Eron (ex-Heron) é um cantor de futuro e está prestes a gravar seu debut, produzido nada mais nada menos do que por Bob Johnston, o produtor de Bob Dylan na fase impecável. Gentilmente me concedeu esta entrevista:

Eron e Bob Johnston bolando uns arranjos
A Pira > Na boca do povo você é uma espécie de vitamina de Austin Powers com Jack Kerouak e Renato Gaúcho. Aposto que você discorda, então diz pra gente: quem é o Eron? Olhando pra trás nos anos, como voce vê a construção da sua imagem?
Eron > Acho que sou hetero demais para Renato Gaúcho… talvez Renato Russo eu me identificaria mais. E eu não discordo necessariamente, acho que tem a ver… as pessoas só tem acesso a uma certa profundidade de informações, então faz sentido. Acho que nunca me encaixei num estereótipo que estivesse na moda o suficiente para alguém se importar em querer entender melhor… talvez eu inconscientemente até fugi dessa competição. Eu sempre gostei de cinema, mas ser um cineasta ta na moda por aí. Acho que se o serviço ta sendo feito, não tem pra que superpopular. Eu faço o que faço só até achar que alguém já ta fazendo. Eu lembro que nos anos noventa o Renato Gaúcho prometeu que ia andar pelado em algum lugar (acho que no calçadão do Rio de Janeiro) caso o Fluminense fosse pra segunda divisão. Todo mundo sabe que se eu prometesse que ia andar pelado em algum lugar, cumpriria com orgulho.
A Pira > Por falar em competição, o que acha de ter ganhado o prêmio de “Revelação da Década”, superando figuras como Jack “Survivor” Coaracy e Gustavo Bill, inventor do Peladismo? O que você espera da próxima geração , aquela que lota as festinhas do Espaço Galeria?
Eron > Até agora eu não fui convidado pra nenhuma cerimônia que oficializou o final dessa competição, até porque tecnicamente 2010 é o último ano da década e eu dei chance pros outros dois candidatos terem Brasilia sem mim por um ano. O que esta acontecendo com eles? Eles estão preenchendo a minha falta com dignidade. A idéia do acidente de carro do Jack foi fantástica, e o Bill largar os palcos para ser JOVEM PRODUTOR também é sinistro demais. Acho melhor o conselho de esperar mais um ano antes de me dar o prêmio, quero que seja mais disputado.
A próxima geração tem talento demais. Eles estão um pouco deslumbrados demais com o fator “homosexualidade é o novo rosa”, tentando reinventar os anos 80, mas acho que estão no caminho certo. Até agora, dessa cena nova o único real candidato pra revelação da próxima década é o Gabinho Mond. Mas também tem muito pouco talento musical na nova geração, pelo menos que eu saiba. Quem será o próximo Prot(o)? As pessoas esquecem da importancia da música com a onda DJ herói. Thelma e Selma tomaram o lugar de Gas e Cochlar, mas Gas e Cochlar tinham o Chantilixo… o DJismo era a cereja do sundae. E os poetas? Cadê o novo Guri? Quem é cara de pau o suficiente pra dominar o PORTUGUÊS? Tem outra tambem: enquanto nas ultimas gerações era mal-visto ser da Escola Americana, percebo que hoje em dia esta havendo uma fusão aí… quase não da mais pra saber quem é da Escola Americana ou não. Prevejo que a próxima geração será mais globalizada e isso é bonito, mas tambem faz com que as pessoas abandonem cada vez mais o regional. Brasilia está exactamente no centro do Universo… isso não pode ser ignorado.
A Pira > Atualmente voce está em Londres. O que voce está fazendo por aí?
Eron > Eu estou aqui em Londres agora. Tá frio pra cacete aqui… escurece 4 da tarde, o sol só volta lá pras 8 da manhã… a minha imagem é a seguinte: Eu xingava todo mundo que reclamava de Londres, chamando-os de fracos por não aguentarem o depressivo e solitário frio e a escuridão. Hoje eu reclamo de Londres, mas to aqui. Eu sou um hipócrita porque não acho que eu devo alguma coisa ao Eron. Devo ainda menos ao Heron. Eu to aqui de boa morando com meu irmão com quem eu não convivia há mais de dez anos. Às vezes a gente pede pizza; deveras temos um dia semanal de pedição de pizza. Eu to fazendo um curso de “music business” numa faculdade aqui por que não sabia mais o que fazer da vida. Depois da aula eu venho correndo pra casa pra botar a calça do meu pijama. Aqui o Brasileiro tem que limpar privada.

Eron na Europa
A Pira > Não tens receio de ser rotulado de “traidor do cerrado”, assim como o foram figuras como Luciano Thurstoon Moore, Gabriel Tomás , Dado Villa-Lobos e Ana Laura DJ Mulher?
Eron > A manha é sempre voltar com um golpe surpresa. Não posso ser rotulado como “traidor do cerrado” porque tudo que estou fazendo aqui nas terras bárbaras é pelo bem do cerrado e do trabalhador brasileiro. Essa galera se deslumbrou até com o Rio de Janeiro… eu to em Nashville e só penso na Asa Sul. Minha promessa na minha campanha é a seguinte: Se eu for eleito “famoso” prometo construir uma mansão no Lago Norte dedicada somente a festas do Rock Doido brasiliense.
A Pira> Te acusam de simplesmente não saber nada da tradição musical de Brasília. Por exemplo, voce sê vê como membro integrante de uma linhagem que vem desde Negretti, Filipe Seabra, passando por Giulliano Fernandez e Munha?
Eron > Eu não me vejo muito como MÚSICO… me identifico mais com o Guri e o Renato Russo. Se eu fosse músico acharia uma grande honra participar dessa linhagem… mas não acho natural. Eu não tocava quando tinha 15 anos, eu escrevia sonetos de amor.
A Pira > A grande notícia que corre tanto no eixinho de baixo como no de cima tambem é que voce vai gravar um disco. E que quem vai produzir é o Bob Johnston. Como aconteceu esse encontro?
Eron > Esse eixão é fofoqueiro, hein? Eu procurei o contato do Bob Johnston durante um ano. Um dia, numa terça-feira, o filho de Bob me liga e pergunta “de quem é esse número que me ligou 200 vezes em três dias?” Eu me apresentei, ele foi super simpático, falou pra eu ligar lá pro pai dele que ele tava em casa, pois tinha acabado de falar com ele no telefone. Aí ele me deu o número e me desejou boa sorte. Quando liguei pro Bob Johnston ele atendeu dizendo “what can I do for you?”. Ele é uma rara especie de o que os americanos chamam de “Country Gentleman”. Daí eu falei que eu era músico e que estava um pouco nervoso por que era um fã… ele me interrompeu e disse “antes da gente começar, deixa eu deixar algo muito claro, eu não sou um produtor musical, eu sou um fã… sou o fã numero um do Bob Dylan, do Leonard Cohen, do Johnny Cash e do Paul Simon.” Daí conversamos por duas horas no telefone na primeira ligação e no final ele disse “Eu mal posso esperar para ouvir suas músicas, você é muito educado.” Depois ele me disse pra esperar uma semana e ligar de volta. Eu mandei minhas músicas por e-mail e esperei uma semana. Fiquei na expectativa alucinante durante uma semana. Quando liguei de volta ele disse que não podia ouvir as musicas porque lá ele não usava internet, mas que ele pediu pro filho dele imprimir minhas letras. Ele disse que a mulher dele tinha adorado as letras e que ela lia três livros por semana, então ele achava que queria trabalhar comigo. Ele perguntou se eu tocava alguma coisa e eu perguntei se ele se importava de escutar no telefone. Eu toquei “What I Could’ve Been” pra ele no telefone e ele falou pra parar no meio, e então disse “Pronto! eu quero trabalhar com você e eu não quero um centavo seu, vamos ser parceiros!“. Ontem eu voltei do Texas.
A Pira > Já perguntou pra ele se tu é mais sinistro que o HOMEM, na época em que ele o conheceu? Voce acha que pode ser o contraponto masculino da Mallu Magalhaes, ao ponto dela ser sua Joan Baez?
Eron > Eu to tentando traduzir “sinistro”… ta foda, mas já to querendo perguntar faz tempo. Ele ja me disse que das minhas 15 musicas ele gostou muito de 5 e que nem o Cohen, nem o Dylan, nem o Simon trouxe mais de 3 pra ele por disco, mas isso não prova nada. “Sinistro” vai além da quantia de hits, afinal os Beatles não são mais sinistros do que o HOMEM.
Então, eu não enxergo talento algum na Mallu Magalhães, e a postura “burrice é a nova inteligência” também não me agrada. A Joan Baez era conhecida por ter uma voz que aparece só uma ou duas vezes por século, além de ser tida como intelectual e líder de movimentos e o caralho… enquanto acho essas coisas ainda um pouco mais ou menos, comparar a Mallu Magalhães com a Joan Baez é a mesma coisa de comparar o Papa com a Nova Acrópole. Agora uma gata que vai inclusive gravar comigo, que é uma que o Bob Johnston tambem gravou, já é mais possivel.
O nome dela é Natalie Pinkis www.myspace.com/nataliepinkis . Ela acabou de gravar com o Johnston tambem e é possivel que sejamos gerenciados pelo mesmo empresário, que só gerencia o Leonard Cohen no momento. Aí parece que nossas duas carreiras serão lançadas conjuntamente. A voz dela é linda, apesar de eu achar suas composições um tanto quanto Walt Disney. Mas ela é uma pianista incrível e é linda, ou seja, talvez até melhor do que Joan Baez. As musicas da disney podem ser vistas como o equivalente moderno do folk que a Baez mandava, também. Agora, ia ser melhor se ela fosse brasileira pra gente humilhar logo o mundo. Taí um problema, a Mallu Magalhães não é algo como PAULIXO? Pra sermos parceiros ela teria que ser no MINIMO do centro-oeste. Sente essa Natalie aí, acho que eu consigo converter ela pro brasiliensismo…
A Pira> Já ouvi mais de uma pessoa dizendo que suas músicas mais recentes são muito melhores que as antigas. Eu me incluo nesse pessoal. Voce tambem acha? O que aconteceu? Andou ouvindo um REM?
Eron > Como eu disse, que eu saiba não tinha ninguem fazendo o que eu me propus a fazer com minhas músicas, então eu fiz aquilo durante uns seis meses, daí já tinha alguem fazendo, eu mesmo. Então comecei a fazer outra coisa, e essas são minhas músicas novas. Não são melhores nem piores que as velhas, mas concordo que são mais acessíveis… você me recomenda algum disco ou alguma música específica do REM?
A Pira > Recomendo todos antes do Out of Time, quando eles ainda mandavam altos banjos. Mas me diga…quantos HITS voce promete pra esse seu disco? Já tem nome?
Eron > Então, prometo pelo menos 5 hits, o nome não sei ainda, mas talvez seja só ERON FALBO… to aceitando sugestões… pensei em altos nomes, mas nenhum foi certeiro…
A Pira > “Action : Sinistro”, seu livro que ainda nao foi publicado. O que significou escrever esse livro? Porque voce escreveu o livro?
Eron > Acho que no sexto capitulo desse livro eu respondo essa pergunta melhor, mas dou um ‘teaser’ aqui.
Retirado do quarto parágrafo do sexto capítulo de “Action: Sinistro”:
“Os meus sonetos hesitavam e não pulavam no precipício, pulsavam no
purgatório em total indecisão. Não eram o suficiente. Agora eu ia
começar a parte pratica de meus ensinamentos, que nem no primeiro
sparring das aulas de boxe. Não é mais soquinho no saco de pancadas.
Eu ia apanhar do professor e me amarrar. Eu tava entrando no bailinho
da escola já sabendo dançar e ia chamar pra dançar alguma gata que não
fosse intimidante demais. Com ela eu não to nem aí se erro. Minha
primeira novella eu calculava como uma regurgitação da adolescência
que domou meu espirito insaciável por um tempo. A novella seria um
portal para a calibragem do resto da minha vida. Tava dançando colado
com minha primeira novella, os pés dela em cima dos meus, pra onde eu
fosse ela iria enquanto eu tentava manter o ritmo calmo. Enquanto ela
sorri lentamente e coloca a cabeça no meu ombro, chegando cada vez
mais pertinho, eu me preparo para um tango de fazer soar. Em casa eu
comecei a fazer anotações sobre as coisas que aconteciam ao meu redor.
Eu não sabia escrever um livro e eu não pesquisei no Google. Eu só
comecei a escrever e não parei.”
A Pira> Eu particularmente acho sensacional a parte do livro em que voce fala de sua amizade com Rufus Wainwright. A amizade continua?
Eron > Não foi bem uma amizade não. Ele sempre me tratou como fã, ele é meio músico filhinho de papai. A familia dele inteira é de músicos, ele não sabe o que é ser um civil. A última vez que falei com ele foi quando ele passou por Brasília. Aí ele me deu um email novo dele pra mantermos contato. Mandei um convite pra ele participar desse novo disco e até agora ele não respondeu. Não creio que ele se interessou por mim, ele tava ocupado demais falando dele quando nos conhecemos. É um rapaz de talento notável, mas só iremos ter nossa primeira conversa quando estivermos tocando juntos em alguma fundação anti-Aide.
A Pira > Como é esse negócio de voce nao curtir um rock moderno? Verdade que se tocassem “Debaser” numa festinha voce nao saberia do que se trata?
Eron > A minha queixa era o número de pessoas que não sabiam da existência dos anos 60. Hoje em dia não tem perhaps nenhum. Eu ouço de tudo. Acho que tem um certo tipo de música que nos identificamos mais quando somos adolescentes, e cada um tem a sua tara pessoal. Muitas vezes são as circunstâncias que indicam alguma coisa, um irmão mais velho, um amigo de escola… minha banda era Oasis quando eu tava iniciando minha adolescencia, aí isso decide tudo. Se minha banda fosse Nirvana, como era a banda de uns colegas meus na escola, eu teria me aprofundado mais no rock doido americano, assim passando por Pixies e Sonic Iutchi. Eu pesquisei por outro lado, mais pra Blur e Suede e coisas do tipo, sabe qualé? É outra cena, meio incompatível, mas eu acho o som fera do rock americano, curto pacas, só que não tem aquele apelo da paixão adolescente pra saber cantar junto e tudo. Eu canto umas 30 musicas inteiras do Oasis se quiser, no entanto.
Eu dançaria “Debaser” no Landscape.
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ERON ME LIGA
Ahazouuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu bixaaaa
ESSE É MACHO HEIN
O Eron é como o Papai Smurf: quando chora ninguém consola!
Eu o conheci quando ele só escrevia poesias e arranhava o seu violao…tempo que não te vejo, mas fico feliz em saber que vc seguiu o que seu coração gritava…Venha tocar comigo em Sydney, será que ainda lembro Blue Bird???
essa deve ser a 4ª vez que venho aqui. a cada vez uma nova perspectiva, uma nuance desapercebida. genial eu diria.
ih lário.
saudade do eron =~
Eron virou adulto. uau
<3
Eron “sinistrando around the world”"!
Eron. HEHE.
Eron, ADULTO? pha… Adorei a entrevistis, Eron tooodo trabalhado na eloquencia… Quem vê até pensa…
olha, acho que esta entrevista foi forjada por causa de um simples detalhe: eu sou do tempo em que o eron (que se apresentava como heron) se recusava a falar portugues!
a menos que a entrevista tenha sido traduzida, ne? aí tudo bem!