Feliz ano novo.
Vamo nessa.
Feliz ano novo.
Vamo nessa.
A entrevista desse mês é com o cartunista (humorista é o mais correto) Arnaldo Branco.
Gentilmente nos concedeu esta entrevista:
A Pira >Quando te fazem a protocolar pergunta “o que voce faz da vida?” e voce responde “cartunista” , te olham como você passasse fome? Aliás… é um equívoco ter essa idéia dos cartunistas?
Arnaldo Branco > Mas cartunista passa fome mesmo. Aliás, não entendo quem trabalha com humor e fica restrito ao cartum, aos quadrinhos. Prefiro dizer humorista, que abre mais o leque, mesmo que seja mais conhecido (claque) pelos quadrinhos e cartuns do que por escrever roteiros e textos para revistas e sites. Aliás, também acho me definir como humorista restritivo - se você sabe fazer personagens, escrever ficção, não entendo porque ficar só na seara do humor. Sempre quis trabalhar com outras coisas, com cinema - não só em comédias - por exemplo.
A Pira > Mas vamos continuar no cartunismo mais um pouco. Angeli ou Laerte? Quem é o maioral?
Arnaldo Branco > Tenho essa teoria, do melhor e do mais legal: Beatles é melhor, Rolling Stones é mais legal; Clash é melhor, Sex Pistols é mais legal; Pelé é melhor, Garrincha é mais legal (pelo menos como figura trágica, hehe). Laerte é o melhor cartunista do Brasil disparado, com mais recursos, cabeceia, chuta com as duas. Mas Angeli foi o cara que me botou nessa vida, é o rockstar dos cartunistas.
A Pira > Sei que voce é um defensor do humor de texto, das boas tiradas , do diálogo ácido, e etc. Sei até de relatos de que voce é fã de Gilmore Girls. Já eu acho que aquele tradicional close no rosto do Lucio Mauro vale por 50 tiradas do Woody Allen. É o fim do humor da careta? Existe uma hierarquia no humor?
Arnaldo Branco > Não sou defensor ferrenho, só que ainda estamos na pré-história de humor de texto aqui. Queria muito que primeiro fabricássemos nosso Groucho Marx para depois negá-lo, gostaria de viver em um país em que o trash fosse apenas mais um dos subgêneros, ao invés de ser a única opção. E ademais, quem é o novo Lucio Mauro, o novo Costinha? Esses stand-ups que fazem sobrancelha é que não, até o humor de careta está em péssima fase. Mas enfim, sempre fui uma criança chata, odiava palhaços, pensava: “cair de bunda eu também sei fazer”… curto engenho, sacada. Tem público pros dois tipos de humor, creio, e às vezes rola até interseção entre esses públicos. E também não entendo porque não podemos ter o melhor de dois mundos, Woody Allen (que, porra, é um puta comediante de careta também) escrevendo pro Lucio Mauro. Ah, e Gilmore Girls eu não acho engraçado, acho bem escrito, um smart ass contest, me lembra os filmes antigos, em que os atores falavam igual a máquinas de telex, ali tem um certo descompromisso com o naturalismo que eu curto.

"Its like...Oh my God, you know?!"
A Pira > Quanto à hierarquia do humor… me diga…o trocadilho é a forma mais pobre de humor? Ou é piada com Jesus?


Volta, porra!

"quanto mais sujeira, mais limpeza"

Can é uma banda alemã formada no final dos anos 60.
O som é multicultural , experimental, cabuloso, e bom pacas. Acho que tem tudo a ver com essa época em que vivemos , um lance globalizado / Obama / Animal Collective.
Aí vão as 10 melhores músicas da banda, pra voce arrupiar:
Este é um documentário dedicado exclusivamente à uma grande obra de Sandro Boticelli. Trata-se de sua “Primavera”. O melhor de tudo são os vários especialistas mandando ver nas teorias (incluindo análises junguianas e psicanalíticas bem heterodoxas) e o grande Ernst Gombrich dizendo que é tudo besteira. Metem até o Dario Argento na parada.
Confiram:
“A última coisa séria” é como Garcia Lorca definiu as touradas. Neste documentário feito pelo diretor do clipe da Madonna em que rola uma tourada, a vida de dois matadores é acompanhada de perto. Eu sei que vão ter altos amigos da Izadora fazendo birra, mas enfim…Foda é pouco pra esse documentário:
parte 7 está faltando, não sei porque diabos. :/
“Me and my slaves” é um documentário sinistro da BBC que mostra a vida de um Mestre de Sado-Masoquismo que tá tentando parar e mudar de vida. É triste, mas altamente interessante. Recomendo.
E pra finalizar a edição desde mês dos tesouros ocultos do Youtube, temos a presença de um historiador australiano dinamitando completamente aquele documentário/conspiração chamado “Zeitgeist”. Pô, galera…vamo estudar.
“Os dedos esticados de uma das mãos, movendo-se lentamente para diante e para trás, debaixo do queixo erguido, significam “não há coisa que menos me interesse e eu não tenho nada com isso. Não conte comigo.” Foi esse o gesto feito em 1860 pelo avô de Signor O. O, de Messina, em resposta a Garibaldi. O general, que conquistara a Sicília com seus voluntários e marchava para frente rumo à península, tinha avistado aquele homem, na época um robusto jovem, a cochilar sobre um pequeno muro de pedra à sombra de uma alfarrobeira, numa vereda do campo. Colheu as rédeas do cavalo e perguntou-lhe:
-”Moço, voce nao quer juntar-se a nós, numa luta para libertar os nossos irmãos da Itália Meridional, da sangrenta tirania dos reis Bourbons? Como consegue dormir quando o país precisa de você? Acorde e pegue em armas!”
O rapaz fez o tal gesto , silenciosamente. Garibaldi chegou as esporas ao cavalo e seguiu adiante.

Foi anunciado aos oficiais do Rei e ao exército grego que estava em Jerusalem, na cidade de Davi, que alguns homens, que tinham transgredido a ordem do Rei, se haviam retirado a lugares escondidos do deserto, e que muitos os tinham seguido. Imediatamente marcharam contra eles e prepararam-se para os atacar em dia de sábado. Disseram-lhes: “Chega o acontecido até agora! Saí, obedecei às ordenjs do Rei, e vivereis.” Eles responderam: “Não sairemos, nem obedeceremos à ordem do Rei, pois seria profanar o dia de sábado.” Então as tropas do Rei arrojaram-se contra eles; eles não lhes resistiram, nem lhes atiraram uma só pedra, nem taparam as cavernas onde estavam escondidos. “Morramos todos”, disseram, “na nossa simplicidade, e o céu e a terra serão testemunhas de que nos fazeis morrer injustamente. Acometidos, assim, em dia de sábado, foram mortos com suas mulheres, seus filhos e seus gados, cerca de mil pessoa.
Resolução tomada por Matatias:
Souberam-no Matatias e os seus amigos, e choraram por eles amrgamente. Todavia diseram uns aos outros: se todos fizermos como os nossos irmãos, se não lutarmos contra os gentios pelas nossas vidas e pelas nossas leis, em bem pouco tempos nos exterminarão da face da terra. Tomaram, pois, naquele dia esta resolução: se alguém, quem quer que seja, nos atacar em dia de sábado, lutaremos contra ele, não nos deixaremos matar todos, como nossos irmãos nos esconderijos.
* Macabeus I, capítulo 2, vers. 31 - 41

Theodore Roosevelt gostava de procurar caçadores lendários para companhá-lo em suas muito publicizadas caçadas, entre eles Holt Collier, um ex-escravo que matou mais de 3 mil ursos, e o fascinante Jack “Catch’em alive” Abernathy, que guiou Roosevelt em uma caça de lobos elo Oklahoma em 1905. Abernathy, um homem de família, abstêmio, e muitas vezes homem-da-lei em um amplo território sem lei, podia pular de seu cavalo em cima de um lobo ainda correndo e subjulgá-lo ao chão com suas próprias mãos, uma técnica chamada de “wolf coursing” - algo bem distante de matar lobos com um poderoso rifle de um helicóptero, à là Sarah Palin.

Helmuth James, Conde von Motlke, bisneto do marechal Moltke cuja estratégia causou a vitória na Guerra Franco-Prussiana, foi exetucado na prisão de Plotzensee em janeiro de 1945 por discutir assuntos “que eram de interesse exclusivo do Führer”. Devido ao seu nome e posição, Moltke poderia ter aspirado com sucesso a qualquer cargo no Reich de Hitler; ao invés disso, ele concordou com seus algozes o disseram em seu julgamento: “o cristianismo e nós nacional-socialistas temos uma coisa em comum, e somente uma coisa: nós clamamos pelo homem inteiro. Concordando, Moltke morreu um homem inteiro - um homem cristão. Para sua esposa Moltke escreveu: “Eles podem me tirar os bens, minha honra, meu filho e minha esposa; o corpo eles podem matar; a verdade de Deus permanece, Seu reino é eterno.”
p.s.: Freya von Moltke, viúva de Helmuth James, morreu no primeiro dia deste ano aos 98 anos.

“Quando Machado de Assis morreu, um de seus amigos, José Veríssimo, escreveu um artigo em sua homenagem. Numa explosão de admiração pelo homem de origens modestas e ancestrais negros que tornara-se um dos maiores romancistas do século, Veríssimo violou uma convenção social e refeiu-se a Machado como o mulato Machado de Assis. Joaquim Nabuco, que leu o artigo, rapidamente percebeu o faux-pas e recomendou a supressão da palavra, insistindo que Machado não teria gostado dela. “Seu artigo no jornal está belíssimo” - escreveu a Veríssimo - “mas esta frase causou-me arrepio: mulato, foi de fato grego da melhor época. Eu não teria chamado o Machado de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso quando reduzir os artigos a páginas permanentes. A palavra não é literária e é pejorativa, basta ver-lhe a etimologia. O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tomava…”
*retirado de “Da Monarquia à República: momentos decisivos” , de Emilia Viotti da Costa.

“Na primavera de 1210, o assalto de Bram de Simon de Montfort:
“Chegaram ao Castelo de Bram , sitiaram-no e tomaram-no de assalto em menos de três dias, sem o emprego de máquinas. Aos homens do castelo, que eram mais de cem, vazaram os olhos e cortaram o nariz, mas a um deles conservaram um olho afim de que pudesse conduzir os demais a Cabaret…”
* Pierre des Vauxde Cernay: “Hystoria Albigensis”

“Dercílio Brito, marido de uma sua sobrinha, prático em prótese dentária e, num lugar sem dentista, nem enfermeiro, nem médico, nem farmaceutico, atuando em todas essas frentes, acabou por ter um certo prestígio, daí se gerando uma inimizade com Chico Romão. Empolgou-se com a liderança, o que o fez tentar competir com o Coronel. Deu-se mal. Incidentes, desde um em torno da direção da Associação Rural, que disputavam presidir, até as remoções na sua função pública, em emprego ensejado pelo Coronel, antecederam o final sangrento de Salgueiro, em circunstâncias ainda não de todo esclarecidas. Sabe-se é que Dercílio atirou nele, mortalmente. O velho tentou - e o conseguiu - sacar do revolver porém a mão poderosa e em tantas ocasiões decisoras estava vencida. Mas, velho valente, Chico Romão morrue como um bravo - revolver na mão cerrada , a face contraída de dor onde os lábios repetiam , sob um céu limpo de sertão gostoso que ele perdia, numa imprecação de macho:
- “Matou-me…cabra da peste…cabra da peste!”
* retirado de “Coronel , Coronéis” , de Marco Vinícius Vilaça e Roberto C. de Albuquerque.

“Depois de formar-se no staff college em 1898, Hoffmann servira seis meses como intérprete na Rússia e cinco anos na seção russa do Estado Maior, sob as ordens de Schlieffen, antes de seguir como observador militar da Alemanha na Guerra Russo-Japonesa. Quando um general japonês recusou-lhe permissão para assistir uma batalha do alto de uma colina próxima, a etiqueta cedeu lugar àquela qualidade natural nos alemães cuja expressão tantas vezes os torna desagradáveis aos outros:
- Seu amarelo, você não me deixa subir aquela colina porque é um selvagem! - Hoffmann gritou ao general, na presença de outros adidos estrangeiros e pelo menos um correspondente.
Pertencendo a uma raça que se equipara aos alemães em matéria de auto-importância, o general berrou de volta:
- Nós, japoneses, estamos pagando com o nosso sangue essa informação militar e não pretendemos dividi-la com outros!
Nessa ocasião o protocolo foi completamente ignorado.
*retirado de “Canhões de Agosto”, de Barbara Tuchman
Este é o fodérrimo documentário de Martin Scorsese sobre o cinema italiano, chamado “My Voyage to Italy”.
É a melhor crítica de cinema que eu conheço. Não é superficial e não é francês: é exatamente no ponto. A paixão pelo cinema transborda pela telinha. É de chorar.
São trocentas partes, mas vale todas as penas do seu corpo.
Confiram!
Eron (ex-Heron) é um cantor de futuro e está prestes a gravar seu debut, produzido nada mais nada menos do que por Bob Johnston, o produtor de Bob Dylan na fase impecável. Gentilmente me concedeu esta entrevista:

Eron e Bob Johnston bolando uns arranjos
A Pira > Na boca do povo você é uma espécie de vitamina de Austin Powers com Jack Kerouak e Renato Gaúcho. Aposto que você discorda, então diz pra gente: quem é o Eron? Olhando pra trás nos anos, como voce vê a construção da sua imagem?
Eron > Acho que sou hetero demais para Renato Gaúcho… talvez Renato Russo eu me identificaria mais. E eu não discordo necessariamente, acho que tem a ver… as pessoas só tem acesso a uma certa profundidade de informações, então faz sentido. Acho que nunca me encaixei num estereótipo que estivesse na moda o suficiente para alguém se importar em querer entender melhor… talvez eu inconscientemente até fugi dessa competição. Eu sempre gostei de cinema, mas ser um cineasta ta na moda por aí. Acho que se o serviço ta sendo feito, não tem pra que superpopular. Eu faço o que faço só até achar que alguém já ta fazendo. Eu lembro que nos anos noventa o Renato Gaúcho prometeu que ia andar pelado em algum lugar (acho que no calçadão do Rio de Janeiro) caso o Fluminense fosse pra segunda divisão. Todo mundo sabe que se eu prometesse que ia andar pelado em algum lugar, cumpriria com orgulho.
A Pira > Por falar em competição, o que acha de ter ganhado o prêmio de “Revelação da Década”, superando figuras como Jack “Survivor” Coaracy e Gustavo Bill, inventor do Peladismo? O que você espera da próxima geração , aquela que lota as festinhas do Espaço Galeria?
Eron > Até agora eu não fui convidado pra nenhuma cerimônia que oficializou o final dessa competição, até porque tecnicamente 2010 é o último ano da década e eu dei chance pros outros dois candidatos terem Brasilia sem mim por um ano. O que esta acontecendo com eles? Eles estão preenchendo a minha falta com dignidade. A idéia do acidente de carro do Jack foi fantástica, e o Bill largar os palcos para ser JOVEM PRODUTOR também é sinistro demais. Acho melhor o conselho de esperar mais um ano antes de me dar o prêmio, quero que seja mais disputado.
A próxima geração tem talento demais. Eles estão um pouco deslumbrados demais com o fator “homosexualidade é o novo rosa”, tentando reinventar os anos 80, mas acho que estão no caminho certo. Até agora, dessa cena nova o único real candidato pra revelação da próxima década é o Gabinho Mond. Mas também tem muito pouco talento musical na nova geração, pelo menos que eu saiba. Quem será o próximo Prot(o)? As pessoas esquecem da importancia da música com a onda DJ herói. Thelma e Selma tomaram o lugar de Gas e Cochlar, mas Gas e Cochlar tinham o Chantilixo… o DJismo era a cereja do sundae. E os poetas? Cadê o novo Guri? Quem é cara de pau o suficiente pra dominar o PORTUGUÊS? Tem outra tambem: enquanto nas ultimas gerações era mal-visto ser da Escola Americana, percebo que hoje em dia esta havendo uma fusão aí… quase não da mais pra saber quem é da Escola Americana ou não. Prevejo que a próxima geração será mais globalizada e isso é bonito, mas tambem faz com que as pessoas abandonem cada vez mais o regional. Brasilia está exactamente no centro do Universo… isso não pode ser ignorado.
A Pira > Atualmente voce está em Londres. O que voce está fazendo por aí?
Eron > Eu estou aqui em Londres agora. Tá frio pra cacete aqui… escurece 4 da tarde, o sol só volta lá pras 8 da manhã… a minha imagem é a seguinte: Eu xingava todo mundo que reclamava de Londres, chamando-os de fracos por não aguentarem o depressivo e solitário frio e a escuridão. Hoje eu reclamo de Londres, mas to aqui. Eu sou um hipócrita porque não acho que eu devo alguma coisa ao Eron. Devo ainda menos ao Heron. Eu to aqui de boa morando com meu irmão com quem eu não convivia há mais de dez anos. Às vezes a gente pede pizza; deveras temos um dia semanal de pedição de pizza. Eu to fazendo um curso de “music business” numa faculdade aqui por que não sabia mais o que fazer da vida. Depois da aula eu venho correndo pra casa pra botar a calça do meu pijama. Aqui o Brasileiro tem que limpar privada.

Eron na Europa
A Pira > Não tens receio de ser rotulado de “traidor do cerrado”, assim como o foram figuras como Luciano Thurstoon Moore, Gabriel Tomás , Dado Villa-Lobos e Ana Laura DJ Mulher?
Eron > A manha é sempre voltar com um golpe surpresa. Não posso ser rotulado como “traidor do cerrado” porque tudo que estou fazendo aqui nas terras bárbaras é pelo bem do cerrado e do trabalhador brasileiro. Essa galera se deslumbrou até com o Rio de Janeiro… eu to em Nashville e só penso na Asa Sul. Minha promessa na minha campanha é a seguinte: Se eu for eleito “famoso” prometo construir uma mansão no Lago Norte dedicada somente a festas do Rock Doido brasiliense.
A Pira> Te acusam de simplesmente não saber nada da tradição musical de Brasília. Por exemplo, voce sê vê como membro integrante de uma linhagem que vem desde Negretti, Filipe Seabra, passando por Giulliano Fernandez e Munha?
Eron > Eu não me vejo muito como MÚSICO… me identifico mais com o Guri e o Renato Russo. Se eu fosse músico acharia uma grande honra participar dessa linhagem… mas não acho natural. Eu não tocava quando tinha 15 anos, eu escrevia sonetos de amor.
A Pira > A grande notícia que corre tanto no eixinho de baixo como no de cima tambem é que voce vai gravar um disco. E que quem vai produzir é o Bob Johnston. Como aconteceu esse encontro?
Eron > Esse eixão é fofoqueiro, hein? Eu procurei o contato do Bob Johnston durante um ano. Um dia, numa terça-feira, o filho de Bob me liga e pergunta “de quem é esse número que me ligou 200 vezes em três dias?” Eu me apresentei, ele foi super simpático, falou pra eu ligar lá pro pai dele que ele tava em casa, pois tinha acabado de falar com ele no telefone. Aí ele me deu o número e me desejou boa sorte. Quando liguei pro Bob Johnston ele atendeu dizendo “what can I do for you?”. Ele é uma rara especie de o que os americanos chamam de “Country Gentleman”. Daí eu falei que eu era músico e que estava um pouco nervoso por que era um fã… ele me interrompeu e disse “antes da gente começar, deixa eu deixar algo muito claro, eu não sou um produtor musical, eu sou um fã… sou o fã numero um do Bob Dylan, do Leonard Cohen, do Johnny Cash e do Paul Simon.” Daí conversamos por duas horas no telefone na primeira ligação e no final ele disse “Eu mal posso esperar para ouvir suas músicas, você é muito educado.” Depois ele me disse pra esperar uma semana e ligar de volta. Eu mandei minhas músicas por e-mail e esperei uma semana. Fiquei na expectativa alucinante durante uma semana. Quando liguei de volta ele disse que não podia ouvir as musicas porque lá ele não usava internet, mas que ele pediu pro filho dele imprimir minhas letras. Ele disse que a mulher dele tinha adorado as letras e que ela lia três livros por semana, então ele achava que queria trabalhar comigo. Ele perguntou se eu tocava alguma coisa e eu perguntei se ele se importava de escutar no telefone. Eu toquei “What I Could’ve Been” pra ele no telefone e ele falou pra parar no meio, e então disse “Pronto! eu quero trabalhar com você e eu não quero um centavo seu, vamos ser parceiros!“. Ontem eu voltei do Texas.
A Pira > Já perguntou pra ele se tu é mais sinistro que o HOMEM, na época em que ele o conheceu? Voce acha que pode ser o contraponto masculino da Mallu Magalhaes, ao ponto dela ser sua Joan Baez?
Eron > Eu to tentando traduzir “sinistro”… ta foda, mas já to querendo perguntar faz tempo. Ele ja me disse que das minhas 15 musicas ele gostou muito de 5 e que nem o Cohen, nem o Dylan, nem o Simon trouxe mais de 3 pra ele por disco, mas isso não prova nada. “Sinistro” vai além da quantia de hits, afinal os Beatles não são mais sinistros do que o HOMEM.
Então, eu não enxergo talento algum na Mallu Magalhães, e a postura “burrice é a nova inteligência” também não me agrada. A Joan Baez era conhecida por ter uma voz que aparece só uma ou duas vezes por século, além de ser tida como intelectual e líder de movimentos e o caralho… enquanto acho essas coisas ainda um pouco mais ou menos, comparar a Mallu Magalhães com a Joan Baez é a mesma coisa de comparar o Papa com a Nova Acrópole. Agora uma gata que vai inclusive gravar comigo, que é uma que o Bob Johnston tambem gravou, já é mais possivel.
O nome dela é Natalie Pinkis www.myspace.com/nataliepinkis . Ela acabou de gravar com o Johnston tambem e é possivel que sejamos gerenciados pelo mesmo empresário, que só gerencia o Leonard Cohen no momento. Aí parece que nossas duas carreiras serão lançadas conjuntamente. A voz dela é linda, apesar de eu achar suas composições um tanto quanto Walt Disney. Mas ela é uma pianista incrível e é linda, ou seja, talvez até melhor do que Joan Baez. As musicas da disney podem ser vistas como o equivalente moderno do folk que a Baez mandava, também. Agora, ia ser melhor se ela fosse brasileira pra gente humilhar logo o mundo. Taí um problema, a Mallu Magalhães não é algo como PAULIXO? Pra sermos parceiros ela teria que ser no MINIMO do centro-oeste. Sente essa Natalie aí, acho que eu consigo converter ela pro brasiliensismo…
A Pira> Já ouvi mais de uma pessoa dizendo que suas músicas mais recentes são muito melhores que as antigas. Eu me incluo nesse pessoal. Voce tambem acha? O que aconteceu? Andou ouvindo um REM?
Eron > Como eu disse, que eu saiba não tinha ninguem fazendo o que eu me propus a fazer com minhas músicas, então eu fiz aquilo durante uns seis meses, daí já tinha alguem fazendo, eu mesmo. Então comecei a fazer outra coisa, e essas são minhas músicas novas. Não são melhores nem piores que as velhas, mas concordo que são mais acessíveis… você me recomenda algum disco ou alguma música específica do REM?
A Pira > Recomendo todos antes do Out of Time, quando eles ainda mandavam altos banjos. Mas me diga…quantos HITS voce promete pra esse seu disco? Já tem nome?
Eron > Então, prometo pelo menos 5 hits, o nome não sei ainda, mas talvez seja só ERON FALBO… to aceitando sugestões… pensei em altos nomes, mas nenhum foi certeiro…
A Pira > “Action : Sinistro”, seu livro que ainda nao foi publicado. O que significou escrever esse livro? Porque voce escreveu o livro?
Eron > Acho que no sexto capitulo desse livro eu respondo essa pergunta melhor, mas dou um ‘teaser’ aqui.
Retirado do quarto parágrafo do sexto capítulo de “Action: Sinistro”:
“Os meus sonetos hesitavam e não pulavam no precipício, pulsavam no
purgatório em total indecisão. Não eram o suficiente. Agora eu ia
começar a parte pratica de meus ensinamentos, que nem no primeiro
sparring das aulas de boxe. Não é mais soquinho no saco de pancadas.
Eu ia apanhar do professor e me amarrar. Eu tava entrando no bailinho
da escola já sabendo dançar e ia chamar pra dançar alguma gata que não
fosse intimidante demais. Com ela eu não to nem aí se erro. Minha
primeira novella eu calculava como uma regurgitação da adolescência
que domou meu espirito insaciável por um tempo. A novella seria um
portal para a calibragem do resto da minha vida. Tava dançando colado
com minha primeira novella, os pés dela em cima dos meus, pra onde eu
fosse ela iria enquanto eu tentava manter o ritmo calmo. Enquanto ela
sorri lentamente e coloca a cabeça no meu ombro, chegando cada vez
mais pertinho, eu me preparo para um tango de fazer soar. Em casa eu
comecei a fazer anotações sobre as coisas que aconteciam ao meu redor.
Eu não sabia escrever um livro e eu não pesquisei no Google. Eu só
comecei a escrever e não parei.”
A Pira> Eu particularmente acho sensacional a parte do livro em que voce fala de sua amizade com Rufus Wainwright. A amizade continua?
Eron > Não foi bem uma amizade não. Ele sempre me tratou como fã, ele é meio músico filhinho de papai. A familia dele inteira é de músicos, ele não sabe o que é ser um civil. A última vez que falei com ele foi quando ele passou por Brasília. Aí ele me deu um email novo dele pra mantermos contato. Mandei um convite pra ele participar desse novo disco e até agora ele não respondeu. Não creio que ele se interessou por mim, ele tava ocupado demais falando dele quando nos conhecemos. É um rapaz de talento notável, mas só iremos ter nossa primeira conversa quando estivermos tocando juntos em alguma fundação anti-Aide.
A Pira > Como é esse negócio de voce nao curtir um rock moderno? Verdade que se tocassem “Debaser” numa festinha voce nao saberia do que se trata?
Eron > A minha queixa era o número de pessoas que não sabiam da existência dos anos 60. Hoje em dia não tem perhaps nenhum. Eu ouço de tudo. Acho que tem um certo tipo de música que nos identificamos mais quando somos adolescentes, e cada um tem a sua tara pessoal. Muitas vezes são as circunstâncias que indicam alguma coisa, um irmão mais velho, um amigo de escola… minha banda era Oasis quando eu tava iniciando minha adolescencia, aí isso decide tudo. Se minha banda fosse Nirvana, como era a banda de uns colegas meus na escola, eu teria me aprofundado mais no rock doido americano, assim passando por Pixies e Sonic Iutchi. Eu pesquisei por outro lado, mais pra Blur e Suede e coisas do tipo, sabe qualé? É outra cena, meio incompatível, mas eu acho o som fera do rock americano, curto pacas, só que não tem aquele apelo da paixão adolescente pra saber cantar junto e tudo. Eu canto umas 30 musicas inteiras do Oasis se quiser, no entanto.
Eu dançaria “Debaser” no Landscape.