Woody Allen e sua máquina de escrever

E esse trecho do documentário “Woody Allen: a documentay”, que foi exibido na TV americana (PBS) em novembro passado? Nele, o cineasta mostra onde é seu cantinho de criação e exibe sua máquina de escrever, comprada quando tinha 16 anos (ou seja, tem 60 anos a bichinha). Vi este material lá no The Culturist.

O melhor do vídeo é quando o documentarista pergunta para a Woody como é que ele faz o recorta e cola. Divertidíssima a solução do diretor.

I bought this when I was 16. Still works like a tank, it’s a German typewriter and it’s an Olympia portable. I’ve had it my whole life, it cost me 40 dollars I think. The guy told me it would be around long after my death.

PS: O doc pode ser visto na íntegra no site da PBS. Quer dizer, apenas os americanos têm essa oportunidade. Pro resto do mundo, como a gente, é só procurar no torrent por “American Masters Woody Allen A Documentary”.

 

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Nike e os tênis de Marty Mcfly

Todo mundo que foi criança ou adolescente nos anos 80 lembra dos tênis que se auto-amarram de Marty Mcfly. A cena de “De Volta Para o Futuro 2″ dura apenas dez segundos, mas fez muita gente sonhar por aquele momento de 2015, em que os sapatos se amarram sozinhos, não?

 

 

 

 

 

 

 

 

A Nike ainda não pensou numa tecnologia que torne isso possível, mas mandou bem ao criar uma réplica do pisante. Hoje, a empresa mostrou em L.A. o Air Mag, que copia fielmente o tênis de Michael J. Fox. Ele não se auto-amarra, ok, mas parece que acende luzes e tal. Não sei se acho isso ridículo ou o máximo.


Segundo a empresa, foram fabricados 1.500 pares. Cento e cinquenta serão leiloados durante dez dias no eBay e o dinheiro arrecadado será destinado a Michael J. Fox Foundation, que faz pesquisas relacionadas à cura do Mal de Parkinson. Vai ter muitonerd e saudosista pagando uma fortuna por eles.

O tênis é mais um produto bacana para celebrar os 25 anos de uma das franquias mais queridas das telonas. No ano passado, todos os filmes saíram em blu-Ray, isso sem falar de um game bem honesto que foi lançado para os consoles de última geração.

Agora só falta aquela jaqueta de secagem e ajuste automáticos.

 

 

Club Silencio da vida real

E David Lynch abriu ontem em Paris a versão real do Club Silencio, aquele lugar perturbador com cantores líricos e anões de Cidade dos Sonhos. Os móveis e toda a decoração do espaço foram idealizados pelo cineasta. A casa inclui um restaurante, um bar, uma área de espetáculos, um livraria apenas de obras de arte e uma sala de projeção.

Curtiu? Calma lá: a ideia do local é que ele seja restrito. Para ser sócio regular é preciso pagar 780 euros por ano e 1.500 para ter acesso a um certo pacote premium. Pessoas com menos de 30 anos e não-residentes na França pagam uma taxa anual de 420 euros. Ouch!


O Club Silencio fica no subsolo do Social Club, na Rua Montmartre, 142. Eis a definição do homem para o projeto, em entrevista a “L’Express” de agosto:

“I’m 65 years old. They say that when men go into their 50s they dream of building gigantic towers to prove their virility. I have directed films, composed music, made all sorts of objects, works that had a beginning and an end. Now I want to make something solid. First, I started with painting. For the last three years I have been working in a lithographic studio in Montparnasse that Picasso and Miró used, drawing on the same stones where they painted. Then I started working on Silencio, which has taken the last two years. Looking at what we have done, I feel myself almost immortal”.

Dica de leitura: um jornalista do “The Guardian” já foi lá e conta como é.


O homem do futuro x O homem do passado

Cláudio Torres está se especializando em um gênero que o próprio batizou de “comédia romântica fantástica”. Após o sucesso do filme-que-virou-série “A mulher invisível”, o diretor retorna aos cinemas nesta sexta-feira (2) com mais uma produção do tipo: “O homem do futuro”.

O longa conta a história de Zero (Wagner Moura), um cientista solitário, criador de um conversor de partículas, cuja auto-estima foi dilacerada há 20 anos por uma humilhação pública realizada pelo grande amor de sua vida, Helena (Alinne Moraes), e seu ex-namorado, o almofadinha Ricardo (Gabriel Braga Nunes).

Na tentativa de criar uma nova forma de energia, ele entra na máquina que desenvolveu e acidentalmente vai parar em 1991. Lá encontra um Brasil em que os jovens escutavam Titãs, a rede de telefonia celular começava a ser implantada e o presidente nacional bolava um segundo plano econômico para controlar a inflação.


É nesse cenário que Zero encontra a si mesmo e irá reviver a noite que marcou a sua vida, tendo a oportunidade de alterar o futuro a partir de um evento – uma festa universitária – que moldou sua personalidade. “É um filme despretensioso, feito para tentar se comunicar com muita gente. Tenho certeza que não estou contribuindo em nada para a linguagem cinematográfica internacional. Minha pretensão é querer atingir gente”, resume Torres, em entrevista ao G1.

A despretensão é justamente o trunfo de “O homem do futuro”. A história, apesar de pouco original, diverte graças ao clima nostálgico e ao roteiro, cujos buracos são ignorados devido ao bom elenco e às situações cômicas repletas de referências ao mundo de duas décadas atrás.

Um bom exemplo acontece quando Zero pega um táxi em 1991 e ouve do taxista que a corrida custou 25 mil – cruzeiros, a moeda da época. O cientista dá uma nota de R$ 50 e escuta do motorista: “isso aqui é real?”. A resposta vem de bate – pronto: “lógico que é real!”

“A gente queria recuar o personagem no tempo de uma maneira que não complicasse a maquiagem. Fui olhar o mundo de 1991 e tinha muita coisa interessante: o [Fernando] Collor estava no auge, andando de jet-ski e explodindo pista de traficante. E, musicalmente, também havia um cenário muito interessante”, comenta Torres.

A trilha sonora de “O homem do futuro” merece um parágrafo à parte. O filme é todo construído a partir de “Tempo perdido”, da Legião Urbana, que os personagens de Moura e Alinne cantam (ou assassinam) na tal festa universitária. E tempo perdido é justamente o que acontece assim que Zero altera o passado – e também o futuro, respectivamente.

“Simplesmente vomitei no roteiro tudo o que leio desde criança. Gosto de ficção científica, quadrinhos, sou fã de seriados como ‘Túnel do tempo’. Era sensacional, sobre uns caras que voltavam no tempo a cada episódio e só caiam em roubada! Também acho que a vontade de voltar no tempo é algo que todo mundo já sentiu. E o único de jeito de voltar no tempo é no cinema”, acredita.

No momento, Torres escreve dois roteiros da tal “comédia romântica fantástica”. O primeiro é direcionado para a televisão: oito novos episódios do seriado “A mulher invisível”, que estreiam ainda neste ano na TV Globo. O segundo é voltado para os cinemas: o filme “As bruxas”, sobre um homem que se casou com uma.

“Ele se passa em duas épocas e terá minha mulher, minha mãe e a minha irmã no elenco”, diz o cineasta, filho de Fernanda Montenegro, irmão de Fernanda Torres e marido de Maria Luísa Mendonça.

A escolha delas não tem nenhuma relação com o título do longa, jura. “Não é nada pessoal”, ri.

* Matéria publicada no G1

 

Crítica: Super 8

Uma turminha do barulho em clima de paquera se envolve em confusões que até Deus duvida com um amigo de outro mundo. Leia essa introdução com a voz do narrador dos filmes da “Sessão da tarde” antes de assistir a “Super 8”. É a melhor maneira de entrar no clima proposto por J.J. Abrams e Steven Spielberg no longa que estreia nesta sexta-feira (12) no Brasil.

Cercado de mistério desde o anúncio de sua produção, “Super 8” se vendeu inicialmente como mais uma aventura de suspense e ficção científica de Abrams, produtor de filmes como “Cloverfield” e criador da série “Lost”. A sinopse divulgada meses atrás dizia apenas que a história se passava em 1979, em uma pequena cidade do subúrbio americano. Ali, um grupo de adolescentes grava um acidente de trem enquanto filmam um curta de zumbis amador. Uma criatura desconhecida é libertada no desastre e só eles têm a sua imagem.

Mas basta começar a assistir “Super 8” para reparar que a sua pegada é outra. Despretensioso e divertido, ele resgata o clima dos blockbusters juvenis que Spielberg criou na década de 1980 e até hoje são cultuados.

“Super 8” se passa em Lillian, Ohio. Joe (Joel Courtney) é uma criança sonhadora, que acaba de perder a mãe em um acidente e não se relaciona bem com o pai, um policial linha-dura (Kyle Chandler). Quem o ajuda a superar a perda são seus amigos, um grupo de adolescentes tão criativos quanto ele. Juntos, eles começam a rodar um curta-metragem de zumbis para participar de um festival de cinema local. A filmagem é em Super 8, daí o nome.

Para conseguir um efeito especial de graça, eles decidem realizar uma cena perto da estação de trem local. O que gravam, sem querer, é um impressionante acidente em que uma caminhonete se choca de frente aos vagões. A cena é impressionante, os vagões literalmente chovem pelo cenário. Impossível não lembrar da tragédia área inicial de “Lost”.

Em seguida, uma série de eventos começa a tomar conta da cidade: o exército americano chega ao local e encobre as investigações do acidente. Ao mesmo tempo, os cachorros locais desaparecem, a fiação elétrica é roubada e alguns moradores são atacados bruscamente. Quem seria responsável por esses atos? Abrams emula “Cloverfield” e não mostra o monstro – um alienígena, no caso.

Estão criados o suspense, o mistério e o nascimento de teorias conspiratórias. Abrams, como sempre, amarra esses elementos com primor. Mas o filme não se limita a ser apenas um thriller de sci-fi e começa a ganhar traços de comédia adolescente dos anos 1980 conforme os minutos passam. Ainda bem.

O grupo de amigos se envolve na investigação do caso mesmo que não queira. Cada integrante deles tem uma personalidade distinta e cômica. Há o nerd medroso, o gordinho carismático e o magrelo aventureiro. Lembrou de “Os goonies?”. Joe é o mais sério e destemido da turma, e sua personalidade lembra bastante a de Elliot, o garoto de “E.T.”. Por se passar há 30 anos, o filme também traz elementos nostálgicos que reforçam ainda mais o clima de sessão da tarde: as crianças pedalam pela cidade com bicicletas BMX e usam walkie-talkies para conversarem.

J.J. Abrams afirmou em entrevistas que não quis prestar uma homenagem ao produtor. Mas é impossível não enxergar em “Super 8” a influência de Spielberg, que fez questão de escolher o elenco juvenil – nisso o olhar dele é imbatível, vide a escolha por Elle Fanning, perfeita como Alice.

Fórmulas popularizadas por ele também funcionam muito bem em “Super 8”, como a ideia de um alienígena que cai em uma cidade pequena e isolada dos EUA, e que depois é perseguido pelo governo americano e precisa da ajuda de alguém para voltar ao seu planeta natal. Isso sem falar das referências rápidas à existência da Área 51. Mais “Contatos imediatos de terceiro grau”, impossível.

“Super 8” reúne duas gerações de talentosos cineastas que se dedicam a criar cinema de entretenimento de qualidade. Quem gosta de ver um filme para rir, chorar e dar uns pulos na poltrona, agradece.

*Matéria feita para o G1