Between the Static

...(o que acontece entre a estática?)

2. I Once Was Cool

Written by giglio on August 10th, 2009

Se eu tivesse uma daquelas máquinas de escrever bem antigas, com as letras em alto relevo, acho que bastaria passar uma camada de grafite moído no meu rosto para que eu parecesse um daqueles sujeitos esquisitos com um zilhão de tatuagens na cara – mas sem piercings, que eu tenho pavor de agulhas. É complicado tentar manter um nome e uma reputação para a meia dúzia de fãs que decidiram que meu trabalho ainda valia a pena, se até mesmo o que eu escrevo (ou pelo menos tento) me dá sono.

É, seu Truman, por pouco você não fica pra trás comendo a poeira do total anonimato e esquecimento: no começo, todos adoravam seus livros… comparando com o cenário atual, ia deixar comendo poeira aquele título sobre o executivo que aprendeu técnicas de meditação no extremo oriente e, após ver um grande iaque em seus sonhos, descobriu que a contemplação silenciosa, fitar o infinito e mascar um chiclete trariam soluções definitivas para todos os enigmas do mundo corporativo.

Talvez eu devesse comprar logo este livro, uma caixa de chicletes e arrumar um canto para ficar bem quietinho e tentar descobrir uma forma de fazer com que meus livros fossem vendidos. Mas não: meus vizinhos não colaboram com o som alto. Além disto, me recuso a comprar este lixo de autoajuda, prefiro comprar tudo em milho e dar aos pombos. E eu odeio pombos.

Se de insônia eu não posso reclamar, não posso dizer o mesmo quanto a me sentir bem descansado quando acordo. Cada vez mais eu sinto como se estivesse vivendo de favor para os outros, sabe? E nem é para tanta gente. Mas não desisto, não. Sigo sem a menor disposição, e não faço a menor questão de me mudar para uma casa nos trópicos e engolir meu destino em um cano duplo de doze milímetros. Os sinos não dobrarão por mim mais cedo do que deveriam.

Bem, chega de rodeios. Já que estou de pé mais cedo do que deveria, me resta assistir o noticiário da manhã e ser agraciado pela gloriosa, venusiana e inalcançável Annabelle Lapin. O único raio de sol neste começo de dia pouco memorável como qualquer outro, uma voz suave em meio a balbúrdia do cotidiano. Por mais que seja ela a mencionar, com uma triste doçura em sua voz, as coisas que fazem a vida nesta metrópole algo igualmente deprimente e empolgante – primeiro por provocar a tristeza (“obrigado, Capitão Óbvio, você nos salvou novamente!”), e segundo por servir de combustível para o que escrevo.

Que estranho: não é ela que está apresentando, e sim outra moça um tanto diferente dela. Será que ela entrou de férias e eu não sei? Ora, a quem estou enganando: eu tenho certeza de que ela não entrou de férias. Se existe alguém nesta cidade que saberia se a senhorita Lapin resolveu botar seus suaves pezinhos na areia escaldante de uma ilha ensolarada enquanto decide se prefere comer frutos do mar ou uma exótica salada de frutas (ou seria uma salada de frutas exótica? Dependendo da localidade, né…), este alguém se chama Eric Truman.

Afinal de contas, jamais esquecerei da vez em que aquele apresentador de talk show cujo nome eu me recuso a pronunciar – tanto o sujeito quanto o programa, que raiva! – armou uma de suas tradicionais gracinhas pra mim, me dando vontade de enfiar a cara em um buraco no chão e só sair depois que um apocalipse nuclear assolasse o planeta…. chamá-la dos bastidores do estúdio no meio daquela entrevista maldita. Se eu já não achava que o programa seria grande coisa – afinal de contas, tenho certeza de que fui chamado mais pelo valor folclórico do “autor esquisitão e recluso” do que pela minha carreira propriamente dita – chamar aquela beldade, que faz o tempo congelar e um zumbido suave que anula os sons à minha volta fizesse com que nada mais importasse para mim.

Óbvio que o maravilhamento passou, e minha cara – uma mistura de maravilhamento e estupefação – em rede nacional, capas de jornais, revistas e afins virou mais uma vez a razão para as risadas dos espectadores. E o pior de tudo é que eu nem posso me dar ao luxo de saber se alguém que pediu para que eu autografasse a tal foto era um fã de verdade, ou apenas mais um engraçadinho que achou aquilo tão, tão divertido. Não estou em posição de perder fãs.

De qualquer maneira, ainda vou tentar entender por que diabos aconteceu esta repentina substituição na apresentação do noticiário. Por alguma razão eu não consegui entrar com meu nome e senha na comunidade online – onde decidi manter um nome falso, já que fui acusado de ser um impostor de mim mesmo ao conversar com os frequentadores usando meu nome real – onde discutimos a sério determinados assuntos. Ok, admito, é um fã-clube dela, mas não conte para ninguém.

Ah, sim: eu odeio chiclete. Já não tenho mais idade – e nem tempo – para isso.

1. Commercial Break

Written by giglio on July 22nd, 2009

“Boa noite, Carter. Esperamos que você tenha tido um ótimo dia!”, diz a voz feminina da parede.

Óbvio que não da parede em si – e sim da caixa de som embutida nela. E em todas as casas da região, na real. Do alto dos meus parcos 36 anos, não imaginei que viveria pra ver este tipo de coisa no meu dia-a-dia… por um lado, ainda bem – morando sozinho, ouvir uma voz de conforto depois de não conseguir pregar o olho na volta do Departamento de Trânsito é uma daquelas pequenas vitórias. Melhor nem citar o engarrafamento para não parecer que estou exagerando as coisas…

Sabe como é, mais um diazinho daqueles: gente mal-humorada do outro lado do balcão, colegas de repartição que vivem em opostos polares – enquanto alguns parecem viver para usar os outros de trampolim para saltar rumo a uma promoção, outros poderiam ser classificados sob o verbete “apatia” de forma contagiante a ponto de me fazer desistir de elaborar uma descrição mais digna. Quanto a mim, acho que me situo em uma confortável posição entre os dois extremos: nem uma víbora enrolada em posição de mola, nem um boi no curral esperando os dias passarem. Talvez seja melhor parar com as comparações zoológicas por aqui.

Depois de ferver um bocado de água para preparar um rango instantâneo – o fiel companheiro do homem solteiro, esteja você no centro da cidade ou na periferia, goste você de carne ou legumes, sempre há algo para quem compra Rational – sento no sofá para ver o que aconteceu durante o dia, pegando só o finalzinho do noticiário. A senhorita Lapin está linda, como de costume: mesmo a notícia mais escabrosa de todas parece um afago na cabeça quando a ouvimos na voz dela – como o caso da enchente que assolou a fábrica de esponjas (uma daquelas ironias imbecis da vida – que o digam os operários e o dono do estabelecimento).

Pena que tudo o que pude ouvir foi o ocasional pedaço da seção de esportes, a coluna de fofoca e a despedida dela. Está cada vez mais difícil ficar acordado ao pisar em casa, parece que viver é um luxo. Pelo menos o sofá é confortável… mas não faz milagres. Em meio ao cansaço do dia, lembrei que esqueci de pedir o reparo do encanamento da cozinha – é por isso que eu tinha comprado pizza no domingo. E é por isso que uma goteira dos infernos me acordou no meio da madruga, como naquele desenho velho pacas envolvendo um passarinho implicante.

No meio da madrugada, troco o canal de televisão para o serviço remoto para a televisão está passando um programa que eu nunca tinha ouvido falar – alguma esquisitice envolvendo gatos, música clássica e uma claque das mais cretinas – e como nada disto me interessa, resolvo trocar para o serviço rem… espera aí. Eu acabei de fazer isso. Este programa esquisito dos gatos está passando NO canal de serviço. Sinceramente, a esta altura do campeonato, eu já não faço mais ideia se isto é um sonho ou não – ou um pesadelo pela combinação de cansaço, mau humor e Rational – até que a tela mostra uma imagem estática de um bichano simpático. Que eu gostaria de esganar, porque está atrapalhando minha vida. A trilha sonora que mistura cinema mudo e caixinha de música não ajuda, também.

Tal qual apareceu, este interlúdio surreal terminou, culminando na tela de menu principal do serviço remoto. Hora de usar a raiva contida desta madrugada infeliz e pedir logo o conserto deste negócio, já que qualquer modificação feita por fora destas vias vai me render uma multa monumental. Após escrever uma enorme mensagem – óbvio que contei do bizarro incidente dos gatinhos musicais, porque era a proverbial cereja no topo do sundae…. onde já se viu! – e postá-la no fórum de serviços para que um encanador autorizado assuma a tarefa e entre em contato comigo, clico em “Enviar”, enfio a cara no travesseiro e tento dormir.

Mal, pelo visto.

Ao acordar… hahahah! Ok, vamos trocar isso, essa foi boa… Ao me levantar pela manhã, fui conferir no serviço remoto se alguém tinha lido meu pedido de reparo, qual não foi minha surpresa ao ver que a mensagem tinha desaparecido. Por completo. Na minha cabeça, a música dos gatinhos veio em um terrível crescendo, com o irritante som do cravo e xilofone: eu não tinha salvo o pedido original. O que vocês queriam? Era três da madruga, óbvio que a última coisa que eu ia me preocupar era em anotar protocolos ou fazer cópias do texto.

Tudo bem. Tranquilo. Eu tenho tempo.