
Foto de Alan Arrais do primeiro show do Prot(o), no Inside Club. 1999, Asa Norte, Planeta Terra.
Antes de mais nada: este é um relato de um fã.
O Prot(o) acabou ano passado, eu acho. Foi-se a segunda maior banda do cerrado de todos os tempos, ficando somente abaixo de Renato & seu conjunto.
Nada mal.
Recentemente estive em Londres. Certa madruga uma garota atônita me para na rua e pergunta se eu sabia que o Oasis tinha terminado.
Pois aqui em Brasília não houve grandes comoções quando o Prot(o) acabou. Tudo bem, faz parte da nossa vaibe. Alem do que, o que esperar de uma molecada que só fala em concurso e que só escuta o remix? Outro dia tava curtindo a introdução de “U-Mass” e do nada me entra o Phil Collins cantando. Eu achei que o DJ tinha soltado as duas musicas sem querer, mas não. Era assim mesmo.
Sem problemas, isso não é motivo pra pânico. Já estivemos assim outras vezes. As festas estão uma merda, quase não há banda que preste, grande agito é no Pão de Açúcar. Mas fazer o que? Mudar pra São Paulo? Ora , voce já tomou muita porrada de bate-bola pra agora ficar chorandinha porque… “ainnn, não tem o que fazer nessa cidade”.
O que acontece agora ao rock (e aqui digo rock no sentido do elementar sentimento de foda-se), acontecia ali pelo final dos anos 90. Depois de algum tempo de convívio pacífico entre o rock e a música eletrônica, a cidade inteira torna-se clubber e as festas de rock minguam. O rock havia mais uma vez ido embora, junto com os besouros da Asa Sul. Oz , Little Quail, Raimundos, Maskavo Roots já nao existiam mais. Giulliano Fernandez “vendeu sua guitarra pra comprar computador”. Foram bem uns quatro anos nessa porra. Quatro anos sem um refrãozinho sequer. Era a época da ravezinha, véi!
Em algum momento de 1999 anuncia-se o primeiro show do Prot(o), projeto maluco-solo do Pinduca, ex- Maskavo Roots. Eu ja tinha escutado (e resenhado ) uma fita-demo desse lance e tinha achado muito bom, mas juro que nao conseguia enxergar aquilo tocado por uma banda na formação clássica, a das duas guitarras , bateria e baixo. O show foi no Inside, finada boitezinha rock no subsolo de uma comercial da Asa Norte. Naquela época a Asa Norte ainda não era a nova Asa Sul, era um imenso descampado onde o sol era o juiz e a lei era o boxe tailandês.
Proponho que se escuta esta singela coletânea dos 10 maiores petardos da banda ao acompanhar o que se sucedeu.
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Só sei que… como em todo show, havia aquele clima de “começa logo pra terminar logo”. É normal, é assim que tratamos bandas por aqui.
Entra a banda. Pinduca, Rafinha, Pedro Ivo e Cristovam.
Não sei exatamente como foi o set-list daquela noite, mas digamos que tenha começado com “Blecautes Suburbanos”. A música que começa com microfonia emenda direto no refrão. Começa com o refrão. É clássico. “Blecautes Suburbanos” é a “Smell like Teen Spirit” do cerrado. Tornou-se o maior hit da banda em todos os tempos.
O som no show era alto e em como todo show do Prot(o) que eu fui, a coesão das guitarras era espantosa. Ali eu lembro de ter a primeira impressão de que se tratava de um show histórico. A banda tinha uma postura humilde, era a epítome do chamado “rock honesto”. Naquele tempo, em Brasília ainda nao se usava roupa de show. A letra era algo incompreensivel, sobre algum episódio casual de perda de energia elétrica antes do especial anual do Roberto Carlos:
Vinte e dois
Blecaute Suburbano
Vinte e dois de dezembro
Blecaute Suburbano
Perda acidental de energia
Causa colapso em demasia
Tio Zezé, sem TV, se apavora
O especial do Roberto já está na hora
Vinte e dois
Blecaute Suburbano
Vinte e dois de dezembro
Blecaute Suburbano
Longe do provável, eu sei
De marrom não se fala com o Rei
E mesmo que a TV volte a brilhar
Tio Zezé pode enfartar em pleno ar
Com a próxima música, “Eletroacústica”, eu já teria quase certeza de que as letras tambem fariam parte do pacote. Eu, acostumado a relevar o que se diz num HIT, teria que com grande prazer incluir as letras na minha apreciação. “Eletroacústica” ao vivo começa muito mais alto e pesado do que voce vai ouvir nessa coletânea. A música é cantada com raiva, inclusive o “QUERO MORRER!” da segunda estrofe:
Longe das garras desta indústria
Compensado ainda é madeira
Ando sem eira nem beira
Quero morrer com a eletroacústica
Com essa música tambem percebi outra característica da banda: tal qual um Sonic Youth, a banda nao fazia questão de saciar o ouvinte com a repetição de partes fodas das músicas. Depois do solo de “Eletroacústica” eu lembro claramente de pensar ‘agora vai voltar a melodia dos versos e vai ser foda pra caralho”. Mas não, a música acaba em confusão. O sentimento de orfandade é grande demais. E isso te faz ouvir a música tantas e tantas vezes.
Essa hora do show, confesso, já estava achando 2 grandes petardos rock muita coisa pra uma banda só, e já esperava a grande merda que seria a terceira música. Entra “Brejense”. No show, sem essa pequena introdução que há neste registro. Entra com “Seque o choro, irmão!” e de novo, as guitarras e o agradável riff.Quando voce pensa que um refrão foda seria pedir demais pra uma bandinha de rock que voce ta vendo na Asa Norte, entra “O orgulho voltou!”. Por anos e anos eu achei que sabia a letra desse refrão. De qualquer forma eu sempre tentei descobrir nos show, mas meio com medo de saber de verdade, pra nao estragar o efeito que o refrão sempre teve em mim. No fim das contas quando li a letra pela primeira vez, vi que na verdade era uma obra-prima:
O orgulho moldou
Dez mil cascos em mim
Liquidifico o osso
E amasso o pó em ti
Tal qual o HOMEM em “Blood in the tracks”, as letras não faziam muito sentido, mas as imagens eram fortes demais pra nao ponderar por anos e anos seu significado. De qualquer forma a sinceridade era evidente, percebia-se com clareza que cada música daquelas tinha nascido por algum motivo, e dos bons.
Três músicas fodas na sequência era coisa que nem a Oz fazia. Nesse momento eu já estava emocionado. A banda era foda. Aquilo era histórico. Só faltava a música ruim pra me convencer de que eu não estava sonhando. Nisso começa “Canção do Amor Tranquilo” , estranhíssima música de um verso só. Um musicasso de um verso só? Aí é brincar no Brasileirão! Era muita humilhação, o show tornava-se uma epifania. A esta altura, o pequeno público todo sabia que não era mais um showzinho de bandinha indie.
A quinta música própria do Prot(o) que ouvi naquela noite foi “Onde os porcos pastam bem longe de mim”. Certa vez o Pedro Ivo, que era meu colega na UnB, me disse que o lance das letras é ter frases que te prendem pro resto da vida, que te atingem como um bombão na cara. Nao pude sair ileso da experiência de ouvir “Onde os porcos pastam longe de mim”. Até hoje fico abismado com “faço o meu tempo crer” e “faço o meu verbo ser”. Mas isso é Tertuliano, Agostinho, Tomás de Aquino, sei lá! Nao me pergunte o significado, eu tambem não sei. Mas tudo isso numa canção de dor por causa de gatas, é demais. Aqui acho melhor avisar que peço licença pra interpretar as letras como eu sempre interpretei. Isso é um relato de um fã. Sempre me impressionou bastante a maneira como a frase-título era cantada tanto nas gravações e nos shows. Uma só frase solta, num refrão cantado por toda a banda, cantada devagar e pausadamente, com visível remorso, eu diria quase ódio: “Onde os PORCOS (você!!!) pastam, BEM LONGE DE MIM!”. Estava escrita a “Idiot Wind” do cerrado.
A primeira fase da banda, as músicas que eles tocavam nos primeiros shows, terminava com “Lycra”. Outra música estranha e forte. A letra , ao estilo Frank Black, pedia um significado. É incrível como uma letra nonsense quando vem acompanhada de um rockasso por trás, ganha uma aura, vira um oráculo. De “Lycra” sempre me lembro de seu final porradeiro-instrumental, momento mais agito do show.
Bem, foram essas as músicas que eles tocaram no primeiro e primeiros shows. Eu estava satisfeito. Tinha visto uma banda completamente original. O som desafiava as referências. Nao parecia nada exatamente, como 99% do resto das bandas underground brasileiras. Talvez fosse tão puramente rock que tornava impossível buscar um modelo. Aí veio o mal-estar das novas músicas. Agora seria uma dor na minha própria carne uma música ruim nos próximos shows. Prot(o) já era minha banda de Brasilia predileta. Mas o que se seguiu foi um par de músicas de amor no imperativo, dois caôs fudidos que nao ficariam mal na voz do Rei, por exemplo. Era foda demais pra ser verdade.
“As Chaves dos seus Sentimentos” é a maior pérola pop da banda. A melodia ótima, a letra emo-parnaso-jovem guarda, e os arranjos de guitarra esmerilhadíssimos, todos os truquezinhos que fazem o pop perfeito, perfeito. Se “As Chaves dos seus sentimentos” tem um sabor amargo ( “E se diante do sofrer voce decide se ausentar, leve suas chaves que eu vou abrir outro lugar” ), “Fique” é um apelo de amolecer corações. É tão mentirosa, eu diria canalha. Mas funciona. Amiga!, tem que ser muito otária pra cair nisso, mas aposto que a vontade de cair sempre fica:
Fique
Seu suspiro bate no meu coração
Permaneça
Sua lágrimas são soro de beber
E vão me abastecer
Até minha morte chegar
Não vá
Sua voz já diz pra você nunca ir
Não se esqueça
Não há outro homem que te mereça
Esse sou só eu, sou só eu pra ti
Completando esse Top 10 pessoal, ficamos com 2 hits da fase final do Prot(o), quando eu já nao ia nos shows porque já tava ficando ridículo eu lá em todos.”Encarando a face do mal” bem que podia ser trilha sonora de videozinho de surf ou sei lá, qualquer coisa que passa naquelas programas de esporte radical no Sport Tv. “Fora de Esquadro” causou furor e dividiu opiniões por causa de sua letra meio Magical Mistery Tour, mas é uma que com o tempo só dá vontade de ouvir mais. Há algo de Zé Ramalho nessa música, acho que é a métrica.
Há 10 anos o Prot(o) fez seu primeiro show. Talvez por coincidência ou não, a partir daí o rock voltou à cidade.
Estamos novamente num vazio. Quando será o próximo show histórico em Brasília?
Tags: coletanea
sensacional.
Foda é que nenhuma gravação faz jus ao show das antigas, com a formação original…
Foi com eles que eu aprendi o significado da palavra “fã”. E usei muito (a palavra). Quase chorei lendo seu texto, rapaz.
Incrível o texto. Tô quase “roubando” e colocando no http://www.rockbrasilia.com.br . Um abraço!
Roubae.
nem uma linha sobre a cover do Rock Bermuda?
Faltou mencionar os gritos de “Toca Tempestade!” vindos da platéia.
Muito bom o texto, mas faltou acrescentar o fato que você está ficando velho, sem a mesma energia de antes, talvez não pegue ou não queria pegar a mesma qtd de mulher e que somado a tudo isso que o Sr. escreveu bate uma puta melancolia.
A crista da onda quebra até para dar espaço para outras…que não querem saber e nem ter a menor idéia daquilo que veio antes.
Passou….
Interessante, fale mais…
O texto é melhor que a banda :(
Olha só, aposto contigo que 5 anos atrás você não apresentava momentos melancólicos com a mesma frequência.
O uso constante do tempo pretérito é um sinal de que aquilo ali passou…
Posso apostar que quando sai a noite, as caras são diferentes, as roupas são diferentes, o papo é diferente e se antes não criticava é pq estava tão inserido q não percebia…agora a sensação é que consege observar tudo de fora….criticamente ou melancolicamete….
Não se preocupe, outros passados virão…
porra d proto, rapá!
estamos ha 15 anos sem tom jobim e voce me vem com esse papo de proto?
se liga, ne…
Se bem me lembro tinham poucas pessoas que possuiam ou conheciam as demos do Prot(o) que, quando fez o primeiro show, já contava com 3 cassetes. Um fato que posso acrescentar aqui é que dizíamos que uma banda só existia se houvesse show, era um rancor saudável da época e o Pinduca levou isso a sério no momento oportuno. No dia desse primeiro show eu lembro de ter feito força com o Breno pra abrir a noite com o Os The Ev, a Divine iria tocar depois, existia um senso de imersão na realidade, de “algo bom está por vir mesmo”. Faltou mencionar que o Zé Pedro sacou antes de todo mundo a natureza torta do Pinduca e deu vazão, primeiro de forma experimental e eletrônica, depois como uma banda comum, às canções que culminaram nesse primeiro show. O Zé mostrava as mixagens no workstation dele, as gravações fresquinhas do Pinduca e só dizia rindo ‘do caralho, do caralho isso aí”, nas madrugadas que terminavam em discussões calorosas na casa do Cláudio Bull. Acho que foi no dia em que a Bel passou mal pra caralho numa festa do boliche que todo mundo ficou fã de Prot(o), o Zé Pedro mostrou uma demo acústica tomando suco de caju, todas as canções que o Gás citou acima estavam lá registradas em voz e violão e o som da multidão aplaudindo era um sample de um show do Bob marley e o Zé Pedro ria e falava “do caralho, do caralho isso aí”.
Puta conversa de passadistas ….vocês todos poderiam montar um partido político ou mesmo um carro de som para parada gay….Passou, acabou, morreu…Façam um museu do rock de brasília, ou de suas vidas e virem porteiros de lá, ao invés de ficar chorando por aí.
Seu comentário passou, Pindorama.
:/
eu acho que tudo isso se resolve numa mesa ali na Estação 109…
mas há uma certa razão quando se critica essa melancolia sempre-presente de porta do inside. e isso é um problema geral da não-aceitação que esse tempo passou mesmo, que temos todos agora 30 e poucos ano, e que ficar dando maconha pra groupie-tardia de 16 anos pra ganhar beijo na boca ou boquete não vai colocar divine no palco, abrindo pro man or astroman ali no teatro garagem
o perigo é essa melancolia virar depressão… e eu aviso logo que não vou em enterro de ninguém que se ache o novo filho da Sylvia Plath
Pindorama, acalme-se. Trata-se de memória, não de melancolia, nostalgia ou o bolor que afeta o seu juízo ao pensar que existe em nós esta saudade do passado. Não, a vida é melhor agora do que há 10 anos atrás. Entendo que este rancor é fruto da sua cabeça. Seja feliz.
[...] por falar no Pinduca, vale baixar a coleta que o Gas fez em homenagem aos dez anos da banda do ex-guitarrista do Maskavo. O Gas chega ao exagero de dizer que o Prot(o) é a segunda melhor banda da história do rock de [...]
Ótimo texto. Não fui nesses primeiros shows, mas fui em incontáveis outros. A minha banda preferida de Brasília. Tô com muito material audiovisual deles (uns três shows elétricos e um acústico, que ficou bem legal).
Alguns registros já estão no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=fTzWsdmZeD4).
Pindorama, acho que a gente não chora o passado, mas o presente. Na minha última passagem por BSB, o melhor esquema era um ping-pong tocando mash-up (acho que é isso, aquelas misturas que Gas cita no texto). Foi até divertido, mas…
Pra quem curtia show de rock indie (e que era cheio de mulher, pra não parecer que era programa de roqueiro-nerd), convenhamos, não é muito animador.
Se pintar novas bandas, espaços e eventos bacanas, não vou mais ficar na beira do palco, mas vou ficar tomando uma cerveja e curtindo do mesmo jeito.
carlos pinducas já bem disse´´ o mal entendimento, borra as entrelinhas“.fica a dica.
e viva o prot(o).
na verdade, o pinduca disse´´´o mau entendimento, borra as entrelinhas“. er….
olha, lembro do meu primeiro show da banda, em 2002… não tinha nem vinte pessoas assitindo, e foi fantástico. Medir a qualidade de uma banda pelo público ou pela cena em que ela está inscrita deveria ser o último critério para um fã de Prot(o).
e shows históricos, penso, são muito mais pessoais que sociais. Eu nunca vi shows como experiências coletivas… nada melhor do que uma banda que te prende a atenção e te desliga do resto do público. Isso era o Prot(o).
Se a gente já reclama da nostalgia dos nossos irmãos mais velhos, imagina só como não foi insuportável pra galera que veio depois da época do Jimmy Hendrix. Mil coletâneas, mil nostalgias, descrença de que algo que valesse a pena pudesse vir depois disso.
Eu, particularmente, prefiro sentir aquele esquema de orgulho saudoso, mas sempre com um sorriso no rosto de quem escolhe ser feliz porque teve a oportunidade de ver alguma coisa que valesse a pena.
Tô com Paulo Fernandes, isso não é motivo pra depressão e também não vou ao enterro de ninguém que se ache o novo neto da Plath.
Quem é que se acha o novo neto da S. Plath?
Nao saquei essa parte.
É hipotético hehe. Tava concordando com o Fernandes; melancolia do saudosismo do passado não pode virar depressão. Ele disse ‘filho’ eu disse netos, porque temos idade pra sermos netos dela e não filhos….
;)
cara, por influencia deste blogue eu resolvi baixar os discos deste certo Proto nesta famosa rede de computadores. duas palavras e uma interjeição:
QUE DECEPÇÃO!!!
achei tranqs a nostalgia. nada lamuriosa, achei bem pra cima, na real.