depois do show do Lou.) Num final de tarde de domingo, às 18h30, Lou, acompanhado de dois músicos (?), interpretaria para cerca de mil pessoas, no Sesc Pinheiros, sua obra mais radical e impenetrável: Metal Machine Music. Menos de três horas depois, Macca armaria sua disneylândia musical diante de 64 mil pagantes no Morumbi, num espetáculo no limite exato entre o populismo exibicionista e o encantamento genuíno (com algumas das melhores canções de todos os tempos de trilha sonora, não se esqueçam). Dualidades radicais em debate: minimalismo X gigantismo, barulho extremo X harmonia celestial, do-it-yourself X Broadway, sombra X luz. Se (numa simplificação das mais simplificadas) tudo o que é rock “alternativo” descende de Lou e, do outro lado, tudo o que é pop “clássico” é pautado por Paul (& os Beatles), o encontro fortuito dos dois gigantes ganha outra ressonância: são dois mundos, duas formas antagônicas de se fazer boa música. E, que eu saiba pela primeira vez, na mesma cidade, num único dia.

Minha perspectiva para o show de Lou era ambígua. Eu conheço (e tenho) o disco e entendo que se trata de um desses, aham, statements artísticos feitos para chocar e contrariar a opinião geral. Entendo perfeitamente o que leva um artista a criar algo desse tipo. Não entendo, entretanto, o que levaria um espectador a apreciar a coisa de forma genuína. Modestamente, tenho lá meus conhecimentos no campo da música barulhenta/minimalista/repetitiva/atonal, mas aquilo lá desafia a paciência de qualquer fã de post-rock. Ao mesmo tempo, sabia que reproduzir ipsis literis o disco seria impossível. Caos que se preze não pode ser passível de recriação. E o próprio Lou sabia disso.

Ainda assim, como não ir? Era uma ocasião histórica. Foda-se que as notícias sobre a primeira apresentação do espetáculo não tenham sido muito animadoras. Meu  ingresso  só foi conseguido uma hora antes do show de domingo (afinal, esgotou tudo no primeiro dia de vendas) e ainda havia aquela aflição de perder o começo do show do Paul.  Foda-se. Quando vi, lá estava eu, ainda meio moído dos dias anteriores (ponte áerea-Raveonettes-PELVs-vários chopes no Veloso-Planeta Terra-várias cervejas na Augusta no almoço de domingo), sentado na fileira I do Sesc Pinheiros.  Palco na penumbra, vislumbram-se duas estantes com teclados/sequenciadores/unidades de efeitos, alguns amplificadores do fundo do palco, algumas guitarras, um saxofone, um gongo (será que foi o mesmo usado pelos Smashing Pumpkins?) e… um tarol gigante?

Os parceiros do velho homem no projeto Metal Machine Trio  entram antes. Ulrich Krieger primeiro dá umas porradas na percussão, depois passa para o sax no canto direito do palco. À esquerda, Sarth Calhoun opera samples e synths e dá socos em um aparelho de percussão eletrônica. No meio, após entrar no palco amparado por um roadie, Lou senta, pega a guitarra e se junta aos dois barulhentos. É difícil descrever o que se passa. É cacofonia pura, mas não do tipo registrado no MMM. O que há naquele disco não é música. Já o Metal Machine Trio faz música – música que dispensa tonalidades coerentes, ritmo, harmonia e melodias reconhecíveis, mas ainda assim é música. Uma espécie de free jazz (mas bota free nisso) agressivo e monolítico, apostando em timbres (especialmente o do saxofone) agudos e incômodos e esparsas intervenções percussivas. Lá pelas tantas, Lou chega a emitir grunhidos guturais ao microfone. Troca de guitarra com alguma frequência, ainda que aparentemente sem razão: produzia sempre o mesmo tipo de ruído rascante, seja lá que instrumento estivesse usando. De quando em quando, acenava aos músicos, provavelmente pedindo mudanças de timbres ou de andamento (não que notássemos a diferença).

Como costuma acontecer com estilos musicais similares, o free improv do MMT começa a fazer sentido quando o ouvinte acha um “ponto focal” para se concentrar – e deixar o noise em volta agir quase como um pano de fundo. Comigo passou a funcionar quando notei as linhas de baixo sintetizadas criadas por Calhoun, que “organizavam” a barulheira e criavam a “ilusão” de um som coerente.  Ao final, Lou conclama Calhoun a socar mais uma vez seu kit de percussão eletrônica, produzindo sons de bumbo encharcados de eco e reverb. Nego bate muita palma no final quando o velhinho se levanta, meio trôpego, pernas bambas dentro de calças frouxas, e agradece à plateia na beira do palco. Mas ainda não era o fim. Como na noite anterior, Lou retorna para tocar uma versão, aham, desconstruída de “I’ll Be  Your Mirror”, justamente uma daquelas canções delicadas e sutis a que me referi acima. Voz roufenha, guitarra ruidosa, métrica original mandada pro espaço. Mais aplausos, mais catarse.

No fim das contas, não tratou-se de um show e sim de um ritual de tributo. Lou notabilizou-se por ser do contra. E com seu concerto de ruídos desconjuntados, ele exerceu sua capacidade de ser “do contra” com uma potência e uma perversidade amplificadas pela fortuita presença de Paul na cidade. Quando poderíamos (ainda mais nós, pobres latino-americanos) ver na mesma noite dois extremos tão díspares do espectro pop? O Metal Machine Trio é Lou em seu formato mais puro, é o paladino do noise e do confronto em sua forma mais contundente. Claro que a contribuição do velho homem para o rock é muito maior que o barulho-pelo-barulho. Mas essa parte de seu legado é incontestável.

(Na verdade, esse debate alternativo X clássico tinha se iniciado já no dia anterior, com os shows back-to-back do Pavement e do Smashing Pumpkins no Planeta Terra. Duas bandas pivotais dos anos 90: uma consagrada como o nome maior do rock indie da década, a outra inicialmente tachada de “alternativa”, mas que na verdade devia muito mais ao classic rock do que à linhagem proto-punk/punk/pós-punk/new wave.)

Só que nem deu pra digerir tudo isso direito. Em seguida, no melhor esquema Febre de Juventude, saímos correndo de Pinheiros rumo ao Morumbi. Os rumores de engarrafamentos monstros não se confirmaram, felizmente. Deu tempo de chegar, penetrar pelos intestinos do estádio até a pista prime e me instalar, com algum conforto e relativa proximidade, diante do palco. Impossível não lembrar do meu primeiro encontro com o ex-beatle, em 1990, no primeiro dos dois shows que ele fez no Maracanã (só eu prefiro “Macca no Maraca” a “Paul in Rio”?) – eu, que há 20 anos enfrentei uma literal jornada para conseguir meu ingresso, cheguei cedo ao “maior do mundo” e fiquei tomando chuva na cabeça  por horas a fio, mas que fui recompensado com um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Foi uma das primeiras grandes epifanias musicais da minha vida. Em 2010, mais velho, mais cínico, com mais centenas de shows e milhares de discos na cabeça, duvidava um pouco que a Up and Coming Tour pudesse causar o mesmo impacto.

Não causou mesmo, o que não quer dizer que não tenha sido, de novo, um dos melhores shows a que já assisti. Mas com um setlist desses, interpretado com toda a propriedade, como não ser? A emoção daquele primeiro encontro com Paul, em 1990, nunca vai se repetir; o troço já faz parte da minha mitologia pessoal. Não importa que a emoção causada pelos hits dos anos 60 e 70 seja de, digamos, segunda mão. Não importa o preço dos ingressos e a infame área vip. Não importa que, no fundo, tudo não passe de um espetáculo inflado, exibicionista e populista. Paul não apenas mantém o domínio completo do idioma pop, ao recriar (fielmente ou com licenças interpretativas) as músicas dos Beatles e um punhado de seus sucessos solo; o cantor também parece tão jovial (aos 68 anos) quanto de sua primeira visita ao Brasil. Voz em forma (mas evitando os excessos), sorridente, tão esguio e ágil quanto possível para um senhor de sua idade, o eterno Beatle faz um espetáculo grandioso e nostálgico, mas sem saudosismo e cheio de vitalidade.

Quarenta e sete anos depois do início oficial da Beatlemania, a mera visão de Paul ainda é capaz de causar histeria. Quando ele emenda “Jet”, primeiro grande sucesso da noite, aí é que a coisa explode mesmo. Ao chegar o primeiro resgate do repertório dos Beatles – a ancestral “All My Loving” – não há mais retorno para a comoção, tanto entre os casais de coroas quanto a molecada que provavelmente estava em seu primeiro show. O sessentão, quase setentão, é também um fanfarrão. Gasta intermináveis momentos entre as músicas “agitando” o público num português esforçado mas macarrônico (“Hoje vou dizer algumas palavras em português, mas vou falar mais em inglês, OK?”, avisou). Pede palminhas, puxa corinhos, elogia a plateia sem parar. É demagógico, claro, assim como é simplificadora sua versão “parque de diversões” para a contracultura sessentista. Aí se encaixam também as grandiosas projeções de vídeo, os fogos de artifício. Entretanto, ninguém se transforma no mais bem-sucedido entertainer da música sem uma boa dose de sinceridade. Paul não finge ser legal para agradar; ele agrada porque é legal. Não se esqueçam que ele sempre foi o Beatle mais sedutor…

O contraste com a austeridade e a “dificuldade” do show de Lou é gritante. (Também gritante foi a disparidade entre a forma física dos quase-setentões. Lou entra no palco amparado por um roadie cabeludo e toca o tempo todo sentado. Paul passa três horas cantando, dançando e pulando do piano para o baixo/guitarra; ao final, ainda toma um escorregão e se levanta sozinho, como se tivesse bem menos que seus 68 anos.)  Mas também são faces da mesma moeda. Cada um dos dois criou, ainda nos anos 60, um modelo que influenciou não apenas uma legião incontável de artistas, mas também duas formas distintas (e complementares) de entender a música. Pop é congraçamento, é juntar todo mundo, é forma. Rock é agressão, é desafio ao ouvinte, é conteúdo. As alegorias & adereços trazidas por Paul são, aham, intrínsecas à sua proposta, ao seu conceito de música: algo para alegrar, divertir, emocionar. O ruído e a atítude sorumbática de Lou também se justificam: para ele, o negócio é implantar ideias no ouvinte, apresentar novas formas de entender a música para além do que já está estabelecido. Pudemos experimentar então ambos, pop e rock, em seus estados mais puros e fascinantes.

O resumo das duas óperas cabe em duas frases ditas à saída de ambos os espetáculos. “Por R$ 40 (preço da inteira), ele nem precisava cantar nada – bastava ficar lá parado, que já estava valendo”, disse alguém depois do show de Lou. A outra foi minha mesmo. No táxi voltando para casa do Morumbi, o motorista comenta: “Não sou fã do Paul McCartney, mas tem umas cinco músicas dele que eu me amarro (sic)”. E eu, rápido: “Ele tocou as cinco”.

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