Dessa vez pedi uma entrevista ao Márvio, vocalista da banda Cabaret e editor-chefe da edição carioca do jornal Destak. Seu disco tá prometido para maio. Gentilmente me concedeu esta entrevista abaixo:
A Pira > E aí, como foi de carnaval?
Márvio > Foi incrível. Já sabia disso há tempos, mas hoje é inegável que o
melhor lugar para se estar no mundo durante os dias de Carnaval é o
Rio de Janeiro. A cidade inteira fantasiada, decidida a ser feliz, os
blocos varrendo as ruas e praças como nuvens de gafanhotos, e eu lá,
de General Leônidas do filme “300″. Sunga, sandália franciscana, capa
de veludo vermelho, lança e escudo de sexta a terça. E nunca fui tão
feliz, e nunca os beijos desapegados foram tão lindos e valiosos.
Carnaval ensina a amar intensamente no mais curto espaço de tempo e a
deixar ir, porque, no fim, ninguém pertence a ninguém.
A Pira > Ninguem pertence a ninguem, mas só é feliz quem namora. Ou não? Nesses tempos de mulher é o novo homem, ta sendo mais difícil descolar uma namoradinha?
Márvio > É impossível ser feliz sozinho, como se sabe. Mas é o consumismo, né,
brou? Nós ensinamos essa porra às mulheres, elas adoraram e agora elas
consomem vorazmente. É um grande leilão coletivo, todo mundo esperando
o lance melhor.
A Pira > Tais familiarizado com o conceito de “sabinismo“? É algo como um gosto estético irônico, engraçadinho, forçadamente excêntrico e cheio de picardia. Praga de nossos tempos. Mas não te acuso disso, fica de boa. Pra mim tu é maluco mesmo, legítimo, do escocês. É papo de Queen ser melhor que Beatles, Berlioz ser melhor que Mozart, Petkovic mais craque que Zidane. Tu tem consciência dessa tua condição? Como é ter mau gosto?
Márvio > Eu não tenho um compromisso de alinhar meu senso estético com os
cânones, porque muitas vezes eles não me servem, e minhas obsessões me
tomam muito tempo, como o Queen – embora ame Beatles, acho que faltou
a eles dar ao palco o sentido maior que a vida que Freddie Mercury
deu. Isso me guia muito na performance – na verdade, já guiou mais, no
início.
Eu dialogo com a cultura mundial, com as listas de top 10, mas a
verdade é que eu me dou o direito de discordar de muita coisa. O bom
gosto, você sabe, é um esterilizante cerebral, é também um ponto
tranquilo onde as pessoas tentam se situar, muitas vezes só para
evitar polêmica, muitas vezes por preguiça ou medo de dizer que
Mozart, é sim, um compositor palaciano e trivial como uma bala de
morango, enquanto Berlioz injetou a paixão de que sou feito em toda a
sua pequena obra. Realmente acredito que o bom gosto é uma virtude de
quinta categoria, como afirmava Nelson Rodrigues. E eu hoje gosto de
ser a régua do meu mundo, julgo as coisas a partir da minha medida,
mas não nego que adoraria – repito em caps lock: ADORARIA – ser um
profundo amante de jazz, de cinema francês e de música indie do século
21. Só que, como eu disse, minhas obsessões me tomam tempo, e eu acho
nosso mundo muito utilitário na produção e na absorção da arte, num
movimento retilíneo uniforme de tédio. Topo ser esse Quixote
antiquado, porque o mundo em que vivo é bem mais interessante.
Ah, e o Petkovic > Zidane é parte de outro lado da minha
personalidade: sou um piadista hiperbólico, e o Pet é nosso.
A Pira > Pois o que eu acho que vai acontecer é o seguinte: lá pelas tantas você vai voltar ao cânone, um por um, Shakespeare, Rafael, Beethoven, Beatles, Boticelli, etc. , e vai se dar conta de que existe um motivo pelo qual essa galera tá no caderninho da civilização ocidental. Essa projeção te intimida? Tens medo de concordar com a humanidade, no final das contas?
Márvio > Nada disso me intimida. Esses aí que você citou moram no meu coração.
Mas eu tenho uma ou duas coisinhas a ensinar a humanidade, e abrir o
leque é fundamental.
A Pira > Conta pra galera aqui do cerrado como começou tua relação com a Legião. Conta pra gente daquela show na praia, quando tu era moleque.
Márvio > Quando eu fui convidado a ser vocalista de uma banda, eu precisei de
um modelo. E achei que a Legião era um produto realmente sério de
rock. Influenciou muito o fato de que ele me dava assunto para
conversar com a minha primeira grande musa, Thaís, que era apaixonada
por eles. Mas ele cantava bem, as letras eram legais – havia fúria,
havia simbolismo, havia melancolia, e almas românticas como a minha
adoram isso – e além de tudo a figura magnética do lead singer.
O lance do Tributo em Ipanema surgiu em 1998, eu já era amigo do Fred
Nascimento, ex-guitarra de apoio da Legião – ele cresceu com meu pai e
meu tio. A gente falava muito de rock, e ele me levou para esse
ensaio. Eu tava a fim de ver os cantores ensaiando, gente como
Raimundos, Toni Platão, Cauby Peixoto, Paulinho Moska, Lobão, vários
artistas legais. Só que no primeiro ensaio não havia cantores. como eu
cantava as letras no meu canto, o maestro da orquestra pediu que eu
cantasse tudo no ensaio, e aí eles me contrataram. E aí, ensaiei e
tive a chance de subir ao palco, fazendo backings da Sandra de Sá e do
Evandro Mesquita. Só que choveu pacas no dia do show, que foi
transferido, e aí Zélia Duncan cancelou a sua participação. Tentaram o
paulo Ricardo, ele não topou, e aí me perguntaram se eu cantava “Quase
sem Querer” no tom dela. Disse que era o meu tom e aí eu cantei. Ainda
rolou de cantar “Monte Castelo” ao lado de Ângela Maria e Agnaldo
Timóteo, porque ele amarelou com o tom altíssimo da música.
Persigo o repeteco disso – cantar na praia para 20 mil pessoas – até
hoje. Vou morrer tentando. Já cantei com o Cabaret para 5 mil, 2 mil,
7 mil. Mas em Ipanema, de novo, seria cósmico.
A Pira > Mas deixa eu aproveitar teu parentesco com Augusto dos Anjos e, sabendo que voce próprio tem sua produção poética, me diga o que significa “Lá em casa tem um poço / mas a água é muito limpa-aaa” para você? Me ajuda nessa.
Márvio > Eu acho que Renato Russo curtia ser lúdico e pregar peças herméticas
nas letras, e aí cabe a quem lê extrair o melhor. Eu acho que no final
de Há Tempos, rola um salto temporal. Uma voz que caga regras
“Disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza…” e de repente ela é
cortada por uma voz que lamenta que haja tanta pureza assim. Talvez
seja preciso um pouco de sujeira nessa água, um pouco de pecado no
sangue.
A Pira > Como foi gravar com o Ney Matogrosso? Ele ainda curte um rock?
Márvio > Cara, o Ney foi incrível. É um intérprete, então ele se obriga – sem
muito esforço, com um prazer imenso – a ouvir o que é novo, a conhecer
propostas, a aceitar convites. Foi úm momento inigualável vê-lo cantar
“Dentro de Você“, de minha autoria, no dueto que vai estar no nosso
próximo disco, porque você tem uma estranha sensação de confirmação.
Eu era capaz de imaginar como ele cantaria e ele simplesmente confirma
a minha imaginação quando canta.
O foda é que não dá pra relaxar: eu já estive com ele umas cinco
vezes, ele é sempre muito gente boa, mas eu ainda não consigo relaxar
diante dos meus ídolos. Fico lá todo cerimonioso, porque ser fã é foda
né? Você quer absorver o máximo dos minutos que vc passa com o cara e
ao mesmo tempo quer ser o último a incomodar alugando. Mas enfim, ver
o lado piadista dele – ele perguntou brincando se eu me incomodaria se
as pessoas pensassem que a gente teria um affair, dada a letra safada
do dueto, e eu respondia que “pra minha carreira, de repente é até
bom”.
E tem outra né? O cara tem pelo menos 36 anos passados diante de
microfones. É uma naturalidade absurda na hora do play+rec. Sonho em
chegar a essa tranquilidade, saber quem eu sou assim que eu abro a
boca para cantar. Ainda me sinto procurando a minha voz a cada
gravação.
A Pira > Tu tem alguma vontade de entrar no panteão da MPB? Um lance meio Marcelo Camelo , de largar a banda e a guitarra, sentar num banquinho e etc?
Márvio > Vontade eu tenho total, mas não vai ser à base de paumolescência não.
Marcelo Camelo é muito proparoxítono pro meu gosto. Não vejo paixão,
vejo artificialismo. Projeto capa da Bravo comigo não.
A Pira > Nesses tempos politicamente corretos e multiculturais, onde o lance é frequentar um terreiro, praticar uma yoga e casar ao som de Beach Boys, tu abraça teu iberismo na maior. O pacote completo: com catolicismo, tourada, e o lugar da mulher. Tu é muito recriminado?
Márvio > Alto lá; catolicismo não: sou de formação cristão histórico. Não
acredito em trindade nem em santos, nem em outros dogmas papais. Dito
isso, vamos lá.
Eu acho que, da mesma forma que o mundo não me serve totalmente, meu
mundo não serve a todos e é perfeitamente óbvio que precisamos nos
tolerar. O problema é que a nossa geração não tem causas a abraçar, e
fica por aí, atirando a esmo. Eu tolero tudo, praticamente tudo, e só
reservo intolerâncias para a minha vida PESSOAL: aborto: eu acho que
tem que ser legalizado mesmo, porque existem um monte de pessoas que
não acrditam no que eu acredito, a gente aparentemente nunca vai
chegara um consenso: existem vários ótimos argumentos de ambos os
lados. Então, que ambas as coisas coexistam: deixemos os que precisam
do aborto abortar de forma segura, e que se previnam contra a gravidez
indesejada todas aqueles que achem que vão se entender com Deus
posteriormente. Religião é para moldar a vida e o caráter do
indivíduo, e não pode ser freio na vida de quem não é obrigado a crer
em Deus. Aí, você não mexe na minha religião e eu não mexo nas suas
leis.
Aí, é o seguinte: eu vejo beleza na tourada sim, e não acho problema
nenhum que touros sejam mortos na arena como forma de arte. Eles
crescem como reis, superbem tratados, e o espetáculo é uma metáfora sinistra da nossa civilização, inclusive também é uma metáfora essa persistência desse espetáculo diante do mundo que, semcausas a abraçar, resolve corrigir e reparar tudo, uma espécie de stalinismo mais brando. Do jeito que vamos, reescreveremos a história, fingir que os
povos não se mataram e tentar dar compensações a torto e a direito, criar culpas onde não existem e desmotivar o lance mais bonito do ser humano, que é construir a si mesmo, do jeito que vamos. Até o ponto em que devolveremos Niterói aos herdeiros de Arariboia, porque eles que moravam lá antes.
Não sei dizer o que é o papel da mulher, acho que não dá para colocar tudo na conta delas. O homem criou a babaquice, e a mulher quis ser igual ao homem. O problema é que as mulheres ainda estão decidindo o que querem, enquanto os homens sabem direitinho.
A Pira > Escapou da polêmica nessa. Mas agora não vai ter jeito: explica pra
gente o seu conceito de “medo estatístico”!
Márvio > Nem tudo que parece racismo é racismo. O fato de ter 5 pretos e 150
brancos numa empresa pode simplesmente dizer que, dados acontecimentos
históricos que têm a ver com a escravidão e má inclusão, mais brancos
se qualificam rapidamente a cargos que negros. A não ser que o RH
seja repleto de filhos da puta, o que me parece conspiração demais.
Isso é natural porque, estatisticamente, os negros tiveram mais
dificuldades de se integrar às classes mais abastadas, que são as que
historicamente têm mais oportunidades de estudo. O fruto de uma
injustiça anterior não é necessariamente uma injustiça atual.
Da mesma maneira, se ao passar perto de uma favela à noite e ver um
negro vindo na sua direção, você dá um corridão, isso não quer dizer
que você seja racista. Provavelmente um negro faria a mesma coisa, e
muitos já me disseram que sim. Só que, atualmente, é sábio também
correr dos brancos. Enfim, de qualquer maneira, sendo branco ou preto,
mantenha um bom preparo físico ao passar por uma favela.
A Pira > Como é esse negócio de que tu nao faz download de música na internet? Tem que ser macho pacas, hein?
Márvio > Não faço simplesmente porque não priorizo uma conexão megapowerflex lá
em casa, nem vivo atrás das maiores novidades tecnológicas do mercado.
Nunca tive um mp3 player, e ainda curto meu discman. Meu estilo
preferido de música é o clássico, e o melhor jeito de consumi-lo ainda
é em CD. E o YouTube sempre tem a música contemporânea que quero ouvir
pontualmente. Se vc tiver um hit, eu vou no YouTube e ouço. Se eu
curtir pra caralho, eu compro o CD.
Nem é uma posição política extrema sobre a favor ou contra o download.
É que eu também acho que música é pra ser apreciada com calma, e as
pessoas baixam música demais, o consumo é muito efêmero. É coca-cola,
e às vezes eu quero vinho. E tem outra: eu sou compositor e reparei
que, quando eu rpestava atenção demais na música dos outros, eu me
retraí na hora de compro as minhas. Aí achei melhor botar ordem na
casa.
A Pira > E o tchose? Se fosse contigo, tu legalizava?
Márvio > Acho que tem que legalizar, sim. De alguma forma, a maconha tem que
ser legalizada.
A Pira > Valeu, Márvio. Agora vou desligar e ouvir um Mozart.
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Merda mais pau no cu que essa entrevista não existe!!!!
Nem sempre dá certo……….
:_(
E esse tal de Marvin é meio Gaey, não?
nessa eu concordo com o pindô…
muito fraca a entrevista.