Se eu tivesse uma daquelas máquinas de escrever bem antigas, com as letras em alto relevo, acho que bastaria passar uma camada de grafite moído no meu rosto para que eu parecesse um daqueles sujeitos esquisitos com um zilhão de tatuagens na cara – mas sem piercings, que eu tenho pavor de agulhas. É complicado tentar manter um nome e uma reputação para a meia dúzia de fãs que decidiram que meu trabalho ainda valia a pena, se até mesmo o que eu escrevo (ou pelo menos tento) me dá sono.
É, seu Truman, por pouco você não fica pra trás comendo a poeira do total anonimato e esquecimento: no começo, todos adoravam seus livros… comparando com o cenário atual, ia deixar comendo poeira aquele título sobre o executivo que aprendeu técnicas de meditação no extremo oriente e, após ver um grande iaque em seus sonhos, descobriu que a contemplação silenciosa, fitar o infinito e mascar um chiclete trariam soluções definitivas para todos os enigmas do mundo corporativo.
Talvez eu devesse comprar logo este livro, uma caixa de chicletes e arrumar um canto para ficar bem quietinho e tentar descobrir uma forma de fazer com que meus livros fossem vendidos. Mas não: meus vizinhos não colaboram com o som alto. Além disto, me recuso a comprar este lixo de autoajuda, prefiro comprar tudo em milho e dar aos pombos. E eu odeio pombos.
Se de insônia eu não posso reclamar, não posso dizer o mesmo quanto a me sentir bem descansado quando acordo. Cada vez mais eu sinto como se estivesse vivendo de favor para os outros, sabe? E nem é para tanta gente. Mas não desisto, não. Sigo sem a menor disposição, e não faço a menor questão de me mudar para uma casa nos trópicos e engolir meu destino em um cano duplo de doze milímetros. Os sinos não dobrarão por mim mais cedo do que deveriam.
Bem, chega de rodeios. Já que estou de pé mais cedo do que deveria, me resta assistir o noticiário da manhã e ser agraciado pela gloriosa, venusiana e inalcançável Annabelle Lapin. O único raio de sol neste começo de dia pouco memorável como qualquer outro, uma voz suave em meio a balbúrdia do cotidiano. Por mais que seja ela a mencionar, com uma triste doçura em sua voz, as coisas que fazem a vida nesta metrópole algo igualmente deprimente e empolgante – primeiro por provocar a tristeza (“obrigado, Capitão Óbvio, você nos salvou novamente!”), e segundo por servir de combustível para o que escrevo.
Que estranho: não é ela que está apresentando, e sim outra moça um tanto diferente dela. Será que ela entrou de férias e eu não sei? Ora, a quem estou enganando: eu tenho certeza de que ela não entrou de férias. Se existe alguém nesta cidade que saberia se a senhorita Lapin resolveu botar seus suaves pezinhos na areia escaldante de uma ilha ensolarada enquanto decide se prefere comer frutos do mar ou uma exótica salada de frutas (ou seria uma salada de frutas exótica? Dependendo da localidade, né…), este alguém se chama Eric Truman.
Afinal de contas, jamais esquecerei da vez em que aquele apresentador de talk show cujo nome eu me recuso a pronunciar – tanto o sujeito quanto o programa, que raiva! – armou uma de suas tradicionais gracinhas pra mim, me dando vontade de enfiar a cara em um buraco no chão e só sair depois que um apocalipse nuclear assolasse o planeta…. chamá-la dos bastidores do estúdio no meio daquela entrevista maldita. Se eu já não achava que o programa seria grande coisa – afinal de contas, tenho certeza de que fui chamado mais pelo valor folclórico do “autor esquisitão e recluso” do que pela minha carreira propriamente dita – chamar aquela beldade, que faz o tempo congelar e um zumbido suave que anula os sons à minha volta fizesse com que nada mais importasse para mim.
Óbvio que o maravilhamento passou, e minha cara – uma mistura de maravilhamento e estupefação – em rede nacional, capas de jornais, revistas e afins virou mais uma vez a razão para as risadas dos espectadores. E o pior de tudo é que eu nem posso me dar ao luxo de saber se alguém que pediu para que eu autografasse a tal foto era um fã de verdade, ou apenas mais um engraçadinho que achou aquilo tão, tão divertido. Não estou em posição de perder fãs.
De qualquer maneira, ainda vou tentar entender por que diabos aconteceu esta repentina substituição na apresentação do noticiário. Por alguma razão eu não consegui entrar com meu nome e senha na comunidade online – onde decidi manter um nome falso, já que fui acusado de ser um impostor de mim mesmo ao conversar com os frequentadores usando meu nome real – onde discutimos a sério determinados assuntos. Ok, admito, é um fã-clube dela, mas não conte para ninguém.
Ah, sim: eu odeio chiclete. Já não tenho mais idade – e nem tempo – para isso.