Posts Tagged ‘causos’

Causos – edição Fevereiro de 2010

Friday, February 12th, 2010

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André Midani, executivo da indústria fonográfica, nos conta um causo de sua infância na França:

“O sol se levantava por volta das cinco e meia. Meu primo Paul e eu escapamos do porão da casa e fomos ver o que acontecia na rua. Ninguém…Nem uma alma, nem soldados… Nada! A curiosidade era forte demais; andamos, pouco a pouco, até o cassino de Cabourg, uma construção menor, porém de estilo muito parecido com o hotel Copacabana Palace, e que servia de Estado-Maior para os alemães… Também não havia ninguém. Parecia que todos os soldados haviam deixado o lugar e se refugiados nas fortificações da praia. Dali, com muito medo, contornamos o cassino e apareceu o mar.

Esse mar, que havíamos sempre visto sereno, zangado, cinzento, nunca muito azul por ser um mar normando, porém sempre um mar de água salgada, habitada por peixes, estava agora dividido, da extrema ponta esquerda do horizonte até a extrema ponta direita, por navios de guerra imponentes, de todos os tipos que se possa imaginar – encouraçados, destróieres, porta-aviões etc. – , ancorados de tal maneira que a proa de um quase tocava a popa de outro, formando um quebra-mar naquela chuvosa madrugada de ondas violentas.

Para nosso assombro, da barriga de todos eles saíam muitas centenas de pequenas embarcações vindo rapidamente em direção à praia.”

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Richard Nixon, quando visitou a Grande Muralha da China em 1972, disse: “Acho que podemos concluir que trata-se de um grande muro.”

Ronald Reagan, visitando a Grande Muralha em 1984, disse: “O que posso dizer além de que é assombroso? É uma das grandes maravilhas do mundo.” Perguntado se gostaria de construir sua própria grande muralha, Reagan fez um círculo no ar com um dedo e disse: “Em volta da Casa Branca”.

Bill Clinton, visitando a Muralha em 1998, disse: “Se tivéssemos algumas horas livres, podériamos andar uns 10 kilometros e chegar ali na próxima inclinação. Teríamos feito um belo exercício quando acabássemos. Ou estaríamos acabados. ”

George W. Bush, vicitando a Muralha em 2002, assinou o livro de visitas e disse: “Vamos pra casa”, sem fazer qualquer outro comentário.

Barack Obama, visitou a Grande Muralha em 2009 e disse: “É majestoso. É mágico. Me faz lembrar do movimento da História, que não temos muito tempo de vida aqui na Terra, e que devemos fazer o melhor de si durante esse tempo.” Durante a visita de Obama, o Starbucks e o KFC da base da Muralha permaneceram fechados.

hermit

Lá pelo fim do Império Romano , existiam várias pequenas seitas que, apesar de não estarem diretamente conectadas com o maniqueísmo, mantinham a mesma visão básica do universo, e pregavam o extremo ascetismo  com base a crença de que todas as coisas materiais eram más. Proeminente dentre estas seitas eram os marcionitas, fundada durante o reino de Adriano por Marcião, que rejeitavam o Antigo Testamento e ensinavam que seu Deus, o demiurgo que havia criado o mundo, era mau. Teodoreto (aprox. sec. IV) pessoalmente conheceu um velho marcionita que havia durante toda a sua vida lavado seu rosto com o próprio cuspe, evitando desta forma usar água, criação do demiurgo.

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Tolstói havia decidido parar de escrever literatura já havia algum tempo, para desespero de seu grande amigo ( e muitas vezes inimigo) Ivan Turgueniev. No seu leito de morte, Turgueniev encontrou forças para escrever para Tolstói e fazer seu último pedido. Ele escreveu:

“Meu bom e querido Leo Nikolayevich, eu não lhe escrevi por um longo tempo pois eu estava e ainda estou, para lhe dizer a verdade, no meu leito de morte. Eu não consigo melhorar, é inútil até mesmo pensar numa cura. Estou lhe escrevendo para em primeiro lugar lhe dizer como estou feliz em ter sido seu contemporâneo e fazer um último e sincero apelo. Meu amigo, volte para a literatura! Esta dádiva veio a você da mesma fonte que todo o resto. Oh, como eu ficaria feliz em pensar que esta carta teria alguma influ~encia sobre voce! Eu estou acabado, os médicos não sabem nem que nome dar à minha doença. Gota estomacal neurálgica! Eu não consigo andar ou comer ou dormir. Me incomoda falar disto. Meu amigo, grande escritor da terra russa, ouça minha prece. Me avise do recebimento desta carta, e me permita abraçá-lo mais uma vez, forte, muito forte, você, sua esposa e toda sua família. Não consigo continuar, estou cansado…”

Tolstói não voltou a escrever.

Causos – edição dez/2009

Thursday, December 10th, 2009

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“Quando Machado de Assis morreu, um de seus amigos, José Veríssimo, escreveu um artigo em sua homenagem. Numa explosão de admiração pelo homem de origens modestas e ancestrais negros que tornara-se um dos maiores romancistas do século, Veríssimo violou uma convenção social e refeiu-se a Machado como o mulato Machado de Assis. Joaquim Nabuco, que leu o artigo, rapidamente percebeu o faux-pas e recomendou a supressão da palavra, insistindo que Machado não teria gostado dela. “Seu artigo no jornal está belíssimo” – escreveu a Veríssimo – “mas esta frase causou-me arrepio: mulato, foi de fato grego da melhor época. Eu não teria chamado o Machado de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso quando reduzir os artigos a páginas permanentes. A palavra não é literária e é pejorativa, basta ver-lhe a etimologia. O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tomava…”

*retirado de “Da Monarquia à República: momentos decisivos” , de Emilia Viotti da Costa.

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“Na primavera de 1210, o assalto de Bram de Simon de Montfort:

“Chegaram ao Castelo de Bram , sitiaram-no e tomaram-no de assalto em menos de três dias, sem o emprego de máquinas. Aos homens do castelo, que eram mais de cem, vazaram os olhos e cortaram o nariz, mas a um deles conservaram um olho afim de que pudesse conduzir os demais a Cabaret…”

* Pierre des Vauxde Cernay: “Hystoria Albigensis”

macho

“Dercílio Brito, marido de uma sua sobrinha, prático em prótese dentária e, num lugar sem dentista, nem enfermeiro, nem médico, nem farmaceutico, atuando em todas essas frentes, acabou por ter um certo prestígio, daí se gerando uma inimizade com Chico Romão. Empolgou-se com a liderança, o que o fez tentar competir com o Coronel. Deu-se mal. Incidentes, desde um em torno da direção da Associação Rural, que disputavam presidir, até as remoções na sua função pública, em emprego ensejado pelo Coronel, antecederam o final sangrento de Salgueiro, em circunstâncias ainda não de todo esclarecidas. Sabe-se é que Dercílio atirou nele, mortalmente. O velho tentou – e o conseguiu – sacar do revolver porém a mão poderosa e em tantas ocasiões decisoras estava vencida. Mas, velho valente, Chico Romão morrue como um bravo – revolver na mão cerrada , a face contraída de dor onde os lábios repetiam , sob um céu limpo de sertão gostoso que ele perdia, numa imprecação de macho:

- “Matou-me…cabra da peste…cabra da peste!”

* retirado de “Coronel , Coronéis” , de Marco Vinícius Vilaça e Roberto C. de Albuquerque.

amarelo

“Depois de formar-se no staff college em 1898, Hoffmann servira seis meses como intérprete na Rússia e cinco anos na seção russa do Estado Maior, sob  as ordens de Schlieffen, antes de seguir como observador militar da Alemanha na Guerra Russo-Japonesa. Quando um general japonês recusou-lhe permissão para assistir uma batalha do alto de uma colina próxima, a etiqueta cedeu lugar àquela qualidade natural nos alemães cuja expressão tantas vezes os torna desagradáveis aos outros:

- Seu amarelo, você não me deixa subir aquela colina porque é um selvagem! – Hoffmann gritou ao general, na presença de outros adidos estrangeiros e pelo menos um correspondente.

Pertencendo a uma raça que se equipara aos alemães em matéria de auto-importância, o general berrou de volta:

- Nós, japoneses, estamos pagando com o nosso sangue essa informação militar e não pretendemos dividi-la com outros!

Nessa ocasião o protocolo foi completamente ignorado.

*retirado de “Canhões de Agosto”, de Barbara Tuchman

Lançamento

Thursday, October 1st, 2009

De Henry Wotton, embaixador inglês em Veneza, para o Conde de Salisbury, 13 de Março de 1610:

“I send herewith unto his Majesty the strangest piece of news (as I may justly call it ) that he hath ever received from any part of the world; which is the annexed book of the Mathematical Professor at Padua, who by the help of an optical instrument … (…)  hath discovered four new planets rolling about the sphere of Jupiter, etc… (…) So upon the whole subject he hath first overthrown all former astrology … (…) and the next all astrology. For the virtue of these new planets must needs vary the judicial part, and why may there not be more? (…)

By the next ship your Lordship shall receive from me one of the above instruments, as it is bettered by this man”

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Causos

Tuesday, August 11th, 2009

Em Viena no começo do século XX havia uma família riquíssima, composta de 5 irmãos homens.

O mais velho, Hans, cometeu suicídio durante uma  viagem aos Estados Unidos. Foi visto pela última vez nos Everglades da Flórida.

O segundo mais velho, Rudi, se matou ingerindo uma cápsula de cianeto em um restaurante em Berlim. Aparentemente havia se matado por culpa em relação à sua orientação sexual, principalmente após a publicação, pelo sexologista  Magnus Hirshfeld , de um estudo baseado na vida de um anônimo estudante homossexual de Berlim. O terceiro filho, Kurt, era um oficial do Império Austro-Hungaro e se matou após o colapso do front italiano. Perder pros italianos é barra.

O quarto filho, Paul, tambem se alistou para combater na Grande Guerra, motivado por honra. Ferido no combate contra os russos, perdeu um braço. Um ano antes, havia iniciado sua carreira como pianista de concerto. O “Concerto para piano para a  mão esquerda“, foi encomendado a Ravel por este mesmo Paul.

O quinto filho , desiludido e abalado com os resultados da Grande Guerra, resolveu renunciar ao nome e enorme riqueza de sua família. Antes de assinar a papelada necessária, seu advogado tentou desmotivá-lo usando o termo “suicídio financeiro”.

Mas isto não o deteve e ele assinou na linha indicada: “Ludwig Wittgenstein”.

wittgenstein

Causos – Shostakovich visita Oxford

Thursday, August 6th, 2009

shostakovich

The following letter from Isaiah Berlin to his friend Rowland Burdon-Muller about Dmitry Shostakovich’s visit to Oxford appears in Berlin’s Enlightening: Letters 1946–1960, to be published in the US in late July. The book marks the hundredth anniversary of his birth in 1909.

Berlin and his wife Aline were hosts to Shostakovich when he came to Oxford to receive an honorary degree of Doctor of Music on June 26, 1958. Francis Poulenc, similarly honored, stayed with the historian Hugh Trevor-Roper and his wife, whose house was the venue for a joint musical gathering.

—Henry Hardy and Jennifer Holmes

June 28, 1958

Dear Rowland,

…Poulenc and Shostakovich have come and gone. Goodness, but it was a business. First a great fuss about the British Council which had arranged elaborately for a musical party for S. on Monday night (we were to entertain him on Tuesday and he was to get his honorary degree with Macmillan and Gaitskell on Wednesday), but the Soviet Embassy appears to be engaged in some kind of warfare with the British Council and more or less forbade him to have anything to do with them. The result was that the party was held without him, much bad blood, general indignation, telegrams, anger, tears. He finally materialised on Tuesday, and it was a wonderful business.

First there arrived in our drawing room a very stiff and upright, rather handsome young Soviet official, who said: “I wish to introduce myself. My name is Loginov. The composer D.D. Shostakovich is in car outside. We were told you were expecting him at 4:00. It is now 3:00. Do you wish him to remain in car, or what?” We explained that we were expecting him at 3:00, and it would be perfectly permissible for him to enter straight away. Whereupon the car was ceremonially driven in, another Soviet official leapt out, and finally the composer himself appeared, small, shy, like a chemist from Canada (Western States), terribly nervous, with a twitch playing in his face almost perpetually—I have never seen anyone so frightened and crushed in all my life—he re-introduced the two Soviet officials as “my friends, my great friends,” but after he had been with us for a bit, and the Soviet officials were got out of the way, he never referred to them as that again, but only as “the diplomats.” Every time he mentioned them a curious expression of angst appeared on his face, rather like the expression which sometimes enters Aline’s face—indeed on the last morning of all when he was waiting for the two officials to appear and was in a state of utter panic and despair, I said in English (which he does not understand) to Aline, who was also looking rather distraught, that the expression of their faces was identical. Anyway the problem was how to get Shostakovich to stay to dinner and go on to the musical party given in the Trevor-Ropers’ house for him and Poulenc, and how to get rid of the two Soviet officials, who would cast a terrible frost on the occasion. In the end, I announced firmly to them that the University had a strict set of rules which it obeyed: under these a University official would appear in half an hour, and take them off to dinner in New College, after which they would be allowed to see a play (by David Pryce-Jones), while for Shostakovich an entirely different arrangement had been made. This they took calmly—after glancing at one another to see if it was all right—and bowed their heads submissively. The University official duly called, some unfortunate Fellow at New College was suborned to look after the two “diplomats,” and Shostakovich was left with us. His manner brightened. But throughout the visit he looked like a man who had passed most of his life in some dark forbidding place under the supervision of jailers of some sort, and whenever the slightest reference was made to contemporary events or contemporary personalities, the old painful spasm would pass over his face, and his face would assume a haunted, even persecuted expression and he would fall into a kind of terrified silence. It was depressing and very harrowing, and made one like him and pity him a great deal. In due course the other guests appeared, Poulenc, Cecile,  the Cecils, Jimmy Smith,  the Trevor-Ropers etc., Poulenc was charming to S., and he visibly thawed under the benign influence. We dined, and went on to the Trevor-Ropers’ drawing room. There S. immediately made for the nearest corner and sat there, contracted like a hedgehog, occasionally smiling wanly if I made a particularly bold boutade. His cello sonata was played by a young and very handsome cellist from Ceylon,  he listened to it calmly, said to me that the cellist was good, and the pianist very bad (which was perfectly true), and complained to the cellist that he had played two passages incorrectly.

The cellist flushed, produced the score, and S. saw that the score bore out the cellist. He could not think how this could be, suddenly realised that it had been edited [by] Piatigorsky, who had of course altered the score arbitrarily to please himself; this was the moment at which he came nearest to real rage, took out a pencil and violently crossed out Piatigorsky’s forgeries, and substituted his own original version. After that his brow cleared, and he returned to his little corner. Songs by Poulenc were then sung by Miss Margaret Ritchie, absurdly, in the ludicrous Victorian English fashion, Shostakovich writhed a little, but Poulenc, very polite, very mondain, congratulated her and made grimaces to others behind her back. After this a movement of Poulenc’s cello sonata was played, to placate him, and then there was a silence, and I said to S. that everyone would be delighted if he too played a little. Without a word he went to the piano and played a prelude and fugue—one of the twenty-four he has composed like Bach—with such magnificence, such depth and passion, the work itself was so marvellous, so serious and so original and unforgettable, that everything by Poulenc flew through the window and could not be recaptured. Poulenc did play something from Les Biches,  and something else, but his music could not be listened to any more, the decadence of the Western world had alas become all too apparent. While playing, S.’s face really had become transformed, the shyness and the terror had gone, and a look of tremendous intensity and indeed inspiration appeared; I imagine that is how nineteenth-century composers may have looked like when they played. But I do not think it has been seen much in the Western world in the twentieth.

After that he ceased playing and various people wished to be presented. He showed the first violin of the Philharmonia Orchestra how to play the second and third movements of his concerto; he told Desmond Shawe-Taylor  about his future plans; he gave autographs, he ate and drank. Poulenc, although looked after nicely, felt somewhat relegated, rather like Cocteau when Picasso is about. Everyone felt that this was a remarkable occasion, unique and moving, and although he spoke no English, everyone except the thickest-skinned and most philistine (like for example Mr Hodson, the editor of the Sunday Times, superfluously invited by the Ropers) felt moved, and said so in various ways afterwards. It really was an occasion and an experience.

After this, at home, he did talk a little, complained about no piano, discoursed on his musical taste, and went to bed almost happy I think. Meanwhile his two guardians went to an undergraduate party at New College, then to the Exeter Ball, had a tremendous time, exchanged insults and pleasantries with undergraduates and dons, and obviously enjoyed themselves. Very nice they turned out to be—they may have had their hands dripping with Hungarian blood, but personally they were innocent, rather wooden peasants, who obviously at an order from above would have had no compunction in shooting one dead, but at the same time had a certain charm.

On the next day the nervous tic began in S. again, he went through the horrors of the degree ceremony, was terribly embarrassed at meeting various people who spoke Russian at the All Souls luncheon, was always taking cover with me, who after all was an accredited representative of the University registered by the Soviet Embassy as such. People asked him intolerable questions such as “What has happened to your second, third and fourth symphonies?”—admirable works condemned by the regime. He would answer lamely, “They were not a very great success,” which was literally true, but he suffered as he spoke. An absurd incident occurred when Lord Beveridge, aged 84, tried to present him with a bunch of flowers—too large for a buttonhole, too small for a proper bouquet, which he had been charged to give him by some dim Welsh composer, and chose the middle of lunch to do so. Poor S. got up, mumbled, Beveridge, who was out of his mind, also mumbled, and they were taken apart with difficulty. Various White Russians tried to engage him in conversation, naturally enough, and he managed to disengage himself with enormous effort and agony. Finally we took him home, dressed him in a white tie and sent him to dine at Christ Church with the other recipients of honorary degrees, such as the Prime Minister, Gaitskell etc. He came home more dead than alive, but got up early the next morning and presented us with scores of three works with suitable inscriptions, and even talked a little about his wife and children.

At 10:00 AM the guardians were to call for him, but they were late. He got into a state of appalling nervous panic, made me ring the Mitre Hotel three times, began to wring his hands, wondered what would happen if he arrived late at the Embassy, how he would explain it, wondered whether his guardians had somehow abandoned him, or some mistake had been made for which he would be blamed, and got into an appalling neurotic state. However, they appeared, explained they were late because they had been buying guides to Oxfordshire at Blackwells, and took him off. I was invited to lunch with him in the Soviet Embassy next day, but refused. S. had seen enough of me, and knew enough about me to realise that I understood his position too well, and that I thought that it would be better for him to meet all the British musicians etc., whom he would meet in London through interpreters, and without being self-conscious about an observer understanding his reactions a little too well. So out of a kind of delicacy—I think you will agree it was not inappropriate—I refused, and that was that.

The whole thing has left me with a curious sensation of what it is to live in an artificial nineteenth century—for that is what Shostakovich does—and what an extraordinary effect censorship and prison has on creative genius. It limits it, but deepens it.

I must stop and go down to lunch with Peter and his school friends assembled round the table, but S.’s face will always haunt me somewhat, it is terrible to see a man of genius victimised by a regime, crushed by it into accepting his fate as something normal, terrified almost of being plunged into some other life, with all powers of indignation, resistance, protest removed like a sting from a bee, thinking that unhappiness is happiness and torture is normal life….

 

Yours ever, with much love,

Isaiah

Causos

Sunday, August 2nd, 2009

Impostores

impostor

Em 1607 um sujeito que era um oblata num mosteiro russo entrou numas de achar que era Dimitri, filho do famoso e terrível Ivan IV. Chegou a capturar Moscou e reinar por lá durante uns 10 meses. Acabou sendo jogado de uma janela bem alta, e depois executado à tiros enquanto gemia no chão.

Em 1327 o corpo do recem-falecido Eduardo II foi exibido em público. Isso não deteve um tal Guilherme o Galês, que passou dez anos após a morte do verdadeiro Rei viajando pela Alemanha se dizendo Eduardo II. Foi preso e mandado para Eduardo III, e nunca mais foi visto.

Em 1400 foi a vez do corpo de Ricardo II desfilar em carro aberto por Londres. Isso não impediu que os escoceses descolassem um outro Ricardo II, um sujeiro que ninguem nunca nem tinha visto lá pela Inglaterra.

Em 1490 um tal de Perkin Warbeck saiu por aí dizendo que era o Duque de York. Na verdade ele era um mero filho de um funcionário de alfândega flamengo.

Lá por 1350 Gianinnino de Guccio Baglioni era um próspero comerciante de Siena que entrou numas de ser na verdade o Rei João , da França. O verdadeiro Rei João da França havia nascido 5 meses após a morte de seu pai, Luís X. Baglioni mandava , pra quem quisesse ouvir, o caô de que sua atual e ilegítima mãe, Marie de Cressay, havia sido babá da rainha da França. E que o filho desta Marie de Cressay havia sido trocado pelo verdadeiro herdeiro, no caso Baglioni, por medo de uma tentativa de assassinato. Baglioni afirmava que isso havia sido revelado por Marie de Cressay a um frade espanhol, que contou a outro frade espanhol, que contou a um outro frade, que acabou contando a ninguem mais ninguem menos que  Cola de Rienzo , que foi o último mensageiro deste terrível segredo. Baglioni havia sido eleito para o Conselho Municipal de Siena, mas quando as notícias de que ele bradava por aí ser o último dos legítimos capetos chegou ao Conselho, este admoestou Baglioni, dizendo que se ele quisesse ser Rei da França  não poderia ser um dos Doze Grandes de Siena. Baglioni , ajudado por inimigos da recem-empossada dinastia dos Valois, causou um rebuliço na Provença, mas logo logo foi preso e mandado acorrentado para a francesa Nápoles, onde apodreceria no Castel dell´Ovo, o castelo do ovo.

Lá pelo final do século XVI apareceu um maluco na Espanha se dizendo o último descendente dos reis de Portugal, da casa de Avis. No começo ele era tratado como um maluco de rua qualquer, mas quando os espanhóis souberam que havia em Portugal gente disposta a levar toda a coisa adiante, este pobre coitado foi levado à Sevilha e desmembrado publicamente.

Lambert Simnel achou que era o legítimo Rei da Inglaterra, em detrimento de Henrique VII. Este o puniu fazendo-o desfilar por Londres. Depois concedeu-lhe o perdão e um emprego na cozinha real.

Um tal de William Featherstone, um moendeiro de Dorset, jurava, durante o reinado de Maria, ser na verdade Eduardo VI. Em 1555 ele foi condenado a desfilar por Londres numa carroça, vestido de palhaço.

Causos

Sunday, July 26th, 2009

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“Paradoxalmente , em fins de julho Robespierre se preparava, ao que tudo indica, para punir alguns convencionais corruptos, culpados de terrorismo à outrance no interior do país. Amedrontadíssimos, esses homens – Carrier, Fouché, Tallien – desfecharam contra ele um ataque alucinado na Convenção. Era o 9 Termidor (27 de julho de 1794) e o tirano , mais digno que seus atacantes, foi declarado fora da lei. À noite, refugiados no seio da Comuna, no Hotel de Ville, Robespierre e seus amigos se veriam cercados por tropas fiéis à Convenção. O gendarme Charles-André Merda (sic), futuro barão do Império, rachou a mandíbula do Incorruptível com um tiro de pistola; e foi assim, privado do dom da palavra, que, no dia seguinte, ele subiu o cadafalso. Do Terror a Merda – tal foi o trajeto do maior líder da Revolução.”

*quem teria coragem de escrever tal trecho no prefácio à edição brasileira do já clássico “Dicionário crítico da Revolução Francesa” , de François Furet e Mona Ozouf? Claro, o terrible Zé Guilherme Merquior.

Causos

Monday, July 20th, 2009

thomas-aquinas

“Levaram aquele enorme e relutante bloco pensativo para o seu lugar, à mesa do banquete real, e tudo que sabemos, a respeito de S. Tomás, nos diz que ele se mostrou perfeitamente delicado com aqueles a quem falou; mas falou pouco, e em breve o esqueceram, no meio da mais brilhantes e ruidosa conversação do mundo: o barulho da conversação francesa. Não sabemos de que falavam os franceses, mas esqueceram tudo o que respeitava ao grande italiano gordo que estava entre eles, e parece também natural que ele os esquecesse a todos. Repentinos siêncios ocorrem até na conversação dos franceses, e em um destes deu-se uma interrupção.

Durante muito tempo, não houvera palavra ou movimento naquela vasta mole de pano preto e branco, qual bobo de luto, que o revelava como frade mendicante das ruas, e encontrava com todas as cores, figuras e brasões daquele primeiro e fresco amanhecer da cavalaria e da heráldica. Os escudos triangulares, os penachos e as lanças pontiagudas, as espadas triangulares da cruzada, as janelas esguias e os capacetes cônicos, por toda parte repetiam esse novo espírito medieval francês que, sob todos os aspectos, chegou oportunamente. Mas as cores das roupas eram vivas e variadas, com pouco que censurar na sua riqueza, pois S. Luís, que tinha a qualidade especial do dito apropriado, dissera aos seus cortesãos: “Evite-se a vaidade, mas todo o homem deve vestir bem, segundo a sua categoria social, para que a sua mulher possa amá-lo mais facilmente”.

De repente, os copos saltaram, tombaram com ruido no prato, e a grande mesa tremeu, porque o frade deixara cair o pesado punho, como uma clava de pedra, com fragor de explosão, que assustou a todos, e exclamara em voz forte, mas como homem atacado de sonambulismo:

- E isto há-de dar cabo dos maniqueus!

O paço de um rei, até mesmo quando o é de um santo, tem as suas convenções. Uma sacudidela abalou toda a corte, e todos ficaram como se o frade gordo da Itália atirasse um prato ao rei Luís ou com uma pancada lhe deitasse a coroa ao chão. Toda a gente olhou timidamente para o terrível lugar que, durante mil anos, foi o trono dos Capetos, e natutalmente houve muitos dispostos a atirar pela janela o grande mendigo vestido de preto. Mas S. Luís, simples como parecia, não era apenas fonte medieval de honra ou até fonte de misericórdia; era também a fonte de dois rios eternos: a ironia e a cortesia da França. Virou-se para os seus secretários e pediu-lhes, em vox baixa, que fossem com as suas tabuinhas para junto do controversista abstracto e tomassem nota do argumento que lhe ocorrera, porque devia ser importante e podia esquecê-lo.”

*bem escrito desse jeito, só podia ter sido retirado de Chesterton.

Causos

Monday, July 13th, 2009

goethe

“No começo do nosso século um homem ainda estava habitando em Weimar, Julius Stötzer de nome e professor de profissão, quem, quando era apenas um aluno de 16 anos, morava na casa do Dr. Eckermann, que ficava a alguns passos da porta de Goethe. O jovem Stötzer e colegas da escola iam de vez em quando, com os corações palpitando, assistir a forma sombria daquele homem sentado à janela. Mas os jovens eram possuídos por um desejo de vê-lo de uma vez e de perto, para dar uma boa olhada. Os rapazes então fizeram este pedido a seu fâmulo, Dr. Eckermann, implorando este pequeno favor. Eckermann era uma boa alma. No verão ele deixou os meninos entrarem pela porta dos fundos no jardim da ilustre casa, e ali, tomados por confusão, eles ficaram esperando por Goethe; que, para sua total consternação, realmente apareceu. Ele passeava pelo jardim num casaco claro – muito provavelmente seu famoso casaco de flanela – quando se apercebeu da presença dos garotos e se dirigiu a eles. Ali estava ele, exalando odores de água de Colônia, com suas mãos, claro, atrás das costas e seu abdômen adiantado; com aquele ar de um Pai da Cidade que, assim nos diziam, abaixo dele escondia sua consciência – e perguntou aos jovens seus nomes e o que eles desejavam. Provavelmente tudo num só fôlego; o que realmente, se assim aconteceu, adicionava tanto ao efeito austero que eles mal conseguiam respondê-lo. Todavia, eles gaguejaram algo; e logo Goethe cobrou uma resposta mais diligente – que eles poderiam interpretar livremente que seria melhor eles relaxarem do que ficar ali estatelados – e em seguida retomou seu passeio.

Mas deixemos isso de lado – aconteceu no ano de 1828. Trinta e três anos depois, um dia por volta da uma hora da tarde, Stötzer, agora um experiente e devotado professor secundário, estava prestes a iniciar uma aula quando um aluno apareceu à porta e anunciou que um estranho queria uma palavra com Herr Stötzer. E sem muita cerimônia o estranho entrou na sala de aula: um homem consideravelmente mais jovem que Stötzer. Com uma barba rala, proeminentes ossos da face, e pequenos olhos cinzas, com uma certa monocelha. Ele não fez questão de se apresentar e foi logo perguntando que aulas eles teriam na parte da tarde, e ao ouvir que a primeira aula seria História e depois Linguagem, se disse bastante contente. Ele disse que estava visitando escolas no sul da Alemanha, França, e Inglaterra; e agora procurava conhecer as do norte da Alemanha tambem. Ele falava como um alemão. Voce o tomaria por um professor de primário, pelos comentários que fez, suas bem informadas e inteligentes questões, e pelo número de anotações que fazia em seu caderno. Ele acabou ficando durante toda a aula. As crianças escreveram uma redação, um exercício sobre algum tema em seus cadernos, e o estranho disse estar muito interessado nestas redações – talvez quem sabe poderia levá-las consigo? “Meu Deus”, Stötzer pensou, “isso é ingênuo!”. Quem afinal pagaria pelos cadernos das crianças? Afinal de contas, Weimar era uma cidade pobre… disse ele, num tom educado. Mas o estranho respondeu que isso poderia ser facilmente arranjado, e se retirou. Stötzer escreveu uma mensagem ao diretor da escola, contando tudo sobre o estranho ocorrido. E o adjetivo que usou era o correto – apesar de que só muito tempo depois ele entenderia o quão correto havia sido. Pois naquele momento e local não poderia significar muito para ele, quando o estranho retornou, com uma montanha de anotações debaixo do braço, e deu a Stötzer e ao diretor da escola seu nome: Conde Tolstói, da Rússia.”

* retirado dos ensaios de Thomas Mann e traduzido, NAQUELAS, por mim mesmo.

"Dischava mais que eu vou apertar uma tronca"

"Dischava mais que eu vou apertar uma tronca"

Causos

Wednesday, June 10th, 2009
Calógero Vizzini

Calógero Vizzini

“Os comunistas e os organizadores dos sindicatos operários eram seus inimigos pessoais. Considerava-os competidores, líderes de mafie rivais. Quando Girolano Li Causi, o veterano herói comunista da Sicília, pretendeu realizar um comício ao ar livre na piazza de Villalba, Don Caló mandou-lhe uma palavra de conselho, em contrário. Afirmou-se tratar-se de coisa insegura. Li Causi percebeu, naturalmente, o que significava aquela branda advertência. Sendo obstinado e orgulhoso, homem que desafiava qualquer autoridade, até mesmo a dos amici , veio de qualquer maneira e falou a uma pequena e dispersa massa de gente. A certa altura do seu discurso, foi este cortado por um tiro de fuzil. Os homens de Don Caló disparavam contra ele e seus ouvintes, do alto dos telhados. A pequena multidão desapareceu rapidamente. Algumas pessoas ficaram feridas, entre elas o próprio Li Causi, num joelho. Ficou abandonado, sozinho, estirado na piazza vazia. De repente, uma sombra cruzou-lhe o corpo e um homem idoso cumprimentou-o, indagando, numa voz incolor:

- “Posso servi-lo em alguma coisa?”

Era Don Caló em pessoa.