Obituário

May 25th, 2010

Este blog está morto.

Quem sabe um dia volta.

Causos – edição abril / 2010

April 13th, 2010

José Murilo de Carvalho sobre as eleições no Segundo Reinado:

“Segundo um observador da época, Francisco Belisário Soares de Sousa, a turbulência, o alarido, a violência, a pancadaria decidiam o conflito. E imagine-se que tudo isso acontecia dentro de igrejas! Por precaução, as imagens eram retiradas para não servirem de projéteis. Surgiram vários especialistas em burlas as eleições. O principal era o cabalista. A ele cabia garantir a inclusão do maior número possível de partidários de seu chefe na lista de votantes. Um ponto importante para a inclusão ou exclusão era a renda. Mas a lei não dizia como devia ser ela demonstrada. Cabia ao cabalista fornecer a prova, que em geral era o testemunho de alguém pago para jurar que o votante tinha renda legal. O cabalista devia ainda garantir o voto dos alistados. Na hora de votar,  os alistados tinham que provar sua identidade. Aí entrava outro personagem importante: o fósforo. Se o alistado não podia comparecer por qualquer razão, inclusive por ter morrido, comparecia o fósforo, isto é, uma pessoa que se fazia passar pelo verdadeiro votante. Bem-falante, tendo ensaiado seu papel, o fósforo, isto é, uma pessoa que se fazia passar pelo verdaeiro votante. Bem-falante, tendo ensaiado seu papel, o fósforo tentava convencer a mesa eleitoral de que era o votante legítimo. O bom fósforo votava várias vezes em locais diferentes, representando diversos votantes. Podia acontecer aparecerem dois fósforos para representar o mesmo votante. Vencia o mais hábil ou o que contasse com claque mais forte. O máximo da ironia dava-se quando um fósforo disputava o direito de votar com o verdadeiro votante. Grande façanha era ganhar tal disputa. Se conseguia, seu pagamento era dobrado.”

Diz Plutarco em sua “Vida de Marcelo”, que em 226 A.C. os romanos estavam com tanto medo de uma nova invasão gaulesa que acabaram por seguir à risca a recomendação dos Livros Sibilinos para aplacar esta ameaça: lá estava escrito que os gauleses por duas vezes apenas habitariam o solo romano. Como ja havia acontecido uma das duas “invasões”, desta vez foram enterrados vivos um par de gauleses e um de gregos no mercado de carnes, ou forum boarium. Desta forma, estava cumprida a profecia.

Quando o cavaleiro de Rohan ficou sabendo do que Voltaire havia dito a respeito dele  em meio a companhia de alta classe, ele imediatamente mandou 4 capangas darem uma surra no luminar philosophe. Depois disse que caso considerasse Voltaire um igual, ou seja, um nobre, o teria desafiado para um duelo.

Coletânea – Os hits de 2010 até agora – edição abril / 2010

April 12th, 2010

Vou deixar três coletâneas pra vocês, com as melhores músicas que eu ouvi em 2010 até agora.

Difícil dizer qual é o melhor disco do ano até agora. Mas entres grandes concorrentes, como Ghostkeeper, Beach House, Gonjasufi e Apples in Stereo, acho que vou ficar com o Malachai.É o disco que mais dá pra ouvir inteiro, numa boa. Até porque é curto.

É bom lembrar os sites onde eu escuto músicas novas:

Boombop Shuffle

Camarilha dos Quatro

mstambourine.org

Beach House

Coletanea 1

01 – Beach House : “Silver Soul”

02 – Beach House : “Zebra”

03 – Ghostkeeper : “Haunted”

04 – Ghostkeeper : “Baby Girl”

05 – Massive Attack : “Atlas Air”

06 – Harlem : “Friendly Ghost”

07 – Caribou : “Odessa”

08 – Cold Lake Flight Schol : “Driftwood”

09 – Dr. Dog : “Mirror, Mirror”

10 – Lil Daggers : “Hungry”

11 – James Blake : “The Bells Sketch”

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Gonjasufi

Coletânea II

01 – Gonjasufi – “She’s Gone”

02 – Gonjasufi – “Kowboyz and Indians”

03 – Apples in Stereo – “Next year at about the same time”

04 – Apples in Stereo – “Wings Away”

05 – MGMT – “Brian Eno”

06 – Mose Allison – “Everybody thinks you’re an angel”

07 – Avi Buffalo – “What’s in it for”

08 – Love is All – “Kungen”

09 – Galactic – “Sissy Nobby”

10 – Puerto Madero – “Drumming for Pistols”

11 – Radio Bros – “Horses Warriors”

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Malachai

Coletânea III

01 – Malachai : “Lay Down Stay Down”

02 – Malachai : “Warriors”

03 -Plants and Animals : “Tom Cruz”

04 -Plants and Animals : “Undone Melody”

05 -Broken Bells : “The Ghost Inside”

06 -Black Rebel Motorcycle Club : “Beat the Devil’s Tatoo”

07 -Seamonster : “Oh Appalachia”

08 -The Fall : “Hot Cake”

09 – Librarians : “Hard to unwind”

10 -Yeasayer : “Rome”

11 -The Garlands : “Open Arms”

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Grandes homens do meu tempo : Cardoso – edição abril / 2010

April 12th, 2010

Cardoso é aquele mesmo do Cardoso On Line, aquele que faz um monte de coisas. Gentilmente nos concedeu esta entrevista. Agradeço ao Danilo Cabral por uns lances. Vale lembrar que não faço muita revisão de texto não. Se você encontrar algo errado, imagine o correto.

Foto de Renato Parada

A Pira > Fala Cardoso…e aí…tá com medo do Messi tambem?

CARDOSO > Nenhum. Não há motivos. Primeiro porque a ETIÓPIA – país onde NASCI e pelo qual torço – tá fora da disputa. Segundo porque o URUGUAY – país onde moro e pelo qual nutro simpatia futebolística – tem tudo pra ser eliminado logo na primeira fase, provavelmente classificado em ÚLTIMO no grupo (que tem México, França e o anfitrião África do Sul como MEMBROS). E terceiro porque o Brasil – minha fronteira no mapa POLÍTICO e obrigação moral de torcida (mais pelo fator PEER PRESSURE que qualquer outra coisa) – JÁ PERDEU essa copa há tempos, mais precisamente naquele dia em que o Robinho fez um gol de letra no Rogério Ceni e o Dunga entendeu que era indispensável convocar imediatamente esse FARISEU. Anota aí: Robinho no ESCRETE = derrota inevitável.

A Pira > Ah tu é desses, é? Mas tu vai lá e torce contra? Quebra a corrente pra frente?Olha lá, isso na minha tribo é motivo pra canelada…

Cardoso > Não chego a torcer CONTRA, mas não torço muito A FAVOR também. Quer dizer, pelo menos não em AMISTOSO, e principalmente quando joga o ROBINHO. Acho que meio que virou PALHAÇADA a coisa toda, sei lá. Pra mim a seleção brasileira perdeu o CARISMA. Última COPA que lembro de ter torcido com bastante VIGOR foi a de 2002, a seleção do Felipão. Aquilo ali ainda era um TIME. Agora é muito mais VITRINE que qualquer coisa. Quase MORRI torcendo, ainda, pra seleção de 94 e, em intensidade um pouco menor, pra de 90. Mas no fim das contas eu torço MESMO é pro GRÊMIO. O resto é PALIATIVO.

A Pira > Voce não acha que o COL foi um clássico exemplo de uma simples porem grande idéia? Não to querendo diminuir seu mérito…só tenho essa curiosidade de saber se  às vezes você não tem a sensação de que não fez nada demais?

Cardoso > Cara, nem é uma sensação, é uma CERTEZA. O COL é o típico exemplo da coisa certa na hora certa. Havia, é claro, alguns LAMPEJOS de genialidade aqui e ali, mas quase 90% dos textos publicados ali são MUITO ruins – principalmente porque a maior parte dos COLunistas e COLaboradores mal tinha saído do COLÉGIO e ainda nem sabia direito o que era a VIDA. Todas as edições estão à disposição no site do COL - qualquer.org/col. É só baixar QUALQUER uma delas e ler QUALQUER texto pra sentir o drama. Não tem, mesmo, nada demais ali. Sobretudo porque o grande trunfo do COL nunca foram os textos (muito embora fosse a única coisa que conseguíamos enxergar quando fazíamos parte daquilo). A grande revolução que o COL trouxe – se é que trouxe – foram aquelas que a própria internet ia trazer, gradualmente, ao longo dos anos: a criação colaborativa, a participação ativa do leitor, a construção de REDES de contatos. Foi esse o grande mérito do COL. Mas (perceba), são apenas os EFEITOS COLATERAIS da medicação.

A Pira > Era mesmo sobre esse efeito colateral que eu tava dizendo. Eu nem tava entrando no mérito da qualidade dos textos. Tava mais falando é da idéia mesmo. Mandar por email textos bacanas em uma formatação sem brincadeirinha. Nos meus mais altivos momentos de crítico contemporâneo, cheguei a pensar que havia algo de conceitual e proposital  por trás desse layout…uma ênfase no texto, um LIBELO, voce diria. Aposto que daqui a uns 80, 90 anos vão estar metendo essas teorias em voce. Pior, no seu cadáver. Que que tu acha?

Cardoso > Concordo FRONTALMENTE com a tua expectativa, e acho mesmo bem possível que a PROFECIA se CUMPRA. Quanto ao fato de existir algo de conceitual e proposital por trás do layout: é, acho que dá pra se dizer isso. Não há dúvida de que há uma ESCOLHA ESTÉTICA envolvida no processo, e mesmo que inicialmente ela tenha desempenhado um papel MENOR, depois de algum tempo a sua importância começou a ficar bem mais EVIDENTE. Era um zine de puro texto, ok, mas ao mesmo tempo havia uma preocupação também com a parte FORMAL. No fundo, havia uma espécie do PROJETO GRÁFICO na minha cabeça quando eu DIAGRAMAVA as edições. Algumas convenções minhas no uso de maiúsculas e minúsculas, espaços e pontuação. A atenção a detalhes como esse já força uma espécie de DESENHO do texto. Pra mim, sempre foi importante para o CONFORTO e a FLUIDEZ e, nesse ponto, foi algo intencional. Lembro que quase todo COLunista tinha algum tipo de ADORNO na sua COLuna. Geralmente ficava OU no cabeçalho OU no rodapé, muito embora VOLTEMEIA rolasse umas INTERVENÇÕES no meio do texto mesmo. Durante um tempinho publicamos uma TIRA toda desenhada em ASCII ART pelo Daniel Quevedo: isso sim foi bem EDGY – mas ninguém nunca deu a atenção que merecia.

A Pira > Verdade que existem todas as edições em papel mesmo? Botava fé de doar pra biblioteca do finado Mindlin…

CARDOSO > Eu não tenho NENHUMA em papel e, até onde me lembro, JAMAIS imprimi uma edição do COL. Mas sei de muitos leitores que só liam o troço IMPRESSO. A melhor história de todas sobre IMPRESSOS, por sinal, é de um leitor-surfista que habitava uma praia REMOTA e possuía um modem de 36k. Reza a lenda que sempre que era dia de COL (terças e quintas, originalmente), o cara acordava cedo pra deixar o bicho BAIXANDO enquanto fazia seus alongamentos e rituais MATUTINOS. Antes de sair pro mar pra pegar as primeiras ondas do dia, mandava IMPRIMIR. Na volta, pegava o calhamaço e ia pra beira da praia tomar um COCO enquanto lia a edição do dia. Assim que o COCO se esgotava, ele dava aquelas folhas todas ao VENDEDOR DE COCO que, por sua vez, levava o COL impresso pra casa, onde acabava sendo lido pela mulher e os filhos. Resultado: em pouco tempo este leitor-surfista se viu discutindo literatura e jornalismo e explicando cinema, arte e GÍRIAS CONTEMPORÂNEAS com seu vendedor de coco, que é desde então LEITOR SÍMBOLO do COL. Jamais o conheci. Jamais vou conhecê-lo. Nem sei se é realmente tudo verdade nessa história. Mas o que importa é que a história é boa. Em nota final, me CORRIJO: havia SIM uma versão impressa do COL chamada COP (CardosOnPaper), que circulava a título de BRINDE durante os famigerados Bailões do CardosOnline. Não lembro quantos foram impressos, mas algo perto de 10. Era uma versão de bolso (literalmente) do zine. Cada COLunista selecionava uma COLuna, eu escrevia um EDITORIAL e deu. Não tinha grandes sofisticações. A tiragem geralmente era bem limitada (200 exemplares, ou algo assim). Hoje esses negócios são PEÇA DE COLECIONADOR, mas na época lembro que muita gente usou pra limpar a bunda, cheirar pó ou embrulhar maconha no banheiro do Garagem Hermética. Bons tempos.

A Pira > O que voce acha desse costume de tratar a literatura que impreterivelmente fascina e fascinou aquela geração do COL como literatura de segunda classe, algo como um passatempo de jovens em formação, como uma fase a ser superada? To falando aqui de Fante, Kerouac, Hunter Thompson, Bukowski, etc.

CARDOSO > Não sei se toda a GERAÇÃO DO COL usaria a palavra FASCINANTE para se referir a Fante, Kerouac, HST ou Bukowski. Eu mesmo nunca li Fante, por exemplo. Tenho DOIS exemplares do “Livro dos Sonhos” do Kerouac (ganhei um de uma EX e outro de um amigo que PEGOU a EX; um como um presente de formatura, o outro como presente de formatura + pedido de desculpas do amigo que PEGOU a EX; perdoei), mas nunca consegui ler mais do que umas 30 páginas. Muita MACONHA. Até prum sujeito com níveis tão GARGANTÚICOS de THC na corrente sangüínea como eu, ENJÔA. Dito isto, porém, RESPEITO os beats. Acho que há coisas boas no meio daquele ruído todo, daquela NEBLINA toda. O Burroughs escreveu uns lances interessantes. O Ginsberg também. Até o CORSO, subestimado pra porra, tem uns três poeminhas CRASSE. No fundo, se tu parar pra pensar, é meio parecido com o COL,  mesmo. Esse lance de passatempo de jovens em formação, fase a ser superada. Tem um QUINHÃOZINHO de semelhança aí. Aliás, acho que foi por isso mesmo que tu me fez essa pergunta. Não?

Allen Ginsberg, poeta.

A Pira > Eu via mais semelhança pelo menos nos textos estritamente ficcionais, talvez por causa  de alguma característica de autobiografia, de autodescoberta, sei lá. Mas tambem perguntei pra saber sua opinião sobre essa idéia de que existe um curso “natural” do gosto e da produção artística de alguem, de uma juventude de predileções românticas e radicais para um envelhecimento que gradativamente renega (com certo prazer, eu diria ) os gostos de quando era moço pra se concentrar na tradição e nos clássicos? Algo como Goethe, Rembrandt, ou os Beatles?

CARDOSO > Como estou ENVELHECENDO todos os dias e, portanto, experimentando na ALMA todas essas sensações, posso dar o meu TESTEMUNHO de que essa idéia de um “curso natural do gosto” é mesmo bem VERDADEIRA. Nunca tinha pensado nisso, mas agora que tu falou, parece fazer muito sentido que exista esse PADRÃO. Tradição é um negócio que as pessoas costumam SUBESTIMAR bastante, mas que exerce um APELO misterioso e fortíssimo sobre CADA um de NÓS. Quanto aos clássicos, acho que cada um tem os seus. Um dos meus clássicos, por exemplo, é “R.I.P”, um junglezão pegadaço do REMARC. Uma barulheira do caralho, mesmo hoje, pra mais de 95% das pessoas que habitam este GLOBO. Outro é “Os Simpsons”. Também ADMIRO um bom PANGO, uma boa CEVA e VIDEOGAMES. Pussy, tits and OH YEAH THAT ASS. Todos gostos de moço. Algumas coisas nunca vão mudar.

A Pira > Muita gente aqui do “norte” tem idéias pré-concebidas e idealizadas sobre o sul do país. Tenho certeza de que essa imagem não foi construída a partir do nada. Você que é um cara viajado, nos diga o que voce vê de mais diferente (pra melhor e pra pior) entre o Sul e o resto do Brasil.

CARDOSO > As grandes vantagens do sul estão restritas à qualidade da COMIDA, (que é barata e FARTA – sobretudo pra quem gosta de CARNE), da paisagem FEMININA (bons FENÓTIPOS importados da BAVÁRIA e do VÊNETO) e do CLIMA (duvido existir maior AMPLITUDE TÉRMICA no país: é possível enfrentar temperaturas de 37 e 10 graus na mesma SEMANA). Falo, claro, do Rio Grande do Sul. Santa Catarina tem praias ótimas e uma pequena porém consistente cena de HOMEGROWERS. O Paraná, muitas POLACAS e UCRÃS, mas é só. Em comparação a São Paulo, por exemplo, Porto Alegre perde em quase TUDO, mas ganha, ainda, no CRACK – que chegou primeiro aqui e transformou numa fase de RESIDENT EVIL uma caminhada de meia hora do Bom Fim ao Moinhos de Vento em Fevereiro, mês em que cerca de 60% da população (incluindo a polícia) migra para o LITORAL, deixando a cidade à mercê dos ZUMBIS. Falando em polícia, lembrei que Porto Alegre é a única cidade do país que ainda mantém uma divisão regular de PATRULHA MONTADA (aka “à cavalo”). Aqui, chamamos a PM de BRIGADA e os BRIGADIANOS, no verão, usam BERMUDAS. Já vi alguns andando de PATINS e SEGWAY, mas parece que aboliram essa história.

A Pira > Ah, a Bavaria! Era sobre isso mesmo que eu queria te perguntar. Como é conviver desde pequeno com o melhor stock de gatas, quiçá do planetinha todo? Vou te confessar uma coisa, não fica com raiva. Quando estive em Porto Alegre, tive a impressão de que a rapaziada já havia criado anticorpos e quase não sentia a dor de ver gatas espetaculares em ônibus, farmácias, armazens, etc. Elas passavam e era como se fosse a coisa mais normal do mundo. Já eu, cerradino, desenvolvi uma úlcera por causa dessa viagem. Como é no dia a dia do cidadão gaúcho?

Rainha da Uva 2010.

CARDOSO > DURO, variando entre o complicado e o simples, desde os mais TENROS anos de sua infância. Mas tu está certo nesse teu exame ANTROPOLÓGICO do gaudério médio: nego desenvolve uma certa TOLERÂNCIA ou, no mínimo, uma tendência a não se CHOCAR TANTO com as delicadas delícias que cortam seus caminhos diariamente. Viver cercado de GATAS QUENTES pode ter esse efeito. Se bem que (não TUDO, mas MUITA coisa) depende, também, das interações entre uma vasta GAMA de elementos, como a REGIÃO da cidade em que se está e o grau de TIRIÇA do vivente. Há também condicionantes CLIMÁTICOS: se é VERÃO, por exemplo, não tem VACINA que salve.

A Pira > Voltando um pouco à questão do sul em relação ao resto do Brasil… Tem um professor da UnB, o Flávio Kothe, que escreveu sobre os teuto-brasileiros no seu “O Cânone Colonial” : “O teuto-brasileiro não é considerado propriamente brasileiro no Brasil nem alemão na Alemanha. (…) Nos subterrâneos das duas sociedades, ele vem, no entanto, atuando há 170 anos como intermediador cultural, embora sem apoio oficial. Com flores e hortaliças, máquinas e serviços, orquestras e corais, ele tem servido ao “diálogo Norte-Sul”.

Quero te perguntar o seguinte: o descendente de imigrantes europeus que chegaram no Brasil a partir de meados do século XIX, sente-se posto de fora daquilo que se costuma chamar de “brasilidade”? Outra coisa que eu sempre quis saber é como estes mesmos descendentes assistem ao espetáculo das discussões raciais no Brasil. Fico curioso, já que são pessoas cujos bisavós e tataravós nunca tiveram um escravos sequer, muito pelo contrário.

CARDOSO> ÓTIMO ponto tu tocou agora, véi. Penso constantemente nisso, sobretudo levando em conta o ambiente em que fui criado. Meu casal de avós PATERNOS era composto por um UCRÃO e uma ITALIANA, enquanto os MATERNOS tinham como membros uma ALEMOA e um NEGÃO. Por conta de tudo isso, discussões sobre identidade (não apenas racial) sempre estiveram muito em VOGA na minha vida. Deixando isso de lado: é ÓBVIO que a esmagadora maioria dos gaúchos não consegue se identificar com tudo isso que se chama de brasilidade, e não apenas pelos motivos que talvez pareçam mais EVIDENTES para quem vê a questão de fora. Em outras palavras, não é uma questão de FENÓTIPO. Não é porque aqui há cidades onde a totalidade da população é composta de gente alta, loira e de olhos azuis que a gente não se sente BRASILEIRO. O buraco é bem mais embaixo. O fato de haver meses FRIOS de verdade, por si só, já é um condicionante importante, uma vez que influencia e MOLDA hábitos e comportamentos incrivelmente singulares. O Rio Grande do Sul é o único estado que eu conheço em que há carros, camisetas e outdoors com os dizeres “orgulho gaúcho”. Nos estádios de futebol, quase ninguém canta o hino nacional, mas todo mundo canta com TANTO vigor o hino rio-grandense que ele se tornou parte OBRIGATÓRIA da cerimônia. Talvez seja difícil para quem mora aqui notar essas particularidades, mas o fato de esta ser a UNIDADE da federação com a MENOR população de imigrantes (por volta de 4%) dá uma boa dica.

Quanto à questão racial, eis um tema ESPINHOSO. Obviamente há preconceito racial aqui, como em todos os lugares do mundo. Não acho que ele seja mais EXACERBADO do que em outros lugares – muito pelo contrário. É até mais BRANDO do que em alguns círculos em São Paulo (contra nordestinos) ou no Rio (contra os moradores de favelas). Porém no tocante à COR DA PELE, pode ser mais intenso, sim. O que é curioso, apesar disso, é que o Rio Grande do Sul tem uma população negra bastante significativa. Quase ninguém sabe, mas existem mais terreiros de Umbanda no RS do que na Bahia. A metade SUL do estado tem várias cidades com fortíssima presença negra – e a convivência com a minoria branca, até onde eu sei, sempre foi relativamente PACÍFICA. Há poucos casos de EXTERNALIZAÇÃO da tensão, muito embora exista algum tipo de preconceito – que normalmente acaba restrito ao campo das piadas e dos comentários velados, raramente chegando a qualquer tipo de AÇÃO prática. Sempre creditei isso justamente ao fato de TODOS os imigrantes italianos e alemães que chegaram aqui terem comido o pão que o diabo amassou e construído suas vidas do absoluto NADA. Acho que essa história sofrida pode muito bem ser comparada à dos escravos que chegaram aqui em condições parecidas, e por isso impera uma espécie de RESPEITO mútuo e silencioso, que evita há décadas qualquer tipo de EXALTAÇÃO dos ânimos.

A Pira> Me mandaram perguntar sobre sua relação com o hip-hop. Por que me mandaram te perguntar isso, hein?

CARDOSO > Estou envolvido com a CULTURA desde 1988, mas, assim como o CATOLICISMO, nunca fui um grande PRATICANTE. Quer dizer, estudei em colégio de FREIRA e freqüentei MISSA durante os anos 80. Da mesma forma produzi umas BEATS e até participei de uma BATALHA DE FREESTYLE em 2001 ou 2003 – venci um ROUND com uma rima complexa e engraçada sobre as vitaminas e os nutrientes que haviam nos muitos ingredientes de uma salada, mas depois me PEIDEI TODO tentando repetir a COMICIDADE falando de alguma outra comida. Acho que MASSAS. Fora isso, gosto PRA CARALHO de rap. É a principal influência da minha escrita, superando qualquer outra EXPRESSÃO ARTÍSTICA que tu possa imaginar. Também inspira profundamente minha FILOSOFIA DE VIDA, o jeito como eu me PORTO e como eu LIDO com todas as situações.

A Pira> Mas como é isso? Não é apenas música? No que influencia em sua vida prática ou filosófica? É um esquema meio Ghost Dog?
CARDOSO > Bom, AS MUCH AS THE NEXT MAN, eu sei que de TODAS as letras de rap que já foram escritas em TODAS as línguas conhecidas pelo homem, pouco mais de 10% pode ser aproveitado com um objetivo mais, digamos, PROFUNDO. Porém, assim como em QUALQUER outra coisa, se você conseguir IDENTIFICAR esses 10%, verdades bastante INTENSAS podem se revelar. Saca aquele lance da FILOSOFIA DAS ARTES MARCIAIS? Aquela pilha de que quanto mais o cara TREINA para converter seu corpo em uma máquina de MOER CARNE, mais o PACIFÍSMO emerge? A contradição and shit? Pois é. A CULTURA HIP HOP também te proporciona isso. Pra ficar num nível mais de SUPERFÍCIE, sempre pinta uma ou outra FRASE isolada no meio de uma letra que manda uma MENSAGEM pra REVERBERAR muito FUNDO na MENÇÃO, do tipo “treat you better than me/ ’cause that’s the heavenly key/ to unlock the inner strenght/ where my essence will be”. Ou seja: existe, no meio de todo aquele RUÍDO, uma MENSAGEM que pode ser DECODIFICADA, mas SOMENTE se o cara tiver uma mente GROOVEALICIOUS. Isso é importante: se o cara não for NEGRO (pelo menos MUSICWISE), não tem como funcionar.


A Pira > O que voce acha dessa galera que veste camisas do tipo “I wish I was black”?

CARDOSO > Tão de PALHAÇADINHA, né? You are what you are: deal with it. Sem contar que o cara que QUER ser negro geralmente não tem a menor idéia do que isso significa na prática. Posso estar REDONDAMENTE enganado, mas usar uma camiseta dessas é tão OFENSIVO quanto, sei lá, propor a castração química de todas as etnias africanas. É um desrespeito fudido. Mas pode apostar que o cara que usa essa camiseta é fã de 50 Cent e Eminem, ou seja: não sabe absolutamente NADA e merece mais é tomar um CALOR aleatório na vida pra ver se fica esperto.

A Pira > Como começou esse teu LANCE de escrever em MAIÚSCULAS?

CARDOSO > Devo tudo a Thiago Balduzzi II, aka MUNHA, e a Daniel Pellizzari, aka MOJO – que começou a EMULAR o estilo do Munha nos e-mails que me escrevia no final de 1999. True story.

Darkness, everybody!

A Pira > Sabia que o Munha tem o maior MSN da América Latina? Só mulher. Agora ele treina pra ser lutador de quebra-faite e mexe com mulher. Quem diria. E tu, que mal lhe pergunte, é casado?

CARDOSO > Munha: admiro e respeito MUITO, porém é fato que conheço POUCO. Desde junho de 2008 sou CASADO perante a UNIMED, prestadora de serviços perante a qual minha FIANCÉE teve de declarar que existíamos em UNIÃO ESTÁVEL para que eu pudesse, também, USUFRUIR de seu plano de saúde.

A Pira > Unidos pela Unimed. Bonito Issso. Pensas em encomendar um boneco já pra logo mais, ou voce nao curte a idéia de popular o planeta?

CARDOSO > Curtir, eu curto: quem não curte muito é Petite, minha cara-metade. Ou pelo menos não curte AGORA: o que, pra ser bem sincero, BATE inteiramente com o meu STATE OF MIND do momento. Gosto da idéia de ser PAI, mas não AGORA. Sei lá, bicho, sinto que ainda tenho MUITO a viver e fazer antes de CRIAR a PROLE. Não que eu vá PARAR de viver e fazer DEPOIS que procriar, mas sei lá: QUASE. Além disso, também preciso descolar um pouco mais de LARJÃ, que é sempre importante no processo todo.

Atualização de Março

March 15th, 2010

Peraí,daqui a pouco eu termino.

Coletânea – O rock de Brasília nos anos 00 – edição Março / 2010

March 15th, 2010

Fiz essa coletânea pra tentar resumir o que rolou em Brasília nessa última década. Faltaram algumas bandas que eu nao consegui baixar nada ( Totem, Capotones,  Phonopop, Super Stereo Surf, Lo-Fi, Sestine, Superquadra, Club Silêncio, etc. ), mas acho que no fundo é mais ou menos isso mesmo. Estão aí as bandas nascidas da onda ska dos anos 90, da onda post-rock do início dos 00 (Nancy é uma cria desse lance), as bandas pré e pós-Strokes, da galera rockabilly, praticamente toda banda decente que saiu do Sigma e o mais importante: todos os principais compositores da cidade. Abrindo a coleta, a banda que fez a ponte entre a geração de ouro de Oz e Raimundos e a geração dos anos 00. Tem muita versão de demo, tem até versão de ensaio. Então a qualidade de algumas faixas não é daquelas. Finge que é “lo-fi” e aproveite! É a molecada 666 dando seus frutos.

Pra baixar é só clicar no maior frontman que a cidade já teve. Garanto que voce vai gostar de umas dez.

http://www.megaupload.com/?d=CYCJZSP2

01 – Divine : “Cavalos”

02 – Prot(o) : “A Chave dos seus Sentimentos”

03 – Nancy : “Chaparral”

04 – Virgem Again : “Amar é uma simples troca”

05 – Bois de Gerião : “Dia de Sábado”

06 – Sapatos Bicolores : “Marcela”

07 – Suíte Super Luxo : “Ad Hoc”

08 – Watson : “Tupanzine”

09 – Gramofocas : “Um gole aqui, um gole lá”

10 – Satanique Samba Trio : “Cabra da Peste Negra”

11 – Chantilly : “Londres”

12 – Lucy and the Popsonics : “Chick Chick Boom”

13 – Beto Só & Solitários Incríveis : “Poema Rejeitado”

14 – Móveis Colonias de Acaju : “Bem Natural”

15 – Mentes Póstumas : “Tudo é um lixo”

16 – Frank Poole : “Onde está todo mundo”

17 – The Pro : “Todos Juntos”

18 – Tiro Williams : “Que inferno!”

19 – Pedrinho Grana : “Carga Pesada”

20 – Heron Reign : “Sacagawea´s Son”

21 – Hazzards of Substance Abuse : “Cuissade”

Tesouros ocultos do Youtube – edição Março / 2010

March 15th, 2010

“Ears open, eye ball click” é um documentário sobre o processo de formação de um fuzileiro naval americano. São 10 partes.

Divirta-se não estando lá:

Temos aqui tambem uma entrevista com o Francis Bacon. Não é o filósofo nem algum personagem de LOST. Em 2 partes:

Uma palestra em direito internacional, por Jurgen Habermas. Uma pena que ele seja fanho:

E para finalizar , um documentariozinho sobre o Eliot. Participação de Frank Kermode.

Mas esse eu só descolei o link: http://www.youtube.com/watch?v=wnD75tk6uO4&feature=related

Grandes homens do meu tempo : Márvio dos Anjos – edição Março / 2010

March 15th, 2010

Dessa vez pedi uma entrevista ao Márvio, vocalista da banda Cabaret e editor-chefe da edição carioca do jornal Destak. Seu disco tá prometido para maio. Gentilmente me concedeu esta entrevista abaixo:

A Pira > E aí, como foi de carnaval?

Márvio > Foi incrível. Já sabia disso há tempos, mas hoje é inegável que o
melhor lugar para se estar no mundo durante os dias de Carnaval é o
Rio de Janeiro. A cidade inteira fantasiada, decidida a ser feliz, os
blocos varrendo as ruas e praças como nuvens de gafanhotos, e eu lá,
de General Leônidas do filme “300″. Sunga, sandália franciscana, capa
de veludo vermelho, lança e escudo de sexta a terça. E nunca fui tão
feliz, e nunca os beijos desapegados foram tão lindos e valiosos.
Carnaval ensina a amar intensamente no mais curto espaço de tempo e a
deixar ir, porque, no fim, ninguém pertence a ninguém.

Márvio no carnaval do Rio, no flagra de Chico Barbosa.


A Pira > Ninguem pertence a ninguem, mas só é feliz quem namora. Ou não? Nesses tempos de mulher é o novo homem, ta sendo mais difícil descolar uma namoradinha?

Márvio > É impossível ser feliz sozinho, como se sabe. Mas é o consumismo, né,
brou? Nós ensinamos essa porra às mulheres, elas adoraram e agora elas
consomem vorazmente. É um grande leilão coletivo, todo mundo esperando
o lance melhor.

A Pira > Tais familiarizado com o conceito de “sabinismo“? É algo como um gosto estético irônico, engraçadinho, forçadamente excêntrico e cheio de picardia. Praga de nossos tempos. Mas não te acuso disso, fica de boa. Pra mim tu é maluco mesmo, legítimo, do escocês. É papo de Queen ser melhor que Beatles, Berlioz ser melhor que Mozart, Petkovic mais craque que Zidane. Tu tem consciência dessa tua condição? Como é ter mau gosto?

Márvio > Eu não tenho um compromisso de alinhar meu senso estético com os
cânones, porque muitas vezes eles não me servem, e minhas obsessões me
tomam muito tempo, como o Queen – embora ame Beatles, acho que faltou
a eles dar ao palco o sentido maior que a vida que Freddie Mercury
deu. Isso me guia muito na performance – na verdade, já guiou mais, no
início.

Eu dialogo com a cultura mundial, com as listas de top 10, mas a
verdade é que eu me dou o direito de discordar de muita coisa. O bom
gosto, você sabe, é um esterilizante cerebral, é também um ponto
tranquilo onde as pessoas tentam se situar, muitas vezes só para
evitar polêmica, muitas vezes por preguiça ou medo de dizer que
Mozart, é sim, um compositor palaciano e trivial como uma bala de
morango, enquanto Berlioz injetou a paixão de que sou feito em toda a
sua pequena obra. Realmente acredito que o bom gosto é uma virtude de
quinta categoria, como afirmava Nelson Rodrigues. E eu hoje gosto de
ser a régua do meu mundo, julgo as coisas a partir da minha medida,
mas não nego que adoraria – repito em caps lock: ADORARIA – ser um
profundo amante de jazz, de cinema francês e de música indie do século
21. Só que, como eu disse, minhas obsessões me tomam tempo, e eu acho
nosso mundo muito utilitário na produção e na absorção da arte, num
movimento retilíneo uniforme de tédio. Topo ser esse Quixote
antiquado, porque o mundo em que vivo é bem mais interessante.

Ah, e o Petkovic > Zidane é parte de outro lado da minha
personalidade: sou um piadista hiperbólico, e o Pet é nosso.


A Pira > Pois o que eu acho que vai acontecer é o seguinte: lá pelas tantas você vai voltar ao cânone, um por um, Shakespeare, Rafael, Beethoven, Beatles, Boticelli, etc. , e vai se dar conta de que existe um motivo pelo qual essa galera tá no caderninho da civilização ocidental. Essa projeção te intimida? Tens medo de concordar com a humanidade, no final das contas?

Márvio > Nada disso me intimida. Esses aí que você citou moram no meu coração.
Mas eu tenho uma ou duas coisinhas a ensinar a humanidade, e abrir o
leque é fundamental.

A Pira > Conta pra galera aqui do cerrado como começou tua relação com a Legião. Conta pra gente daquela show na praia, quando tu era moleque.

Márvio > Quando eu fui convidado a ser vocalista de uma banda, eu precisei de
um modelo. E achei que a Legião era um produto realmente sério de
rock. Influenciou muito o fato de que ele me dava assunto para
conversar com a minha primeira grande musa, Thaís, que era apaixonada
por eles. Mas ele cantava bem, as letras eram legais – havia fúria,
havia simbolismo, havia melancolia, e almas românticas como a minha
adoram isso – e além de tudo a figura magnética do
lead singer.

O lance do Tributo em Ipanema surgiu em 1998,  eu já era amigo do Fred
Nascimento, ex-guitarra de apoio da Legião – ele cresceu com meu pai e
meu tio. A gente falava muito de rock, e ele me levou para esse
ensaio. Eu tava a fim de ver os cantores ensaiando, gente como
Raimundos, Toni Platão, Cauby Peixoto, Paulinho Moska, Lobão, vários
artistas legais. Só que no primeiro ensaio não havia cantores. como eu
cantava as letras no meu canto, o maestro da orquestra pediu que eu
cantasse tudo no ensaio, e aí eles me contrataram. E aí, ensaiei e
tive a chance de subir ao palco, fazendo backings da Sandra de Sá e do
Evandro Mesquita. Só que choveu pacas no dia do show, que foi
transferido, e aí Zélia Duncan cancelou a sua participação. Tentaram o
paulo Ricardo, ele não topou, e aí me perguntaram se eu cantava “Quase
sem Querer” no tom dela. Disse que era o meu tom e aí eu cantei. Ainda
rolou de cantar “Monte Castelo” ao lado de Ângela Maria e Agnaldo
Timóteo, porque ele amarelou com o tom altíssimo da música.

Persigo o repeteco disso – cantar na praia para 20 mil pessoas – até
hoje. Vou morrer tentando. Já cantei com o Cabaret para 5 mil, 2 mil,
7 mil. Mas em Ipanema, de novo, seria cósmico.

"Renato Russo", poeta nascido em Brasília no dia 27 de março de 1960.

A Pira > Mas deixa eu aproveitar teu parentesco com Augusto dos Anjos e, sabendo que voce próprio tem sua produção poética, me diga o que significa “Lá em casa tem um poço / mas a água é muito limpa-aaa” para você? Me ajuda nessa.

Márvio > Eu acho que Renato Russo curtia ser lúdico e pregar peças herméticas
nas letras, e aí cabe a quem lê extrair o melhor. Eu acho que no final
de Há Tempos, rola um salto temporal. Uma voz que caga regras
“Disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza…” e de repente ela é
cortada por uma voz que lamenta que haja tanta pureza assim. Talvez
seja preciso um pouco de sujeira nessa água, um pouco de pecado no
sangue.

A Pira > Como foi gravar com o Ney Matogrosso? Ele ainda curte um rock?

Márvio > Cara, o Ney foi incrível. É um intérprete, então ele se obriga – sem
muito esforço, com um prazer imenso – a ouvir o que é novo, a conhecer
propostas, a aceitar convites. Foi úm momento inigualável vê-lo cantar
Dentro de Você“, de minha autoria, no dueto que vai estar no nosso
próximo disco, porque você tem uma estranha sensação de confirmação.
Eu era capaz de imaginar como ele cantaria e ele simplesmente confirma
a minha imaginação quando canta.
O foda é que não dá pra relaxar: eu já estive com ele umas cinco
vezes, ele é sempre muito gente boa, mas eu ainda não consigo relaxar
diante dos meus ídolos. Fico lá todo cerimonioso, porque ser fã é foda
né? Você quer absorver o máximo dos minutos que vc passa com o cara e
ao mesmo tempo quer ser o último a incomodar alugando. Mas enfim, ver
o lado piadista dele – ele perguntou brincando se eu me incomodaria se
as pessoas pensassem que a gente teria um affair, dada a letra safada
do dueto, e eu respondia que “pra minha carreira, de repente é até
bom”.

E tem outra né? O cara tem pelo menos 36 anos passados diante de
microfones. É uma naturalidade absurda na hora do play+rec. Sonho em
chegar a essa tranquilidade, saber quem eu sou assim que eu abro a
boca para cantar. Ainda me sinto procurando a minha voz a cada
gravação.

A Pira > Tu tem alguma vontade de entrar no panteão da MPB? Um lance meio Marcelo Camelo , de largar a banda e a guitarra, sentar num banquinho e etc?

Márvio > Vontade eu tenho total, mas não vai ser à base de paumolescência não.
Marcelo Camelo é muito proparoxítono pro meu gosto. Não vejo paixão,
vejo artificialismo. Projeto capa da Bravo comigo não.


A Pira > Nesses tempos politicamente corretos e multiculturais, onde o lance é frequentar um terreiro, praticar uma yoga e casar ao som de Beach Boys, tu abraça teu iberismo na maior. O pacote completo: com catolicismo, tourada, e o lugar da mulher. Tu é muito recriminado?

Márvio > Alto lá; catolicismo não: sou de formação cristão histórico. Não
acredito em trindade nem em santos, nem em outros dogmas papais. Dito
isso, vamos lá.

Eu acho que, da mesma forma que o mundo não me serve totalmente, meu
mundo não serve a todos e é perfeitamente óbvio que precisamos nos
tolerar. O problema é que a nossa geração não tem causas a abraçar, e
fica por aí, atirando a esmo. Eu tolero tudo, praticamente tudo, e só
reservo intolerâncias para a minha vida PESSOAL: aborto: eu acho que
tem que ser legalizado mesmo, porque existem um monte de pessoas que
não acrditam no que eu acredito, a gente aparentemente nunca vai
chegara  um consenso: existem vários ótimos argumentos de ambos os
lados. Então, que ambas as coisas coexistam: deixemos os que precisam
do aborto abortar de forma segura, e que se previnam contra a gravidez
indesejada todas aqueles que achem que vão se entender com Deus
posteriormente. Religião é para moldar a vida e o caráter do
indivíduo, e não pode ser freio na vida de quem não é obrigado a crer
em Deus. Aí, você não mexe na minha religião e eu não mexo nas suas
leis.

Aí, é o seguinte: eu vejo beleza na tourada sim, e não acho problema
nenhum que touros sejam mortos na arena como forma de arte. Eles

crescem como reis, superbem tratados, e o espetáculo é uma metáfora sinistra da nossa civilização, inclusive também é uma metáfora essa persistência desse espetáculo diante do mundo que, semcausas a abraçar, resolve corrigir e reparar tudo, uma espécie de stalinismo mais brando. Do jeito que vamos, reescreveremos a história, fingir que os
povos não se mataram e tentar dar compensações a torto e a direito, criar culpas onde não existem e desmotivar o lance mais bonito do ser humano, que é construir a si mesmo, do jeito que vamos. Até o ponto em que devolveremos Niterói aos herdeiros de Arariboia, porque eles que moravam lá antes.

Não sei dizer o que é o papel da mulher, acho que não dá para colocar tudo na conta delas. O homem criou a babaquice, e a mulher quis ser igual ao homem. O problema é que as mulheres ainda estão decidindo o que querem, enquanto os homens sabem direitinho.

A Pira > Escapou da polêmica nessa. Mas agora não vai ter jeito: explica pra
gente o seu conceito de “medo estatístico”!

Márvio > Nem tudo que parece racismo é racismo. O fato de ter 5 pretos e 150
brancos numa empresa pode simplesmente dizer que, dados acontecimentos
históricos que têm a ver com a escravidão e má inclusão, mais brancos
se qualificam rapidamente a cargos que negros. A não ser que o RH
seja repleto de filhos da puta, o que me parece conspiração demais.
Isso é natural porque, estatisticamente, os negros tiveram mais
dificuldades de se integrar às classes mais abastadas, que são as que
historicamente têm mais oportunidades de estudo. O fruto de uma
injustiça anterior não é necessariamente uma injustiça atual.

Da mesma maneira, se ao passar perto de uma favela à noite e ver um
negro vindo na sua direção, você dá um corridão, isso não quer dizer
que você seja racista. Provavelmente um negro faria a mesma coisa, e
muitos já me disseram que sim. Só que, atualmente, é sábio também
correr dos brancos. Enfim, de qualquer maneira, sendo branco ou preto,
mantenha um bom preparo físico ao passar por uma favela.

A Pira > Como é esse negócio de que tu nao faz download de música na internet? Tem que ser macho pacas, hein?

MárvioNão faço simplesmente porque não priorizo uma conexão megapowerflex lá
em casa, nem vivo atrás das maiores novidades tecnológicas do mercado.
Nunca tive um mp3 player, e ainda curto meu discman. Meu estilo
preferido de música é o clássico, e o melhor jeito de consumi-lo ainda
é em CD. E o YouTube sempre tem a música contemporânea que quero ouvir
pontualmente. Se vc tiver um hit, eu vou no YouTube e ouço. Se eu
curtir pra caralho, eu compro o CD.

Nem é uma posição política extrema sobre a favor ou contra o download.
É que eu também acho que música é pra ser apreciada com calma, e as
pessoas baixam música demais, o consumo é muito efêmero. É coca-cola,
e às vezes eu quero vinho. E tem outra: eu sou compositor e reparei
que, quando eu rpestava atenção demais na música dos outros, eu me
retraí na hora de compro as minhas. Aí achei melhor botar ordem na
casa.

A Pira > E o tchose? Se fosse contigo, tu legalizava?

Márvio > Acho que tem que legalizar, sim. De alguma forma, a maconha tem que
ser legalizada.

A Pira > Valeu, Márvio. Agora vou desligar e ouvir um Mozart.

Atualização edição Março / 2010

March 10th, 2010

Não atualizarei hoje, e tal.
Quem quiser tomar satisfação , que apareça berrado no Balaio.

Grande homens do meu tempo – edição Fevereiro de 2010

February 12th, 2010

Lauro Montana é ator, professor , DJ, e muitas outras coisas. Gentilmente me concedeu esta entrevista abaixo. Confira:

montana

A Pira> Tu é de que quadra, véi?

Montana> Sou da 215 Sul, palco de grandes panqueides nos anos 80 e 90, quando filhos de sub-oficiais da Aeronáutica degladiavam-se com filhos de bancários nos gramadões das entrequadras. Tempos difíceis aqueles, difíceis mas com fibra.

A Pira> 215 sul aqui no meu manual do entendedor do Plano tá indicada como quadra de milico. Tu como filho de milico, andou muito por esse Brasilzão? Tu sente uma diferença entre as pessoas que nasceram e viveram aqui desde sempre e os que já moraram fora da cidade, em relação à apreciação que fazem da cidade? Eu por exemplo ja morei em Anápolis, Fortaleza, Rio e o escambau…por isso sei que melhor do que aqui é dificil de achar. Mas tu conhece a baixo autoestima que Brasilia tem né? Aquele lance de querer morar em São Paulo a qualquer custo, e tal….

Montana> Bom a minha quadra não é de milico, eram de funcionários do antigo Ministério do Interior e Caixa Econômica. Mas como vc é asa-nortino vou perdoar essa generalização. Na real não muito, pois pouco tempo depois que eu nasci minha mãe se separou do meu pai. Chegamos a morar na Praia Vermelha quando meu pai cursava a ESG. Sempre curti morar em Brasília, acho que em grande parte ainda reside aquela falsa ilusão de viver em grandes centros metropolitanos, mas sempre achei grandes cidades caras e insalubres, prefiro o bom e velho DF. Preferencialmente o final da asa sul, mas ainda quero morar naquelas casas das 700′s feitas pelo Milton Ramos.

A Pira > Vivemos numa época em que qualquer Almodovar é chamado de gênio, qualquer HIT do Franz Ferdinand é chamado  de obra-prima. Tudo anda muito banalizado. Mas na real… “Demência” é mesmo uma obra-prima. Voce escreveu previamente algumas daquelas falas? Chegou a ter ensaio? Conta pra gente o processo criativo por detrás daquela jóia do estoicismo contemporâneo.

Montana> Deixa eu corrigir a sua sentença. Vivemos numa época em que qualquer imbecil é chamado de gênio! Acho que houve uma banalização da genialidade, tal qual da violência, num mundo de hoje onde as pessoas não têm um pensamento crítico, vivem na impessoalidade de facebooks e orkuts, qualquer releitura que se reproduza é chamada de GENIAL. Acho que a idéia não está em questionar se Almodovar (que eu acho uma bela merda) ou Franz (que eu acho razoável) são geniais, mas devemos questionar o próprio conceito de genialidade nessa época de merda em que vivemos. Quanto ao Demência é um obra inteiramente visceral e improvisada. Um surto, se prefere assim.

A Pira> E o Kikito? Tocaste uma zona lá em Gramado?

Montana> Cara acredita que eu estava em BsB dormindo durante a premiação? Nem fui pra Gramado, tinha duas opções: ou ia pra Gramado, ou ia pra Niterói no Festival de Cinema Universitário. Como pensei que não comeria ninguém em Gramado, escolhi Nikity. Também não comi ninguém lá.

A Pira> Quais sao as diferenças entre o Landscape e a Play, e o saudoso São Rock? O que mudou na naite rock em Brasília?

Montana> O Lands já foi uma grande casa, nao sei se por descaso do público ou dos proprietários (ou dos dois) o Lands está em coma. Acho que ele se encontra no fim de uma era,  sua própria era. A Play pra mim parece um show de calouros do Rock. Colocam como convidados pessoas de fama razoável que nunca viram uma cdj na vida pra entreterem um público apático e em sua maioria imbecil. Mas acho que isso não seja culpa do evento. É o período em que estamos vivendo agora. A naite mudou pra caralho, além dos índices de inflação, as estruturas das casas, os DJs e o público na época do São Rock (1996/97) eram bem melhores do que hj. Não falo por saudosismo ou porque estou mais velho não, mas hoje vemos uma garotada completamente imbecilizada, acham que festas são passarelas de moda, cultivam grupos imbecis como Britney, Lady Gaga e outras retardadas do gênero. É um juventude festiva completamente anencéfala e imbecil, espero que o Governo Federal tenha um programa de esterelização pra essa garotada.

A Pira> Tu tem explicação pra esse fenômeno de que quando não rolava internet e mp3, o público conhecia mais bandas e dava pra tocar até um Guided by Voices, e hoje em dia, quando tu pode baixar até a discografia inteira do Fall, neguinho só dança se for REPETILLIA?

Montana> A resposta é óbvia: a comodidade leva à ignorância. Na nossa época a gente lia Bizz, Rock Brigade, Top Rock (não que sejam periódicos respeitáveis), a galera corria atrás das músicas e das bandas exatamente porque sua acessibilidade era limitada (reserva de mercado e tals). Com o advento da internet pensou-se que a nova geração ficaria antenada nessas vertentes  mas o que acontece é que essas bandas supracitadas continuaram no anonimato do hype. Acredito que a reserva hoje em dia não é mais de mercado e sim intelectual. Criar uma geração inteira de idiotas independe de recursos tecnológicos ou mesmo tornar a propriedade intelectual de livre acesso não quer dizer que a demanda por essas bandas aumente. Eu me lembro que mesmo nas queimas de estoque da Redley Records, da WOM (asa sul) ou até mesmo da extinta Sounds, petardos como esse ficavam no limbo e 60% da população brasileira era fã da Banda Eva. Esse é um prospecto antropológico e histórico da nossa cultura e acredito que transnacionalmente isso também se reflita. Caso contrário O The Fall ganharia um Grammy por conjunto da obra e não a Beyonce por conjunto da bunda.

A Pira> Laurinho, como é que é essa historia de que tu era snevol?

Montana> Fui não, tenho amigos Snévol como o Eduardo Políbias, o Dj Ed, entre outros, mas nunca vesti a camisa não, aliás não visto a camisa de ninguém.

A Pira> E aquele lance de metal do fim da asa sul? Explica isso pra gente.

Montana> Não ficava recluso ao Metal apenas. Apesar de todos os membros da ARFAS (Associação dos Roqueiros do Final da Asa Sul) curtirem metal, o que originou a sigla foi o fato da galera do fim da Asa Sul curtir rock num perímetro pequeno entre si. Claro que a Associação contava com celebridades como: da 416 Sul Podrão (Detrito Federal, BSB-H), Zeca (Animais dos Espelhos, Divine), da 215 Sul eu, todos os primeiros integrantes do Deceivers, Marcelo Capa (Beto Só), Pablo do Capotones, Linhos Restless, Robson do Abohent, Foca do Bois, na 213 Túlio do DFC, Leandro do Abohent, Bernardo do Marfusha, na 216 Reco (não lembro o nome da banda banda agora mas era cover do Allman Brothers). Foi no fim da asa onde ocorreram shows clássicos de Escola de Escândalo entre outros no CFO (Conselho Federal de Odontologia) e na ASP (Ação Social do Planalto). Isso sem contar que era muito mais limpeza queimar um tchose lá do que em qualquer lugar das ASAS.

A Pira> Montana, é difícil escapar do humor? Voce acha que as pessoas fazem coisas engraçadas  ou irônicas por medo de se expor? Arriscarias uma poesia?

Montana> Cara ser engraçado é uma dádiva, infelizmente tem gente que é imbecil e pensa que foi abençoado. Odeio poesia.

A Pira> Até a do Renato?

Montana> Cara tem uma passagem em Daniel na Cova dos Leões que expressa bem o comportamento do brasiliense: “Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
a motor e insistir em usar os remos”.
Sempre que escuto essa passagem lembro daquela molecada nas sextas-feiras dos anos 90 subindo e descendo a 109 sul pra saber da balada maneira e todos iam parar na mesma festa. Geralmente era na concha acústica do IdA ou no CA de antropologia ou quando a night acabava no Bar do Luíz. Isso antes do advento do Balacobaco e Wlöd é claro.

A Pira> Como é a expectativa de ser pai?

Montana> É uma vibe estranha, mas estou otimista. É um emaranhado de pensamentos e preocupações, mas acho que dará tudo certo.

A Pira> Boto fé que deve ser sinistro. Mudando um pouco de assunto… outro dia tava pensando e acabei concluindo que voce é a pessoa mais conhecida do DF, sem exagero. Acho que rola até um distrital. Como foi que isso aconteceu?

Montana> A vida pública coloca vc numa posição estranha (não de 4 é claro). Você fica à mercê de pessoas das mais variadas idéias e manias também, isso muitas vezes é desgastante, mas quando se sabe levar rende bons frutos. Não que eu tenha feito mais sexo em virtude disso (ao contrário), mas dá pra se entreter na “alta roda” de vez em quando, sem cair no colo do Carlinhos Beauty.