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Grandes homens do meu tempo : Márvio dos Anjos – edição Março / 2010

Monday, March 15th, 2010

Dessa vez pedi uma entrevista ao Márvio, vocalista da banda Cabaret e editor-chefe da edição carioca do jornal Destak. Seu disco tá prometido para maio. Gentilmente me concedeu esta entrevista abaixo:

A Pira > E aí, como foi de carnaval?

Márvio > Foi incrível. Já sabia disso há tempos, mas hoje é inegável que o
melhor lugar para se estar no mundo durante os dias de Carnaval é o
Rio de Janeiro. A cidade inteira fantasiada, decidida a ser feliz, os
blocos varrendo as ruas e praças como nuvens de gafanhotos, e eu lá,
de General Leônidas do filme “300″. Sunga, sandália franciscana, capa
de veludo vermelho, lança e escudo de sexta a terça. E nunca fui tão
feliz, e nunca os beijos desapegados foram tão lindos e valiosos.
Carnaval ensina a amar intensamente no mais curto espaço de tempo e a
deixar ir, porque, no fim, ninguém pertence a ninguém.

Márvio no carnaval do Rio, no flagra de Chico Barbosa.


A Pira > Ninguem pertence a ninguem, mas só é feliz quem namora. Ou não? Nesses tempos de mulher é o novo homem, ta sendo mais difícil descolar uma namoradinha?

Márvio > É impossível ser feliz sozinho, como se sabe. Mas é o consumismo, né,
brou? Nós ensinamos essa porra às mulheres, elas adoraram e agora elas
consomem vorazmente. É um grande leilão coletivo, todo mundo esperando
o lance melhor.

A Pira > Tais familiarizado com o conceito de “sabinismo“? É algo como um gosto estético irônico, engraçadinho, forçadamente excêntrico e cheio de picardia. Praga de nossos tempos. Mas não te acuso disso, fica de boa. Pra mim tu é maluco mesmo, legítimo, do escocês. É papo de Queen ser melhor que Beatles, Berlioz ser melhor que Mozart, Petkovic mais craque que Zidane. Tu tem consciência dessa tua condição? Como é ter mau gosto?

Márvio > Eu não tenho um compromisso de alinhar meu senso estético com os
cânones, porque muitas vezes eles não me servem, e minhas obsessões me
tomam muito tempo, como o Queen – embora ame Beatles, acho que faltou
a eles dar ao palco o sentido maior que a vida que Freddie Mercury
deu. Isso me guia muito na performance – na verdade, já guiou mais, no
início.

Eu dialogo com a cultura mundial, com as listas de top 10, mas a
verdade é que eu me dou o direito de discordar de muita coisa. O bom
gosto, você sabe, é um esterilizante cerebral, é também um ponto
tranquilo onde as pessoas tentam se situar, muitas vezes só para
evitar polêmica, muitas vezes por preguiça ou medo de dizer que
Mozart, é sim, um compositor palaciano e trivial como uma bala de
morango, enquanto Berlioz injetou a paixão de que sou feito em toda a
sua pequena obra. Realmente acredito que o bom gosto é uma virtude de
quinta categoria, como afirmava Nelson Rodrigues. E eu hoje gosto de
ser a régua do meu mundo, julgo as coisas a partir da minha medida,
mas não nego que adoraria – repito em caps lock: ADORARIA – ser um
profundo amante de jazz, de cinema francês e de música indie do século
21. Só que, como eu disse, minhas obsessões me tomam tempo, e eu acho
nosso mundo muito utilitário na produção e na absorção da arte, num
movimento retilíneo uniforme de tédio. Topo ser esse Quixote
antiquado, porque o mundo em que vivo é bem mais interessante.

Ah, e o Petkovic > Zidane é parte de outro lado da minha
personalidade: sou um piadista hiperbólico, e o Pet é nosso.


A Pira > Pois o que eu acho que vai acontecer é o seguinte: lá pelas tantas você vai voltar ao cânone, um por um, Shakespeare, Rafael, Beethoven, Beatles, Boticelli, etc. , e vai se dar conta de que existe um motivo pelo qual essa galera tá no caderninho da civilização ocidental. Essa projeção te intimida? Tens medo de concordar com a humanidade, no final das contas?

Márvio > Nada disso me intimida. Esses aí que você citou moram no meu coração.
Mas eu tenho uma ou duas coisinhas a ensinar a humanidade, e abrir o
leque é fundamental.

A Pira > Conta pra galera aqui do cerrado como começou tua relação com a Legião. Conta pra gente daquela show na praia, quando tu era moleque.

Márvio > Quando eu fui convidado a ser vocalista de uma banda, eu precisei de
um modelo. E achei que a Legião era um produto realmente sério de
rock. Influenciou muito o fato de que ele me dava assunto para
conversar com a minha primeira grande musa, Thaís, que era apaixonada
por eles. Mas ele cantava bem, as letras eram legais – havia fúria,
havia simbolismo, havia melancolia, e almas românticas como a minha
adoram isso – e além de tudo a figura magnética do
lead singer.

O lance do Tributo em Ipanema surgiu em 1998,  eu já era amigo do Fred
Nascimento, ex-guitarra de apoio da Legião – ele cresceu com meu pai e
meu tio. A gente falava muito de rock, e ele me levou para esse
ensaio. Eu tava a fim de ver os cantores ensaiando, gente como
Raimundos, Toni Platão, Cauby Peixoto, Paulinho Moska, Lobão, vários
artistas legais. Só que no primeiro ensaio não havia cantores. como eu
cantava as letras no meu canto, o maestro da orquestra pediu que eu
cantasse tudo no ensaio, e aí eles me contrataram. E aí, ensaiei e
tive a chance de subir ao palco, fazendo backings da Sandra de Sá e do
Evandro Mesquita. Só que choveu pacas no dia do show, que foi
transferido, e aí Zélia Duncan cancelou a sua participação. Tentaram o
paulo Ricardo, ele não topou, e aí me perguntaram se eu cantava “Quase
sem Querer” no tom dela. Disse que era o meu tom e aí eu cantei. Ainda
rolou de cantar “Monte Castelo” ao lado de Ângela Maria e Agnaldo
Timóteo, porque ele amarelou com o tom altíssimo da música.

Persigo o repeteco disso – cantar na praia para 20 mil pessoas – até
hoje. Vou morrer tentando. Já cantei com o Cabaret para 5 mil, 2 mil,
7 mil. Mas em Ipanema, de novo, seria cósmico.

"Renato Russo", poeta nascido em Brasília no dia 27 de março de 1960.

A Pira > Mas deixa eu aproveitar teu parentesco com Augusto dos Anjos e, sabendo que voce próprio tem sua produção poética, me diga o que significa “Lá em casa tem um poço / mas a água é muito limpa-aaa” para você? Me ajuda nessa.

Márvio > Eu acho que Renato Russo curtia ser lúdico e pregar peças herméticas
nas letras, e aí cabe a quem lê extrair o melhor. Eu acho que no final
de Há Tempos, rola um salto temporal. Uma voz que caga regras
“Disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza…” e de repente ela é
cortada por uma voz que lamenta que haja tanta pureza assim. Talvez
seja preciso um pouco de sujeira nessa água, um pouco de pecado no
sangue.

A Pira > Como foi gravar com o Ney Matogrosso? Ele ainda curte um rock?

Márvio > Cara, o Ney foi incrível. É um intérprete, então ele se obriga – sem
muito esforço, com um prazer imenso – a ouvir o que é novo, a conhecer
propostas, a aceitar convites. Foi úm momento inigualável vê-lo cantar
Dentro de Você“, de minha autoria, no dueto que vai estar no nosso
próximo disco, porque você tem uma estranha sensação de confirmação.
Eu era capaz de imaginar como ele cantaria e ele simplesmente confirma
a minha imaginação quando canta.
O foda é que não dá pra relaxar: eu já estive com ele umas cinco
vezes, ele é sempre muito gente boa, mas eu ainda não consigo relaxar
diante dos meus ídolos. Fico lá todo cerimonioso, porque ser fã é foda
né? Você quer absorver o máximo dos minutos que vc passa com o cara e
ao mesmo tempo quer ser o último a incomodar alugando. Mas enfim, ver
o lado piadista dele – ele perguntou brincando se eu me incomodaria se
as pessoas pensassem que a gente teria um affair, dada a letra safada
do dueto, e eu respondia que “pra minha carreira, de repente é até
bom”.

E tem outra né? O cara tem pelo menos 36 anos passados diante de
microfones. É uma naturalidade absurda na hora do play+rec. Sonho em
chegar a essa tranquilidade, saber quem eu sou assim que eu abro a
boca para cantar. Ainda me sinto procurando a minha voz a cada
gravação.

A Pira > Tu tem alguma vontade de entrar no panteão da MPB? Um lance meio Marcelo Camelo , de largar a banda e a guitarra, sentar num banquinho e etc?

Márvio > Vontade eu tenho total, mas não vai ser à base de paumolescência não.
Marcelo Camelo é muito proparoxítono pro meu gosto. Não vejo paixão,
vejo artificialismo. Projeto capa da Bravo comigo não.


A Pira > Nesses tempos politicamente corretos e multiculturais, onde o lance é frequentar um terreiro, praticar uma yoga e casar ao som de Beach Boys, tu abraça teu iberismo na maior. O pacote completo: com catolicismo, tourada, e o lugar da mulher. Tu é muito recriminado?

Márvio > Alto lá; catolicismo não: sou de formação cristão histórico. Não
acredito em trindade nem em santos, nem em outros dogmas papais. Dito
isso, vamos lá.

Eu acho que, da mesma forma que o mundo não me serve totalmente, meu
mundo não serve a todos e é perfeitamente óbvio que precisamos nos
tolerar. O problema é que a nossa geração não tem causas a abraçar, e
fica por aí, atirando a esmo. Eu tolero tudo, praticamente tudo, e só
reservo intolerâncias para a minha vida PESSOAL: aborto: eu acho que
tem que ser legalizado mesmo, porque existem um monte de pessoas que
não acrditam no que eu acredito, a gente aparentemente nunca vai
chegara  um consenso: existem vários ótimos argumentos de ambos os
lados. Então, que ambas as coisas coexistam: deixemos os que precisam
do aborto abortar de forma segura, e que se previnam contra a gravidez
indesejada todas aqueles que achem que vão se entender com Deus
posteriormente. Religião é para moldar a vida e o caráter do
indivíduo, e não pode ser freio na vida de quem não é obrigado a crer
em Deus. Aí, você não mexe na minha religião e eu não mexo nas suas
leis.

Aí, é o seguinte: eu vejo beleza na tourada sim, e não acho problema
nenhum que touros sejam mortos na arena como forma de arte. Eles

crescem como reis, superbem tratados, e o espetáculo é uma metáfora sinistra da nossa civilização, inclusive também é uma metáfora essa persistência desse espetáculo diante do mundo que, semcausas a abraçar, resolve corrigir e reparar tudo, uma espécie de stalinismo mais brando. Do jeito que vamos, reescreveremos a história, fingir que os
povos não se mataram e tentar dar compensações a torto e a direito, criar culpas onde não existem e desmotivar o lance mais bonito do ser humano, que é construir a si mesmo, do jeito que vamos. Até o ponto em que devolveremos Niterói aos herdeiros de Arariboia, porque eles que moravam lá antes.

Não sei dizer o que é o papel da mulher, acho que não dá para colocar tudo na conta delas. O homem criou a babaquice, e a mulher quis ser igual ao homem. O problema é que as mulheres ainda estão decidindo o que querem, enquanto os homens sabem direitinho.

A Pira > Escapou da polêmica nessa. Mas agora não vai ter jeito: explica pra
gente o seu conceito de “medo estatístico”!

Márvio > Nem tudo que parece racismo é racismo. O fato de ter 5 pretos e 150
brancos numa empresa pode simplesmente dizer que, dados acontecimentos
históricos que têm a ver com a escravidão e má inclusão, mais brancos
se qualificam rapidamente a cargos que negros. A não ser que o RH
seja repleto de filhos da puta, o que me parece conspiração demais.
Isso é natural porque, estatisticamente, os negros tiveram mais
dificuldades de se integrar às classes mais abastadas, que são as que
historicamente têm mais oportunidades de estudo. O fruto de uma
injustiça anterior não é necessariamente uma injustiça atual.

Da mesma maneira, se ao passar perto de uma favela à noite e ver um
negro vindo na sua direção, você dá um corridão, isso não quer dizer
que você seja racista. Provavelmente um negro faria a mesma coisa, e
muitos já me disseram que sim. Só que, atualmente, é sábio também
correr dos brancos. Enfim, de qualquer maneira, sendo branco ou preto,
mantenha um bom preparo físico ao passar por uma favela.

A Pira > Como é esse negócio de que tu nao faz download de música na internet? Tem que ser macho pacas, hein?

MárvioNão faço simplesmente porque não priorizo uma conexão megapowerflex lá
em casa, nem vivo atrás das maiores novidades tecnológicas do mercado.
Nunca tive um mp3 player, e ainda curto meu discman. Meu estilo
preferido de música é o clássico, e o melhor jeito de consumi-lo ainda
é em CD. E o YouTube sempre tem a música contemporânea que quero ouvir
pontualmente. Se vc tiver um hit, eu vou no YouTube e ouço. Se eu
curtir pra caralho, eu compro o CD.

Nem é uma posição política extrema sobre a favor ou contra o download.
É que eu também acho que música é pra ser apreciada com calma, e as
pessoas baixam música demais, o consumo é muito efêmero. É coca-cola,
e às vezes eu quero vinho. E tem outra: eu sou compositor e reparei
que, quando eu rpestava atenção demais na música dos outros, eu me
retraí na hora de compro as minhas. Aí achei melhor botar ordem na
casa.

A Pira > E o tchose? Se fosse contigo, tu legalizava?

Márvio > Acho que tem que legalizar, sim. De alguma forma, a maconha tem que
ser legalizada.

A Pira > Valeu, Márvio. Agora vou desligar e ouvir um Mozart.

Grande homens do meu tempo – edição Fevereiro de 2010

Friday, February 12th, 2010

Lauro Montana é ator, professor , DJ, e muitas outras coisas. Gentilmente me concedeu esta entrevista abaixo. Confira:

montana

A Pira> Tu é de que quadra, véi?

Montana> Sou da 215 Sul, palco de grandes panqueides nos anos 80 e 90, quando filhos de sub-oficiais da Aeronáutica degladiavam-se com filhos de bancários nos gramadões das entrequadras. Tempos difíceis aqueles, difíceis mas com fibra.

A Pira> 215 sul aqui no meu manual do entendedor do Plano tá indicada como quadra de milico. Tu como filho de milico, andou muito por esse Brasilzão? Tu sente uma diferença entre as pessoas que nasceram e viveram aqui desde sempre e os que já moraram fora da cidade, em relação à apreciação que fazem da cidade? Eu por exemplo ja morei em Anápolis, Fortaleza, Rio e o escambau…por isso sei que melhor do que aqui é dificil de achar. Mas tu conhece a baixo autoestima que Brasilia tem né? Aquele lance de querer morar em São Paulo a qualquer custo, e tal….

Montana> Bom a minha quadra não é de milico, eram de funcionários do antigo Ministério do Interior e Caixa Econômica. Mas como vc é asa-nortino vou perdoar essa generalização. Na real não muito, pois pouco tempo depois que eu nasci minha mãe se separou do meu pai. Chegamos a morar na Praia Vermelha quando meu pai cursava a ESG. Sempre curti morar em Brasília, acho que em grande parte ainda reside aquela falsa ilusão de viver em grandes centros metropolitanos, mas sempre achei grandes cidades caras e insalubres, prefiro o bom e velho DF. Preferencialmente o final da asa sul, mas ainda quero morar naquelas casas das 700’s feitas pelo Milton Ramos.

A Pira > Vivemos numa época em que qualquer Almodovar é chamado de gênio, qualquer HIT do Franz Ferdinand é chamado  de obra-prima. Tudo anda muito banalizado. Mas na real… “Demência” é mesmo uma obra-prima. Voce escreveu previamente algumas daquelas falas? Chegou a ter ensaio? Conta pra gente o processo criativo por detrás daquela jóia do estoicismo contemporâneo.

Montana> Deixa eu corrigir a sua sentença. Vivemos numa época em que qualquer imbecil é chamado de gênio! Acho que houve uma banalização da genialidade, tal qual da violência, num mundo de hoje onde as pessoas não têm um pensamento crítico, vivem na impessoalidade de facebooks e orkuts, qualquer releitura que se reproduza é chamada de GENIAL. Acho que a idéia não está em questionar se Almodovar (que eu acho uma bela merda) ou Franz (que eu acho razoável) são geniais, mas devemos questionar o próprio conceito de genialidade nessa época de merda em que vivemos. Quanto ao Demência é um obra inteiramente visceral e improvisada. Um surto, se prefere assim.

A Pira> E o Kikito? Tocaste uma zona lá em Gramado?

Montana> Cara acredita que eu estava em BsB dormindo durante a premiação? Nem fui pra Gramado, tinha duas opções: ou ia pra Gramado, ou ia pra Niterói no Festival de Cinema Universitário. Como pensei que não comeria ninguém em Gramado, escolhi Nikity. Também não comi ninguém lá.

A Pira> Quais sao as diferenças entre o Landscape e a Play, e o saudoso São Rock? O que mudou na naite rock em Brasília?

Montana> O Lands já foi uma grande casa, nao sei se por descaso do público ou dos proprietários (ou dos dois) o Lands está em coma. Acho que ele se encontra no fim de uma era,  sua própria era. A Play pra mim parece um show de calouros do Rock. Colocam como convidados pessoas de fama razoável que nunca viram uma cdj na vida pra entreterem um público apático e em sua maioria imbecil. Mas acho que isso não seja culpa do evento. É o período em que estamos vivendo agora. A naite mudou pra caralho, além dos índices de inflação, as estruturas das casas, os DJs e o público na época do São Rock (1996/97) eram bem melhores do que hj. Não falo por saudosismo ou porque estou mais velho não, mas hoje vemos uma garotada completamente imbecilizada, acham que festas são passarelas de moda, cultivam grupos imbecis como Britney, Lady Gaga e outras retardadas do gênero. É um juventude festiva completamente anencéfala e imbecil, espero que o Governo Federal tenha um programa de esterelização pra essa garotada.

A Pira> Tu tem explicação pra esse fenômeno de que quando não rolava internet e mp3, o público conhecia mais bandas e dava pra tocar até um Guided by Voices, e hoje em dia, quando tu pode baixar até a discografia inteira do Fall, neguinho só dança se for REPETILLIA?

Montana> A resposta é óbvia: a comodidade leva à ignorância. Na nossa época a gente lia Bizz, Rock Brigade, Top Rock (não que sejam periódicos respeitáveis), a galera corria atrás das músicas e das bandas exatamente porque sua acessibilidade era limitada (reserva de mercado e tals). Com o advento da internet pensou-se que a nova geração ficaria antenada nessas vertentes  mas o que acontece é que essas bandas supracitadas continuaram no anonimato do hype. Acredito que a reserva hoje em dia não é mais de mercado e sim intelectual. Criar uma geração inteira de idiotas independe de recursos tecnológicos ou mesmo tornar a propriedade intelectual de livre acesso não quer dizer que a demanda por essas bandas aumente. Eu me lembro que mesmo nas queimas de estoque da Redley Records, da WOM (asa sul) ou até mesmo da extinta Sounds, petardos como esse ficavam no limbo e 60% da população brasileira era fã da Banda Eva. Esse é um prospecto antropológico e histórico da nossa cultura e acredito que transnacionalmente isso também se reflita. Caso contrário O The Fall ganharia um Grammy por conjunto da obra e não a Beyonce por conjunto da bunda.

A Pira> Laurinho, como é que é essa historia de que tu era snevol?

Montana> Fui não, tenho amigos Snévol como o Eduardo Políbias, o Dj Ed, entre outros, mas nunca vesti a camisa não, aliás não visto a camisa de ninguém.

A Pira> E aquele lance de metal do fim da asa sul? Explica isso pra gente.

Montana> Não ficava recluso ao Metal apenas. Apesar de todos os membros da ARFAS (Associação dos Roqueiros do Final da Asa Sul) curtirem metal, o que originou a sigla foi o fato da galera do fim da Asa Sul curtir rock num perímetro pequeno entre si. Claro que a Associação contava com celebridades como: da 416 Sul Podrão (Detrito Federal, BSB-H), Zeca (Animais dos Espelhos, Divine), da 215 Sul eu, todos os primeiros integrantes do Deceivers, Marcelo Capa (Beto Só), Pablo do Capotones, Linhos Restless, Robson do Abohent, Foca do Bois, na 213 Túlio do DFC, Leandro do Abohent, Bernardo do Marfusha, na 216 Reco (não lembro o nome da banda banda agora mas era cover do Allman Brothers). Foi no fim da asa onde ocorreram shows clássicos de Escola de Escândalo entre outros no CFO (Conselho Federal de Odontologia) e na ASP (Ação Social do Planalto). Isso sem contar que era muito mais limpeza queimar um tchose lá do que em qualquer lugar das ASAS.

A Pira> Montana, é difícil escapar do humor? Voce acha que as pessoas fazem coisas engraçadas  ou irônicas por medo de se expor? Arriscarias uma poesia?

Montana> Cara ser engraçado é uma dádiva, infelizmente tem gente que é imbecil e pensa que foi abençoado. Odeio poesia.

A Pira> Até a do Renato?

Montana> Cara tem uma passagem em Daniel na Cova dos Leões que expressa bem o comportamento do brasiliense: “Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
a motor e insistir em usar os remos”.
Sempre que escuto essa passagem lembro daquela molecada nas sextas-feiras dos anos 90 subindo e descendo a 109 sul pra saber da balada maneira e todos iam parar na mesma festa. Geralmente era na concha acústica do IdA ou no CA de antropologia ou quando a night acabava no Bar do Luíz. Isso antes do advento do Balacobaco e Wlöd é claro.

A Pira> Como é a expectativa de ser pai?

Montana> É uma vibe estranha, mas estou otimista. É um emaranhado de pensamentos e preocupações, mas acho que dará tudo certo.

A Pira> Boto fé que deve ser sinistro. Mudando um pouco de assunto… outro dia tava pensando e acabei concluindo que voce é a pessoa mais conhecida do DF, sem exagero. Acho que rola até um distrital. Como foi que isso aconteceu?

Montana> A vida pública coloca vc numa posição estranha (não de 4 é claro). Você fica à mercê de pessoas das mais variadas idéias e manias também, isso muitas vezes é desgastante, mas quando se sabe levar rende bons frutos. Não que eu tenha feito mais sexo em virtude disso (ao contrário), mas dá pra se entreter na “alta roda” de vez em quando, sem cair no colo do Carlinhos Beauty.

Grandes Homens do meu tempo – edição janeiro / 2010

Sunday, January 10th, 2010

A entrevista desse mês é com o cartunista (humorista é o mais correto) Arnaldo Branco.

Gentilmente nos concedeu esta entrevista:

A Pira >Quando te fazem a protocolar pergunta “o que voce faz da vida?” e voce responde “cartunista” , te olham como você passasse fome? Aliás… é um equívoco ter essa idéia dos cartunistas?

Arnaldo Branco > Mas cartunista passa fome mesmo. Aliás, não entendo quem trabalha com humor e fica restrito ao cartum, aos quadrinhos. Prefiro dizer humorista, que abre mais o leque, mesmo que seja mais conhecido (claque) pelos quadrinhos e cartuns do que por escrever roteiros e textos para revistas e sites. Aliás, também acho me definir como humorista restritivo – se você sabe fazer personagens, escrever ficção, não entendo porque ficar só na seara do humor. Sempre quis trabalhar com outras coisas, com cinema – não só em comédias – por exemplo.

A Pira > Mas vamos continuar no cartunismo mais um pouco. Angeli ou Laerte? Quem é o maioral?

Arnaldo Branco > Tenho essa teoria, do melhor e do mais legal: Beatles é melhor, Rolling Stones é mais legal; Clash é melhor, Sex Pistols é mais legal; Pelé é melhor, Garrincha é mais legal (pelo menos como figura trágica, hehe). Laerte é o melhor cartunista do Brasil disparado, com mais recursos, cabeceia, chuta com as duas. Mas Angeli foi o cara que me botou nessa vida, é o rockstar dos cartunistas.

A Pira > Sei que voce é um defensor do humor de texto, das boas tiradas , do diálogo ácido, e etc. Sei até de relatos de que voce é fã de Gilmore Girls. Já eu acho que aquele tradicional close no rosto do Lucio Mauro vale por 50 tiradas do Woody Allen. É o fim do humor da careta? Existe uma hierarquia no humor?

Arnaldo Branco > Não sou defensor ferrenho, só que ainda estamos na pré-história de humor de texto aqui. Queria muito que primeiro fabricássemos nosso Groucho Marx para depois negá-lo, gostaria de viver em um país em que o trash fosse apenas mais um dos subgêneros, ao invés de ser a única opção. E ademais, quem é o novo Lucio Mauro, o novo Costinha? Esses stand-ups que fazem sobrancelha é que não, até o humor de careta está em péssima fase. Mas enfim, sempre fui uma criança chata, odiava palhaços, pensava: “cair de bunda eu também sei fazer”… curto engenho, sacada. Tem público pros dois tipos de humor, creio, e às vezes rola até interseção entre esses públicos. E também não entendo porque não podemos ter o melhor de dois mundos, Woody Allen (que, porra, é um puta comediante de careta também) escrevendo pro Lucio Mauro. Ah, e Gilmore Girls eu não acho engraçado, acho bem escrito, um smart ass contest, me lembra os filmes antigos, em que os atores falavam igual a máquinas de telex, ali tem um certo descompromisso com o naturalismo que eu curto.

"Its like...Oh my God, you know?!"

"Its like...Oh my God, you know?!"

A Pira > Quanto à hierarquia do humor… me diga…o trocadilho é a forma mais pobre de humor? Ou é piada com Jesus?

Arnaldo Branco > O pior humor é o humor fácil, o inconsciente coletivo falando na sua cabeça. Não dê ouvidos a ele, descarte suas primeiras idéias, é um bom começo. E às vezes o trocadilho pode ser sensacional. O Planeta Diário usava esse recurso direto fazendo piadas com Nietzsche e o caralho, e eram muito boas. Piadas com Jesus, idem.
A Pira > Voce é o autor da famigerada tirinha onde o Ali Kamel aparece defendendo, numa cadeia superlotada de negros, a sua tambem famigerada tese de que o Brasil não é um país racista. Não temos tempo a perder: eu acho que o Ali Kamel tem razão.Em comparação a diversos outros países o Brasil passa longe de ser um país racista.  E acho que a tese é propositadamente mal compreendida, pois afirmar algo desse tipo ultrapassa o politicamente correto e se constitui num verdadeiro tabu. Pra voce que ataca o politicamente correto em algumas de suas colunas, como é ser acusado de ser refem de um tabu politicamente correto?
Arnaldo Branco > Que tal se o livro se chamasse “Não somos tão racistas”? Eu sei do que o livro trata, acompanhei no jornal as colunas que o Kamel compilou depois – só me parece aquele tipo de relativização despropositada, do cara que discute semântica no meio de um quebra-pau mais importante. O AK também escreveu que a Globo fez uma cobertura isenta das Diretas Já usando uma argumentação parecida, pegando o texto do Jornal Nacional da época e justificando aquela escolha de palavras. E tem aquela: racistas tru, de raiz, também se dizem vítimas do politicamente correto. Bom senso é de graça.
entrevalikam
A Pira > Mas o que eu mais noto e vejo que ele tem razão é a importação de uma tensão racial que não possuímos. O sujeito assiste “Mississipi em Chamas”, “Faça a coisa certa” e os stand-ups do Chris Rock , se enche de revolta, põe uma camisa do Malcom X, e sai por aí mandando um papo oprimido. O cara descola uma causa pra viver.  Nunca viu disso?
Arnaldo Branco > Tem disso, mas o que eu mais noto é a reação cliché a essa figura clichê. Gente que acha que a denúncia do racismo é que provoca o racismo. E importada em que sentido? Não se matam mais negros na fogueira, mas ainda há episódios de humilhação tanto nos EUA como no Brasil. Não ferve teu sangue saber que um príncipe, um ser humano maravilhoso como o Adílio (leia a história de vida do cara) já foi barrado na portaria do seu próprio prédio? Sempre disse que a seleção dos candidatos para as vagas no sistema de cotas em universidades devia ser feita por PMs, eles sabem direitinho quem é negro e quem não é.
A Pira > Voce não acha que a torcida do Flamengo é muito bitolada em ídolos como Adriano e Petkovic e pratica uma injustiça ao não chorar a saída de heróis como Aírton e Ibson?
Arnaldo Branco > Sim, mas é universal essa de gostar mais dos solistas do que do povo que faz a cozinha. E não recrimino não: nesses anos de jejum tivemos outros destruidores importantes, Charles Guerreiro, Mancuso, Juan, mas quando tínhamos centro-avante (Romário, Liedson) faltou quem os municiasse. Acho que foi um acontecimento simultâneo feliz, isso de termos um atacante eficiente e um criador no meio-campo.
Volta, porra!

Volta, porra!

A Pira > Wagner Love vai prestar?
Arnaldo Branco > Acho bem emblemático que nas entrevistas o cara diga que quer jogar não no Flamengo, mas no Rio de Janeiro. Bem, temos uma tradição de comprar esse tipo de jogador, Flamengo sem baladeiro não é Flamengo – e acho até que há exagero nessa coisa presbiteriana de ficar perseguindo jogador na noite. Um dos nossos ídolos do passado, Almir Pernambuquinho, foi um dos inventores do futevôlei. Mas confesso que fiquei mais empolgado quando estávamos tentando o Kléber.
A Pira > Em outras épocas eu lembro que voce andava mexendo com T.S. Eliot. É verdade então a máxima de que o curso natural das pessoas é envelhecer e ir se tornando conservador ou sua predileção pelo poeta não passa de um exemplo daquilo que voce escreveu sobre admirar arte apesar do viés ideológico?
Arnaldo Branco > Mexendo com o TS Eliot? Já li, mas nunca me aprofundei – nem conseguiria, porque é trabalho para uma vida, e uma vida com mais tempo livre que a minha. Mas nunca, nunca mesmo, deixei de ler alguém por discordar das idéias políticas ou algo assim. Acho “concordar” algo superestimado. E de qualquer forma, nunca tive formação política radical, meu pai votava no MDB e orientou os filhos para gostarem mais da democracia do que de ideologias, nunca entendi essa de comprar o pacote inteiro de um jeito de pensar. Tem gente que me critica por me achar de esquerda demais ou de direita demais, assim como tem pessoas de correntes totalmente opostas que gostam do que faço. Sou o cartunista favorito do Diogo Mainardi, sabia? Ele mesmo me disse ;)
A Pira > Mas voce mesmo se assume de esquerda em uma de suas colunas. Como homem da esquerda e pai do Capitão Presença, como voce digere esse lance do FHC ser o mais novo herói canabista?
Arnaldo Branco > Sim, me considero de esquerda, mas falar isso é pedir pra vários caras de esquerda mesmo, aqueles que acham o Gabeira direitaço e a Marina Silva uma tucana infiltrada pra roubar votos da Dilma exigirem o confisco da minha carteirinha. Aquilo: sou contra pena de morte, a favor do aborto, pela liberação das drogas, mas sei lá se o Estado deva controlar a economia ou não, acho que há casos e casos. Qual é a diferença da gestão pública dos Correios ou da gestão privada do Sérgio Naya? Já disse antes: sou de esquerda com atenuantes e comunista, mas do modelo sueco. O cara parece aqueles ministros da área econômica que viram consultores depois que perdem a pasta. Não fez nada a respeito enquanto estava no poder e agora vive de dar palpite. O FHC aposentado daria um bom motorista de táxi… mas enfim, acho que the more, the merrier.
"quando mais sujeira, mais limpeza"

"quanto mais sujeira, mais limpeza"

A Pira > Como este é um blog que não nega sua origem candanga, vou ter que tocar agora num assunto delicado. Como anda o recalque carioca da mudança da capital? Pergunto isso porque há tempos que se repetia a corroída tese de que Brasília era uma cidade que naturalemente desestimula o protesto e o confronto com o Poder. Recentemente a Câmara Legislativa do DF esteve ocupada por um bom tempo e a Capital Federal testemunhou cenas, exageros à parte, dignas de “Encouraçado Potemkin”. E vocês aí abraçando a Lagoa. E agora, como fica a estorinha?
Arnaldo Branco > “Vocês aí” me inclua fora dessa. Temos uma das Câmaras Municipais mais ladras do país e ninguém faz porra nenhuma aqui. A Capital poderia ser no Maracanã e com entrada franca, nego ia lá para comer pipoca e lançar uma vaia ocasional. O que perdemos com a mudança da capital foi a verba, só. Agora, sobre Brasília, não vem com “a gente” também, é tudo militante que vai lá jogar pedra, mas seletivamente, uns jogam no Arruda, outros nos Sarney, nunca nos dois. Cadê a sua metralhadora, Gas? Somos uns bois no pasto – todos nós.
A Pira > Por falar em metralhadora, e o discurso do Obama na entrega do Nobel? Vi muita gente se decepcionando por ele ter mandado a real. Nao acha que nossos jovens obamistas (todo jovem é obamista) vivem muito num conto de fadas?
Arnaldo Branco > Tira os jovens dessa. Obama é uma paixão mundial – me lembra o Gorbachev, que era amado pelo mundo e nem tanto pelos russos. O fato é que estamos acostumados com as mentiras dos políticos e da total falta de vínculos entre o discurso e a realidade. A gente gosta de ser enganado, nem que seja para poder reclamar depois – e podemos dizer dos políticos tradicionais: “pelo menos eles nos dizem coisas bonitas!” Obama disse a verdade na hora errada, sem pelo menos o alívio de um momento político e econômico mais ameno. Penso no slogan dele, Yes we can, em contraponto com aquela fala clássica do personagem militar do Jack Nicholson: “You CAN’T handle the truth!”


Grandes Homens do meu Tempo : Eron – edição dez/2009

Thursday, December 10th, 2009

Eron (ex-Heron) é um cantor de futuro e está prestes a gravar seu debut, produzido nada mais nada menos do que por Bob Johnston, o produtor de Bob Dylan na fase impecável.  Gentilmente me concedeu esta entrevista:

Eron e Bob Johnston bolando uns arranjos

Eron e Bob Johnston bolando uns arranjos

A Pira > Na boca do povo você é uma espécie de vitamina de Austin Powers com Jack Kerouak e Renato Gaúcho. Aposto que você discorda, então diz pra gente: quem é o Eron? Olhando pra trás nos anos, como voce vê a construção da sua imagem?

Eron > Acho que sou hetero demais para Renato Gaúcho… talvez Renato Russo eu me identificaria mais.  E eu não discordo necessariamente, acho que tem a ver… as pessoas só tem acesso a uma certa profundidade de informações, então faz sentido.  Acho que nunca me encaixei num estereótipo que estivesse na moda o suficiente para alguém se importar em querer entender melhor… talvez eu inconscientemente até fugi dessa competição.  Eu sempre gostei de cinema, mas ser um cineasta ta na moda por aí.  Acho que se o serviço ta sendo feito, não tem pra que superpopular.  Eu faço o que faço só até achar que alguém já ta fazendo. Eu lembro que nos anos noventa o Renato Gaúcho prometeu que ia andar pelado em algum lugar (acho que no calçadão do Rio de Janeiro) caso o Fluminense fosse pra segunda divisão.  Todo mundo sabe que se eu prometesse que ia andar pelado em algum lugar, cumpriria com orgulho.

A Pira > Por falar em competição, o que acha de ter ganhado o prêmio de “Revelação da Década”, superando figuras como Jack “Survivor” Coaracy e Gustavo Bill, inventor do Peladismo? O que você espera da próxima geração , aquela que lota as festinhas do Espaço Galeria?


Eron > Até agora eu não fui convidado pra nenhuma cerimônia que oficializou o final dessa competição, até porque tecnicamente 2010 é o último ano da década e eu dei chance pros outros dois candidatos terem Brasilia sem mim por um ano.  O que esta acontecendo com eles? Eles estão preenchendo a minha falta com dignidade. A idéia do acidente de carro do Jack foi fantástica, e o Bill largar os palcos para ser JOVEM PRODUTOR também é sinistro demais.  Acho melhor o conselho de esperar mais um ano antes de me dar o prêmio, quero que seja mais disputado.

A próxima geração tem talento demais.  Eles estão um pouco deslumbrados demais com o fator “homosexualidade é o novo rosa”, tentando reinventar os anos 80, mas acho que estão no caminho certo. Até agora, dessa cena nova o único real candidato pra revelação da próxima década é o Gabinho Mond.  Mas também tem muito pouco talento musical na nova geração, pelo menos que eu saiba.  Quem será o próximo Prot(o)?  As pessoas esquecem da importancia da música com a onda DJ herói.  Thelma e Selma tomaram o lugar de Gas e Cochlar, mas Gas e Cochlar tinham o Chantilixo… o DJismo era a cereja do sundae.  E os poetas? Cadê o novo Guri? Quem é cara de pau o suficiente pra dominar o PORTUGUÊS?  Tem outra tambem: enquanto nas ultimas gerações era mal-visto ser da Escola Americana, percebo que hoje em dia esta havendo uma fusão aí… quase não da mais pra saber quem é da Escola Americana ou não. Prevejo que a próxima geração será mais globalizada e isso é bonito, mas tambem faz com que as pessoas abandonem cada vez mais o regional.  Brasilia está exactamente no centro do Universo… isso não pode ser ignorado.

A Pira > Atualmente voce está em Londres. O que voce está fazendo por aí?
Eron > Eu estou aqui em Londres agora.  Tá frio pra cacete aqui… escurece 4 da tarde, o sol só volta lá pras 8 da manhã… a minha imagem é a seguinte: Eu xingava todo mundo que reclamava de Londres, chamando-os de fracos por não aguentarem o depressivo e solitário frio e a escuridão.  Hoje eu reclamo de Londres, mas to aqui.  Eu sou um hipócrita porque não acho que eu devo alguma coisa ao Eron.  Devo ainda menos ao Heron.  Eu to aqui de boa morando com meu irmão com quem eu não convivia há mais de dez anos.  Às vezes a gente pede pizza; deveras temos um dia semanal de pedição de pizza.  Eu to fazendo um curso de “music business” numa faculdade aqui por que não sabia mais o que fazer da vida.  Depois da aula eu venho correndo pra casa pra botar a calça do meu pijama.  Aqui o Brasileiro tem que limpar privada.

Eron na Europa

Eron na Europa

A Pira > Não tens receio de ser rotulado de “traidor do cerrado”, assim como o foram figuras como Luciano Thurstoon Moore, Gabriel Tomás , Dado Villa-Lobos e Ana Laura DJ Mulher?

Eron > A manha é sempre voltar com um golpe surpresa.  Não posso ser rotulado como “traidor do cerrado” porque tudo que estou fazendo aqui nas terras bárbaras é pelo bem do cerrado e do trabalhador brasileiro. Essa galera se deslumbrou até com o Rio de Janeiro… eu to em Nashville e só penso na Asa Sul.  Minha promessa na minha campanha é a seguinte: Se eu for eleito “famoso” prometo construir uma mansão no Lago Norte dedicada somente a festas do Rock Doido brasiliense.

A Pira> Te acusam de simplesmente não saber nada da tradição musical de Brasília. Por exemplo, voce sê vê como membro integrante de uma linhagem que vem desde Negretti, Filipe Seabra, passando por Giulliano Fernandez e Munha?

Eron > Eu não me vejo muito como MÚSICO… me identifico mais com o Guri e o Renato Russo.  Se eu fosse músico acharia uma grande honra participar dessa linhagem… mas não acho natural. Eu não tocava quando tinha 15 anos, eu escrevia sonetos de amor.

A Pira > A grande notícia que corre tanto no eixinho de baixo como no de cima tambem é que voce vai gravar um disco. E que quem vai produzir é o Bob Johnston. Como aconteceu esse encontro?

Eron > Esse eixão é fofoqueiro, hein? Eu procurei o contato do Bob Johnston durante um ano.  Um dia, numa terça-feira, o filho de Bob me liga e pergunta “de quem é esse número que me ligou 200 vezes em três dias?” Eu me apresentei, ele foi super simpático, falou pra eu ligar lá pro pai dele que ele tava em casa, pois tinha acabado de falar com ele no telefone.  Aí ele me deu o número e me desejou boa sorte. Quando liguei pro Bob Johnston ele atendeu dizendo “what can I do for you?”.  Ele é uma rara especie de o que os americanos chamam de “Country Gentleman”.  Daí eu falei que eu era músico e que estava um pouco nervoso por que era um fã… ele me interrompeu e disse “antes da gente começar, deixa eu deixar algo muito claro, eu não sou um produtor musical, eu sou um fã… sou o fã numero um do Bob Dylan, do Leonard Cohen, do Johnny Cash e do Paul Simon.”  Daí conversamos por duas horas no telefone na primeira ligação e no final ele disse “Eu mal posso esperar para ouvir suas músicas, você é muito educado.” Depois ele me disse pra esperar uma semana e ligar de volta.  Eu mandei minhas músicas por e-mail e esperei uma semana.  Fiquei na expectativa alucinante durante uma semana.  Quando liguei de volta ele disse que não podia ouvir as musicas porque lá ele não usava internet, mas que ele pediu pro filho dele imprimir minhas letras.  Ele disse que a mulher dele tinha adorado as letras e que ela lia três livros por semana, então ele achava que queria trabalhar comigo.  Ele perguntou se eu tocava alguma coisa e eu perguntei se ele se importava de escutar no telefone.  Eu toquei “What I Could’ve Been” pra ele no telefone e ele falou pra parar no meio, e então disse “Pronto! eu quero trabalhar com você e eu não quero um centavo seu, vamos ser parceiros!“.  Ontem eu voltei do Texas.

A Pira > Já perguntou pra ele se tu é mais sinistro que o HOMEM, na época em que ele o conheceu? Voce acha que pode ser o contraponto masculino da Mallu Magalhaes, ao ponto dela ser sua Joan Baez?

Eron > Eu to tentando traduzir “sinistro”… ta foda, mas já to querendo perguntar faz tempo.  Ele ja me disse que das minhas 15 musicas ele gostou muito de 5 e que nem o Cohen, nem o Dylan, nem o Simon trouxe mais de 3 pra ele por disco, mas isso não prova nada. “Sinistro” vai além da quantia de hits, afinal os Beatles não são mais sinistros do que o HOMEM.

Então, eu não enxergo talento algum na Mallu Magalhães, e a postura “burrice é a nova inteligência” também não me agrada.  A Joan Baez era conhecida por ter uma voz que aparece só uma ou duas vezes por século, além de ser tida como intelectual e líder de movimentos e o caralho… enquanto acho essas coisas ainda um pouco mais ou menos, comparar a Mallu Magalhães com a Joan Baez é a mesma coisa de comparar o Papa com a Nova Acrópole.  Agora uma gata que vai inclusive gravar comigo, que é uma que o Bob Johnston tambem gravou, já é mais possivel.

O nome dela é Natalie Pinkis www.myspace.com/nataliepinkis .  Ela acabou de gravar com o Johnston tambem e é possivel que sejamos gerenciados pelo mesmo empresário, que só gerencia o Leonard Cohen no momento.  Aí parece que nossas duas carreiras serão lançadas conjuntamente.  A voz dela é linda, apesar de eu achar suas composições um tanto quanto Walt Disney.  Mas ela é uma pianista incrível e é linda, ou seja, talvez até melhor do que Joan Baez.  As musicas da disney podem ser vistas como o equivalente moderno do folk que a Baez mandava, também.  Agora, ia ser melhor se ela fosse brasileira pra gente humilhar logo o mundo.  Taí um problema, a Mallu Magalhães não é algo como PAULIXO? Pra sermos parceiros ela teria que ser no MINIMO do centro-oeste.  Sente essa Natalie aí, acho que eu consigo converter ela pro brasiliensismo…
A Pira> Já ouvi mais de uma pessoa dizendo que suas músicas mais recentes são muito melhores que as antigas. Eu me incluo nesse pessoal. Voce tambem acha? O que aconteceu? Andou ouvindo um REM?

Eron > Como eu disse, que eu saiba não tinha ninguem fazendo o que eu me propus a fazer com minhas músicas, então eu fiz aquilo durante uns seis meses, daí já tinha alguem fazendo, eu mesmo.  Então comecei a fazer outra coisa, e essas são minhas músicas novas.  Não são melhores nem piores que as velhas, mas concordo que são mais acessíveis… você me recomenda algum disco ou alguma música específica do REM?

A Pira > Recomendo todos antes do Out of Time, quando eles ainda mandavam altos banjos. Mas me diga…quantos HITS voce promete pra esse seu disco? Já tem nome?

Eron > Então, prometo pelo menos 5 hits, o nome não sei ainda, mas talvez seja só ERON FALBO… to aceitando sugestões… pensei em altos nomes, mas nenhum foi certeiro…

A Pira > “Action : Sinistro”, seu livro que ainda nao foi publicado. O que significou escrever esse livro? Porque voce escreveu o livro?

Eron > Acho que no sexto capitulo desse livro eu respondo essa pergunta melhor, mas dou um ‘teaser’ aqui.

Retirado do quarto parágrafo do sexto capítulo de “Action: Sinistro”:

“Os meus sonetos hesitavam e não pulavam no precipício, pulsavam no
purgatório em total indecisão.  Não eram o suficiente.  Agora eu ia
começar a parte pratica de meus ensinamentos, que nem no primeiro
sparring das aulas de boxe.  Não é mais soquinho no saco de pancadas.
Eu ia apanhar do professor e me amarrar.  Eu tava entrando no bailinho
da escola já sabendo dançar e ia chamar pra dançar alguma gata que não
fosse intimidante demais.  Com ela eu não to nem aí se erro.  Minha
primeira novella eu calculava como uma regurgitação da adolescência
que domou meu espirito insaciável por um tempo.  A novella seria um
portal para a calibragem do resto da minha vida.  Tava dançando colado
com minha primeira novella, os pés dela em cima dos meus, pra onde eu
fosse ela iria enquanto eu tentava manter o ritmo calmo.  Enquanto ela
sorri lentamente e coloca a cabeça no meu ombro, chegando cada vez
mais pertinho, eu me preparo para um tango de fazer soar.  Em casa eu
comecei a fazer anotações sobre as coisas que aconteciam ao meu redor.
Eu não sabia escrever um livro e eu não pesquisei no Google.  Eu só
comecei a escrever e não parei.”

A Pira> Eu particularmente acho sensacional a parte do livro em que voce fala de sua amizade com Rufus Wainwright. A amizade continua?

Eron > Não foi bem uma amizade não.  Ele sempre me tratou como fã, ele é meio músico filhinho de papai.  A familia dele inteira é de músicos, ele não sabe o que é ser um civil.  A última vez que falei com ele foi quando ele passou por Brasília.  Aí ele me deu um email novo dele pra mantermos contato.  Mandei um convite pra ele participar desse novo disco e até agora ele não respondeu.  Não creio que ele se interessou por mim, ele tava ocupado demais falando dele quando nos conhecemos. É um rapaz de talento notável, mas só iremos ter nossa primeira conversa quando estivermos tocando juntos em alguma fundação anti-Aide.

A Pira > Como é esse negócio de voce nao curtir um rock moderno? Verdade que se tocassem “Debaser” numa festinha voce nao saberia do que se trata?

Eron > A minha queixa era o número de pessoas que não sabiam da existência dos anos 60. Hoje em dia não tem perhaps nenhum.  Eu ouço de tudo.  Acho que tem um certo tipo de música que nos identificamos mais quando somos adolescentes, e cada um tem a sua tara pessoal. Muitas vezes são as circunstâncias que indicam alguma coisa, um irmão mais velho, um amigo de escola… minha banda era Oasis quando eu tava iniciando minha adolescencia, aí isso decide tudo. Se minha banda fosse Nirvana, como era a banda de uns colegas meus na escola, eu teria me aprofundado mais no rock doido americano, assim passando por Pixies e Sonic Iutchi. Eu pesquisei por outro lado, mais pra Blur e Suede e coisas do tipo, sabe qualé? É outra cena, meio incompatível, mas eu acho o som fera do rock americano, curto pacas, só que não tem aquele apelo da paixão adolescente pra saber cantar junto e tudo. Eu canto umas 30 musicas inteiras do Oasis se quiser, no entanto.

Eu dançaria “Debaser” no Landscape.

Grandes Homens do meu Tempo – Ricardo Tubá

Wednesday, November 11th, 2009

Ricardo Tubá é primeiramente cidadão do Guará. Fundou o maior zine do país, o Tupanzine.

Gentilmente me concendeu esta entrevista abaixo:

A Pira >   E aí? Vai no show do Watson sexta?

Tubá > Show pra mim tem que ser tipo pocketshow na FNAC acabando no máximo as 21h ou aqueles esquemas do Cláudio bull tipo domingo final de tarde nessas livrarias da asa norte q vende cerveja cara e quente. to ficando velho demais pro rocknroll. Watson é muito bom. Tu sabia que eles têm uma música chamada Tupanzine?

A Pira > To sabendo. É boa a música, até. Mas por falar em ficar velho, outro dia desses o Pinduca tava por aí falando da dificuldade dele em escutar músicas novas. Voce não sofre disso, aposto que curte um Animal Collective. Ou sofre?

Tubá > Não tenho acompanhado essa nova safra de bandas novas. De novo ja ouvi falar de algumas: Maximo Park (nem sei se é tão nova assim), Panic at the Disco (essa eu acho que é emo),  Animal Colletive sinceramente nunca ouvi falar.  Parei em Belle & Sebastian, Butcher Boy… acho q tô melhor que o Pinduca.

A Pira > Tubá, e esse momento do Vasco? Melhor, vamos falar do momento do Flamengo. Alguns jornais falam de “consolidação da supermacia rubro-negra”. Será que o Rio caminha pra se tornar uma Madri, cidade de somente dois grandes times e olhe lá?

Tubá > Momento do Flamengo? Time que depende de um veterano de 38 anos pra não passar vexame como aquele do Barueri? Outro dia estava discutindo com meu irmão sobre uma enquete : “quem fazia mais falta , o Diego Souza no Palmeiras ou o Adriano no Flamengo”. O Diego Souza faz tudo no Palmeiras e sem ele o Palmeiras não ganhou de ninguem e  sem o Adriano o Flamengo não perdeu. Agora falando em supremacia você vai ver em 2011 com o Vascão campeão da Libertadores e mundial. Em 2010 quero a tríplice coroa: Carioca, Copa do Brasil e Brasileirão. Sabe quem tá chegando pro Vascão? Juninho Pernambucano, Kerrison, Ronaldinho Gaúcho , Rodrigo do SP e muito mais gente boa. Se juntando a Ramon, Fernando Prass, Alex Teixeira, Carlos Alberto, Nilton e Elton tu acha q vai ter adversário pro Vascão? A “Era Eurico” acabou e a alegria da urubuzada no Rio também.

Quanto ao rio se tornar uma Madri, concordo plenamente com vc. Com o Flamengo fazendo o papel do atlético é claro. O Bianchini vai sofrer um bocado ano que vem.

A Pira > Tambem não acho o Adriano fundamental não. Aliás, isso me lembrou de 2006. O que aconteceu ali, na tua visão?

Tubá > 2006 na Copa do Mundo? O time era bom mas não queria jogar. O Ronaldo levava mulher pro hotel , Ronaldinho Gaúcho entrando com bebida na entrada de serviço do hotel
e o Parreira além de ser um técnico superado é um bundão. Só podia dar naquilo. Agora falando como comentarista de futebol e não como torcedor: acho q o Flamengo leva esse Brasileirão e pelos seguintes motivos: tá jogando o melhor futebol entre os times que estão na ponta, arrumou a zaga com a entrada do Alvaro, o Maldonado deu um consistência no
meio campo e o Pet tá jogando muito. O Adriano quando recebe a bola em condições desequilibra porque tem o corpo privilegiado e sempre leva vantagem sobre os zagueiros e um
chute potente de perna esquerda. Não é nenhum craque, mas a posição não exige. Lembra muito o Serginho Chulapa os áureos tempos de São Paulo. Além do mais acertou em manter o Andrade, que conhece muito de futebol, jogou muita bola, e tá com o grupo na mão. O Palmeiras vem caindo de produção e as jogadas de bola área do Muricy e o esquema  de zagueiros  já tá manjado. O SP vem ganhando com ajuda da arbitragem, teve penaltis contra o Barueri e Grêmio q não foram marcados. Além do mais o Flamengo ganhou de todos os adversários diretos pelo título, com exceção do Cruzeiro, mas esse chega no máximo na libertadores. O time do galo é muito ruim.

A Pira > No que a internet ajudou o Tupanzine? Voce acha que os números em papel se tornaram ainda mais apreciados?

Tubá > A internet mais atrapalhou do que ajudou o tupanzine. Tirando o fator divulgação, só fez merda. Blogs desatualizados, cagadas do Malcher na página principal, enfim não precisamos da internet pra isso. O formato papel é muito mais interessante, os próprios leitores comentam que gostam de folhear o zine no buzu, no banheiro… e acaba virando ítem de colecionar, como faz o Bill e o Cochlar que guardam o o zine num báu na casa da vó no Lago Norte.

A Pira > Não aumentou o número de emails com reclamações? O Tupanzine sempre viveu tambem das cartas birrentas. Voce preferia o tempo quando o zine era levado mais à sério, antes de ter o status cult?

Tubá > Na verdade sempre recusamos a grande mídia. Você deve tá lembrado de quando o Claudio Bull tentou fazer uma matéria com o Zé  Flavio Jr. na Bizz e nós não só recusamos como atacamos o editor da Bizz por ele ter ido a um show do Belle & Sebastian no Reading Festival e criticado as pernas da vocalista e admitido que rolou na grama do festival com o namorado e falado que o vocalista tinha os olhos lindos. Aqui no Guará não admitidos esse tipo de viadagem.

Com certeza achava muito mais interessante as cartas, como aquela da Alê do Pin Ups dizendo que tinha vergonha de ter dado entrevista para um zine machista e pedófilo e aquela outra do Stephen Pastels dizendo que não sabia que no Brasil as pessoas já tinham ouvido falar de Velvet Underground e que a única coisa que sabia do Brasil eram relacionadas a carnaval e febre amarela.

A Pira > Contra pra gente aquela historia do show do Cansei de Ser Sexy na FNAC. Parece que depois que o Adriano Butcher’s Orchestra se declarou leitor do Tupanzine, umas garotas que haviam mandado emails de repúdio à publicação correram pra alcançar os últimos exemplares. E já no embalo: voce acha que Brasília anda muito São Paulo ou no Guará ainda não chegaram essas coisas?

Tubá  > Sim . Uma dessas garotas era Anabelle, que fez até um texto se desculpando arrependida de ter falado mal no zine no Segundo Clichê no aniversário do Rinaldo. A Débora Babilônia e a Gabi Cimente também mandaram seus pedidos de desculpas por email e com vergonha tiraram xerox da coleção do Gustavo Bill escondidas  e até revelaram pro Luis Fernando que as matérias que eles mais gostavam era As big trepadas do retz. Brasília anda muito SP sim, até nas festas decadentes essas cidades se parecem. Ano passado passei 30 dias a serviço por lá e fui em 2 festas do Bezz, um Dj que só é conhecido no Landscape e pela turminha do Daniel Spot, já que somando as duas festas dele com o Kalatalo e o Matias na Augusta não deu mais do que 6 pessoas. Ainda bem que esse tipo de fracasso não chegou no Guará.

A Pira > O que voce achou dessa lista de melhores bandas/discos/músicos divulgada pelo Correio lá na época do Porão?

Tubá > Uma vergonha. Eu até participei da enquete. Tirando o Escola de Escandalos que eu considero a melhor e mais injustiçada banda de rock de todos os tempos, fiquei com vergonha de ver nomes como Raimundos e Maskavo Roots na lista. É pra mim o maior vexame da história do rock, depois da sova que o Geovani levou de 3 skin heads negros no Lord Dim do Guará, da surra de público que a Low Dream levou da Divine na extinta miQra, onde os rockeiros da cidade preferiram ver os Snoop Doggy Doggy no setor de industria, foi essa reunião em homenagem a Legião Urbana com o cara do lixo do Moveis Colonias de Acaju, disparada a pior banda de Brasília de todos os tempos,  abrindo o show do Legião Cover. Deprimente foi ver o Moab, JVC e o Marcos Pinheiro chorando copiosamente quando o cantor uruguaio desconhecido levou “Eduardo e Mônica” no violão.

A Pira > Curtes um remix? E um Mash Up?

Tubá > Não curto essas frescuras não. E isso não é novidade nenhuma aqui no Guará. No final dos anos 80 já fazíamos isso com os Djs Canhota e Moab, que tocavam Olodum com vocal do Ian Curtis do Joy, Lou Reed com instrumental do Beto Barbosa, Simony do Balão Mágico mixado com Stone Roses …a prova final da decadência desse estilo foi aquela festa de comemoraçao de 14 anos do Tupanzine e das matérias eróticas do Retz que foram censuradas pelo Pedro Brandt, no Landscape , que vc foi inclusive um dos Dj’s , onde o Kalatalo e o Matias foram humilhados pelo Malcher que ficou num terceiro ambiente tocando trilha sonora de novela da Globo e conseguiu colocar o triplo de pessoas na pista, onde a música que mais teve pedido de bis foi “Grilo na Cuca ” de 78, do Dudu França.

A Pira > E os anos 90, voltam?

Tubá > Espero e rezo para  que não. Ficaria muito feliz se voltasse a Class of 86 com Weather Prophets, House of Love, Biff Bang Pow, The Loft, Pastels, Close Lobsters, Television Personalities…

A Pira > Voce ainda acredita no Terceiro Mandato?

Tubá > Infelizmente acho q o Serra leva essa. O terceiro mandato do PT acho pouco provável. Preferia o Palloci ao invés da Dilma. Também tem aquele lance do desgaste de 8 anos do PT e tal. Mas é claro q se passasse o  terceiro mandato o Lula levaria com um pé nas costas. O foda é ver SP dando as cartas 16 anos. O Aécio ainda vai ser desmascarado. O pior de tudo é volta do Roriz, que me vai me obrigar a  fazer campanha pro Arruda do democratas, partido mais conservador e com vinculado aos tempos da ditadura.

A Pira > O Guará melhorou com o Arruda? Alguma promessa do rock local, aliás?

Tubá > O Guará melhorou com a saída do Roriz. Apesar de tudo, sempre fui simpatizante dos partidos que fizeram oposição a ditadura e as oligarquias dos coronéis aliados a Arena e a dominação norte americana aos países da américa do sul. Devo votar no Arruda pelo trabalho que ele vem fazendo de recuperação da alta estima do povo brasiliense. O Cristovam teve sua chance saiu como um bom professor mas um péssimo admnistrador, apesar que ele sempre teve idéias neo-liberais e foi um grande equivoco o PT ter lhe dado a legenda na época. Dos 20 anos de roriz e dos 4 do cristovam, o Arruda tá fazendo muitomais em relação ao rock local. A única salvação é o Retz, que está se recuperando de um atentado.

A Pira > O que anda se discutindo e ouvindo lá pela casa do Cláudio Bull, nessas reuniões que voce organiza?

Tubá > To ouvindo pouco ou quase nada de novo. As reuniões na casa do Cláudio são  pra discutir assuntos mais sérios como Tributo ao Plato , filme sobre o Tupanzine que o Zé Pedro Gollo tá escrevendo o roteiro( tu sabia q vc vai representar o Frank Couto do may speed no filme? ), ah! na próxima reunião em dezembro vamos discutir o rebaixamento do Fluminense e espero q o Tiago Bouza apareça. Acho q o Flu acordou tarde e se o Botafogo não abrir o olho ainda pode cair. Fico na torcida para que caia Sport, Náutico, Santo André e … é esse ano não tem jeito , vai um time do Rio.

A Pira > E pensar que voce já esteve nessas reuniões na casa do Cláudio junto com Giulliano Fernandez, Marcelo Bighead, Luciano Thurston Moore, Plato , Fabricio Nobre, Felipe Matacumbax, Simone Death, etc… Você nota alguma diferença entre as gerações do rock ou dá tudo na mesma?

Tubá > Sim e já me confessei na Igreja e pedi perdão por esse momento depressivo. Divido o rock indie de Brasília da seguinte forma: geração Raimundos/Little Quail, Geração Oz/ Divine/ Low Dream , Geração Gas-Cochlar, Geração Bill/Spot/Speed Kills, Geração Garotas do Grande Circular/Tuzão,  e a novíssima geração meias descoloridas/ GDC.  Todas passaram como um raio e se dissolveram num piscar de olhos e todas essas tiveram a orientaçao e supervisão  do Cláudio Bull, com exceçao da primeira, da qual ele foi coadjuvante.