No filme e agora:
Archive for September, 2009
O ouro de Nápoles.
Saturday, September 19th, 2009Bergman: elementos recorrentes.
Friday, September 18th, 200910 anos de Prot(o)
Tuesday, September 8th, 2009
Foto de Alan Arrais do primeiro show do Prot(o), no Inside Club. 1999, Asa Norte, Planeta Terra.
Antes de mais nada: este é um relato de um fã.
O Prot(o) acabou ano passado, eu acho. Foi-se a segunda maior banda do cerrado de todos os tempos, ficando somente abaixo de Renato & seu conjunto.
Nada mal.
Recentemente estive em Londres. Certa madruga uma garota atônita me para na rua e pergunta se eu sabia que o Oasis tinha terminado.
Pois aqui em Brasília não houve grandes comoções quando o Prot(o) acabou. Tudo bem, faz parte da nossa vaibe. Alem do que, o que esperar de uma molecada que só fala em concurso e que só escuta o remix? Outro dia tava curtindo a introdução de “U-Mass” e do nada me entra o Phil Collins cantando. Eu achei que o DJ tinha soltado as duas musicas sem querer, mas não. Era assim mesmo.
Sem problemas, isso não é motivo pra pânico. Já estivemos assim outras vezes. As festas estão uma merda, quase não há banda que preste, grande agito é no Pão de Açúcar. Mas fazer o que? Mudar pra São Paulo? Ora , voce já tomou muita porrada de bate-bola pra agora ficar chorandinha porque… “ainnn, não tem o que fazer nessa cidade”.
O que acontece agora ao rock (e aqui digo rock no sentido do elementar sentimento de foda-se), acontecia ali pelo final dos anos 90. Depois de algum tempo de convívio pacífico entre o rock e a música eletrônica, a cidade inteira torna-se clubber e as festas de rock minguam. O rock havia mais uma vez ido embora, junto com os besouros da Asa Sul. Oz , Little Quail, Raimundos, Maskavo Roots já nao existiam mais. Giulliano Fernandez “vendeu sua guitarra pra comprar computador”. Foram bem uns quatro anos nessa porra. Quatro anos sem um refrãozinho sequer. Era a época da ravezinha, véi!
Em algum momento de 1999 anuncia-se o primeiro show do Prot(o), projeto maluco-solo do Pinduca, ex- Maskavo Roots. Eu ja tinha escutado (e resenhado ) uma fita-demo desse lance e tinha achado muito bom, mas juro que nao conseguia enxergar aquilo tocado por uma banda na formação clássica, a das duas guitarras , bateria e baixo. O show foi no Inside, finada boitezinha rock no subsolo de uma comercial da Asa Norte. Naquela época a Asa Norte ainda não era a nova Asa Sul, era um imenso descampado onde o sol era o juiz e a lei era o boxe tailandês.
Proponho que se escuta esta singela coletânea dos 10 maiores petardos da banda ao acompanhar o que se sucedeu.
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Só sei que… como em todo show, havia aquele clima de “começa logo pra terminar logo”. É normal, é assim que tratamos bandas por aqui.
Entra a banda. Pinduca, Rafinha, Pedro Ivo e Cristovam.
Não sei exatamente como foi o set-list daquela noite, mas digamos que tenha começado com “Blecautes Suburbanos”. A música que começa com microfonia emenda direto no refrão. Começa com o refrão. É clássico. “Blecautes Suburbanos” é a “Smell like Teen Spirit” do cerrado. Tornou-se o maior hit da banda em todos os tempos.
O som no show era alto e em como todo show do Prot(o) que eu fui, a coesão das guitarras era espantosa. Ali eu lembro de ter a primeira impressão de que se tratava de um show histórico. A banda tinha uma postura humilde, era a epítome do chamado “rock honesto”. Naquele tempo, em Brasília ainda nao se usava roupa de show. A letra era algo incompreensivel, sobre algum episódio casual de perda de energia elétrica antes do especial anual do Roberto Carlos:
Vinte e dois
Blecaute Suburbano
Vinte e dois de dezembro
Blecaute Suburbano
Perda acidental de energia
Causa colapso em demasia
Tio Zezé, sem TV, se apavora
O especial do Roberto já está na hora
Vinte e dois
Blecaute Suburbano
Vinte e dois de dezembro
Blecaute Suburbano
Longe do provável, eu sei
De marrom não se fala com o Rei
E mesmo que a TV volte a brilhar
Tio Zezé pode enfartar em pleno ar
Com a próxima música, “Eletroacústica”, eu já teria quase certeza de que as letras tambem fariam parte do pacote. Eu, acostumado a relevar o que se diz num HIT, teria que com grande prazer incluir as letras na minha apreciação. “Eletroacústica” ao vivo começa muito mais alto e pesado do que voce vai ouvir nessa coletânea. A música é cantada com raiva, inclusive o “QUERO MORRER!” da segunda estrofe:
Longe das garras desta indústria
Compensado ainda é madeira
Ando sem eira nem beira
Quero morrer com a eletroacústica
Com essa música tambem percebi outra característica da banda: tal qual um Sonic Youth, a banda nao fazia questão de saciar o ouvinte com a repetição de partes fodas das músicas. Depois do solo de “Eletroacústica” eu lembro claramente de pensar ‘agora vai voltar a melodia dos versos e vai ser foda pra caralho”. Mas não, a música acaba em confusão. O sentimento de orfandade é grande demais. E isso te faz ouvir a música tantas e tantas vezes.
Essa hora do show, confesso, já estava achando 2 grandes petardos rock muita coisa pra uma banda só, e já esperava a grande merda que seria a terceira música. Entra “Brejense”. No show, sem essa pequena introdução que há neste registro. Entra com “Seque o choro, irmão!” e de novo, as guitarras e o agradável riff.Quando voce pensa que um refrão foda seria pedir demais pra uma bandinha de rock que voce ta vendo na Asa Norte, entra “O orgulho voltou!”. Por anos e anos eu achei que sabia a letra desse refrão. De qualquer forma eu sempre tentei descobrir nos show, mas meio com medo de saber de verdade, pra nao estragar o efeito que o refrão sempre teve em mim. No fim das contas quando li a letra pela primeira vez, vi que na verdade era uma obra-prima:
O orgulho moldou
Dez mil cascos em mim
Liquidifico o osso
E amasso o pó em ti
Tal qual o HOMEM em “Blood in the tracks”, as letras não faziam muito sentido, mas as imagens eram fortes demais pra nao ponderar por anos e anos seu significado. De qualquer forma a sinceridade era evidente, percebia-se com clareza que cada música daquelas tinha nascido por algum motivo, e dos bons.
Três músicas fodas na sequência era coisa que nem a Oz fazia. Nesse momento eu já estava emocionado. A banda era foda. Aquilo era histórico. Só faltava a música ruim pra me convencer de que eu não estava sonhando. Nisso começa “Canção do Amor Tranquilo” , estranhíssima música de um verso só. Um musicasso de um verso só? Aí é brincar no Brasileirão! Era muita humilhação, o show tornava-se uma epifania. A esta altura, o pequeno público todo sabia que não era mais um showzinho de bandinha indie.
A quinta música própria do Prot(o) que ouvi naquela noite foi “Onde os porcos pastam bem longe de mim”. Certa vez o Pedro Ivo, que era meu colega na UnB, me disse que o lance das letras é ter frases que te prendem pro resto da vida, que te atingem como um bombão na cara. Nao pude sair ileso da experiência de ouvir “Onde os porcos pastam longe de mim”. Até hoje fico abismado com “faço o meu tempo crer” e “faço o meu verbo ser”. Mas isso é Tertuliano, Agostinho, Tomás de Aquino, sei lá! Nao me pergunte o significado, eu tambem não sei. Mas tudo isso numa canção de dor por causa de gatas, é demais. Aqui acho melhor avisar que peço licença pra interpretar as letras como eu sempre interpretei. Isso é um relato de um fã. Sempre me impressionou bastante a maneira como a frase-título era cantada tanto nas gravações e nos shows. Uma só frase solta, num refrão cantado por toda a banda, cantada devagar e pausadamente, com visível remorso, eu diria quase ódio: “Onde os PORCOS (você!!!) pastam, BEM LONGE DE MIM!”. Estava escrita a “Idiot Wind” do cerrado.
A primeira fase da banda, as músicas que eles tocavam nos primeiros shows, terminava com “Lycra”. Outra música estranha e forte. A letra , ao estilo Frank Black, pedia um significado. É incrível como uma letra nonsense quando vem acompanhada de um rockasso por trás, ganha uma aura, vira um oráculo. De “Lycra” sempre me lembro de seu final porradeiro-instrumental, momento mais agito do show.
Bem, foram essas as músicas que eles tocaram no primeiro e primeiros shows. Eu estava satisfeito. Tinha visto uma banda completamente original. O som desafiava as referências. Nao parecia nada exatamente, como 99% do resto das bandas underground brasileiras. Talvez fosse tão puramente rock que tornava impossível buscar um modelo. Aí veio o mal-estar das novas músicas. Agora seria uma dor na minha própria carne uma música ruim nos próximos shows. Prot(o) já era minha banda de Brasilia predileta. Mas o que se seguiu foi um par de músicas de amor no imperativo, dois caôs fudidos que nao ficariam mal na voz do Rei, por exemplo. Era foda demais pra ser verdade.
“As Chaves dos seus Sentimentos” é a maior pérola pop da banda. A melodia ótima, a letra emo-parnaso-jovem guarda, e os arranjos de guitarra esmerilhadíssimos, todos os truquezinhos que fazem o pop perfeito, perfeito. Se “As Chaves dos seus sentimentos” tem um sabor amargo ( “E se diante do sofrer voce decide se ausentar, leve suas chaves que eu vou abrir outro lugar” ), “Fique” é um apelo de amolecer corações. É tão mentirosa, eu diria canalha. Mas funciona. Amiga!, tem que ser muito otária pra cair nisso, mas aposto que a vontade de cair sempre fica:
Fique
Seu suspiro bate no meu coração
Permaneça
Sua lágrimas são soro de beber
E vão me abastecer
Até minha morte chegar
Não vá
Sua voz já diz pra você nunca ir
Não se esqueça
Não há outro homem que te mereça
Esse sou só eu, sou só eu pra ti
Completando esse Top 10 pessoal, ficamos com 2 hits da fase final do Prot(o), quando eu já nao ia nos shows porque já tava ficando ridículo eu lá em todos.”Encarando a face do mal” bem que podia ser trilha sonora de videozinho de surf ou sei lá, qualquer coisa que passa naquelas programas de esporte radical no Sport Tv. “Fora de Esquadro” causou furor e dividiu opiniões por causa de sua letra meio Magical Mistery Tour, mas é uma que com o tempo só dá vontade de ouvir mais. Há algo de Zé Ramalho nessa música, acho que é a métrica.
Há 10 anos o Prot(o) fez seu primeiro show. Talvez por coincidência ou não, a partir daí o rock voltou à cidade.
Estamos novamente num vazio. Quando será o próximo show histórico em Brasília?